
Zygmunt Bauman

MODERNIDADE LQUIDA




Traduo: Plnio Dentzien

Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro

Ttulo original: LiquidModerniiy

Traduo autorizada da edio inglesa
publicada em 2000 por Polity Press, de Oxford, Inglaterra

Copyright (c) 2000, Zygmunt Bauman
Copyright (c) 2001 da edio em lngua portuguesa:
Jorge Zahar Editor Ltda.
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Capa: Carol S e Srgio Campante

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Bauman, Zygmunt, 1925-
B341m Modernidade lquida / Zygmunt Bauman;
traduo, Plnio Dentzien. - Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 2001
Traduo de: Liquid modernity
ISBN 85-7110-598-7
1. Civilizao moderna - Sculo XX. 2. Sociologia. 1. Ttulo.
CDD 303.4
01-0404 CDU316.42




SUMRIO
Prefcio: Ser Leve e Lquido 7
Captulo 1. Emancipao 23
As bnos mistas da liberdade  As casualidades e a sorte cambiantes da crtica  O indivduo em combate com o cidado  O compromisso da teoria crtica na sociedade
dos indivduos  A teoria crtica revisitada  A crtica da poltica-vida
Captulo 2. Individualidade 64
Capitalismo - pesado e leve  Tenho carro, posso viajar. Pare
de me dizer; mostre-me!  A compulso transformada em vcio
 O corpo do consumidor. Comprar como ritual de exorcismo
 Livre para comprar - ou assim parece. Separados, compramos
Captulo 3. Tempo/Espao 107
Quando estranhos se encontram  Lugares micos, lugares fgicos, no-lugares, espaos vazios  No fale com estranhos
 A modernidade como histria do tempo  Da modernidade pesada  modernidade leve  A sedutora leveza do ser  Vida instantnea
Captulo 4. Trabalho 150
Progresso e f na histria  Ascenso e queda do trabalho  Do casamento  coabitao . Digresso: breve histria da procrastinao. Os laos humanos no mundo fluido
 A autoperpetuao da falta de confiana
Captulo 5. Comunidade . 193
Nacionalismo, marco 2  Unidade - pela semelhana ou pela diferena?. Segurana a um certo preo  Depois do Estado- nao  Preencher o vazio  Cloakroom communies
Posfcio: Escrever; Escrever Sociologia 231
Notas 247
ndice remissivo 255








PREFCIO
SER LEVE E LQUIDO 
Interrupo, incoerncia, surpresa so as condies comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de 
ser alimentadas 
por outra coisa que no mudanas repentinas e estmulos constantemente renovados ... No podemos mais tolerar o que dura. No sabemos mais fazer com que o tdio 
d frutos. 
Assim, toda a questo se reduz a isto: pode a mente humana 
dominar o que a mente hmnana criou? 
Paul Valry 
"Fluidez"  a qualidade de lquidos e gases. O que os distingue dos slidos, como a Enciclopdia britdnica, com a autoridade que tem, nos informa,  que eles "no 
podem suportar uma fora tangencial ou deformante quando imveis" e assim "sofrem uma constante mudana de forma quando submetidos a tal tenso' 
Essa contnua e irrecupervel mudana de posio de uma parte do material em relao a outra parte quando sob presso deformante constitui o fluxo, propriedade caracterstica 
dos fluidos. Em contraste, as foras deformantes num slido torcido ou flexionado se mantm, o slido no sofre o fluxo e pode voltar  sua forma original. 
Os lquidos, uma variedade dos fluidos, devem essas notveis qualidades ao fato de que suas "molculas so mantidas num arranjo ordenado que atinge apenas poucos 
dimetros moIecu1ares' enquanto "a variedade de comportamentos exibida pelos slidos  um resultado direto do tipo de liga que une os seus tomos e dos arranjos 
estruturais destes' "Liga", por sua vez,  um termo 
7 
8 Modernidade Lquida 
Prefcio 9 
que indica a estabilidade dos slidos - a resistncia que eles "opem  separao dos tomos' 
Isso quanto  Enciclopedia brit&nica - no que parece uma tentativa de oferecer "fluidez" como a principal metfora para o estgio presente da era moderna. 
O que todas essas caractersticas dos fluidos mostram, em linguagem simples,  que os lquidos, diferentemente dos slidos, no mantm sua forma com facilidade. 
Os fluidos, por assim dizer, no fixam o espao nem prendem o tempo. Enquanto os slidos tm dimenses espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem 
a significao do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos no se atm muito a qualquer forma e esto constantemente prontos 
(e propensos) a mud-la; assim, para eles, o que conta  o tempo, mais do que o espao que lhes toca ocupar; espao que, afinal, preenchem apenas "por um momento' 
Em certo sentido, os slidos suprimem o tempo; para os lquidos, ao contrrio, o tempo  o que importa. Ao descrever os slidos, podemos ignorar inteiramente o tempo; 
ao descrever os fluidos, deixar o tempo de fora seria um grave erro. Descries de lquidos so fotos instantneas, que precisam ser datadas. 
Os fluidos se movem facilmente. Eles "fluem", "escorrem", "esvaem-se", "respingam", "transbordam", "vazam", "inundam", "borrifam", "pingam"; so "filtrados", "destilados"; 
diferentemente dos slidos, no so facilmente contidos - contornam certos obstculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho. Do encontro com slidos 
emergem intactos, enquanto os slidos que encontraram, se permanecem slidos, so alterados - ficam molhados ou encharcados. A extraordinria mobilidade dos fluidos 
 o que os associa  idia de "leveza' H lquidos que, centmetro cbico por centmetro cbico, so mais pesados que muitos slidos, mas ainda assim tendemos a 
v-los como mais leves, menos "pesados" que qualquer slido. Associamos "leveza" ou "ausncia de peso"  mobilidade e  inconstncia: sabemos pela prtica que quanto 
mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos. 
Essas so razes para considerar "fluidez" ou "liquidez" como metforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na 
histria da modernidade. 
Concordo prontamente que tal proposio deve fazer vacilar quem transita  vontade no "discurso da modernidade" e est familiarizado com o vocabulrio usado normalmente 
para narrar a histria moderna. Mas a modernidade no foi um processo de "liquefao" desde o comeo? No foi o "derretimento dos slidos" seu maior passatempo e 
principal realizao? Em outras palavras, a modernidade no foi "fluida" desde sua concepo? 
Essas e outras objees semelhantes so justificadas, e o parecero ainda mais se lembrarmos que a famosa frase sobre "derreter os slidos", quando cunhada h um 
sculo e meio pelos autores do Manfrsto comunista, referia-se ao tratamento que o autoconfiante e exuberante esprito moderno dava  sociedade, que considerava estagnada 
demais para seu gosto e resistente demais para mudar e amoldar-se a suas ambies - porque congelada em seus caminhos habituais. Se o "esprito" era "moderno", ele 
o era na medida em que estava determinado que a realidade deveria ser emancipada da "mo morta" de sua prpria histria - e isso s poderia ser feito derretendo 
os slidos (isto , por definio, dissolvendo o que quer que persistisse no tempo e fosse infenso  sua passagem ou imune a seu fluxo). Essa inteno clamava, por 
sua vez, pela "profanao do sagrado": pelo repdio e destronamento do passado, e, antes e acima de tudo, da "tradio" - isto , o sedimento ou resduo do passado 
no presente; clamava pelo esmagamento da armadura protetora forjada de crenas e lealdades que permitiam que os slidos resistissem  "liquefao' 
Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito no para acabar de uma vez por todas com os slidos e construir um admirvel mundo novo livre deles para sempre, 
mas para limpar a rea para novos e aperfeioados s6/idos-, para substituir o conjunto herdado de slidos deficientes e defeituosos por outro conjunto, aperfeioado 
e preferivelmente perfeito, e por isso no mais altervel. Ao ler o Ancien Rgime de Tocquevillc, podemos nos perguntar at que ponto os "slidos encontrados" no 
teriam sido desprezados, condenados e destinados  liquefao por j estarem enferru 
lo Modernidade Lquida 
Prefcio ii 
jados, esfarelados, com as costuras abrindo; por no se poder confiar neles. Os tempos modernos encontraram os slidos pr- modernos em estado avanado de desintegrao; 
e um dos motivos mais fortes por trs da urgncia em derret-los era o desejo de, por uma vez, descobrir ou inventar slidos de solidez duradoura, solidez em que 
se pudesse confiar e que tornaria o mundo previsvel e, portanto, administrvel. 
Os primeiros slidos a derreter e os primeiros sagrados a profanar eram as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros e as obrigaes que atavam ps e mos, 
impediam os movimentos e restringiam as iniciativas. Para poder construir seriamente uma nova ordem (verdadeiramente slida!) era necessrio primeiro livrar-se do 
entulho com que a velha ordem sobrecarregava os construtores. "Derreter os slidos" significava, antes e acima de tudo, eliminar as obrigaes "irrelevantes" que 
impediam a via do clculo racional dos efeitos; como dizia Max Weber, libertar a empresa de negcios dos grilhes dos deveres para com a famlia e o lar e da densa 
trama das obrigaes ticas; ou, como preferiria Thomas Carlyle, dentre os vrios laos subjacentes s responsabilidades humanas mtuas, deixar restar somente o 
"nexo dinheiro' Por isso mesmo, essa forma de "derreter os slidos" deixava toda a complexa rede de relaes sociais no ar - nua, desprotegida, desarmada e exposta, 
impotente para resistir s regras de ao e aos critrios de racionalidade inspirados pelos negcios, quanto mais para competir efetivamente com eles. 
Esse desvio fatal deixou o campo aberto para a invaso e dominao (como dizia Weber) da racionalidade instrumental, ou (na formulao de Karl Marx) para o papel 
determinante da economia: agora a "base" da vida social outorgava a todos os outros domnios o estatuto de "superestrutura" - isto , um artefato da "base' cuja 
nica funo era auxiliar sua operao suave e contnua. O derretimento dos slidos levou  progressiva libertao da economia de seus tradicionais embaraos polticos, 
ticos e culturais. Sedimentou uma nova ordem, definida principalmente em termos econmicos. Essa nova ordem deveria ser mais "slida" que as ordens que substitua, 
porque, diferentemente delas, era imune a desafios por qualquer ao que no fosse econmica. A 
maioria das alavancas polticas ou morais capazes de mudar ou reformar a nova ordem foram quebradas ou feitas curtas ou fracas demais, ou de alguma outra forma inadequadas 
para a tarefa. No que a ordem econmica, uma vez instalada, tivesse colonizado, reeducado e convertido a seus fins o restante da vida social; essa ordem veio a 
dominar a totalidade da vida humana porque o que quer que pudesse ter acontecido nessa vida tornou-se irrelevante e ineficaz no que diz respeito  implacvel e contnua 
reproduo dessa ordem. 
Esse estgio na carreira da modernidade foi bem descrito por Claus Offe (em "A utopia da opo zero' publicado originalmente em 1987 em Praxis international): as 
sociedades "complexas se tornaram rgidas a tal ponto que a prpria tentativa de refletir normativamente sobre elas ou de renovar sua 'ordem isto , a natureza da 
coordenao dos processos que nelas tm lugar,  virtualmente impedida por fora de sua prpria futilidade, donde sua inadequao essencial' Por mais livres e volteis 
que sejam os "subsistemas" dessa ordem, isoladamente ou em conjunto, o modo como so entretecidos  "rgido, fatal e desprovido de qualquer liberdade de escolha' 
A ordem das coisas como um todo no est aberta a opes; est longe de ser claro quais poderiam ser essas opes, e ainda menos claro como uma opo ostensivamente 
vivel poderia ser real no caso pouco provvel de a vida social ser capaz de conceb-la e gest-la. Entre a ordem como um todo e cada uma das agncias, veculos 
e estratagemas da ao proposital h uma clivagem - uma brecha que se amplia perpetuamente, sem ponte  vista. 
Ao contrrio da maioria dos cenrios distpicos, este efeito no foi alcanado via ditadura, subordinao, opresso ou escravizao; nem atravs da "colonizao" 
da esfera privada pelo "sistema' Ao contrrio: a situao presente emergiu do derretimento radical dos grilhes e das algemas que, certo ou errado, eram suspeitos 
de limitar a liberdade individual de escolher e de agir. A rigidez da ordem  o artefato e o sedimento da liberdade dos agentes humanos. Essa rigidez  o resultado 
de "soltar o freio": da desregulamentao, da liberalizao, da "flexibilizao' da "fluidez" crescente, do descontrole dos mercados financeiro, imobilirio e 
12 Modernidade Lquida 
Prefcio 13 
de trabalho, tornando mais leve o peso dos impostos etc. (como Offe observou em "Amarras, algemas, grades", publicado original- mente em 1987); ou (para citar Richard 
Senett em Flesh and Stone) das tcnicas de "velocidade, fuga, passividade" - em outras palavras, tcnicas que permitem que o sistema e os agentes livres se mantenham 
radicalmente desengajados e que se desencontrem em vez de encontrar-se. Se o tempo das revolues sistmicas passou,  porque no h edificios que alojem as mesas 
de controle do sistema, que poderiam ser atacados e capturados pelos revolucionrios; e tambm porque  terrivelmente dificil, para no dizer impossvel, imaginar 
o que os vencedores, uma vez dentro dos edjficios (se os tivessem achado), poderiam fazer para virar a mesa e pr fim  misria que os levou  rebelio. Ningum 
ficaria surpreso ou intrigado pela evidente escassez de pessoas que se disporiam a ser revolucionrios: do tipo de pessoas que articulam o desejo de mudar seus planos 
individuais como projeto para mudar a ordem da sociedade. 
A tarefa de construir uma ordem nova e melhor para substituir a velha ordem defeituosa no est hoje na agenda - pelo menos no na agenda daquele domnio em que 
se supe que a ao poltica resida. O "derretimento dos slidos' trao permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado 
a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissoluo das foras que poderiam ter mantido a questo da ordem e do sistema na agenda 
poltica. Os slidos que esto para ser lanados no cadinho e os que esto derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, so os elos que entrelaam 
as escolhas individuais em projetos e aes coletivas - os padres de comunicao e coordenao entre as polticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, 
e as aes polticas de coletividades humanas, de outro. 
Numa entrevista a Jonathan Rutherford no dia trs de fevereiro de 1999, Ulrich Beck (que alguns anos antes cunhara o termo "segunda modernidade" para conotar a fase 
marcada pela modernidade "voltando-se sobre si mesma': a era da assim chamada "modernizao da modernidade") fala de "categorias zumbi" e "instituies zumbi': que 
esto "mortas e ainda vivas' Ele mencio n 
a famlia, a classe e o bairro como principais exemplos do novo fenmeno. A famlia, por exemplo: 
Pergunte-se o que  realmente uma famlia hoje em dia? O que sigriifica? E claro que h crianas, meus filhos, nossos filhos. Mas, mesmo a paternidade e a maternidade, 
o ncleo da vida familiar, esto comeando a se desintegrar no divrcio ... Avs e avs so includos e excludos sem meios de participar nas decises de seus filhos 
e filhas. Do ponto de vista de seus netos, o significado das avs e dos avs tem que ser determinado por decises e escolhas individuais. 
O que est acontecendo hoje , por assim dizer, uma redistribuio e realocao dos "poderes de derretimento" da modernidade. Primeiro, eles afetaram as instituies 
existentes, as molduras que circunscreviam o domnio das aes-escolhas possveis, como os estamentos hereditrios com sua alocao por atribuio, sem chance de 
apelao. Configuraes, constelaes, padres de dependncia e interao, tudo isso foi posto a derreter no cadinho, para ser depois novamente moldado e refeito; 
essa foi a fase de "quebrar a forma" na histria da modernidade inerentemente transgressiva, rompedora de fronteiras e capaz de tudo desmoronar. Quanto aos indivduos, 
porm - eles podem ser desculpados por ter deixado de not-lo; passaram a ser confrontados por padres e figuraes que, ainda que "novas e aperfeioadas' eram to 
duras e indomveis como sempre. 
Na verdade, nenhum molde foi quebrado sem que fosse sub stitudo por outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para ser admoestadas e censuradas 
caso no conseguissem se realocar, atravs de seus prprios esforos dedicados, contnuos e verdadeiramente infindveis, nos nichos pr-fabricados da nova ordem: 
nas classes, as molduras que (to intransigentemente como os estamentosj dissolvidos) encapsulavam a totalidade das condies e perspectivas de vida e determinavam 
o mbito dos projetos e estratgias realistas de vida. A tarefa dos indivduos livres era usar sua nova liberdade para encontrar o nicho apropriado e ali se acomodar 
e adaptar: seguindo fielmente as regras e modos de conduta identificados como corretos e apropriados para aquele lugar. 
14 Modernidade Lquida 
Prefcio 15 
So esses padres, cdigos e regras a que podamos nos conformar, que podamos selecionar como pontos estveis de orientao e pelos quais podamos nos deixar depois 
guiar, que esto cada vez mais em falta. Isso no quer dizer que nossos contemporneos sejam guiados to somente por sua prpria imaginao e resoluo e sejam livres 
para construir seu modo de vida a partir do zero e segundo sua vontade, ou que no sejam mais dependentes da sociedade para obter as plantas e os materiais de construo. 
Mas quer dizer que estamos passando de uma era de "grupos de referncia" predeterminados a uma outra de "comparao universal' em que o destino dos trabalhos de 
autoconstruo individual est endmica e incuravelmente subdeterminado, no est dado de antemo, e tende a sofrer numerosas e profundas mudanas antes que esses 
trabalhos alcancem seu nico fim genuno: o fim da vida do indivduo. 
Hoje, os padres e configuraes no so mais "dados' e menos ainda "auto-evidentes"; eles so muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se em seus comandos conflitantes, 
de tal forma que todos e cada um foram desprovidos de boa parte de seus poderes de coercitivamente compelir e restringir. E eles mudaram de natureza e foram reclassificados 
de acordo: como itens no inventrio das tarefas individuais. Em vez de preceder a poltica- vida e emoldurar seu curso futuro, eles devem segui-la (derivar dela), 
para serem formados e reformados por suas flexes e tores. Os poderes que liquefazem passaram do "sistema" para a "sociedade' da "poltica" para as "polticas 
da vida" - ou desceram do nvel "macro" para o nvel "micro" do convvio social. 
A nossa , como resukadn, um rjoidivi.daalizada e privatizada da modernidade, e o pp da trama dos padres e -a principalmente sobre os ombr do.jndjxduns. Cli ou 
vez ilaliquefao dos padres de dqaendudaeinterao. Eles so agora maleveis a um ponto que ageraespasassada.srpeijmentaram e nem poderiam imagin&r: mas, com todos 
os fluidos ele no mantm a forma por muitojrnpo. DarJ.horma  mais fcil que mant-los nela. Os slid.oara smpre. Manter os fluidos em uma vigilncia constante 
e esforo perp tu 
- e mesmo assim o sucesso do esforo  tudo menos inevitvel. 
smsuhstinianarofunda 
ademo da "modernidade fluida" pioiuziiina 
O fato de que a estrutura sistmica seja remota 
e inalcanvel, aliado ao estado fluido e no-estruturado do cenrio imediato da poltica-vida, muda aquela condio de um modo 
radical e requer que repensemos os velhos conceitos que costumavam cercar suas narrativas. Como zumbis, esses conceitos so hoje 
mortos-vivos. A questo prtica consiste em saber se sua ressurreio, ainda que em nova forma ou encarnao,  possvel; ou - se no for - como fazer com que eles 
tenham um enterro decente 
e eficaz. 
Este livro se dedica a essa questo. Foram selecionados para exame cinco dos conceitos bsicos em torno dos quais as narrativas ortodoxas da condio humana tendem 
a se desenvolver: a emancipao, a individualidade, o tempo/espao, o trabalho e a comunidade. Transformaes sucessivas de seus significados e aplicaes prticas 
so exploradas (ainda que de maneira muito fragmentria e preliminar) com a esperana de salvar os bebs do banho desta torrente de gua poluda. 
A modernidade significa muitas coisas, e sua chegada e avano podem ser aferidos utilizando-se muitos marcadores diferentes. Uma caracterstica da vida moderna e 
de seu moderno entorno se impe, no entanto, talvez como a "diferena que faz a diferena"; como o atributo crucial que todas as demais caractersticas seguem. Esse 
atributo  a relao cambiante entre espao e tempo. 
A modernidade comea quando o espao e o tempo so separados da prtica da vida e entre si, e assim podem ser teorizados como categorias distintas e mutuamente independentes 
da estratgia e da ao; quando deixam de ser, como eram ao longo dos sculos pr-modernos, aspectos entrelaados e dificilmente distinguveis da experincia vivida, 
presos numa estvel e aparentemente invulnervel correspondncia biunvoca. Na modernidade, o tempo tem histdria, tem histria por causa de sua "capacidade de carga' 
perpetuamente em expanso - o alongamento dos trechos do espao que unidades de tempo permitem "passar' "atravessar' 
16 Modernidade Lquida 
Prefcio 17 
"cobrir" - ou conqutar. O tempo adquire histria uma vez que a velocidade do movimento atravs do espao (diferentemente do espao eminentemente inflexvel, que 
no pode ser esticado e que no encolhe) se torna uma questo do engenho, da imaginao e da capacidade humanas. 
A prpria idia de velocidade (e mais ainda a de acelerao), quando se refere  relao entre tempo e espao, supe sua variabilidade, e dificilmente teria qualquer 
significado se no fosse aquela uma relao verdadeiramente varivel, se fosse um atributo da realidade inumana e pr-humana e no uma questo de inventividade e 
resoluo humanas, e se no sc lanasse para muito alm da estreita gama de variaes a que as ferramentas naturais da mobilidade - as pernas humanas ou eqinas 
- costumavam confinar os movimentos dos corpos pr-modernos. Quando a distncia percorrida numa unidade de tempo passou a depender da tecnologia, de meios artificiais 
de transporte, todos os limites  velocidade do movimento, existentes ou herdados, poderiam, em princpio, ser transgredidos. Apenas o cu (ou, como acabou sendo 
depois, a velocidade da luz) era agora o limite, e a modernidade era um esforo contnuo, rpido e irrefrevel para alcan-lo. 
Graas a sua flexibilidade e expansividade recentemente adquiridas, o tempo moderno se tornou, antes e acima de tudo, a arma na conquista do espao. Na moderna luta 
entre tempo e espao, o espao era o lado slido e impassvel, pesado e inerte, capaz apenas de uma guerra defensiva, de trincheiras - um obstculo aos avanos do 
tempo. O tempo era o lado dinmico e ativo na batalha, o lado sempre na ofensiva: a fora invasora, conquistadora e colonizadora. A velocidade do movimento e o acesso 
a meios mais rpidos de mobilidade chegaram nos tempos modernos  posio de principal ferramenta do poder e da dominao. 
Michel Foucault utilizou o projeto do Panptico de Jeremy Bentham como arquimetfora do poder moderno. No Panptico, os internos estavam presos ao lugar e impedidos 
de qualquer movimento, confinados entre muros grossos, densos e bem-guardados, e fixados a suas camas, celas ou bancadas. Eles no podiam se mover porque estavam 
sob vigilncia; tinham que se ater aos lugares indicados sempre porque no sabiam, e nem tinham como 
saber, onde estavam no momento seus vigias, livres para mover-se  vontade. As instalaes e a facilidade de movimento dos vigias eram a garantia de sua dominao; 
dos mltiplos laos de sua subordinao, a "fixao" dos internos ao lugar era o mais seguro e difcil de romper. O domnio do tempo era o segredo do poder dos administradores 
- e imobilizar os subordinados no espao, negando-lhes o direito ao movimento e rotinizando o ritmo a que dtviam obedecer era a principal estratgia em seu exerccio 
do poder. A pirmide do poder era feita de velocidade, de acesso aos meios de transporte e da resultante liberdade de movimento. 
O Panptico era um modelo de engajamento e confrontao mtuos entre os dois lados da relao de poder. As estratgias dos administradores, mantendo sua prpria 
volatilidade e rotinizando o fluxo do tempo de seus subordinados, se tornavam uma s. Mas havia tenso entre as duas tarefas. A segunda tarefa punha limites  primeira 
- prendia os "rotinizadores" ao lugar dentro do qual os objetos da rotinizao do tempo estavam confinados. Os rotinizadores no eram verdadeira e inteiramente livres 
para se mover: a opo "ausente" estava fora de questo em termos prticos. 
O Panptico apresenta tambm outras desvantagens. E uma estratgia cara: a conquista do espao e sua manuteno, assim como a manuteno dos internos no espao vigiado, 
abarcava ampla gama de tarefas administrativas custosas e complicadas. Havia os edifcios a erigir e manter em bom estado, os vigias profissionais a contratar e 
remunerar, a sobrevivncia e capacidade de trabalho dos internos a ser preservada e cultivada. Finalmente, administrar significa, ainda que a contragosto, responsabilizar-se 
pelo bem-estar geral do lugar, mesmo que em nome de um interesse pessoal consciente - e a responsabilidade, outra vez, significa estar preso ao lugar. Ela requer 
presena, e engajamento, pelo menos como uma confrontao e um cabo-de-guerra permanentes. 
O que leva tantos a falar do "fim da histria' da ps-modernidade, da "segunda modernidade" e da "sobremodernidade' ou 
a articular a intuio de uma mudana radical no arranjo do convvio humano e nas condies sociais sob as quais a poltica-vida 
 hoje levada,  o fato de que o longo esforo para acelerar a 
18 Modernidade Lquida 
Prefcio 19 
velocidade do movimento chegou a seu "limite natural' O poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrnico - e assim o tempo requerido para o movimento de 
seus ingredientes essenciais se reduziu  instantaneidade. Em termos prticos, o poder se tornou verdadeiramente extraterroriat no mais limitado, nem mesmo desacelerado, 
pela resistncia do espao (o advento do telefone celular serve bem como "golpe de misericrdia" simblico na dependncia em relao ao espao: o prprio acesso 
a um ponto telefnico no  mais necessrio para que uma ordem seja dada e cumprida. No importa mais onde est quem d a ordem 
- a diferena entre "prximo" e "distante' ou entre o espao selvagem e o civilizado e ordenado, est a ponto de desaparecer). Isso d aos detentores do poder uma 
oportunidade verdadeiramente sem precedentes: eles podem se livrar dos aspectos irritantes e atrasados da tcnica de poder do Panptico. O que quer que a histria 
da modernidade seja no estgio presente, ela  tambm, e talvez acima de tudo, p6s-Pano'ptica. O que importava no Panptico era que os encarregados "estivessem l' 
prximos, na torre de controle. O que importa, nas relaes de poder ps-panpticas  que as pessoas que operam as alavancas do poder de que depende o destino dos 
parceiros menos volteis na relao podem fugir do alcance a qualquer momento - para a pura inacessibilidade. 
O fim do Panptico  o arauto dofim da era do engajamento mu'tuo: entre supervisores e supervisados, capital e trabalho, lderes e seguidores, exrcitos em guerra. 
As principais tcnicas do poder so agora a fuga, a astcia, o desvio e a evitao, a efetiva rejeio de qualquer confinamento territorial, com os complicados corolrios 
de construo e manuteno da ordem, e com a responsabilidade pelas conseqncias de tudo, bem como com a necessidade de arcar com os custos. 
Essa nova tcnica do poder foi vividamente ilustrada pelas estratgias desenvolvidas pelos atacantes nas guerras do Golfo e da Iugoslvia. A relutncia em utilizar 
foras terrestres na guerra foi impressionante; quaisquer que tenham sido as explicaes oficiais, essa relutncia foi ditada no apenas pela amplamente referida 
sndrome dos "cadveres ensacados' O engajamento num combate terrestre foi evitado no s por seus possveis efeitos 
adversos na poltica interna, mas tambm (talvez principalmente) por sua total inutilidade e mesmo contra-produtividade em relao aos objetivos da guerra. Afinal, 
a conquista do territrio com todas suas conseqncias administrativas e gerenciais no s estava ausente da lista de objetivos das aes de guerra, como era uma 
eventualidade a ser evitada a todo custo, vista com repugnncia como outro tipo de "prejuzo colateral' desta vez infligido  prpria fora atacante. 
Golpes desferidos por bombardeiros furtivos e "espertos" msseis autodingidos capazes de seguir seus alvos - lanados de surpresa, vindos do nada e desaparecendo 
imediatamente de vista 
- substituram os avanos territoriais das tropas de infantaria e o esforo para expulsar o inimigo de seu territrio - o esforo de ocupar o territrio possudo, 
controlado e administrado pelo inimigo. Os atacantes definitivamente no queriam mais ser "os ltimos no campo de batalha" depois da fuga ou retirada do inimigo. 
A fora militar e seu plano de guerra de "atingir e correr" prefigura, incorpora e pressagia o que de fato est em jogo no novo tipo de guerra na era da modernidade 
liquida: no a conquista de novo territrio, mas a destruio das muralhas que impediam o fluxo dos novos e fluidos poderes globais; expulsar da cabea do inimigo 
o desejo de formular suas prprias regras, abrindo assim o at ento inacessvel, defendido e protegido espao para a operao dos outros ramos, no-militares, do 
poder. A guerra hoje, pode-se dizer (parafraseando a famosa frmula de Clausewitz), parece cada vez mais uma "promoo do livre comrcio por outros meios' 
Jim MacLaughlin nos lembrou recentemente (em Socio/ogy 1/99) de que o advento da era moderna significou, entre outras coisas, o ataque consistente e sistemtico 
dos "assentados' convertidos ao modo sedentrio de vida, contra os povos e o estilo de vida nmades, completamente alheios s preocupaes territoriais e de fronteiras 
do emergente Estado moderno. Ibn Khaldoun, no sculo xiv, podia elogiar o nomadismo, que faz com que os nmades "sejam melhores que os povos assentados porque ... 
esto mais afastados de todos os maus hbitos que infectaram o corao dos assentados" - mas a febre de construo de naes e Estados-na- 
20 
Modernidade Lquida 
Prefcio 
21 
1 
o que logo em seguida comeou a srio por toda a Europa colocou o "1" firmemente acima do "sangue" ao lanar as fundaes da nova ordem legislada e ao codificar 
os direitos e deveres dos cidados. Os nmades, que faziam pouco das preocupaes territoriais dos legisladores e ostensivamente desrespeitavam seus zelosos esforos 
em traar fronteiras, foram colocados entre os principais viles na guerra santa travada em nome do progresso e da civilizao. A "cronopolitica" moderna os situa 
no apenas como seres inferiores e primitivos, "subdesenvolvidos" e necessitados de profunda reforma e esclarecimento, mas tambm como atrasados e "aqum dos tempos' 
vtimas da "defasagem cultural' arrastando-se nos degraus mais baixos da escala evolutiva, e imperdoavelmente lentos ou morbidamente relutantes em subir nela, para 
seguir o "padro universal de desenvolvimento" 
Ao longo do estgio slido da era moderna, os hbitos nmades foram mal vistos. A cidadania andava de mos dadas com o assentamento, e a falta de "endereo fixo" 
e de "estado de origem" significava excluso da comunidade obediente e protegida pelas leis, freqentemente tornando os nmades vtimas de discriminao legal, quando 
no de perseguio ativa. Embora isso ainda se aplique  "subclasse" andarilha e "sem-teto': sujeita s antigas tcnicas de controle panptico (tcnicas quase abandonadas 
como veculo principal para integrao e disciplina do grosso da populao), a era da superioridade incondicional do sedentarismo sobre o nomadismo e da dominao 
dos assentados sobre os nmades est chegando ao fim. Estamos testemunhando a vingana do nomadismo contra o princpio da territorialidade e do assentamento. No 
estgio fluido da modernidade, a maioria assentada  dominada pela elite nmade e extraterritorial. Manter as estradas abertas para o trfego nmade e tornar mais 
distantes as barreiras remanescentes tornou-se hoje o meta-propsito da poltica, e tambm das guerras, que, como Clausewitz originalmente declarou, no so mais 
que "a extenso da poltica por outros meios' 
A elite global contempornea  formada no padro do velho estilo dos "senhores ausentes' Ela pode dominar sem se ocupar com a administrao, gerenciamento, bem-estar, 
ou, ainda, com a misso de "levar a luz': "reformar os modos': elevar moralmente, 
"civilizar" e com cruzadas culturais. O engajamento ativo na vida das populaes subordinadas no  mais necessrio (ao contrrio,  fortemente evitado como desnecessariamente 
custoso e ineficaz) 
- e, portanto, o "maior" no s no  mais o "melhor' mas carece de significado racional. Agora  o menor, mais leve e mais porttil que significa melhoria e "progresso' 
Mover-se leve, e no mais aferrar-se a coisas vistas como atraentes por sua confiabilidade e solidez - isto , por seu peso, substancialidade e capacidade de resistncia 
-  hoje recurso de poder. 
Fixar-se ao solo no  to importante se o solo pode ser alcanado e abandonado  vontade, imediatamente ou em pouqussimo tempo. Por outro lado, fixar-se muito 
fortemente, sobrecarregando os laos com compromissos mutuamente vinculantes, pode ser positivamente prejudicial, dadas as novas oportunidades que surgem em outros 
lugares. Rockefeller pode ter desejado construir suas fbricas, estradas de ferro e torres de petrleo altas e volumosas e ser dono delas por um longo tempo (pela 
eternidade, se medirmos o tempo pela durao da prpria vida ou pela da famlia). Bill Gates, no entanto, no sente remorsos quando abandona posses de que se orgulhava 
ontem;  a velocidade atordoante da circulao, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituio que traz lucro hoje - no a durabilidade e confiabilidade 
do produto. Numa notvel reverso da tradio milenar, so os grandes e poderosos que evitam o durvel e desejam o transitrio, enquanto os da base da pirmide - 
contra todas as chances 
- lutam desesperadamente para fazer suas frgeis, mesquinhas e transitrias posses durarem mais tempo. Os dois se encontram hoje em dia principalmente nos lados 
opostos dos balces das mega-liquidaes ou de vendas de carros usados. 
A desintegrao da rede social, a derrocada das agncias efetivas de ao coletiva,  recebida muitas vezes com grande ansiedade e lamentada como "efeito colateral" 
no previsto da nova leveza e fluidez do poder cada vez mais mvel, escorregadio, evasivo e fugitivo. Mas a desintegrao social  tanto uma condio quanto um resultado 
da nova tcnica do poder, que tem como ferramentas 
22 Modernidade Lquida 
principais o desengajamento e a arte da fuga. Para que o poder tenha liberdade de fluir, o mundo deve estar livre de cercas, barreiras, fronteiras fortificadas e 
barricadas. Qualquer rede densa de laos sociais, e em particular uma que esteja territorialmente enraizada,  um obstculo a ser eliminado. Os poderes globais se 
inclinam a desmantelar tais redes em proveito de sua continua e crescente fluidez, principal fonte de sua fora e garantia de sua invencibilidade. E so esse derrocar, 
a fragilidade, o quebradio, o imediato dos laos e redes humanos que permitem que esses poderes operem. 
Se essas tendncias entrelaadas se desenvolvessem sem freios, homens e mulheres seriam reformulados no padro da toupeira eletr6nica, essa orgulhosa inveno dos 
tempos pioneiros da ciberntica imediatamente aclamada como arauto do porvir: um plugue em castores atarantados na desesperada busca de tomadas a que se ligar. Mas 
no futuro anunciado pelos telefones celulares, as tomadas sero provavelmente declaradas obsoletas e de mau gosto, e passaro a ser fornecidas em quantidades cada 
vez menores e com qualidade cada vez mais duvidosa. No momento, muitos fornecedores de eletricidade exaltam as vantagens da conexo a suas respectivas redes e disputam 
os favores dos que procuram por tomadas. Mas a longo prazo (o que quer que "longo prazo" signifique na era da instantaneidade) as tomadas sero provavelmente banidas 
e suplantadas por baterias descartveis compradas individualmente nas lojas e em oferta em cada quiosque de aeroporto e posto de gasolina ao longo das estradas. 
Essa parece ser a distopia feita sob medida para a modernidade lquida - e capaz de substituir os terrores dos pesadelos de 
Orwell e Huxley. 
Junho de 1999 

1 'EMANCIPAO 
Ao fim das "trs dcadas gloriosas" que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial - as trs dcadas de crescimento sem precedentes e de estabelecimento da riqueza 
e da segurana econmica no prspero Ocidente - Herbert Marcuse reclamava: 
Em relao a hoje e  nossa prpria condio, creio que estamos diante de uma situao nova na histria, porque temos que ser libertados de uma sociedade rica, poderosa 
e que funciona relativamente bem ... O problema que enfrentamos  a necessidade de nos libertarmos de uma sociedade que desenvolve em grande medida as necessidades 
materiais e mesmo culturais do homem - uma sociedade que, para usar um siogan, cumpre o que prometeu a uma parte crescente da populao. E isso implica que enfrentamos 
a libertao de uma sociedade na qual a libertao aparentemente no conta com uma base de massas.' 
Devermos nos emancipar, "libertar-nos da sociedade' no era problema para Marcuse. O que era um problema o problema especfico para a sociedade que "cumpre o que 
prometeu" - era a falta de uma "base de massas" para a libertao. Para simplificar: 
poucas pessoas desejavam ser libertadas, menos ainda estavam dispostas a agir para isso, e virtualmente ningum tinha certeza de como a "libertao da sociedade" 
poderia distinguir-se do Estado em que se encontrava. 
"Libertar-se" significa literalmente libertar-se de algum tipo de grilho que obstrui ou impede os movimentos; comear a 
[ir-se livre para se mover ou agir. "Sentir-se livre" significa no experimentar dificuldade, obstculo, resistncia ou qualquer outro impedimento aos movimentos 
pretendidos ou concebveis. 
23 
24 Modernidade Liquida 
Emancipao 25 
Como observou Arthur Schopenhauer, a "realidade"  criada pelo ato de querer;  a teimosa indiferena do mundo em relao  minha inteno, a relutncia do mundo 
em se submeter  minha vontade, que resulta na percepo do mundo como "real", constrangedor, limitante e desobediente. Sentir-se livre das limitaes, livre para 
agir conforme os desejos, significa atingir o equilbrio entre os desejos, a imaginao e a capacidade de agir: sentimo-nos livres na medida em que a imaginao 
no vai mais longe que nossos desejos e que nem uma nem os outros ultrapassam nossa capacidade de agir. O equilbrio pode, portanto, ser alcanado e mantido de duas 
maneiras diferentes: ou reduzindo os desejos e/ou a imaginao, ou ampliando nossa capacidade de ao. Uma vez alcanado o equilbrio, e enquanto ele se mantiver, 
"libertao"  um siogan sem sentido, pois falta-lhe fora motivacional. 
Tal uso nos permite distinguir entre liberdade "subjetiva" e "objetiva" - e tambm entre a "necessidade de libertao" subjetiva e objetiva. Pode ser que o desejo 
de melhorar tenha sido frustrado, ou nem tenha tido oportunidade de surgir (por exempio, pela presso do "princpio de realidade" exercido, segundo Sigmund Freud, 
sobre a busca humana do prazer e da felicidade); as intenes, fossem elas realmente experimentadas ou apenas imaginveis, foram adaptadas ao tamanho da capacidade 
de agir, e particularmente  capacidade de agir razoavelmente - com chance de sucesso. Por outro lado, pode ser que, pela manipulao direta das intenes - uma 
forma de "lavagem cerebral" - nunca se pudesse chegar a verificar os limites da capacidade "objetiva" de agir, e menos ainda saber quais eram, em primeiro lugar, 
essas intenes, acabando-se, portanto, por coloc-las abaixo do nvel da liberdade "objetiva' 
A distino entre liberdade "subjetiva" e "objetiva" abriu uma genuna caixa de Pandora de questes embaraosas como "fenmeno rei-sus essncia" - de significao 
filosfica variada, mas no todo considervel, e de importncia poltica potencialmente enorme. Urna dessas questes  a possibilidade de que o que se sente como 
liberdade no seja de fato liberdade; que as pessoas poderem estar satisfeitas com o que lhes cabe mesmo que o que lhes cabe esteja longe de ser "objetivamente" 
satisfatrio; que, vivendo 
na escravido, se sintam livres e, portanto, no experimentem a necessidade de se libertar, e assim percam a chance de se tornar genuinamente livres. O corolrio 
dessa possibilidade  a suposio de que as pessoas podem ser juzes incompetentes de sua prpria situao, e devem ser foradas ou seduzidas, mas em todo caso guiadas, 
para experimentar a necessidade de ser "objetivamente" livres e para reunir a coragem e a determinao para lutar por isso. Ameaa mais sombria atormentava o corao 
dos filsofos: que as pessoas pudessem simplesmente no querer ser livres e rejeitassem a perspectiva da libertao pelas dificuldades que o exerccio da liberdade 
pode acarretar. 
As bnos mistas da liberdade 
Numa verso apcrifa da Ocfissia ("Odysseus und die Schweine: 
das Unbehagen an der Kultur"), Lion Feuchtwanger props que os marinheiros enfeitiados por Circe e transformados em porcos gostaram de sua nova condio e resistiram 
desesperadamente aos esforos de Ulisses para quebrar o encanto e traz-los de volta  forma humana. Quando informados por Ulisses de que ele tinha encontrado as 
ervas mgicas capazes de desfazer a maldio e de que logo seriam humanos novamente, fugiram numa velocidade que seu zeloso salvador no pde acompanhar. Ulisses 
conseguiu afinal prender um dos sunos; esfregada com a erva maravilhosa, a pele eriada deu lugar a Elpenoros - um marinheiro, como insiste Feuchtwanger, em todos 
os sentidos mediano e comum, exatamente "como todos os outros, sem se destacar por sua fora ou por sua esperteza" O "libertado" Elpenoros no ficou nada grato por 
sua liberdade, e furiosamente atacou seu "libertador": 
Ento voltaste, 6 tratante, 6 intrometido? Queres novamente nos aborrecer e importunar, queres novamente expor nossos corpos ao perigo e forar nossos coraes sempre 
a novas decises? Eu estava to feliz, eu podia chafurdar na lama e aquecer-me ao soi, eu podia comer e beber, grunhir e guinchar, e estava livre de meditaes e 
dvidas: "O que devo fazer, isto ou aquilo?" Por que vieste? Para jogar-me outra vez na vida odiosa que eu levava antes? 
26 Modernidade Lquida 
Emancipao 27 
A libertao  uma bno ou uma maldio? Uma maldio disfarada de bno, ou uma bno temida como maldio? Tais questes assombraram os pensadores durante 
a maior parte da era moderna, que punha a "libertao" no topo da agenda da reforma poltica e a "liberdade" no alto da lista de valores - quando ficou suficientemente 
claro que a liberdade custava a chegar e os que deveriam dela gozar relutavam em dar-lhe as boas-vindas. Houve dois tipos de resposta. A primeira lanava dvidas 
sobre a prontido do "povo comum" para a liberdade. Como o escritor norte- americano Herbert Sebastian Agar dizia (em A Timefor Greatness, 1942), "a verdade que 
torna os homens livres , na maioria dos casos, a verdade que os homens preferem no ouvir' A segunda inclinava-se a aceitar que os homens podem no estar inteiramente 
equivocados quando questionam os beneficios que as liberdades oferecidas podem lhes trazer. 
Respostas do primeiro tipo inspiram, intermitentemente, compaixo pelo "povo" desorientado, enganado e levado a desistir de sua chance de liberdade, ou desprezo 
e ultraje contra a "massa" que no quer assumir os riscos e responsabilidades que acompanham a autonomia e a auto-afirmao genunas. O protesto de Marcuse envolve 
uma mistura das duas, alm de uma tentativa de deixar na soleira da nova prosperidade a culpa pela reconciliao evidente dos no-livres com sua falta de liberdade. 
Outros discursos freqentes para protestos semelhantes foram os do "aburguesamento" dos despossudos (a substituio de "ser" por "ter' e a de "agir" por "ser" como 
os valores mais altos) e da "cultura de massas" (uma leso cerebral coletiva causada pela "indstria cultural' plantando uma sede de entretenimento e diverso no 
lugar que - como diria Mathew Arnold - deveria ser ocupado pela "paixo pela doura e pela luz e pela paixo de fazer com que estas triunfem"). 
Respostas da segunda espcie sugerem que o tipo de liberdade louvada pelos libertrios no , ao contrrio do que eles dizem, uma garantia de felicidade. Vai trazer 
mais tristeza que alegria. Segundo este ponto de vista, os libertrios esto errados quando afirmam - como o faz, por exemplo, David Conway,2 seguindo o princpio 
de Henry Sidgwick - que a felicidade geral  promovida 
mais eficazmente se mantivermos nos adultos "a expectativa de que cada um ser deixado com seus prprios recursos para prover suas prprias necessidades"; ou Charles 
Murray,3 que beira o lrico ao descrever a felicidade intrnseca  busca solitria: "O que faz um acontecimento causar satisfao  que voc o produziu ... com responsabilidade 
substancial sobre seus ombros, sendo uma parte substancial do bem alcanado uma contribuio sud' "Ser abandonado a seus prprios recursos" anuncia tormentos mentais 
e a agonia da indeciso, enquanto a "responsabilidade sobre os prprios ombros" prenuncia um medo paralisante do risco e do fracasso, sem direito a apelao ou desistncia. 
Esse no pode ser o significado real da "liberdade"; e se a liberdade "realmente existente' a liberdade oferecida, significar tudo isso, ela no pode ser nem a garantia 
da felicidade, nem um objetivo digno de luta. 
Respostas do segundo tipo nascem em ltima anlise do horror visceral hobbesiano ao "homem  solta" Derivam sua credibilidade da suposio de que um ser humano dispensado 
das limitaes sociais coercitivas (ou nunca submetido a elas)  uma besta e no um indivduo livre; e o horror que ele gera vem de outra suposio: a de que a falta 
de limites eficazes faz a vida "detestvel, brutal e curta" - e, assim, qualquer coisa, menos feliz. A mesma viso hobbesiana foi desenvolvida por Emile Durkheim 
numa filosofia social compreensiva, de acordo com a qual  a "norma'; medida pela mdia ou pelo mais comum, e apoiada em duras sanes punitivas, que verdadeiramente 
liberta os pseudo-humanos da mais horrenda e temvel das escravides; o tipo de escravido que no se esconde em nenhuma presso externa, mas dentro, na natureza 
pr-social ou associal do homem. A coero social , nessa filosofia, a fora emancipadora, e a nica esperana de liberdade a que um humano pode razoavelmente aspirar. 
O indivduo se submete  sociedade e essa submisso  a condio de sua libertao. Para o homem a liberdade consiste em no estar sujeito s foras fsicas cegas; 
ele chega a isso opondo-lhes a grande e inteligente fora da sociedade, sob cuja proteo se abriga. Ao colocar-se sob as asas da sociedade, ele se toma, at certo 
ponto, dependente dela. Mas  uma dependncia libertadora; no h nisso contradio.4 
28 Modernidade Lquida 
Emancipao 29 
No s no h contradio entre dependncia e libertao: 
no h outro caminho para buscar a libertao seno "submeter-se  sociedade" e seguir suas normas. A liberdade no pode ser ganha contra a sociedade. O resultado 
da rebelio contra as normas, mesmo que os rebelados no tenham se tornado bestas de uma vez por todas, e, portanto, perdido a capacidade de julgar sua prpria condio, 
 uma agonia perptua de indeciso ligada a um Estado de incerteza sobre as intenes e movimentos dos outros ao redor - o que faz da vida um inferno. Padres e 
rotinas impostos por presses sociais condensadas poupam essa agonia aos homens; graas  monotonia e  regularidade de modos de conduta recomendados, para os quais 
foram treinados e a que podem ser obrigados, os homens sabem como proceder na maior parte do tempo e raramente se encontram em situaes sem sinalizao, aquelas 
situaes em que as decises devem ser tomadas com a prpria responsabilidade e sem o conhecimento tranqilizante de suas conseqncias, fazendo com que cada movimento 
seja impregnado de riscos dificeis de calcular. A ausncia, ou a mera falta de clareza, das normas - anomia -  o pior que pode acontecer s pessoas em sua luta 
para dar conta dos afazeres da vida. As normas capacitam tanto quanto incapacitam; a anomia anuncia a pura e simples incapacitao. Uma vez que as tropas da regulamentao 
normativa abandonam o campo de batalha da vida, sobram apenas a dvida e o medo. Quando (como notavelmente formulado por Erich Fromm) "cada indivduo deve ir em 
frente e tentar sua sorte' quando "ele tem que nadar ou afundar" - "a busca compulsiva da certeza" se instala, comea a desesperada busca por "solues" capazes 
de "eliminar a conscincia da dvida" - o que quer que prometa "assumir a responsabilidade pela 'certeza"  bem-vindo.5 
"A rotina pode apequenar, mas ela tambm pode proteger";  o que diz Richard Sennett, para ento lembrar seus leitores da velha controvrsia entre Adam Smith e Dennis 
Diderot. Enquanto Smith advertia contra os efeitos degradantes e estupidificantes da rotina de trabalho, "Diderot no acreditava que o trabalho rotineiro  degradante 
.. O maior herdeiro moderno de Diderot, o socilogo Anthony Giddens, tentou manter viva a percepo diderotia na 
apontando para o valor primrio do hbito tanto para as prticas sociais quanto para a autocompreenso' A proposio do prprio Sennett  direta: "Imaginar uma vida 
de impulsos momentneos, de aes de curto prazo, destituda de rotinas sustentveis, uma vida sem hbitos,  imaginar, de fato, uma existncia sem sentido:"6 
A vida ainda no atingiu os extremos que a fariam sem sentido, mas muito dano foi causado, e todas as futuras ferramentas da certeza, inclusive as novssimas rotinas 
(que provavelmente no duraro o suficiente para se tornarem hbitos) no podero ser mais que muletas, artificios do engenho humano que s parecem a coisa em si 
se nos abstivermos de examin-las muito de perto. Toda certeza alcanada depois do "pecado original" de desmantelar o mundo cotidiano cheio de rotina e vazio de 
reflexo ter que ser uma certeza manufaturada, uma certeza escancarada e desavergonhadamente "fabricada': sobrecarregada com toda a vulnerabilidade inata das decises 
tomadas por humanos. De fato, como insistem Deleuze e Cuattari, 
no acreditamos mais no mito da existncia de fragmentos que, como peas de uma antiga esttua, esto meramente esperando que aparea o ltimo caco para que todas 
possam ser coladas novamente para criar uma unidade que  precisamente a mesma que a unidade original. No mais acreditamos numa totalidade primordial que existiu 
uma vez, nem numa totalidade final que espera por ns numa data futura.7 
O que foi separado no pode ser colado novamente. Abandonai toda esperana de totalidade, tanto futura como passada, vs que entrais no mundo da modernidade fluida. 
Chegou o tempo de anunciar, como o fez recentemente Alain Touraine, "o fim da definio do ser humano como um ser social, definido por seu lugar na sociedade, que 
determina seu comportamento e aes' Em seu lugar, o princpio da combinao da "definio estratgica da ao social que no  orientada por normas sociais" e "a 
defesa, por todos os atores sociais, de sua especificidade cultural e psicolgica" "pode ser encontrado dentro do indivduo, e no mais em instituies sociais ou 
em princpios universais"8 
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Modernidade Lquida 
Emancipao 
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A suposio tcita que apia uma tomada de posio to radical  que a liberdade concebvel e possvel de alcanar j foi atingida; nada resta a fazer seno limpar 
os poucos cantos restantes e preencher os poucos lugares vazios - trabalho que ser completado em pouco tempo. Os homens e as mulheres so inteira e verdadeiramente 
livres, e assim a agenda da libertao est praticamente esgotada. O protesto de Marcuse e a nostalgia comunitria da comunidade perdida podem ser manifestaes 
de valores mutuamente opostos, mas so igualmente anacrnicos. Nem o reenraizar dos desenraizados, nem o "despertar do povo" para a tarefa no-realizada da libertao 
esto nas cartas. A perplexidade de Marcuse est ultrapassada, pois "o indivduo" j ganhou toda a liberdade com que poderia sonhar e que seria razovel esperar; 
as instituies sociais esto mais que dispostas a deixar  iniciativa individual o cuidado com as definies e identidades, e os princpios universais contra os 
quais se rebelar esto em falta. Quanto ao sonho comunitrio de "reacomodar os desacomodados': nada pode mudar o fato de que o que est disponvel para a reacomodao 
so somente camas de motel, sacos de dormir e divs de analistas, e que de agora em diante as comunidades - mais postulada.s que "imaginadas" - podem ser apenas 
artefatos efmeros da pea da individualidade em curso, e no mais as foras determinantes e definidoras das identidades. 
As casualidades e a sorte com biantes da crtica 
O que est errado com a sociedade em que vivemos, disse Comelius Castoriadis,  que ela deixou de se questionar. E um tipo de sociedade que no mais reconhece qualquer 
alternativa para si mesma e, portanto, sente-se absolvida do dever de examinar, demonstrar, justificar (e que dir provar) a validade de suas suposies tcitas 
e declaradas. 
Isso no significa, entretanto, que nossa sociedade tenha suprimido (Ou venha a suprimir) o pensamento crtico como tal. Ela no deixou seus membros reticentes (e 
menos ainda temerosos) em lhe dar voz. Ao contrrio: nossa sociedade - uma sociedade 
de "indivduos livres" - fez da crtica da realidade, da insatisfao com "o que a est" e da expresso dessa insatisfao uma parte inevitvel e obrigatria dos 
afazeres da vida de cada um de seus membros. Como Anthony Giddens nos lembra, estamos hoje engajados na "poltica-vida"; somos "seres reflexivos" que olhamos de 
perto cada movimento que fazemos, que estamos raramente satisfeitos com seus resultados e sempre prontos a corrigi-los. De alguma maneira, no entanto, essa reflexo 
no vai longe o suficiente para alcanar os complexos mecanismos que conectam nossos movimentos com seus resultados e os determinam, e menos ainda as condies que 
mantm esses mecanismos em operao. Somos talvez mais "predispostos  crtica': mais assertivos e intransigentes em nossas crticas, que nossos ancestrais em sua 
vida cotidiana, mas nossa crtica , por assim dizer, "desdentada' incapaz de afetar a agenda estabelecida para nossas escolhas na "poltica-vida' A liberdade sem 
precedentes que nossa sociedade oferece a seus membros chegou, como h tempo nos advertia Leo Strauss, e com ela tambm uma impotncia sem precedentes. 
Ouve-se algumas vezes a opinio de que a sociedade contempornea (que aparece sob o nome de ltima sociedade moderna ou ps-moderna, a sociedade da "segunda modernidade" 
de Ulrich Beck ou, como prefiro cham-la, a "sociedade da modernidade fluida")  inspita para a crtica. Essa opinio parece perder de vista a natureza da mudana 
presente, ao supor que o prprio significado de "hospitalidade" permanece invarivel em sucessivas fases histricas. A questo , porm, que a sociedade contempornea 
deu  "hospitalidade  crtica" um sentido inteiramente novo e inventou um modo de acomodar o pensamento e a ao crticas, permanecendo imune s conseqncias dessa 
acomodao e saindo, assim, intacta e sem cicatrizes - reforada, e no enfraquecida 
- das tentativas e testes da "poltica de portas abertas' 
O tipo de "hospitalidade  crtica" caracterstico da sociedade moderna em sua forma presente pode ser aproximada do padro do acampamento. O lugar est aberto a 
quem quer que venha com seu trailer e dinheiro suficiente para o aluguel; os hspedes vm e vo; nenhum deles presta muita ateno a como o lugar  gerido, desde 
que haja espao suficiente para estacionar o trailer, as toma- 
32 Modernidade Lquida 
Emancipao 33 
das eltricas e encanamentos estejam em ordem e os donos dos trailers vizinhos no faam muito barulho e mantenham baixo o som de suas TV5 portteis e aparelhos 
de som depois de escurecer. Os motoristas trazem para o acampamento suas prprias casas, equipadas com todos os aparelhos de que precisam para a estada, que em todo 
caso pretendem que seja curta. Cada um tem seu prprio itinerrio e horrio. O que os motoristas querem dos administradores do lugar no  muito mais (mas tampouco 
menos) do que ser deixados  vontade. Em troca, no pretendem desafiar a autoridade dos administradores e pagam o aluguel no prazo. Como pagam, tambm den3andam. 
Tendem a ser inflexveis quando defendem seus direitos aos servios prometidos, mas em geral querem seguir seu caminho e ficariam irritados se isso no lhes fosse 
permitido. Ocasionalmente podem reivindicar melhores servios; se forem bastante incisivos, vociferantes e resolutos, podem at obt-los. Se se sentirem prejudicados, 
podem reclamar e cobrar o que lhes  devido - mas nunca lhes ocorreria questionar e negociar a filosofia administrativa do lugar, e muito menos assumir a responsabilidade 
pelo gerenciamento do mesmo. Podem, no mximo, anotar mentalmente que no devem nunca mais usar o lugar novamente e nem recomend-lo a seus amigos. Quando vo embora, 
seguindo seus prprios itinerrios, o lugar fica como era antes de sua chegada, sem ser afetado pelos ocupantes anteriores e esperando por outros no futuro; embora, 
se algumas queixas continuarem a ser feitas por grupos sucessivos de hspedes, os servios oferecidos possam vir a ser modificados para impedir que as queixas sejam 
novamente manifestadas no futuro. 
Na era da modernidade lquida a hospitalidade  crtica da sociedade segue o padro do acampamento. Quando Adorno e Horkheimer formularam a teoria crtica clssica, 
gerada pela experincia de outra modernidade, obcecada pela ordem, e assim informada e orientada pelo te/os da emancipao, era muito diferente o modelo em que se 
inscrevia, com bom fundamento emprico, a idia de crtica: o modelo de uma casa compartilhada, com suas normas institucionalizadas e regras habituais, atribuio 
de deveres e desempenho supervisionado. Embora lide bem com a crtica  forma de hospitalidade do acampamento em relao aos donos 
dos trailers, nossa sociedade definitivamente no aceita bem a crtica como a que os fundadores da escola crtica supunham e  qual enderearam sua teoria. Em termos 
diferentes, mas correspondentes, poderamos dizer que uma "crtica ao estilo do consumidor" veio substituir sua predecessora, a "crtica ao estilo do produtor' 
Contrariamente a uma moda difundida, essa mudana no pode ser explicada meramente por referncia  mudana na disposio do pblico,  diminuio do apetite pela 
reforma social, do interesse pelo bem comum e pelas imagens da boa sociedade,  decadncia da popularidade do engajamento poltico, ou  alta dos sentimentos hedonsticos 
e do "eu primeiro" - ainda que tais fenmenos sem dvida se destaquem entre as marcas do nosso tempo. As causas da mudana vo mais fundo; esto enraizadas na profunda 
transformao do espao pblico e, de modo mais geral, no modo como a sociedade moderna opera e se perpetua. 
O tipo de modernidade que era o alvo, mas tambm o quadro cognitivo, da teoria crtica clssica, numa anlise retrospectiva, parece muito diferente daquele que enquadra 
a vida das geraes de hoje. Ela parece "pesada" (contra a "leve" modernidade contempornea); melhor ainda, "slida" (e no "fluida' "lquida" ou "liquefeita"); 
condensada (contra difusa ou "capilar"); e, finalmente, "sistmica" (por oposio a "em forma de rede"). 
Essa modernidade pesada/slida/condensada/sistmica da "teoria crtica" era impregnada da tendncia ao totalitarismo. A sociedade totalitria da homogeneidade compulsria, 
imposta e onipresente, estava constante e ameaadoramente no horizonte - como destino ltimo, como uma bomba nunca inteiramente desarmada ou um fantasma nunca inteiramente 
exorcizado. Essa modernidade era inimiga jurada da contingncia, da variedade, da ambigidade, da instabilidade, da idiossincrasia, tendo declarado uma guerra santa 
a todas essas "anomalias"; e esperava-se que a liberdade e a autonomia individuais fossem as primeiras vtimas da cruzada. Entre os principais cones dessa modernidade 
estavam af6bricafordtsta, que reduzia as atividades humanas a movimentos simples, rotineiros e predeterminados, destinados a serem obediente e mecanicamente seguidos, 
sem envolver as faculdades 
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mentais e excluindo toda espontaneidade e iniciativa individual; a burocracia, afim, pelo menos em suas tendncias inatas, ao modelo ideal de Max Weber, em que as 
identidades e laos sociais eram pendurados no cabide da porta da entrada junto com os chapus, guarda-chuvas e capotes, de tal forma que somente o comando e os 
estatutos poderiam dirigir, incontestados, as aes dos de dentro enquanto estivessem dentro; o pano'ptico com suas torres de controle e com os internos que nunca 
podiam contar com os eventuais lapsos de vigilncia dos supervisores; o Grande Irnuio, que nunca cochila, sempre atento, rpido e expedito em premiar os fiis e 
punir os infiis; e - finalmente - o Konzlager (mais tarde acompanhado no contra-panteo dos demnios modernos pelo Culag), lugar onde os limites da maleabilidade 
humana eram testados em laboratrio e onde aqueles que suposta ou realmente no eram maleveis o suficiente eram condenados a morrer de exausto ou mandados s cmaras 
de gs ou aos crematrios. 
Mais uma vez, em retrospecto, podemos dizer que a teoria crtica pretendia desarmar e neutralizar, e de preferncia eliminar de uma vez, a tendncia totalitria 
de uma sociedade que se supunha sobrecarregada de inclinaes totalitrias intrnseca e permanentemente. O principal objetivo da teoria crtica era a defesa da autonomia, 
da liberdade de escolha e da auto-afirmao humanas, do direito de ser e permanecer diferente. Como nos antigos melodramas de Hollywood, que supunham que o momento 
em que os amantes se encontravam novamente e pronunciavam os votos do casamento assinalava o fim do drama e o comeo do bem-aventurado "viveram felizes para sempre' 
a teoria crtica, no incio, via a libertao do indivduo da garra de ferro da rotina ou sua fuga da caixa de ao da sociedade afligida por um insacivel apetite 
totalitrio, homogeneizante e uniformizante como o ltimo ponto da emancipao e o fim do sofrimento humano - o momento da "misso cumprida" A crtica devia servir 
a esse propsito; no precisava procurar alm disso, nem alm do momento de alcanlo - nem tinha tempo para tanto. 
Na poca em que foi escrito, o 7984 de George Orwell era o mais completo - e cannico - inventrio dos medos e apreenses que assombravam a modernidade em seu estgio 
slido. Projeta- 
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dos sobre os diagnsticos dos problemas e das causas dos sofrimentos contemporneos, esses medos desenham o horizonte dos programas emancipatrios do perodo. Chegado 
o 1984 real, a viso de Orwell foi prontamente lembrada, trazida novamente ao debate pblico, como era de se esperar, e, uma vez mais (talvez a ltima), amplamente 
considerada. A maioria dos escritores, como tambm era de se esperar, afiou suas penas para separar a verdade da inverdade das profecias de Orwell, testadas pelo 
lapso de tempo que o prprio Orwell previra para que suas palavras se concretizassem. No surpreende, no entanto, que em nossos tempos - quando mesmo a imortalidade 
dos marcos e monumentos da histria cultural da humanidade est sujeita  reciclagem contnua e precisa ser periodicamente trazida de volta  ateno em comemoraes 
ou pela excitao que precede e acompanha as exibies retrospectivas (apenas para desaparecer da vista e do pensamento to logo as exibies terminem ou aparea 
outro aniversrio para consumir o espao da imprensa e o tempo da TV) - a encenao do "evento Orwell" no tenha sido muito diferente do tratamento dado intermitentemente 
a coisas como Tutancmon, o ouro inca, Vermeer, Picasso ou Monet. 
Mesmo assim, a brevidade da celebrao de 1984, a tepidez e o rpido esfriamento do interesse que produziu e a velocidade com que a obra-prima de Orwell novamente 
afundou no esquecimento uma vez cessada a excitao criada pela mdia nos fazem parar para pensar. Afinal, esse livro serviu durante muitas dcadas (e at algumas 
dcadas atrs) como o catlogo mais competente dos medos, pressentimentos e pesadelos pblicos; ento, por que no mais que um interesse passageiro em sua breve 
ressurreio? A nica explicao razovel  que as pessoas que discutiram o livro em 1984 no se sentiram estimuladas e ficaram quase indiferentes ao assunto que 
tinham sido encarregadas de discutir e ponderar, porque no mais reconheciam na distopia de Orwell suas prprias aflies e agonias, ou os pesadelos de seus semelhantes, 
O livro voltou  ateno pblica apenas fugazmente, e ganhou uma posio mais ou menos entre a Historia natura/is de Plnio o Velho e as profecias de Nostradamus. 
No  mau definir pocas histricas pelo tipo de "demnios ntimos" que as assombram e atormentam. Durante muito tempo, 
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a distopia de Orwell, juntamente com o sinistro potencial do projeto iluminista revelado por Adorno e Horkheimer, o panptico de Bentham/Foucault ou sintomas recorrentes 
de retomada da mar totalitria, foi identificada com a idia de "modernidade" No  surpreendente, pois, que, quando os velhos medos foram afastados do palco e 
novos medos, muito diferentes dos horrores da iminente Gleichchalting e da perda da liberdade, surgiram no primeiro plano e no debate pblico, diversos observadores 
tenham rapidamente proclamado o "fim da modernidade" (ou mesmo, mais ousadamente, o fim da prpria histria, argumentando que ela tinha atingido seu te/os ao tornar 
a liberdade, pelo menos o tipo de liberdade exemplificado pelo mercado livre e pela escolha do consumidor, imune a quaisquer ameaas). E no entanto (crditos para 
Mark Twain) a notcia do falecimento da modernidade, mesmo os rumores sobre seu canto de cisne, era grosseiramente exagerado: sua profuso no faz os obiturios 
menos prematuros. Parece que o tipo de sociedade diagnosticada e levada a juzo pelos fundadores da teoria crtica (ou pela distopia de Orwell) era apenas uma das 
formas que a verstil e varivel sociedade moderna assumia. Seu desaparecimento no anuncia o fim da modernidade. Nem  o arauto do fim da misria humana. Menos 
ainda assinala o fim da crtica como tarefa e vocao intelectual. E em nenhuma hiptese torna essa crtica dispensvel. 
A sociedade que entra no sculo XXI no  menos "moderna" que a que entrou no sculo XX; o mximo que se pode dizer  que ela  moderna de um modo diferente. O que 
a faz to moderna como era mais ou menos h um sculo  o que distingue a modernidade de todas as outras formas histricas do convvio humano: 
a compulsiva e obsessiva, continua, irrefrevel e sempre incompleta modernizao; a opressiva e inerradicvel, insacivel sede de destruio criativa (ou de criatividade 
destrutiva, se for o caso: de "limpar o lugar" em nome de um "novo e aperfeioado" projeto; de "desmantelar' "cortar' "defasar' "reunir" ou "reduzir' tudo isso em 
nome da maior capacidade de fazer o mesmo no futuro - em nome da produtividade ou da competitividade). 
Como assinalava Lessing h muito tempo, no limiar da era moderna fomos emancipados da crena no ato da criao, da re vela 
e da condenao eterna. Com essas crenas fora do caminho, ns, humanos, nos encontramos "por nossa prpria conta" - o que significa que, desde ento, no conhecemos 
mais limites ao aperfeioamento alm das limitaes de nossos prprios dons herdados ou adquiridos, de nossos recursos, coragem, vontade e determinao. E o que 
o homem faz o homem pode desfazer. Ser moderno passou a significar, como significa hoje em dia, ser incapaz de parar e ainda menos capaz de ficar parado. Movemo-nos 
e continuaremos a nos mover no tanto pelo "adiamento da satisfao' como sugeriu Max Weber, mas por causa da impossibilidade de atingir a satisfao: o horizonte 
da satisfao, a linha de chegada do esforo e o momento da auto-congratulao tranqila movem-se rpido demais. A consumao est sempre no futuro, e os objetivos 
perdem sua atrao e potencial de satisfao no momento de sua realizao, se no antes. Ser moderno significa estar sempre  frente de si mesmo, num Estado de constante 
transgresso (nos termos de Nietzsche, no podemos ser Men.c/i sem ser, ou pelo menos lutar para ser, Ubermensch); tambm significa ter uma identidade que s pode 
existir como projeto no-realizado. A esse respeito, no h muito que distinga nossa condio da de nossos avs. 
Duas caractersticas, no entanto, fazem nossa situao - nossa forma de modernidade - nova e diferente. 
A primeira  o colapso gradual e o rpido declnio da antiga iluso moderna: da crena de que h um fim do caminho em que andamos, um te/os alcanvel da mudana 
histrica, um Estado de perfeio a ser atingido amanh, no prximo ano ou no prximo milnio, algum tipo de sociedade boa, de sociedade justa e sem conflitos em 
todos ou alguns de seus aspectos postulados: do firme equilbrio entre oferta e procura e a satisfao de todas as necessidades; da ordem perfeita, em que tudo  
colocado no lugar certo, nada que esteja deslocado persiste e nenhum lugar  posto em dvida; das coisas humanas que se tornam totalmente transparentes porque se 
sabe tudo o que deve ser sabido; do completo domnio sobre o futuro - to completo que pe fim a toda contingncia, disputa, ambivalncia e conseqncias imprevistas 
das iniciativas humanas. 
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A segunda mudana  a desregulamentao e a privatizao das tarefas e deveres modernizantes. O que costumava ser considerado uma tarefa para a razo humana, vista 
como dotao e propriedade coletiva da espcie humana, foi fragmentado ("individualizado"), atribudo s vsceras e energia individuais e deixado  administrao 
dos indivduos e seus recursos. Ainda que a idia de aperfeioamento (ou de toda modernizao adicional do status quo) pela ao legislativa da sociedade como um 
todo no tenha sido completamente abandonada, a nfase (juntamente, o que  importante, com o peso da responsabilidade) se transladou decisivamente para a auto-afirmao 
do indivduo. Essa importante alterao se reflete na realocao do discurso tico/poltico do quadro da "sociedade justa" para o dos "direitos humanos' isto , 
voltando o foco daquele discurso ao direito de os indivduos permanecerem diferentes e de escolherem  vontade seus prprios modelos de felicidade e de modo de vida 
adequado. 
As esperanas de aperfeioamento, em vez de convergir para grandes somas nos cofres do governo, procuram o troco nos bolsos dos contribuintes. Se a modernidade original 
era pesada no alto, a modernidade de hoje  leve no alto, tendo se livrado de seus deveres "emancipatrios' exceto o dever de ceder a questo da emancipao s camadas 
mdia e inferior, s quais foi relegada a maior parte do peso da modernizao contnua. "No mais a salvao pela sociedade' proclamou o apstolo do novo esprito 
da empresa, Peter Drucker. "No existe essa coisa de sociedade' declarou Margaret Thatcher, mais ostensivamente. No olhe para trs, ou para cima; olhe para dentro 
de voc mesmo, onde supostamente residem todas as ferramentas necessrias ao aperfeioamento da vida - sua astcia, vontade e poder. 
E no h mais "o Grande Irmo  espreita"; sua tarefa agora  observar as fileiras crescentes de Grandes Irmos e Grandes Irms e observ-las atenta e avidamente, 
na esperana de encontrar algo de til para voc mesmo: um exemplo a imitar ou uma palavra de conselho sobre como lidar com seus problemas, que, como os deles, devem 
ser enfrentados individualmente e s podem ser enfrentados individualmente. No mais grandes lderes para lhe dizer o que fazer e para alivi-lo da responsabilidade 
pela conse qnci 
de seus atos; no mundo dos indivduos h apenas outros indivduos cujo exemplo seguir na conduo das tarefas da prpria vida, assumindo toda a responsabilidade 
pelas conseqncias de ter investido a confiana nesse e no em qualquer outro exemplo. 
O indivduo em combate com o cidado 
O ttulo dado por Norbert Elias a seu ltimo livro, publicado postumamente, A sociedade dos indivduos, capta com perfeio a essncia do problema que assombra a 
teoria social desde seu comeo. Rompendo com uma tradio estabelecida desde Hobbes e forjada novamente por John Stuart Mili, Herbert Spencer e a ortodoxia liberal 
na doxa (o quadro no examinado de toda cognio adicional) de nosso sculo, Elias substituiu o "e" e o "versus" pelo "de" e, assim, deslocou o discurso do imaginrio 
das duas foras, travadas numa batalha mortal mas infindvel entre liberdade e dominao, para uma "concepo recproca": a sociedade dando forma  individualidade 
de seus membros, e os indivduos formando a sociedade a partir de suas aes na vida, enquanto seguem estratgias plausveis e factveis na rede socialmente tecida 
de suas dependncias. 
A apresentao dos membros como indivduos  a marca registrada da sociedade moderna. Essa apresentao, porm, no foi uma pea de um ato:  uma atividade reencenada 
diariamente. A sociedade moderna existe em sua atividade incessante de "individualizao' assim como as atividades dos indivduos consistem na reformulao e renegociao 
dirias da rede de entrelaamentos chamada "sociedade' Nenhum dos dois parceiros fica parado por muito tempo. E assim o significado da "individualizao" muda. assumindo 
sempre novas formas -  medida que os resultados acumulados de sua histria passada solapam as regras herdadas, estabelecem novos preceitos comportamentais e fazem 
surgir novos prmios no jogo. A "individualizao" agora significa uma coisa muito diferente do que significava h cem anos e do que implicava nos primeiros tempos 
da era moderna - os tempos da 
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exaltada "emancipao" do homem da trama estreita da dependncia, da vigilncia e da imposio comunitrias. 
"Jenseits von Kiasse und Stand?' de Ulrich Beck, e poucos anos depois seu "Risikogesellschaft: auf dem Weg in eine andere Moderne"9 (juntamente com "Em Stiick eigenes 
Leben: Frauen im Individualisierung Prozess' de Elisabeth Beck-Gernsheim) abriram um novo captulo em nossa compreenso do "processo de individualizao" Esses trabalhos 
apresentaram o processo como uma histria em curso e infindvel, com seus distintos estgios - ainda que com um horizonte mvel e uma lgica errtica de giros e 
curvas abruptos em lugar de um te/os ou um destino predeterminado. Pode-se dizer que, assim como Elias historicizou a teoria de Sigmund Freud do "indivduo civilizado" 
explorando a civilizao como um evento na histria (moderna), Beck historicizou a narrativa de Elias do nascimento do indivduo ao reapresentar esse nascimento 
como um aspecto perptuo da contnua, compulsiva e obsessiva modernizao. Beck tambm estabeleceu o retrato da individualizao liberta de suas roupagens transitrias, 
hoje mais obscurecedoras que clarificadoras da compreenso (antes e acima de tudo, liberta de suas vises do desenvolvimento linear, uma progresso assinalada ao 
longo dos eixos da emancipao, da crescente autonomia e da liberdade de auto-afirmao), expondo assim para exame a variedade de tendncias  individualizao e 
seus produtos, e permitindo uma melhor compreenso das caractersticas distintivas de seu estgio presente. 
Resumidamente, a "individualizao" consiste em transformar a "identidade" humana de um "dado" em uma "tarefa" e encarregar os atores da responsabilidade de realizar 
essa tarefa e das conseqncias (assim como dos efeitos colaterais) de sua realizao. Em outras palavras, consiste no estabelecimento de uma autonomia de jure (independentemente 
de a autonomia defacto tambm ter sido estabelecida). 
Os seres humanos no mais "nascem" em suas identidades. Como disse Jean-Paul Sartre em frase clebre: no basta ter nascido burgus -  preciso viver a vida como 
burgus. (Note-se que o mesmo no precisaria ser nem poderia ser dito sobre prncipes, cavaleiros ou servos da era pr-moderna; nem poderia ser dito de 
modo to resoluto dos ricos nem dos pobres de bero dos tempos modernos). Precisar tornar-seo que j se  a caracterstica da vida moderna - e s da vida moderna 
(no da "individualizao moderna' a expresso sendo evidentemente pleonstica; falar da individualizao e da modernidade  falar de uma e da mesma condio social). 
A modernidade substitui a determinao heternoma da posio social pela autodeterminao compulsiva e obrigatria. Isso vale para a "individualizao" por toda 
a era moderna 
- para todos os perodos e todos os setores da sociedade. No entanto, dentro daquela condio compartilhada h variaes significativas, que distinguem geraes 
sucessivas e tambm as vrias categorias de atores que compartilham o mesmo cenrio histrico. 
A antiga modernidade "desacomodava" a fim de "reacomodar" Enquanto a desacomodao era o destino socialmente sancionado, a reacomodao era tarefa posta diante dos 
indivduos. Uma vez rompidas as rgidas molduras dos estamentos, a tarefa de "auto-identificao" posta diante de homens e mulheres do princpio da era moderna se 
resumia ao desafio de viver "de acordo" (no ficar atrs dos outros), de conformar-se ativamente aos emergentes tipos sociais de classe e modelos de conduta, de 
imitar, seguir o padro, "aculturar-se' no sair da linha nem se desviar da norma. Os "estamentos" enquanto lugares a que se pertencia por hereditariedade vieram 
a ser substitudos pelas "classes" como objetivo de pertencimento fabricado. Enquanto os estamentos eram uma questo de atribuio, o pertencimento s classes era 
em grande medida uma realizao; diferentemente dos estamentos, o pertencimento s classes devia ser buscado, e continuamente renovado, reconfirmado e testado na 
conduta diria. 
Retrospectivamente, pode-se dizer que a diviso em classes (ou em gneros) foi um resultado secundrio do acesso desigual aos recursos necessrios para tornar a 
auto-afirmao eficaz. As classes diferiam na gama de identidades disponveis e na facilidade de escolher entre elas e adot-las. As pessoas com menos recursos e, 
portanto, com menos escolha, tinham que compensar suas fraquezas individuais pela "fora do nmero" - cerrando fileiras e partindo para a ao coletiva. Como assinalou 
Claus Offe, a ao coletiva, orientada pela classe, era to natural e corriqueira 
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para os que estavam nos nveis mais baixos da escala social quanto a perseguio individualde seus objetivos de vida o era para seus patres. 
As privaes se somavam, por assim dizer; e, uma vez somadas, congelavam-se em "interesses comuns" e eram vistas como tratveis apenas com um remdio coletivo. O 
"coletivismo" foi a primeira opo de estratgia para aqueles situados na ponta receptora da individualizao mas incapazes de se auto-afirmar enquanto indivduos 
se limitados a seus prprios recursos individuais, claramente inadequados. A orientao de classe dos mais bem-aquinhoados era, por outro lado, parcial e, em certo 
sentido, derivativa; assumia o primeiro plano principalmente quando a distribuio desigual dos recursos era desafiada e contestada. Qualquer que fosse o caso, porm, 
os indivduos da modernidade "clssica' deixados "desacomodados" pela decomposio da ordem estamental, dispunham de seus novos poderes e autonomia na busca frentica 
da "reacomodao' 
E no faltavam "camas"  espera e prontas para acomod-los. A classe - embora formada e negocivel, e no herdada, como eram os estamentos - tendia a prender seus 
membros to firme e fortemente quanto o estamento hereditrio pr-moderno. Classe e gnero projetavam-se pesadamente sobre a gama de escolhas do indivduo; escapar 
a esses limites no era muito mais fcil do que contestar o lugar ocupado na "cadeia divina do ser" pr-moderna. Para todos os efeitos, a classe e o gnero eram 
"fatos da natureza", e a tarefa reservada  auto-afirmao da maioria dos indivduos era "adaptar-se" ao nicho alocado, comportando-se como os demais ocupantes. 
Isso  precisamente o que distingue a "individualizao" de outrora da forma que veio a tomar na Risikogesellschaf4 em tempos de "modernidade reflexiva" ou "segunda 
modernidade" (nas diferentes formas como Ulrich Beck se refere  era contempornea). No so fornecidos "lugares" para a "reacomodao", e os lugares que podem ser 
postulados e perseguidos mostram-se frgeis e freqentemente desaparecem antes que o trabalho de "reacomodao" seja completado. O que h so "cadeiras musicais" 
de vrios tamanhos e estilos, assim como em nmeros e posies cam biantes 
que fazem com que as pessoas estejam constantemente em movimento, e no prometem nem a "realizao", nem o descanso, nem a satisfao de "chegar", de alcanar o 
destino final, quando se pode desarmar-se, relaxar e deixar de se preocupar. No h perspectiva de "reacomodao" no final do caminho tomado pelos indivduos (agora 
cronicamente) desacomodados. 
No se engane: agora, como antes - tanto no estgio leve e fluido da modernidade quanto no slido e pesado -, a individualizao  uma fatalidade, no uma escolha. 
Na terra da liberdade individual de escolher, a opo de escapar  individualizao e de se recusar a participar do jogo da individualizao est decididamente fora 
da jogada. A autoconteno e a auto-suficincia do indivduo podem ser outra iluso: que homens e mulheres no tenham nada a que culpar por suas frustraes e problemas 
no precisa agora significar, no mais que no passado, que possam se proteger contra a frustrao utilizando suas prprias estratgias, ou que escapem de seus problemas 
puxando-se, como o Baro de Munchausen, pelas prprias botas. E, no entanto, se ficam doentes, supe-se que foi porque no foram suficientemente decididos e industriosos 
para seguir seus tratamentos; se ficam desempregados, foi porque no aprenderam a passar por uma entrevista, ou porque no se esforaram o suficiente para encontrar 
trabalho ou porque so, pura e simplesmente, avessos ao trabalho; se no esto seguros sobre as perspectivas de carreira e se agoniam sobre o futuro,  porque no 
so suficientemente bons em fazer amigos e influenciar pessoas e deixaram de aprender e dominar, como deveriam, as artes da auto-expresso e da impresso que causam. 
Isto , em todo caso, o que lhes  dito hoje, e aquilo em que passaram a acreditar, de modo que agora se comportam como se essa fosse a verdade. Como Beck adequada 
e pungentemente diz, "a maneira como se vive torna-se uma soluo biogr4/ka das contradies sist'micas' 10 Riscos e contradies continuam a ser socialmente produzidos; 
so apenas o dever e a necessidade de enfrent-los que esto sendo individualizados. 
Para resumir: o abismo entre a individualidade como fatalidade e a individualidade como capacidade realista e prtica de auto- afirmao est aumentando. (Melhor 
ser afastado da "individuali 1 
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dade por atribuio' como "individuao": o termo escolhido por Beck para distinguir o indivduo auto-sustentado e auto-impulsionado daquele que no tem escolha 
seno a de agir, ainda que contrafactualmente, como se a individualizao tivesse sido alcanada). Saltar sobre esse abismo no - isso  crucial - parte dessa capacidade. 
A capacidade auto-assertiva de homens e mulheres individualizados deixa a desejar, como regra, em relao ao que a genuna autoconstituio requereria. Como observou 
Leo Strauss, o outro lado da liberdade ilimitada  a insignificncia da escolha, cada lado condicionando o outro: por que cuidar de proibir o que ser, de qualquer 
modo, de pouca conseqncia? Um observador cnico diria que a liberdade chega quando no faz mais diferena. H um desagradvel ar de impotncia no temperado caldo 
da liberdade preparado no caldeiro da individualizao; essa impotncia  sentida como ainda mais odiosa, frustrante e perturbadora em vista do aumento de poder 
que se esperava que a liberdade trouxesse. 
Qnem sabe no seria um remdio manter-se, como no passado, ombro a ombro e marchar unidos? Quem sabe se, caso os poderes individuais, to frgeis e impotentes isoladamente, 
fossem condensados em posies e aes coletivas, poderamos realizar em conjunto o que ningum poderia realizar sozinho? Quem sabe... O problema , porm, que essa 
convergncia e condensao das queixas individuais em interesses compartilhados, e depois em ao conjunta,  uma tarefa assustadora, dado que as aflies mais comuns 
dos "indivduos por fatalidade" nos dias de hoje so no- aditivas, no podem ser "somadas" numa "causa comum' Podem ser postas lado a lado, mas no se fundiro. 
Pode-se dizer que desde o comeo so moldadas de tal maneira que lhes faltam interfaces para combinar-se com os problemas das demais pessoas. 
Os problemas podem ser semelhantes (e os cada vez mais populares programas de entrevistas insistem em demonstrar sua semelhana, enquanto martelam a mensagem de 
que sua semelhana mais importante consiste em que so enfrentados por conta prpria pelos que os sofrem), mas no formam uma "totalidade que  maior que a soma 
de suas partes"; no adquirem qualquer qua lidad 
nova, nem se tornam mais fceis de manejar por serem enfrentados, confrontados e trabalhados em conjunto. A nica vantagem que a companhia de outros sofredores pode 
trazer  garantir a cada um deles que enfrentar os problemas solitariamente  o que todos fazem diariamente - e portanto renovar e encorajar a fatigada deciso de 
continuar a fazer o mesmo. Talvez possa-se tambm aprender da experincia de outras pessoas a como sobreviver  nova rodada de "reduo de tamanho" (downsizing); 
como lidar com crianas que pensam que so adolescentes e adolescentes que se recusam a se tornar adultos; como pr a gordura e outros "corpos estranhos" indesejveis 
"para fora do sistema"; como livrar-se de um vcio que no d mais prazer ou de parceiros que no so mais satisfatrios. Mas o que aprendemos antes de mais nada 
da companhia de outros  que o nico auxlio que ela pode prestar  como sobreviver em nossa solido irremvel, e que a vida de todo mundo  cheia de riscos que 
devem ser enfrentados solitariamente. 
E assim h tambm outro obstculo: como de Tocqueville h muito suspeitava, libertar as pessoas pode torn-las indiferentes. O indivduo  o pior inimigo do cidado, 
sugeriu ele. O "cidado"  uma pessoa que tende a buscar seu prprio bem-estar atravs do bem-estar da cidade - enquanto o indivduo tende a ser morno, ctico ou 
prudente em relao  "causa comum' ao "bem comum'  "boa sociedade" ou  "sociedade justa' Qual  o sentido de "interesses comuns" seno permitir que cada indivduo 
satisfaa seus prprios interesses? O que quer que os indivduos faam quando se unem, e por mais benefcios que seu trabalho conjunto possa trazer, eles o percebero 
como limitao  sua liberdade de buscar o que quer que lhes parea adequado separadamente, e no ajudaro. As nicas duas coisas teis que se espera e se deseja 
do "poder pblico" so que ele observe os "direitos humanos' isto , que permita que cada um siga seu prprio caminho, e que permita que todos o faam "em paz" - 
protegendo a segurana de seus corpos e posses, trancando criminosos reais ou potenciais nas prises e mantendo as ruas livres de assaltantes, pervertidos, pedintes 
e todo tipo de estranhos constrangedores e maus. 
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Com seu humor habitual e inimitvel, Woody Alien aponta as modas e manias dos "indivduos por decreto" ao folhear os anncios de imaginrios cursos de vero do tipo 
que os norte-americanos adorariam freqentar. O curso de teoria econmica inclui o item "inflao e depresso - como vestir-se para cada ocasio"; o curso de tica 
envolve "O imperativo categrico - e seis maneiras de faz-lo funcionar a seu favor' enquanto o prospecto de astronomia informa que "o Sol, que  feito de gs, pode 
explodir a qualquer momento, mandando nosso planeta inteiro pelos ares; os estudantes so instrudos sobre o que o cidado mdio pode fazer em tal caso' 
Em suma: o outro lado da individualizao parece ser a corroso e a lenta desintegrao da cidadania. Jol Roman, co-editor de Espri!, assinala em seu livro recente 
(La dmocratie des individus, 1998) que "a vigilncia  degradada  guarda dos bens, enquanto o interesse geral no  mais que um sindicato de egosmos, que envolve 
emoes coletivas e o medo do vizinho" Roman concita os leitores a buscarem uma "renovada capacidade de decidir em conjunto" - hoje notvel por sua inexistncia. 
Se o indivduo  o pior inimigo do cidado, e se a individualizao anuncia problemas para a cidadania e para a poltica fundada na cidadania,  porque os cuidados 
e preocupaes dos indivduos enquanto indivduos enchem o espao pblico at o topo, afirmando-se como seus nicos ocupantes legtimos e expulsando tudo mais do 
discurso pblico. O "pblico"  colonizado pelo "privado"; o "interesse pblico"  reduzido  curiosidade sobre as vidas privadas de figuras pblicas e a arte da 
vida pblica  reduzida  exposio pblica das questes privadas e a confisses de sentimentos privados (quanto mais ntimos, melhor). As "questes pblicas" que 
resistem a essa reduo tornam-se quase incompreensveis. 
As perspectivas de que os atores individualizados sejam "reacomodados" no corpo republicano dos cidados so nebulosas. O que os leva a aventurar-se no palco pblico 
no  tanto a busca de causas comuns e de meios de negociar o sentido do bem comum e dos princpios da vida em comum quanto a necessidade desesperada de "fazer parte 
da rede' Compartilhar intimidades, como 
Richard Sennett insiste, tende a ser o mtodo preferido, e talvez o nico que resta, de "construo da comunidade' Essa tcnica de construo s pode criar "comunidades" 
to frgeis e transitrias como emoes esparsas e fugidias, saltando erraticamente de um objetivo a outro na busca sempre inconclusiva de um porto seguro: comunidades 
de temores, ansiedades e dios compartilhados 
- mas em cada caso comunidades "cabide' reunies momentneas em que muitos indivduos solitrios penduram seus solitrios medos individuais. Como diz Ulrich Beck 
(no ensaio "Sobre a mortalidade da sociedade industrial"), 
O que emerge no lugar das normas sociais evanescentes  o ego nu, atemorizado e agressivo  procura de amor e de ajuda. Na procura de si mesmo e de uma sociabilidade 
afetuosa, ele facilmente se perde na selva do eu ... Algum que tateia na bruma de seu prprio eu no  mais capaz de perceber que esse isolamento, esse "confinamento 
solitrio do ego':  uma sentena de massa.1' 
A individualizao chegou para ficar; toda elaborao sobre os meios de enfrentar seu impacto sobre o modo como levamos nossas vidas deve partir do reconhecimento 
desse fato. A individualizao traz para um nmero sempre crescente de pessoas uma liberdade sem precedentes de experimentar - mas (timeo danaos ei dona ferentes...) 
traz junto a tarefa tambm sem precedentes de enfrentar as conseqncias. O abismo que se abre entre o direito  auto-afirmao e a capacidade de controlar as situaes 
sociais que podem tornar essa auto-afirmao algo factvel ou irrealista parece ser a principal contradio da modernidade fluida - contradio que, por tentativa 
e erro, reflexo crtica e experimentao corajosa, precisamos aprender a manejar coletivamente. 
O compromisso da teoria crtica 
na sociedade dos indivduos 
O impulso modernizante, em qualquer de suas formas, significa a critica compulsiva da realidade. A privatizao do impulso signifi 
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ca a compulsiva auto-crtica nascida da desafeio perptua: ser um indivduo de jure significa no ter ningum a quem culpar pela prpria misria, significa no 
procurar as causas das prprias derrotas seno na prpria indolncia e preguia, e no procurar outro remdio seno tentar com mais e mais determinao. 
Viver diariamente com o risco da auto-reprovao e do auto- desprezo no  fcil. Com os olhos postos em seu prprio desempenho - e portanto desviados do espao 
social onde as contradies da existncia individual so coletivamente produzidas -, os homens e mulheres so naturalmente tentados a reduzir a complexidade de sua 
situao a fim de tornarem as causas do sofrimento inteligveis e, assim, tratveis. No que considerem as "solues biogrficas" onerosas e embaraosas; simplesmente 
no h "solu&s biogrficas para contradies sistmicas" eficazes, e assim a escassez de solues possveis  disposio precisa ser compensada por solues imaginrias. 
No entanto - imaginrias ou genunas -' todas as "solues", para parecerem razoveis e viveis, devem ser acompanhadas pela "individualizao" das tarefas e responsabilidades. 
H, ento, demanda por cabides individuais onde os indivduos atemorizados possam pendurar coletiva, ainda que brevemente, seus temores individuais. Nosso tempo 
 propcio aos bodes expiatrios - sejam eles polticos que fazem de suas vidas privadas uma confuso, criminosos que se esgueiram nas ruas e nos bairros perigosos 
ou "estrangeiros entre ns' O nosso  um tempo de cadeados, cercas de arame farpado, ronda dos bairros e vigilantes; e tambm de jornalistas de tablides "investigativos" 
que pescam conspiraes para povoar de fantasmas o espao pblico funestamente vazio de atores, conspiraes suficientemente ferozes para liberar boa parte dos medos 
e dios reprimidos em nome de novas causas plausveis para o "pnico moral' 
Repito: h um grande e crescente abismo entre a condio de indivduos de jure e suas chances de se tornar indivduos de facto 
- isto , de ganhar controle sobre seus destinos e tomar as decises que em verdade desejam. E desse abismo que emanam os eflvios mais venenosos que contaminam 
as vidas dos indivduos contemporneos. Esse abismo no pode ser transposto apenas por esforos individuais: no pelos meios e recursos disponveis den tr 
da poltica-vida auto-administrada. Transpor o abismo  a tarefa da Poltica com P maisculo. Pode-se supor que o abismo em questo emergiu e cresceu precisamente 
por causa do esvaziamento do espao pblico, e particularmente da gora, aquele lugar intermedirio, pblico/privado, onde a poltica-vida encontra a Poltica com 
p maisculo, onde os problemas privados so traduzidos para a linguagem das questes pblicas e solues pblicas para os problemas privados so buscadas, negociadas 
e acordadas. 
A mesa foi virada, por assim dizer: a tarefa da teoria crtica foi invertida. Essa tarefa costumava ser a defesa da autonomia privada contra as tropas avanadas 
da "esfera pblica", soobrando sob o domnio opressivo do Estado onipotente e impessoal e de seus muitos tentculos burocrticos ou rplicas em escala menor. Hoje 
a tarefa  defender o evanescente domnio pblico, ou, antes, reequipar e repovoar o espao pblico que se esvazia rapidamente devido  desero de ambos os lados: 
a retirada do "cidado interessado" e a fuga do poder real para um territrio que, por tudo que as instituies democrticas existentes so capazes de realizar, 
s pode ser descrito como um "espao csmico" 
No  mais verdade que o "pblico" tente colonizar o "privado' O que se d  o contrrio:  o privado que coloniza o espao pblico, espremendo e expulsando o que 
quer que no possa ser expresso inteiramente, sem deixar resduos, no vernculo dos cuidados, angstias e iniciativas privadas. Repetidamente informado de que  
o senhor de seu prprio destino, o indivduo no tem razo de atribuir "relevncia tpica" (o termo  de Alfred Schtz) ao que quer que resista a ser engolfado no 
eu e trabalhado com os recursos do eu; mas ter essa razo e agir sobre ela  precisamente a marca registrada do cidado. 
Para o indivduo, o espao pblico no  muito mais que uma tela gigante em que as aflies privadas so projetadas sem cessar, sem deixarem de ser privadas ou adquirirem 
novas qualidades coletivas no processo da ampliao: o espao pblico  onde se faz a confisso dos segredos e intimidades privadas. Os indivduos retornam de suas 
excurses dirias ao espao "pblico" reforados em sua individualidade de jure e tranqilizados de que o modo 
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solitrio como levam sua vida  o mesmo de todos os outros "indivduos como eles' enquanto - tambm corno eles - do seus prprios tropeos e sofrem suas (talvez 
transitrias) derrotas no processo. 
Quanto ao poder, ele navega para longe da rua e do mercado, das assemblias e dos parlamentos, dos governos locais e nacionais, para alm do alcance do controle 
dos cidados, para a extraterritorialidade das redes eletrnicas. Os princpios estratgicos favoritos dos poderes existentes hoje em dia so fuga, evitao e descompromirso, 
e sua condio ideal  a invisibilidade. Tentativas de prever seus movimentos e as conseqncias no-previstas de seus movimentos (sem falar dos esforos para deter 
ou impedir os mais indesejveis entre eles) tm uma eficcia prtica semelhante  da "Liga para Impedir Mudanas Meteorolgicas' 
E assim o espao pblico est cada vez mais vazio de questes pblicas. Ele deixa de desempenhar sua antiga funo de lugar de encontro e dilogo sobre problemas 
privados e questes pblicas. Na ponta da corda que sofre as presses individualizantes, os indivduos esto sendo, gradual mas consistentemente, despidos da armadura 
protetora da cidadania e expropriados de suas capacidades e interesses de cidados. Nessas circunstncias, a perspectiva de que o indivduo a'ejure venha a se tornar 
algum dia indivduo de facto (aquele que controla os recursos indispensveis  genuna autodeterminao) parece cada vez mais remota. 
O indivduo de jure no pode se tornar indivduo defacto sem antes tornar-se cidado. No h indivduos autnomos sem uma sociedade autnoma, e a autonomia da sociedade 
requer uma auto- constituio deliberada e perptua, algo que s pode ser uma realizao compartilhada de seus membros. 
"Sociedade" sempre manteve uma relao ambgua com a autonomia individual: era simultaneamente sua inimiga e condio sine qua non. Mas as propores de ameaas 
e oportunidades no que forosamente continuar sendo uma relao ambivalente mudaram radicalmente no curso da histria moderna. Embora as razes para examin-la 
de perto possam no ter desaparecido, a sociedade  hoje antes de tudo a condio de que os indivduos precisam muito, e que lhes faz falta - em sua luta v e frustrante 
para transformar seu status de jure em genuna autonomia e capacidade de auto-afirmao. 
Esta , nos termos mais amplos, a situao que hoje se coloca para a teoria crtica - e, em termos mais gerais, para a crtica social. Ela se reduz a unir novamente 
o que a combinao da individualizao formal e o divrcio entre o poder e a poltica partiram em pedaos. Em outras palavras, redesenhar e repovoar a hoje quase 
vazia gora - o lugar de encontro, debate e negociao entre o indivduo e o bem comum, privado e pblico. Se o velho objetivo da teoria crtica - a emancipao 
humana - tem qualquer significado hoje, ele  o de reconectar as duas faces do abismo que se abriu entre a realidade do indivduo de jure e as perspectivas do indivduo 
de facto. E indivduos que reaprenderam capacidades esquecidas e reapropriaram ferramentas perdidas da cidadania so os nicos construtores  altura da tarefa de 
erigir essa ponte em particular. 
A teoria crtica revisitada 
A necessidade de pensar  o que nos faz pensar, disse Adorno.'2 Sua Dialtica negativa, essa longa e tortuosa explorao dos modos de ser humano num mundo inspito 
 humanidade, acaba com essa frase contundente, mas em ltima anlise vazia: ao fim de centenas de pginas, nada foi explicado, nenhum mistrio revelado, nenhuma 
segurana alcanada. O segredo de ser humano permanece to impenetrvel como no comeo da jornada. Pensar nos faz humanos, mas  por sermos humanos que pensamos. 
O pensar no pode ser explicado; mas no precisa de explicao. O pensar no precisa ser justificado; mas no poderia ser justificado, ainda que tentssemos. 
Essa situao no , Adorno nos dir muitas e muitas vezes, nem um sinal de fraqueza do pensamento, nem marca da vergonha de quem pensa. Talvez seja o contrrio. 
Na pena de Adorno, a triste necessidade se transforma em privilgio. Quanto menos um pensamento puder ser explicado em termos familiares, que faam sentido para 
os homens e mulheres imersos em sua busca diria da 
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sobrevivncia, tanto mais prximo fica dos padres da humanidade; quanto menos puder ser justificado em termos de ganhos e usos tangveis ou das etiquetas de preo 
afixadas a ele no supermercado ou na bolsa de valores, tanto maior seu valor humanizante. So a busca ativa do valor de mercado e a urgncia do consumo imediato 
que ameaam o genuno valor do pensamento. "Nenhum pensamento  imune", escreve Adorno, 
 comunicao, e faz-la no lugar errado e num acordo equivocado  o suficiente para solapar sua verdade. ... Pois o isolamento intelectual inviolvel  agora a 
nica maneira de mostrar algum grau de solidariedade. ... O observador distante est to envolvido quanto o participante ativo; a nica vantagem do primeiro  a 
viso desse envolvimento e a liberdade infinitesimal que reside no conhecimento enquanto tal.13 
Ficar claro que a viso  o comeo da liberdade se lembrarmos que "para um sujeito que age ingenuamente ... seu prprio condicionamento  no-transparente14 e que 
a no-transparncia do condicionamento  garantia de ingenuidade perptua. Assim como o pensamento no precisa de nada seno de si mesmo para perpetuar-se, tambm 
a ingenuidade  auto-suficiente; enquanto no for perturbada pela viso, manter intacto seu prprio condicioriamento. 
"No perturbado": em verdade, a chegada da viso quase nunca  bem-vinda para aqueles que se acostumaram a viver sem ela como doce perspectiva da liberdade. A inocncia 
da ingenuidade faz com que at mesmo a condio mais turbulenta e traioeira parea familiar e, portanto, segura, e qualquer viso de seus precrios andaimes  um 
prodgio de falta de confiana, dvida e insegurana que poucos receberiam esperanosamente. Parece que, para Adorno, essa ampla rejeio da viso  positiva, embora 
no anuncie um caminho fcil. A falta de liberdade do ingnuo  a liberdade da pessoa que pensa. Ela torna o "isolamento inviolvel" mais fcil. "Aquele que pe 
 venda algo que ningum quer comprar representa, mesmo contra sua vontade, a liberdade em relao  troca'15 H apenas um passo que leva dessa idia a 
outra: a do exlio como condio arquetpica da liberdade em relao  troca. Os produtos que o exlio oferece so tais que ningum teria qualquer inclinao de 
compr-los. "Todo intelectual emigrado est, sem exceo, mutilado", escreveu Adorno em seu prprio exlio nos Estados Unidos. "Ele vive num ambiente que permanecer 
incompreensvel" No surpreende que ele esteja protegido contra o risco de produzir qualquer coisa de valor no mercado local. Portanto, "se na Europa o gesto esotrico 
era freqentemente apenas um pretexto para o mais cego auto-interesse, o conceito de austeridade parece, no exlio, o mais aceitvel dos salva-vidas"6. O exlio 
 para o pensador o que o lar  para o ingnuo;  no exlio que o distanciamento, modo de vida habitual da pessoa que pensa, adquire valor de sobrevivncia. 
Ao lerem a edio dos Upanishads de Deussen, Adorno e Horkheimer comentam amargamente que os sistemas tericos e prticos dessas pessoas que buscam da unio entre 
a verdade, a beleza e a justia, esses "estranhos  histria", "no so muito rigorosos e centrados; distinguem-se dos sistemas acabados por um elemento de anarquia. 
Atribuem maior importncia  idia e ao indivduo que  administrao e ao coletivo. Portanto, despertam dio"7. Para que as idias tenham sucesso, para que atinjam 
a imaginao dos habitantes da caverna, o elegante ritual vdico dever superar as vagas meditaes dos Upanishads; os frios e bem-comportados esticos devero substituir 
os impetuosos e arrogantes cnicos; e o absolutamente prtico So Paulo dever substituir o estranhamente pouco prtico So Joo Batista. A grande questo, porm, 
 se o poder emancipatrio dessas idias pode sobreviver a seu sucesso mundano. A resposta de Adorno a tal questo recende a melancolia: "A histria das antigas 
religies e escolas, como a dos partidos e revolues modernas, nos ensina que o preo da sobrevivncia  o envolvimento prtico, a transformao das idias em dominao"8. 
Nesta ltima frase, o principal dilema estratgico que assombrava o fundador e mais notrio escritor da "escola crtica" original encontra sua mais vivida expresso: 
quem quer que pense e se aflija est condenado a navegar entre o Sila do pensamento limpo 
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mas impotente e o Caribdis da tentativa eficaz mas poluida pela dominao. Tertium non datur. Nem a aposta na prtica nem a recusa a ela constituem boa soluo. 
A primeira tende, inevitavelmente, a transformar-se em dominao - com todo seu squito de horrores: novas limitaes  liberdade, a pragmtica utilitria dos efeitos 
tendo precedncia sobre os princpios ticos das razes e a diluio e subseqente distoro das ambies da liberdade. A segunda pode talvez satisfazer o desejo 
narcisstico da pureza intocada, mas manteria o pensamento ineficaz e, no limite, estril: a filosofia, como Ludwig Witgenstein observou com tristeza, deixaria tudo 
como era; o pensamento nascido da revolta contra a inumanidade da condio humana faria pouco ou nada para tornar mais humana essa condio. O dilema entre vita 
contemplativa e vila activa se resume a uma escolha entre duas perspectivas igualmente pouco atraentes. Quanto mais os valores preservados no pensamento forem protegidos 
da poluio, menos significativos sero para a vida daqueles a quem devem servir. Quanto maiores seus efeitos nessa vida, menos essa vida reformada far lembrar 
os valores que induziram e inspiraram a reforma. 
O tormento de Adorno tem uma longa histria, chegando  questo de Plato sobre a sabedoria e a possibilidade do "retorno  caverna' Essa questo surgiu a partir 
da invocao de Plato aos filsofos para que abandonassem a caverna escura do quotidiano e - em nome da pureza do pensamento - recusassem qualquer intercmhio com 
os habitantes da caverna enquanto durasse sua jornada no iluminado mundo exterior das idias claras e lcidas. O problema era se, na volta, os filsofos quereriam 
compartilhar os trofus da jornada com os de dentro da caverna e - caso o quisessem - se os outros os ouviriam e lhes dariam crdito. Fiel s idias de seu tempo, 
Plato esperava que o provvel desencontro na comunicao resultasse na morte dos portadores das notcias... 
A verso de Adorno do problema de Plato tomou forma no mundo ps-iluminista, quando queimar hereges e dar cicuta aos arautos de uma vida mais nobre estavam definitivamente 
fora de moda. Nesse novo mundo, os habitantes da caverna, reencarnados como Brger, no exibiam mais o entusiasmo pela verdade e pelos 
valores mais altos dos onginais de Plato; esperava-se que opusessem firme e feroz resistncia a uma mensagem fadada a perturbar a tranqilidade de sua rotina diria. 
Fiel s novas idias, porm, o resultado da ruptura na comunicao aparecia de forma diferente. A unio entre conhecimento e poder, mera fantasia nos tempos de Plato, 
tornou-se um postulado rotineiro e quase axiomtico da filosofia e uma afirmao comum e diariamente repetida da poltica. De algo pelo qu se poderia morrer, a 
verdade tornou-se algo que oferecia boas razes pelas quais se poderia matar. (Foi um pouco das duas coisas todo o tempo, mas as propores na mistura mudaram drasticamente). 
Era portanto natural e razovel esperai nos tempos de Adorno, que os rejeitados apstolos das boas notcias recorressem  fora sempre que pudessem; e buscassem 
a dominao para quebrar a resistncia e compelir, impelir ou subornar seus opositores a seguir a rota que relutavam a encetar. Ao velho dilema - como encontrar 
as palavras adequadas aos ouvidos no-iniciados sem comprometer a essncia da mensagem; como expressar a verdade numa forma fcil de compreender e suficientemente 
atraente para que sua compreenso pudesse ser desejada sem deturpar ou diluir seu contedo -, a esse dilema veio somar- se uma nova dificuldade, particularmente 
dura e angustiante no caso de uma mensagem com ambies emancipadoras e libertadoras: como evitar, ou ao menos limitar, o impacto corruptor do poder e da dominao, 
vistos agora como principal veculo portador da mensagem aos recalcitrantes e indiferentes? As duas angstias se entrelaam, s vezes se fundem - como na spera, 
ainda que inconclusiva, disputa entre Leo Strauss e Alexandre Kojve. 
"A filosofia' insiste Strauss,  a busca da "ordem eterna e imutvel na qual a histria acontece e que permanece inalterada pela histria" O que  eterno e imutvel 
 tambm universal; embora a aceitao universal dessa ordem eterna e imutvel possa ser atingida somente com base no conhecimento genuno ou na sabedoria - no 
atravs da reconciliao ou do acordo entre opinies. 
O acordo fundado na opinio no pode nunca se tornar um acordo 
universal. Toda f que pretende a universalidade, isto , a aceitao 
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universal, necessariamente provoca uma contra-f com a mesma pretenso. A difuso entre os no-iniciados do conhecimento genuno adquirido pelos sbios no serviria 
para nada, pois pela difuso ou diluio o conhecimento inevitavelmente se transforma em opinio, preconceito ou mera crena. 
Tanto para Strauss quanto para Kojve, essa diferena entre o saber e a "mera crena' bem como a dificuldade de comunicao entre elas, apontava imediata e automaticamente 
para a questo do poder e da poltica. Os dois polemistas viam a incompatibilidade entre os dois tipos de conhecimento como a questo da direo, da coero e do 
engajamento poltico dos "portadores do saber' como o problema da relao entre a filosofia e o Estado, considerado o lugar e foco por excelncia da poltica. O 
problema se reduz a uma escolha entre o envolvirneiito poltico e o radical distanciamento da prtica poltica, e ao clculo cuidadoso dos ganhos, riscos e prejuzos 
potenciais de cada uma dessas posies. 
Dado que a ordem eterna, a questo com que os filsofos verdadeiramente se ocupam, no  "afetada pela histria' de que maneira o comrcio pode, com os administradores 
da histria, os poderes do momento, auxiliar a causa da filosofia? Para Strauss, tratava-se de urna questo retrica, pois "no h como" seria a nica resposta razovel 
e auto-evidente. A verdade da filosofia pode, de fato, no ser afetada pela histria, respondia Kojve, mas da no decorre que se possa evitar a histria: o objetivo 
dessa verdade  entrar na histria para re-form-la - e assim a tarefa prtica do comrcio com os detentores do poder, os guardies que vigiam essa entrada e controlam 
o trfego, permanece como parte integrante e vital dos afazeres da filosofia. A histria  a realizao da filosofia; a verdade da filosofia encontra seu teste e 
confirmao ltimos em sua aceitao e reconhecimento, tornando-se, nas palavras dos filsofos, a carne dapolis. O reconhecimento  o te/os e verificao ltima 
da filosofia; e assim o objeto da ao dos filsofos no so apenas os prprios filsofos, seu pensamento, o "fazer interno" do filosofar, mas o mundo enquanto tal, 
e, por fim, a harmonia entre os dois, ou, antes, o refazer o mundo  imagem da verdade cujos guardies so os filsofos. "No ter intercmbio" 
com a poltica no , portanto, uma resposta; cheira a traio no s ao "mundo que a est", mas tambm  prpria filosofia. 
No h como evitar o problema da "ponte poltica" para o mundo. E como essa ponte no pode seno ser controlada pelos servidores do Estado, a questo de como us-los 
para suavizar a passagem da filosofia ao mundo no desaparecer e ter de ser enfrentada. E tampouco h como evitar o fato duro de que - pelo menos no comeo, enquanto 
a distncia entre a verdade da filosofia e a realidade do mundo no for preenchida - o Estado seja tirnico. A tirania (Kojve  inflexvel quanto  possibilidade 
de essa forma de governo ser definida em termos moralmente neutros) ocorre quando 
uma frao dos cidados (pouco importa que sejam minoria ou maioria) impe a todos os outros cidados suas idias e aes, que so guiadas por uma autoridade que 
essa frao reconhece espontaneamente, mas que no conseguiu fazer que os outros reconheam; e quando essa frao as impe aos outros sem "chegar a acordo" com eles, 
sem tentar chegar a algum "compromisso" com eles e sem considerar suas idias e desejos (determinados por outra autoridade, que esses outros reconhecem espontaneamente). 
Como  essa desconsiderao das idias e desejos dos "outros" que faz a tirania tirnica, a tarefa consiste em romper a corrente cismogentica (como diria Gregory 
Bateson) da negligncia arrogante, de um lado, e do dissenso mudo, de outro, e encontrar algum terreno em que ambos possam se encontrar para uma conversao frutfera. 
Esse terreno (e aqui Kojve e Strauss concordam) s pode ser oferecido pela verdade da filosofia, que se ocupa 
- necessariamente - das coisas eternas e vlidas absoluta e universalmente. (Todos os outros terrenos, oferecidos pelas "meras crenas' s podero servir como campos 
de batalha, e nunca como salas de conferncia). Kojve acreditava que isso  possvel, mas Strauss no: "No acredito na possibilidade de uma conversao entre Scrates 
e o povo" Quem quer que se envolva em tal conversao no  um filsofo, mas "algum tipo de retrico" preocupado no tanto em construir o caminho pelo qual a verdade 
pode chegar ao povo quanto em obter a obedincia ao que quer que os 
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poderes precisem ou desejem estabelecer. Os filsofos pouco podem fazer alm de aconselhar os retricos, e a probabilidade de seu sucesso est fadada a ser mnima. 
As chances de a filosofia e a sociedade virem a se reconciliar e a se tornar uma s so mnimas. 19 
Strauss e Kojve concordavam que o elo entre os valores universais e a realidade da vida social historicamente constituda  a poltica; escrevendo de dentro da 
modernidade pesada, tinham como ponto pacfico que a poltica se imbrica nas aes do Estado. E assim se seguia sem maiores discusses que o problema diante dos 
filsofos era o de uma simples escolha entre "pegar ou largar": 
seja utilizando esse elo, a despeito de todos os riscos que uma tentativa de utiliz-lo deve necessariamente envolver, seja (em nome da pureza de pensamento) mantendo-se 
longe dele e cuidando da distancia em relao ao poder e seus detentores. A escolha se dava, em outras palavras, entre a verdade fadada  impotncia e a potncia 
fadada a ser infiel  verdade. 
A modernidade pesada era, afinal, a poca de moldar a realidade como na arquitetura ou na jardinagem; a realidade adequada aos veredictos da razo deveria ser "construda" 
sob estrito controle de qualidade e conforme rgidas regras de procedimento, e mais que tudo projetada antes da construo. Era uma poca de pranchetas e projetos 
- no tanto para mapear o territrio social como para erguer tal territrio at o nvel de lucidez e lgica de que s os mapas so capazes. Era uma poca que pretendia 
impor a razo  realidade por decreto, remanejar as estruturas de modo a estimular o comportamento racional e a elevar os custos de todo comportamento contrrio 
 razo to alto que os impedisse. Em razo do decreto, negligenciar os legisladores e as agncias coercitivas no era, obviamente, uma opo. A questo da relao 
com 
o Estado, fosse cooperativa ou contestadora, era seu dilema de formao; de fato, uma questo de vida ou morte. 
A crtica da poltica-vida 
Como o Estado no mais promete ou deseja agir como plenipotencirio da razo e mestre-de-obras da sociedade racional; como 
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as pranchetas nos escritrios da boa sociedade esto em processo de ser eliminadas; e como a variada multido de conselheiros, intrpretes e assessores assume cada 
vez mais as tarefas previa- mente reservadas aos legisladores no  de surpreender que os crticos que desejavam ser instrumentais na atividade de emancipao lamentem 
sua privao. No apenas o suposto veculo - e, simultanearnente, o alvo da luta pela libertao -. est se esfacelando; o dilema central, constitutivo, da teoria 
crtica, o prprio eixo em torno do qual girava o discurso crtico, dificilmente sobreviver ao desaparecimento do veculo. O discurso crtico, como muitos podem 
sentir, est a ponto de ficar sem objeto. E muitos podem agarrar-se - e de fato o fazem - desesperadamente  estratgia ortodoxa da crtica apenas para confirmar, 
inadvertida- mente, que o discurso carece, de fato, de um objeto tangvel,  medida que os diagnsticos so cada vez mais desligados das realidades correntes e as 
propostas so cada vez mais nebulosas; muitos insistem em travar velhas batalhas em que ganham competncia e preferem isso a uma mudana do campo de batalha familiar 
e confivel para um novo territrio ainda no inteiramente explorado, de muitas maneiras uma terra incognita. 
As perspectivas para urna teoria crtica (para no falar da demanda por ela) no esto, porm, amarradas s formas de vida hoje em recuo da mesma maneira que a autoconscincia 
dos crticos est amarrada s formas, habilidades e programas desenvolvidos no curso do enfrentamento com elas. Foi s o sentido atribudo  emancipao sob condies 
passadas e no mais presentes que ficou obsoleto - no a tarefa da emancipao em si. Outra coisa est agora em jogo. H uma nova agenda pblica de emancipao ainda 
 espera de ser ocupada pela teoria crtica. Essa nova agenda pblica, ainda  espera de sua poltica pblica crtica, est emergindo junto com a verso "liquefeita" 
da condio humana moderna - e em particular na esteira da "individualizao" das tarefas da vida que derivam dessa condio. 
Essa nova agenda surge do hiato previamente discutido entre a individualidade dejure e defacto, ou entre a "liberdade negativa" legalmente imposta e a ausente - 
ou, pelo menos, longe de universalmente disponvel - "liberdade positiva' isto  a genuna 
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potncia da auto-afirmao. A nova condio no  muito diferente daquela que, segundo a Bblia, levou  rebelio dos israelitas e ao xodo do Egito. "O fara ordenou 
aos inspetores e seus capatazes que deixassem de suprir o povo com a palha utilizada para fazer tijolos ... 'Que eles vo e colham sua prpria palha, mas cuidem 
para que atinjam a mesma quota de tijolos de antes." Quando os capatazes argumentaram que no se pode fazer tijolos eficientemente a menos que a palha seja devidamente 
fornecida e acusaram o fara de ordenar o impossvel, ele inverteu a responsabilidade pelo fracasso: "Vocs so preguiosos, vocs so preguiosos." Hoje no h 
faras dando ordens aos capatazes para que aoitem os displicentes. (At o aoite se tornou um trabalho "faa- voc-mesmo" e foi substitudo pela auto-flagelao). 
Mas a tarefa de providenciar a palha foi igualmente abandonada pelas autoridades do momento, que dizem aos produtores de tijolos que s sua preguia os impede de 
fazer o trabalho adequadamente - e acima de tudo que o faam para sua prpria satisfao. 
O trabalho de que os homens esto encarregados hoje  muito semelhante ao que era desde o comeo dos tempos modernos: a autoconstituir a vida individual e tecer 
e manter as redes de laos com outros indivduos em processo de autoconstituio. Esse trabalho nunca foi questionado pela teoria crtica. O que estes tericos criticavam 
era a sinceridade e rapidez com que os indivduos eram libertados para realizar o trabalho que lhes tinha sido atribudo. A teoria crtica acusava de duplicidade 
ou ineficincia aqueles que deveriam ter providenciado as condies adequadas para a auto-afirmao: havia limitaes demais  liberdade de escolha e havia a tendncia 
totalitria intrnseca ao modo como a sociedade moderna fora estruturada e conduzida - tendncia essa que ameaava abolir a liberdade de uma vez, substituindo a 
liberdade de escolha pela tediosa homogeneidacie, imposta ou subrepticiamente introduzida. 
O destino do agente livre est cheio de antinomias difceis de avaliar e ainda mais dificejs de resolver. Consideremos, por exempio, a contradio das identidades 
autoconstituidas que devem ser suficientemente slidas para serem reconhecidas como tais e ao mesmo tempo flexveis o suficiente para no impedir a liberdade 
de movimentos futuros em circunstncias constantemente cambiantes e volteis. Ou a precariedade das parcerias humanas, agora sobrecarregadas de expectativas maiores 
que nunca, mas mal institucionalizadas (se institucionalizadas), e portanto menos resistentes  carga adicional. Ou o triste compromisso da responsabilidade repossuda, 
perigosamente  deriva entre as rochas da indiferena e da coero. Ou a fragilidade de toda ao comum, que tem como apoio apenas o entusiasmo e a dedicao dos 
atores, mas que precisa de algo mais durvel para manter sua integridade durante o tempo que leva para alcanar seus propsitos. Ou a notria dificuldade de generalizar 
as experincias, vividas como inteiramente pessoais e subjetivas, em problemas que possam ser inscritos na agenda pblica e tornar-se questes de poltica pblica. 
Esses so apenas alguns exemplos, que oferecem uma viso justa do tipo de desafio diante dos crticos que desejam reconectar sua disciplina  agenda da poltica 
pblica. 
Com boas razes os crticos suspeitavam de que, na verso iluminista do "dspota esclarecido' tal como incorporada nas prticas polticas da modernidade, o que conta 
 o resultado - a sociedade racionalmente estruturada e dirigida; suspeitavam de que as vontades, desejos e propsitos individuais, a vis formandi e a libidoformandi 
individuais, a propenso poitica a criar novas significaes independentes de funes, usos e propsitos, no eram mais que recursos, ou mesmo obstculos no caminho. 
Contra essa prtica, ou sua suposta tendncia, os crticos formularam a viso de uma sociedade que se rebela contra essa perspectiva, de uma sociedade em que precisamente 
essas vontades, desejos e propsitos, e sua satisfao, so o que conta e deve ser honrado - viso de uma sociedade que, por isso, milita contra todos os esquemas 
de perfeio impostos aos desejos (ou que os desconsideram) dos homens e mulheres que so includos sob seu nome genrico. A nica "totalidade" reconhecida e aceitvel 
pela maioria dos filsofos da escola crtica era a que poderia emergir das aes de indivduos criativos e livres para escolher. 
Havia um trao anarquista em toda a teorizao crtica: todo poder era suspeito, via-se o inimigo apenas no lado do poder, e o mesmo inimigo era acusado de todos 
os retrocessos e frustraes 
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62 Modernidade Lquida 
sofridas pela liberdade (inclusive pela falta de valor das tropas que deveriam enfrentar valentemente suas guerras de libertao, como no caso do debate da "cultura 
de massas"). Esperava-se que o perigo viesse e os golpes fossem desferidos do lado "pblico' sempre pronto a invadir e colonizar o "privado' o "subjetivo' o "individual' 
Muito menos ateno - quase nenhuma - foi dada aos perigos que se ocultavam no estreitamento e esvaziamento do espao pblico e  possibilidade da invaso inversa: 
a colonizao da esfera pblica pela privada. E no entanto essa eventualidade subestimada e subdiscutida se tornou hoje o principal obstculo  emancipao, que 
em seu estgio presente s pode ser descrita como a tarefa de transformar a autonomia individual de jure numa autonomia defacto. 
O poder poltico implica uma liberdade individual incompleta, mas sua retirada ou desaparecimento prenuncia a impotncia pra'tica da liberdade legalmente vitoriosa. 
A histria da emancipao moderna desloca-se de um confronto com o primeiro perigo para um confronto com o segundo. Para utilizar os termos de Isaiah Berlin, pode-se 
dizer que, depois da luta vitoriosa pela "liberdade negativa': as alavancas necessrias para transform-la numa "liberdade positiva" - isto , a liberdade para estabelecer 
a gama de opes e a agenda para a escolha entre elas - quebraram. O poder poltico perdeu muito de sua terrvel e ameaadora potncia opressiva - mas tambm perdeu 
boa parte de sua potncia capacitadora. A guerra pela emancipao no acabou. Mas, para progredir, deve agora ressuscitar o que na maior parte de sua histria lutou 
por destruir e afastar do caminho. A verdadeira libertao requer hoje mais, e no menos, da "esfera pblica "e do "poder pblico " Agora  a esfera pblica que 
precisa desesperadamente de defesa contra o invasor privado - ainda que, paradoxalmente, no para reduzir, mas para viabilizar a liberdade individual. 
Como sempre, o trabalho do pensamento crtico  trazer  luz os muitos obstculos que se amontoam no caminho da emancipao. Dada a natureza das tarefas de hoje, 
os principais obstculos que devem ser examinados urgentemente esto ligados s crescentes dificuldades de traduzir os problemas privados em questes pblicas, de 
condensar problemas intrinsecamente privados 
Emancipao 63 
em interesses pblicos que so maiores que a soma de seus ingredientes individuais, de recoletivizar as utopias privatizadas da "poltica-vida" de tal modo que possam 
assumir novamente a forma das vises da sociedade "boa" e "justa' Quando a poltica pblica abandona suas funes e a "poltica-vida" assume, os problemas enfrentados 
pelos indivduos de jure em seus esforos para se tornarem indivduos de facto passam a ser no-aditivos e no-cumulativos, destituindo assim a esfera pblica de 
toda substncia que no seja a do lugar em que as aflies individuais so confessadas e expostas publicamente. Do mesmo modo, a individualizao parece ser uma 
via de mo nica, e tambm parece destruir, ao avanar, todas as ferramentas que poderiam ser usadas para implementar seus objetivos de outrora. 
Essa tarefa coloca a teoria crtica cara a cara com um novo destinatrio. O espectro do Grande Irmo deixou de perambular pelos stos e pores do mundo quando o 
dspota esclarecido deixou de habitar as salas de estar e recepo. Em suas novas verses, moderno-lquidas e drasticamente encolhidas, ambos encontram abrigo no 
domnio diminuto, em miniatura, da poltica- vida pessoal;  l que as ameaas e oportunidades da autonomia individual - essa autonomia que no se pode realizar 
exceto na sociedade autnoma - devem ser procuradas e localizadas. A busca de uma vida em comum alternativa deve comear pelo exame das alternativas de poltica-vida. 
1 

2 INDIVIDUALIDADE 
Agora, aqui, veja,  preciso correr o mximo que voc puder para permanecer no mesmo lugar. Se quiser ir a algum outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais 
depressa do que isso! 
Lewis Carroil 
 dificil lembrar, e ainda mais dificil compreender, que h no mais de 50 anos a disputa sobre a essncia dos prognsticos populares, sobre o que se deveria temer 
e sobre os tipos de horrores que o futuro estava fadado a trazer se no fosse parado a tempo se travava entre o BraoeNew Worldde Aldous Huxley e o 1984 de Ceorge 
Orwell. 
A disputa certamente era legtima e honesta, pois os mundos to vividamente retratados pelos dois visionrios distpicos eram to diferentes quanto gua e vinho. 
O de OrwelI era um mundo de misria e destituio, de escassez e necessidade; o de Huxley era uma terra de opulncia e devassido, de abundncia e saciedade. Como 
era de se esperar, os habitantes do mundo de Orwell eram tristes e assustados; os de Huxley, despreocupados e alegres. Havia muitas outras diferenas no menos notveis: 
os dois mundos se opunham em quase todos os detalhes. 
No entanto, havia alguma coisa que unia as duas vises. (Sem isso, as duas distopias no dialogariam, e muito menos se oporiam.) O que elas compartilhavam era o 
pressentimento de um mundo estritamente controlado; da liberdade individual no apenas reduzida a nada ou quase nada, mas agudamente rejeitada por pessoas treinadas 
a obedecer a ordens e seguir rotinas estabelecidas; de uma pequena elite que manejava todos os cordes - d 
64 
Individualidade 65 
tal modo que o resto da humanidade poderia passar toda sua vida movendo-se como marionetes; de um mundo dividido entre administradores e administrados, projetistas 
e seguidores de projetos - os primeiros guardando os projetos grudados ao peito e os outros nem querendo nem sendo capazes de espiar os desenhos para captar seu 
sentido; de um mundo que fazia de qualquer alternativa algo inimaginvel. 
O fato de o futuro trazer menos liberdade, mais controle, vigilncia e opresso no estava em discusso. Orwell e Huxley no discordavam quanto ao destino do mundo; 
eles apenas viam de modo diferente o caminho que nos levaria at l se continussemos suficientemente ignorantes, obtusos, plcidos ou indolentes para permitir que 
as coisas seguissem sua rota natural. 
Em carta de 1769 a Sir Horace Mann, Horace Walpole escrevia que "o mundo  uma comdia para os que pensam, e uma tragdia para os que sentem' Mas os sentidos de 
"cmico" e "trgico" mudam ao longo do tempo, e quando Orwell e Huxley esboaram os contornos do trgico futuro, ambos sentiram que a tragdia do mundo era seu ostensivo 
e incontrolvel progresso rumo  separao entre os cada vez mais poderosos e remotos controladores e o resto, cada vez mais destitudo de poder e controlado. A 
viso de pesadelo que assombrava os dois escritores era a de homens e 
lheres que no mais controlavam suas prprias vidas. De modo semelhante a pensadores de outros tempos, Plato e Aristteles, que no eram capazes de imaginar uma 
sociedade boa ou m sem escravos, Huxley e Orwell no podiam conceber uma sociedade, fosse ela feliz ou infeliz, sem administradores, projetistas e supervisores 
que em conjunto escreviam o roteiro que outros deveriam seguir, ordenavam o desempenho, punham as falas na boca dos atores e demitiam ou encarceravam quem quer que 
improvisasse seus prprios textos. No podiam imaginar um mundo sem torres e mesas de controle. Os medos de seu tempo, tanto quanto suas esperanas e sonhos, giravam 
em torno de Reparties de Comando Supremo. 
Capitalismo - pesado e leve 
Nigel Thrift teria talvez classificado as histrias de Orwell e Huxley como "discurso de Josbua" e no como "discurso do Cnesis'' 
66 Modernidade Lquida 
Individualidade 
(Discursos, diz Thrift, so "metalinguagens que ensinam as pessoas a viver como pessoas') "Enquanto no discurso de Joshua a ordem  a regra e a desordem, uma exceo, 
no discurso do Gnesis a desordem  a regra e a ordem, uma exceo:" No discurso de joshua, o mundo (aqui Thrift cita Keneth Jowitt)  "centralmente organizado, 
rigidamente delimitado e histericamente preocupado com fronteiras impenetrveis':' 
"Ordem' permitam-me explicar, significa monotonia, regularidade, repetio e previsibilidade; dizemos que uma situao est "em ordem" se e somente se alguns eventos 
tm maior probabilidade de acontecer do que suas alternativas, enquanto outros eventos so altamente improvveis ou esto inteiramente fora de questo. Isso significa 
que em algum lugar algum (um Ser Supremo pessoal ou impessoal) deve interferir nas probabilidades, manipul-las e viciar os dados, garantindo que os eventos no 
ocorram aleatoriamente. 
O mundo ordeiro do discurso de Josbua  um mundo ngidamente controlado. Tudo nesse mundo serve a algum propsito, mesmo que no seja claro (por enquanto, para alguns, 
mas para sempre, para a maioria) qual  esse propsito. Esse mundo no tem espao para o que no tiver uso ou propsito. O no-uso, alm disso, seria reconhecido 
nesse mundo como propsito legtimo. Para ser reconhecido, deve servir  manuteno e perpetuao do todo ordenado. E a prpria ordem, e somente ela, que no requer 
legitimao; ela , por assim dizer, "seu prprio propsito" Ela simplesmente 4 e no adianta desejar que no fosse: isso  tudo o que precisamos ou podemos saber 
sobre ela. Talvez exista porque Deus a fez existir em Seu ato de Criao Divina; ou porque criaturas humanas, mas  imagem de Deus, a fizeram existir em seu trabalho 
continuado de projetar, construir e administrar. Em nossos tempos modernos, com Deus em prolongado afastamento, a tarefa de projetar e servir  ordem cabe aos seres 
humanos. 
Como Karl Marx descobriu, as idias das classes dominantes tendem a ser as idias dominantes (proposio que, com nossa nova compreenso da linguagem e de seu funcionamento, 
poderamos considerar pleonstica). Por pelo menos 200 anos foram os administradores das empresas capitalistas que dominaram o mun 67 
do - isto , separaram o factvel do implausvel, o racional do irracional, o sensato do insano, e de outras formas ainda determinaram e circunscreveram a gama de 
alternativas dentro das quais confinar as trajetrias da vida humana. Era, portanto, sua viso do mundo, em conjunto com o prprio mundo, formado e reformado  imagem 
dessa viso, que alimentava e dava substncia ao discurso dominante. 
At recentemente era o discurso de Joshua; agora, e cada vez mais,  o discurso do Gnesis. Mas ao contrrio do que Thrift d a entender, o encontro de hoje, dentro 
do mesmo discurso, de empresas e academia, dos que fazem e os que interpretam o mundo, no  novidade; nem uma qualidade restrita ao novo capitalismo ("mole' como 
o chama Thrift) vido de conhecimento. Por alguns sculos, a academia no teve outro mundo para envolver em suas tramas conceituais, sobre o qual refletir, para 
descrever e interpretar, que no aquele sedimentado pela viso e prtica capitalistas. Durante esse perodo, empresas e academia estavam em permanente contato, mesmo 
que - por sua incapacidade de conversar entre si - tenham dado a impresso de manter distancia. E o lugar de encontro tem sido sempre, como hoje, indicado e fornecido 
pela primeira. 
O mundo que sustentava o discurso de Joshua e lhe dava credibilidade era o mundo fordista. (O termo "fordismo" foi utilizado pela primeira vez h muito tempo por 
Antonio Gramsci e Henri de Man, mas, fiel aos hbitos da coruja de Minerva de Hegel, foi redescoberto e trazido ao primeiro plano e ao uso comum apenas quando o 
sol que brilhava sobre as prticas fordistas comeou a se pr.) Na descrio retrospectiva de Alain Lipietz, o fordismo foi, em seu apogeu, um modelo de industrializao 
de acumulao e de regula o: 
[uma] combinao de formas de ajuste das expectativas e do comportamento contraditrio dos agentes individuais aos princpios coletivos do regime de acumulao 
O paradigma industrial inclua o princpio tailorista da racionalizao, juntamente com a constante mecanizao. Essa "racionalizao" baseava-se na separao dos 
aspectos intelectual e manual do traba ii 
68 Modernidade Lquida 
lho ... o conhecimento social sistematizado a partir de cima e incorporado ao maquinrio pelos projetistas. Quando Taylor e os engenheiros tailoristas introduziram 
esses princpios no comeo do sculo xx, seu objetivo explcito era forar o controle da administrao sobre os trabalhadores.2 
Mas o modelo fordista era mais que isso, um local epistemolgico de construo sobre o qual se erigia toda uma viso de mundo e a partir da qual ele se sobrepunha 
majestaticamente  totalidade da experincia vivida, O modo como os seres humanos entendem o mundo tende a ser sempre praxeomrfico:  sempre determinado pelo know-how 
do dia, pelo que as pessoas podem fazer e pelo modo como usualmente o fazem. A fbrica fordista - com a meticulosa separao entre projeto e execuo, iniciativa 
e atendimento a comandos, liberdade e obedincia, inveno e determinao, com o estreito entrelaamento dos opostos dentro de cada uma das oposies binrias e 
a suave transmisso de comando do primeiro elemento de cada par ao segundo - foi sem dvida a maior realizao at hoje da engenharia social orientada pela ordem. 
No surpreende que tenha estabelecido o quadro metafrico de referncia (mesmo que a referncia no fosse citada) para todos os que tentavam compreender como a realidade 
humana opera em todos os seus nveis - tanto o societal-global quanto o da vida individual. Sua presena dissimulada ou aberta  fcil de detectar em vises aparentemente 
to distantes como o "sistema social" parsoniano, que se auto-reproduz e  dirigido pelo "conjunto central de valores", e o "projeto de vida" sartreano, que serve 
como projeto-guia para o esforo de construo da identidade do eu. 
De fato, parecia no existir alternativa  fbrica fordista, nem algum obstculo srio a impedir a expanso do modelo fordista at os mais recnditos recessos e 
fissuras da sociedade. O debate entre Orwell e Huxley, assim como o confronto entre socialismo e capitalismo, foi, a esse respeito, no mais que uma desavena em 
famlia. O comunismo, afinal, desejava apenas livrar o modelo fordista de suas poluies presentes (no imperfeies) - do maligno caos gerado pelo mercado que se 
interpunha no caminho da lti Individualidad 
69 
ma e total derrota dos acidentes e da contingncia e que assim limitava o planejamento racional. Nas palavras de Lnin, a viso do socialismo seria efetivada se 
os comunistas conseguissem "combinar o poder sovitico e a organizao sovitica da administrao com o ltimo progresso do capitalismo",3 com a "organizao sovitica 
da administrao" significando, para Lnin, permitir que o "ltimo progresso do capitalismo" (isto , como ele insistia em repetir, a "organizao cientfica do 
trabalho") transbordasse de dentro dos muros da fbrica para penetrar e saturar a vida social como um todo. 
O fordismo era a autoconscincia da sociedade moderna em sua fase "pesada", "volumosa' ou "imvel" e "enraizada", "s1ida' Nesse estgio de sua histria conjunta, 
capital, administrao e trabalho estavam, para o bem e para o mal, condenados a ficar juntos por muito tempo, talvez para sempre - amarrados pela combinao de 
fbricas enormes, maquinaria pesada e fora de trabalho macia. Para sobreviver, e principalmente para agir de modo eficiente, tinham que "cavar", desenhar fronteiras 
e marclas com trincheiras e arame farpado, ao mesmo tempo em que faziam a fortaleza suficientemente grande para abrigar todo o necessrio para resistir a um cerco 
prolongado, talvez sem perspectivas. O capitalismo pesado era obcecado por volume e tamanho, e, por isso, tambm por fronteiras, fazendo-as firmes e impenetrveis. 
O gnio de Henry Ford foi descobrir o modo de manter os defensores de sua fortaleza industrial dentro dos muros - para guard-los da tentao de desertar ou mudar 
de lado. Como disse o economista da Sorbonne Daniel Cohen: 
Henry Ford decidiu um dia "dobrar" os salrios de seus trabalhadores. A razo (publicamente) declarada, a clebre frase "quero que meus trabalhadores sejam pagos 
suficientemente bem para comprar meus carros" foi, obviamente, uma brincadeira. As compras dos trabalhadores eram uma frao infima de suas vendas, mas os salrios 
pesavam muito mais em seus custos ... A verdadeira razo para o aumento dos salrios foi a formidvel rotatividade de fora de trabalho que a Ford enfrentava. Ele 
decidiu dar o aumento espetacular aos trabalhadores para fix-los  linha ... 
70 Modernidade Lquida 
A corrente invisvel que prendia os trabalhadores a seus lugares e impedia sua mobilidade era, nas palavras de Cohen, "o corao do fordismo" O rompimento dessa 
corrente foi tambm o divisor de guas decisivo na experincia de vida, e se associa  decadncia e extino aceleradas do modelo fordista. "Quem comea uma carreira 
na Microsoft", observa Cohen, "no sabe onde ela vai terminar. Comear na Ford ou na Renault implicava, ao contrrio, a quase certeza de que a carreira seguiria 
seu curso no mesmo lugar' 
Em seu estgio pesado, o capital estava to fixado ao solo quanto os trabalhadores que empregava. Hoje o capital viaja leve 
- apenas com a bagagem de mo, que inclui nada mais que pasta, telefone celular e computador porttil. Pode saltar em quase qualquer ponto do caminho, e no precisa 
demorar-se em nenhum lugar alm do tempo que durar sua satisfao. O trabalho, porm, permanece to imobilizado quanto no passado - mas o lugar em que ele imaginava 
estar fixado de uma vez por todas perdeu sua solidez de outrora; buscando rochas, as ncoras encontram areias movedias. Alguns dos habitantes do mundo esto em 
movimento; para os demais,  o mundo que se recusa a ficar parado. O discurso de Joshua soa vazio quando o mundo, que uma vez teve legislador, rbitro e corte de 
apelao reunidos em uma s entidade, parece cada vez mais com um dos jogadores, escondendo as cartas, preparando armadilhas e aguardando sua vez de blefar. 
Os passageiros do navio "Capitalismo Pesado" confiavam (nem sempre sabiamente) em que os seletos membros da tripulao com direito a chegar  ponte de comando conduziriam 
o navio a seu destino. Os passageiros podiam devotar toda sua ateno a aprender e seguir as regras a eles destinadas e exibidas ostensiva- mente em todas as passagens. 
Se reclamavam (ou s vezes se amotinavam), era contra o capito, que no levava o navio a porto com a suficiente rapidez, ou por negligenciar excepcionalmente o 
conforto dos passageiros. J os passageiros do avio "Capitalismo Leve" descobrem horrorizados que a cabine do piloto est vazia e que no h meio de extrair da 
"caixa preta" chamada piloto automtico qualquer informao sobre para onde vai o avio, onde aterrizar, quem escolher o aeroporto e sobre se existem regras 
Individualidade 71 
que permitam que os passageiros contribuam para a segurana da chegada. 
Tenho carro, posso viajar 
Podemos dizer que o rumo dos eventos no mundo do capitalismo provou ser o exato oposto do que Max Weber previa quando escolheu a burocracia como prottipo da sociedade 
por vir e a retratou como a forma por excelncia da ao racional. Extrapolando sua viso do futuro a partir da experincia contempornea do capitalismo pesado (o 
homem que cunhou a expresso "gaiola de ferro" no podia estar ciente de que o "peso" era um mero atributo temporrio do capitalismo e que outras modalidades da 
ordem capitalista eram concebveis e estavam em gestao), Weber previu o triunfo iminente da "racionalidade instrumental": com o destino da histria humana dado 
como sabido, e a questo dos fins da ao humana acertada e no mais aberta  contestao, as pessoas passariam a se ocupar mais, talvez exclusivamente, da questo 
dos meios - o futuro seria, por assim dizer, obcecado com os meios. Toda racionalizao adicional, em si mesma uma concluso antecipada, consistiria em afiar, ajustar 
e aperfeioar os meios. Sabendo que a capacidade racional dos seres humanos tende a ser solapada constantemente por propenses afetivas e outras inclinaes igualmente 
irracionais, poder-se-ia suspeitar de que a disputa sobre os fins dificilmente chegaria a um final; mas essa disputa seria no futuro expulsa da corrente principal, 
impulsionada pela inexorvel racionalizao - e deixada para os profetas e pregadores  margem dos superiores (e decisivos) afazeres da vida. 
Weber tambm se referiu a outro tipo de ao orientada, a que chamou de racional por referncia a valorei-, mas a se referia  procura de valores "enquanto tais" 
e "independente da perspectiva de sucesso exterior" Tambm deixou claro que os valores em que pensava eram de tipo tico, esttico ou religioso - isto , pertencentes 
 categoria que o capitalismo moderno degradou e declarou praticamente dispensvel e irrelevante, quando no prejudicial, para a conduta racional que promovia. Podemos 
apenas 
9' 
1 
72 
Modernidade Lquida 
especular que a necessidade de adicionar a racionalidade por referncia a valores a seu inventrio dos tipos de ao ocorreu a Weber tardiamente, sob o impacto da 
revoluo boichevique, que parecia refutar a concluso de que a questo dos objetivos tinha sido resolvida de uma vez por todas, e implicava, ao contrrio, que ainda 
poderia surgir uma situao em que algumas pessoas se manteriam fiis a seus ideais, por mais remota e ntima que fosse a chance de realiz-los e por mais exorbitante 
que fosse o custo da tentativa - e assim se desviariam da nica preocupao legtirua, a saber, o clculo dos meios apropriados  obteno de determinados fins. 
Quaisquer que sejam as aplicaes do conceito da racionalidade referida a valores no esquema weberiano da histria, esse conceito  intil se quisermos captar a 
essncia do momento histrico presente. O capitalismo leve de hoje no  "racional por referncia a valores" no sentido de Weber. ainda que se afaste do tipo ideal 
da ordem racional-instrumental. O capitalismo leve parece estar a anos-luz de distncia da racionalidade referida a valores no estilo weberiano; se alguma vez na 
histria os valores foram abraados "em termos absolutos' isso certamente no  o que acontece hoje. O que realmente aconteceu no curso da passagem do capitalismo 
pesado para o leve foi o desbaratamento dos invisveis "politburos" capazes de "absolutizar" os valores, das cortes supremas destinadas a pronunciar veredictos sem 
apelao sobre os objetivos dignos de perseguio (as instituies indispensveis e centrais para o discurso de Joshua). 
Na falta de uma Suprema Repartio (ou melhor, na presena de muitas reparties competindo pela supremacia, nenhuma delas com grandes chances de vencer), a questo 
dos objetivos est novamente posta e destinada a tornar-se causa de muita hesitao e de agonia sem fim, a solapar a confiana e a gerar a sensao enervante de 
incerteza e, portanto, tambm um Estado de ansiedade perptua. Nas palavras de Gerhard Schulze, este  um novo tipo de incerteza: "no saber os fins, em lugar da 
incerteza tradicional de no saber os meios'6 No  mais o caso de tentar, sem ter o conhecimento completo, calcular os meios (os j disponveis e os tidos como 
necessrios e zelosamente buscados) em relao 
Individualidade 
73 
a determinado fim. O que est em pauta  a questo de considerar e decidir, em face de todos os riscos conhecidos ou meramente adivinhados, quais dos muitos flutuantes 
e sedutores fins "ao alcance" (isto , que podem ser razoavelmente perseguidos) devem ter prioridade - dada a quantidade de meios disponveis e levando em considerao 
as nfimas chances de sua utilidade duradoura. 
Nas novas circunstncias, o mais provvel  que a maior parte da vida humana e a maioria das vidas humanas consuma-se na agonia quanto  escolha de objetivos, e 
no na procura dos meios para os fins, que no exigem tanta reflexo. Ao contrrio de seu antecessor, o capitalismo leve tende a ser obcecado por valores. O pequeno 
anncio apcrifo na coluna de "empregos procurados" - "tenho carro, posso viajar" - pode servir de eptome s novas problemticas da vida, ao lado da questo atribuda 
aos chefes dos institutos e laboratrios tcnicos e cientficos de hoje: "Achamos a soluo. Vamos agora procurar o problema" A pergunta "o que posso fazer?" passou 
a dominar a ao, minimizando e excluindo a questo "como fazer da melhor maneira possvel aquilo que tenho que no posso deixar de fazer?" 
Como as Supremas Reparties que cuidavam da regularidade do mundo e guardavam os limites entre o certo e o errado no esto mais  vista, o mundo se torna uma coleo 
infinita de possibilidades: um continer cheio at a boca com uma quantidade incontvel de oportunidades a serem exploradas ou j perdidas. H mais - muitssimo 
mais - possibilidades do que qualquer vida individual, por mais longa, aventurosa e industriosa que seja, pode tentar explorar, e muito menos adotar. E a infinidade 
das oportunidades que preenche o espao deixado vazio pelo desaparecimento da Suprema Repartio. 
No surpreende que no mais se escrevam distopias nestes tempos: o mundo ps-fordista, "moderno fluido' dos indivduos que escolhem em liberdade, no mais se ocupa 
do sinistro Grande Jmo, que puniria os que sassem da linha. Neste mundo, no entanto, tampouco h espao para o benigno e cuidadoso Irmo Mais Velho em quem se 
podia confiar e buscar apoio para decidir que coisas eram dignas de ser feitas ou possudas e com quem se 
74 Modernidade Lquida 
Ind iv i d uol idade 
podia contar para proteger o irmo mais novo dos valentes que se punham em seu caminho; e assim as utopias da boa sociedade tambm deixaram de ser escritas. Tudo, 
por assim dizer, corre agora por conta do individuo. Cabe ao indivduo descobrir o que  capaz de fazer, esticar essa capacidade ao mximo e escolher os fins a que 
essa capacidade poderia melhor servir - isto , com a mxima satisfao concebvel. Compete ao indivduo "amansar o inesperado para que se torne um entretenimento"7 
Viver num mundo cheio de oportunidades - cada uma mais apetitosa e atraente que a anterior, cada uma "compensando a anterior, e preparando o terreno para a mudana 
para a seguinte"8 
-  uma experincia divertida. Nesse mundo, poucas coisas so predeterminadas, e menos ainda irrevogveis. Poucas derrotas so definitivas, pouqussimos contratempos, 
irreversveis; mas nenhuma vitria  tampouco final. Para que as possibilidades continuem infinitas, nenhuma deve ser capaz de petrificar-se em realidade para sempre. 
Melhor que permaneam lquidas e fluidas e tenham "data de validade", caso contrrio poderiam excluir as oportunidades remanescentes e abortar o embrio da prxima 
aventura. Como dizem Zbyszko Melosik e Tomasz Szkudlarek em seu interessante estudo de problemas da identidade,9 viver em meio a chances aparentemente infinitas 
(ou pelo menos em meio a maior nmero de chances do que seria razovel experimentar) tem o gosto doce da "liberdade de tornar-se qualquer um' Porm essa doura tem 
uma cica amarga porque, enquanto o "tornar-se" sugere que nada est acabado e temos tudo pela frente, a condio de "ser algum", que o tornar-se deve assegurar, 
anuncia o apito final do rbitro, indicando o fim do jogo: "Voc no est mais livre quando chega o final; voc no  voc, mesmo que tenha se tornado algum' Estar 
inacabado, incompleto e subdeterminado  um estado cheio de riscos e ansiedade, mas seu contrrio tambm no traz um prazer pleno, pois fecha antecipadamente o que 
a liberdade precisa manter aberto. 
A conscincia de que o jogo continua, de que muito vai ainda acontecer, e o inventrio das maravilhas que a vida pode oferecer so muito agradveis e satisfatrios. 
A suspeita de que nada do que j foi testado e apropriado  duradouro e garantido contra a 
75 
decadncia , porm, a proverbial mosca na sopa. As perdas equivalem aos ganhos. A vida est fadada a navegar entre os dois, e nenhum marinheiro pode alardear ter 
encontrado um itinerrio seguro e sem riscos. 
O mundo cheio de possibilidades  como uma mesa de buf com tantos pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar de todos. Os comensais 
so conjumidores, e a mais custosa e irritante das tarefas que se pode pr diante de um consumidor  a necessidade de estabelecer prioridades: a necessidade de dispensar 
algumas opes inexploradas e abandonlas. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso e no da falta de escolha. "Ser que utilizei os meios  minha disposio 
da melhor maneira possvel?"  a pergunta que mais assombra e causa insnia ao consumidor. Como disse Marina Bianchi num trabalho coletivo de economistas que tinham 
em mente os vendedores de bens de consumo, 
no caso do consumidor, a funo objetiva ... est vazia 
Os fins coerentemente se equivalem aos meios, mas os prprios fins no so escolhidos racionalmente 
Hipoteticamente, os consumidores, mas no as firmas, no podem nunca errar, ou ser pegos errando) 
Mas se no se pode errar, tambm no se pode saber se se est certo. Se no h movimentos errados, no h nada que permita distinguir um movimento como melhor, e 
assim nada que permita reconhecer o movimento certo entre as vrias alternativas - nem antes nem depois de fazer o movimento. E uma bno mista que o perigo do 
erro no esteja nas cartas - uma alegria duvidosa, certamente, dado que seu preo  a incerteza perptua e um desejo que provavelmente nunca ser saciado. E uma 
boa noticia, uma promessa de permanecer no ramo, para os vendedores, mas para os compradores  a certeza de que continuaro aflitos. 
Pare de me dizer; mostre-me! 
O capitalismo pesado, no estilo fordista, era o mundo dos que ditavam as leis, dos projetistas de rotinas e dos supervisores; o 
1 
76 Modernidade Lquida 
Individualidade 77 
mundo de homens e mulheres dirigidos por outros, buscando fins determinados por outros, do modo determinado por outros. Por essa razo era tambm o mundo das autoridades: 
de lderes que sabiam mais e de professores que ensinavam a proceder melhor. 
O capitalismo leve, amigvel com o consumidor, no aboliu as autoridades que ditam leis, nem as tornou dispensveis. Apenas deu lugar e permitiu que coexistissem 
autoridades em nmero to grande que nenhuma poderia se manter por muito tempo e menos ainda atingir a posio de exclusividade. Ao contrrio do erro, a verdade 
 s uma, e pode ser reconhecida como verdade (isto , com o direito de declarar erradas todas as alternativas a ela mesma) justamente por ser nica. Parando para 
pensar, "numerosas autoridades"  uma contradio em termos. Quando as autoridades so muitas, tendem a cancelar-se mutuamente, e a nica autoridade efetiva na rea 
 a que pode escolher entre elas. E por cortesia de quem escolhe que a autoridade se torna uma autoridade. As autoridades no mais ordenam; elas se tornam agradveis 
a quem escolhe; tentam e seduzem. 
O "lder" foi um produto no-intencional, e um complemento necessrio, do mundo que tinha por objetivo a "boa sociedade' ou a sociedade "certa e apropriada' e procurava 
manter as alternativas imprprias  distncia. O mundo da "modernidade lquida" no faz nem uma coisa nem outra. A infame frase de efeito de Margaret Thatcher "no 
existe essa coisa de sociedade"  ao mesmo tempo uma reflexo perspicaz sobre a mudana no carter do capitalismo, uma declarao de intenes e uma profecia auto- 
cumprida: em seus rastros veio o desmantelamento das redes normativas e protetoras, que ajudavam o mundo em seu percurso de tornar-se carne. "No-sociedade" significa 
no ter nem utopia nem distopia: como Peter Drucker, o guru do capitalismo leve, disse, "no mais salvao pela sociedade" - sugerindo (ainda que por omisso e no 
por afirmao) que, por implicao, a responsabilidade pela danao no pode ficar com a sociedade; a redeno e a condenao so produzidas pelo indivduo e somente 
por ele - o resultado do que o agente livre fez livremente de sua vida. 
No faltam, obviamente, pessoas que afirmam "estar por dentro' e muitas delas tm legies de seguidores prontos a lhes fazer 
coro. Tais pessoas "por dentro' mesmo aquelas cujo conhecimento no foi posto publicamente em dvida, no so, no entanto, lderes-, elas so, no mximo, conselheiros 
- e uma diferena crucial entre lderes e conselheiros  que os primeiros devem ser seguidos e os segundos precisam ser contratados e podem ser demitidos. Os lderes 
demandam e esperam disciplina; os conselheiros podem, na melhor das hipteses, contar com a boa vontade do outro de ouvir e prestar ateno. E devem primeiro conquistar 
essa vontade bajulando os possveis ouvintes. Outra diferena crucial entre lderes e conselheiros  que os primeiros agem como intermedirios entre o bem individual 
e o "bem de todos'; ou, (como diria C. Wright Mills) entre as preocupaes privadas e as questes pblicas. Os conselheiros, ao contrrio, cuidam de nunca pisar 
fora da rea fechada do privado. Doenas so individuais, assim como a terapia; as preocupaes so privadas, assim como os meios de lutar para resolv-las. Os conselhos 
que os conselheiros oferecem se referem  polz'tica-vida, no  Poltica com P maisculo; eles se referem ao que as pessoas aconselhadas podem fazer elas mesmas 
e para si prprias, cada uma para si - no ao que podem realizar em conjunto para cada uma delas, se unirem foras. 
Em um dos maiores sucessos entre os popularssimos livros de auto-ajuda (vendeu mais de cinco milhes de cpias desde sua publicao em 1987), Melody Beattie adverte/aconselha 
seus leitores: "A maneira mais garantida de enlouquecer  envolver-se com os assuntos de outras pessoas, e a maneira mais rpida de tornar-se so e feliz  cuidar 
dos prprios" O livro deve seu sucesso instantneo ao titulo sugestivo (Codependent no More), que resume seu contedo: tentar resolver os problemas de outras pessoas 
nos torna dependentes, e a dependncia oferece refns ao destino - ou, mais precisamente, a coisas que no dominamos e a pessoas que no controlamos; portanto, cuidemos 
de nossos problemas, e apenas de nossos problemas, com a conscincia limpa. H pouco a ganhar fazendo o trabalho de outros, e isso desviaria nossa ateno do trabalho 
que ningum pode fazer seno ns mesmos. Tal mensagem soa agradvel - como uma confirmao, uma absolvio e uma luz verde necessria - a todos os que, ss, so 
forados a seguir, a favor ou contra seu prprio juzo, e no 
Modernidade Lquida 
sem dor na conscincia, a exortao de Samuel Butier: "No fim, o prazer  melhor guia que o direito ou o dever:" 
"Ns"  o pronome pessoal usado com mais freqncia pelos lderes. J os conselheiros tm pouco que fazer com ele: "ns" no  mais que um agregado de "eus' e o 
agregado. ao contrrio do "grupo" de mile Durkheim, no  maior que a soma de suas partes. Ao fim da sesso de aconselhamento, as pessoas aconselhadas esto to 
ss quanto antes. Isso quando sua solido no foi reforada: quando sua impresso de que seriam abandonadas  sua prpria sorte no foi corroborada e transformada 
em uma quase certeza. Qualquer que fosse o contedo do aconselhamento, este se referia a coisas que a pessoa aconselhada deveria fazer por si mesma, aceitando inteira 
responsabilidade por faz-las de maneira apropriada, e no culpando a ningum pelas conseqncias desagradveis que s poderiam ser atribuidas a seu prprio erro 
ou negligncia. 
O melhor conselheiro  o que est ciente do fato de que aqueles que recebero os conselhos querem uma lio-objeto. Desde que a natureza dos problemas seja tal que 
eles possam ser enfrentados pelos indivduos por conta prpria e por esforos individuais, o que as pessoas em busca de conselho precisam (ou acreditam precisar) 
 um exemplo de como outros homens e mulheres, diante de problemas semelhantes, se desincumbem deles. E elas precisam do exemplo por razes ainda mais essenciais: 
o nmero dos que se sentem "infelizes"  maior que o dos que conseguem indicar e identificar as causas de sua infelicidade. O sentimento de "estar infeliz"  muitas 
vezes difuso e solto; seus contornos so apagados, suas razes, espalhadas; precisa tornar-se "tangvel" - moldado e nomeado, a fim de tornar o igualmente vago desejo 
de felicidade uma tarefa especfica. Olhando para a experincia de outras pessoas, tendo uma idia de suas dificuldades e atribulaes, esperamos descobrir e localizar 
os problemas que causaram nossa prpria infelicidade, dar-lhes um nome e, portanto, saber para onde olhar para encontrar meios de resistir a eles ou resolvlos. 
Explicando a fenomenal popularidade do JaneFonda's Workoui Book (1981) e a tcnica de auto-disciplina que esse livro ps  
ndividuaj idade 
79 
disposio de milhes de mulheres norte-americanas, Hilary Radner observa que 
a instrutora se oferece como um exemplo ... mais do que como uma autoridade... 
A mulher que se exercita possui seu prprio corpo pela identificao com uma imagem que no  a sua prpria mas a dos corpos que lhe so oferecidos como exemplo. 
Jane Fonda  bastante explcita sobre a essncia do que oferece e bastante direta sobre o tipo de exemplo que seus leitores devem seguir: "Gosto muito de pensar 
que meu corpo  produto de mim mesma,  meu sangue e entranhas.  minha responsabilidade:" A mensagem de Fonda para toda mulher  que trate seu corpo como sua propriedade 
(meu sangue, minhcis entranhas), seu prprio produto e, acima de tudo, sua prpria responsabilidade. Para sustentar e reforar o amour de sol ps-moderno, eIa invoca 
(ao lado da tendncia de consumidora de auto-identificar-se pela propriedade) a memria do muito pr-ps-moderno - em verdade mais pr-moderno do que moderno - instinto 
de artesanato: 
o produto de meu trabalho  to bom quanto (e no melhor que) a habilidade, ateno e cuidado que ponho em sua produo. Quaisquer que sejam os resultados, no tenho 
ningum mais a quem possa elogiar (ou culpar, se for o caso). O lado inverso da mensagem tambm no  ambguo, ainda que no soletrado com a mesma clareza: voc 
deve a seu corpo cuidado, e se negligenciar esse dever, voc deve sentir-se culpada e envergonhada. Imperfeies de seu corpo so sua culpa e vergonha. Mas a redeno 
do pecado est ao alcance das mos da pecadora, e s de suas mos. 
Repito com Hilary Radner: ao dizer tudo isso, Jane Fonda no age como autoridade (como quem formula a lei, estabelece a norma, prega ou ensina). Ela se "oferece 
como exemplo" Sou famosa e amada; sou um objeto de desejo e admirao. Por qu? Qualquer que seja a razo, existe porque eu a fiz existir. Olhem meu corpo: 
 esguio, flexvel, tem boa forma - perenemente jovem. Voc certamente gostaria de ter - de ser - um corpo como o meu. Meu corpo  meu trabalho; se voc se exercitar 
como eu, voc poder 
"1 
80 Modernidade Lquido 
t-lo. Se voc sonha em "ser como Jane Fonda", lembre-se que fui eu, Jane Fonda, que fiz de mim a Jane Fonda desses sonhos. 
Ser rica e famosa ajuda,  claro; confere peso  mensagem. Embora Jane Fonda se esforce para se pr como exemplo, e no autoridade, seria tolo negar que, sendo quem 
, seu exemplo traz "naturalmente" uma autoridade que outros exemplos teriam que trabalhar muito para obter. Jane Fonda  de certa maneira um caso excepcional: ela 
herdou a condio de "estar sob os refletores" e atraiu ainda mais refletores sobre suas atividades muito antes de decidir fazer de seu corpo um exemplo. Em geral, 
porm, no podemos estar certos da direo em que funciona a relao causal entre a disposio de seguir um exemplo e a autoridade da pessoa que serve como exemplo. 
Como observou Daniel J. Boorstin - com graa, mas no de brincadeira (em T/zelmage, 1961) -, uma celebridade  uma pessoa conhecida por ser muito conhecida, e um 
besi-seiler  um livro que vende bem porque est vendendo bem. A autoridade amplia o nmero de seguidores, mas, no mundo de fins incertos e cronicamente subdeterminados, 
 o nmero de seguidores que faz - que - a autoridade. 
Qualquer que seja o caso, no par exemplo-autoridade a parte do exemplo  a mais importante e mais solicitada. As celebridades com autoridade suficiente para fazer 
com que o que dizem seja digno de ateno mesmo antes que o digam so muito poucas para estrelar os inumerveis programas de entrevistas da TV (e raramente aparecem 
nos mais populares deles, como o de Oprah e o de Trisha), mas isso no impede que esses programas sejam uma compulso diria para milhes de homens e mulheres vidos 
por aconselhamento. A autoridade da pessoa que compartilha sua histria de vida pode fazer com que os espectadores observem o exemplo com ateno e aumenta os ndices 
de audincia. Mas a falta de autoridade de quem conta sua vida, o fato de ela no ser uma celebridade, sua anonimidade, pode fazer com que o exemplo seja mais fcil 
de seguir e assim ter um potencial adicional prprio. As no-celebridades, os homens e mulheres "comuns' "como voc e eU", que aparecem na telinha apenas por um 
momento passageiro (no mais do que o necessrio para contar a histria e receber o aplauso merecido, assim como alguma crtica por es- 
Individualidade 81 
conder partes picantes ou gastar tempo demais com as partes desinteressantes) so to desvalidas e infelizes quanto os espectadores, sofrendo o mesmo tipo de golpes 
e buscando desesperada- mente uma sada honrosa e um caminho promissor para uma vida mais feliz. E assim, o que elas fizeram eu tambm posso fazer; talvez at melhor. 
Posso aprender alguma coisa u'tiltanto com suas vitrias quanto com suas derrotas. 
Seria arrogante, alm de equivocado, condenar ou ridicularizar o vcio dos programas de entrevistas como efeito da eterna avidez humana pela fofoca e da "curiosidade 
barata" Num mundo repleto de meios, mas notoriamente pouco claro sobre os fins, as lies retiradas dos programas de entrevistas respondem a uma demanda genuna 
e tm valor pragmtico inegvel, pois j sabemos que depende de ns mesmos fazer (e continuar a fazer) o melhor possvel de nossas vidas; e como tambm sabemos que 
quaisquer recursos requeridos por tal empreendimento s podem ser procurados e encontrados entre nossas prprias habilidades, coragem e determinao,  vital saber 
como agem outras pessoas diante de desafios semelhantes. Podem ter descoberto estratagemas admirveis que no percebemos; podem ter explorado partes da questo a 
que no demos ateno ou em que no nos aprofundamos o suficiente. 
Essa no , porm, a nica vantagem. Como dito acima, nomear o problema  em si uma tarefa assustadora, e sem esse nome para o sentimento de inquietao ou infelicidade 
no h esperana de cura. No entanto, embora o sofrimento seja pessoal e privado, uma "linguagem privada"  uma incongruncia. O que quer que seja nomeado, inclusive 
os sentimentos mais secretos, pessoais e ntimos, s o  propriamente se os nomes escolhidos forem de domnio pblico, se pertencerem a uma linguagem compartilhada 
e pblica e forem compreendidos pelas pessoas que se comunicam nessa linguagem. Os programas de entrevistas so lies pblicas de uma linguagem ainda-no-nascida-mas-prestes-a-nas

cer. Fornecem as palavras que podero ser utilizadas para "nomear o problema" - para expressar, em modos publicamente legveis, o que at agora era inefvel e assim 
permaneceria sem tais palavras. 
82 Modernidade Lquido 
Esse , em si, um ganho da maior importncia - mas h ainda outros. Nos programas de entrevistas, palavras e frases que se referem a experincias consideradas ntimas 
e, portanto, inadequadas como tema de conversa so pronunciadas em pblico - para aprovao, divertimento e aplauso universais. Pela mesma razo, os programas de 
entrevistas legitimam o discurso pblico sobre questes privadas. Tornam o indizvel dizvel, o vergonhoso, decente, e transformam o feio segredo em questo de orgulho. 
At certo ponto so rituais de exorcismo - e muito eficazes. Graas aos programas de entrevistas, posso falar de agora em diante abertamente sobre coisas que eu 
pensava (equivocadamente, agora vejo) infames e infamantes e, portanto, destinadas a permanecer secretas e a serem sofridas em silncio. Como minha confisso no 
 mais secreta, ganho mais que o conforto da absolvio: no preciso mais me sentir envergonhado ou temeroso de ser desprezado, condenado por impudncia ou relegado 
ao ostracismo. Essas so, afinal, as coisas de que as pessoas falam compungidas na presena de milhes de espectadores. Seus problemas privados, e assim tambm meus 
prprios problemas, to parecidos aos deles, so adequados para discusso pblica. No que se tornem questes pz.'blicar, entram na discusso precisamente em sua 
condio de questes privadas e, por mais que sejam discutidas, como os leopardos, tambm no mudam suas pintas. Ao contrrio, so reafirmadas como privadas e emergiro 
da exposio pblica reforadas em seu carter privado. Afinal, todos os que falaram concordaram que, na medida em que foram experimentadas e vividas privadamente, 
 assim que essas coisas devem ser confrontadas e resolvidas. 
Muitos pensadores influentes (sendo Jrgen Habermas o mais importante deles) advertem sobre a possibilidade de que a "esfera privada" seja invadida, conquistada 
e colonizada pela "pblica' Voltando  memria recente da era que inspirou as distopias como as de Huxley ou de Orwell, pode-se compreender tal temor. As premonies 
parecem, no entanto, surgir da leitura do que acontece diante de nossos olhos com as lentes erradas. De fato, a tendncia oposta  advertncia  a que parece estar 
se operando 
Individualidade 83 
- a colonizao da esfera pblica por questes anteriormente classificadas como privadas e inadequadas  exposio pblica. 
O que est ocorrendo no  simplesmente outra renegociao da fronteira notoriamente mvel entre o privado e o pblico. O que parece estar em jogo  uma redefinio 
da esfera pblica como um palco em que dramas privados so encenados, publica- mente expostos e publicamente assistidos. A definio corrente de "interesse pblico' 
promovida pela mdia e amplamente aceita por quase todos os setores da sociedade,  o dever de encenar tais dramas em pblico e o direito do pblico de assistir 
 encenao. As condies sociais que fazem com que tal desenvolvimento no seja surpreendente e parea mesmo "natural" devem ficar evidentes  luz do argumento 
precedente; mas as conseqncias desse desenvolvimento ainda no foram inteiramente exploradas. Podem ter maior alcance do que em geral se aceita. 
A conseqncia que pode ser considerada mais interessante  o desaparecimento da "poltica como a conhecemos" - da Poltica com P maisculo, a atividade encarregada 
de traduzir problemas privados em questes pblicas (e vice-versa). E o esforo dessa traduo que hoje est se detendo. Os problemas privados no se tornam questes 
pblicas pelo fato de serem ventilados em pblico; mesmo sob o olhar pblico no deixam de ser privados, e o que parece resultar de sua transferncia para a cena 
pblica  a expulso de todos os outros problemas "no-privados" da agenda pblica, O que cada vez mais  percebido como "questes pblicas" so os problemas privados 
de figuras pzblicas. A tradicional questo da poltica democrtica - quo til ou prejudicial para o bem-estar de seus sditos/eleitores  o modo como as figuras 
pblicas exercitam seus deveres pblicos - foi pelo ralo, sinalizando para que o interesse pblico na boa sociedade, na justia pblica ou na responsabilidade coletiva 
pelo bem-estar individual a siga no caminho do esquecimento. 
Atingido por uma srie de "escndalos" (isto , exposio pblica de frouxido moral nas vidas privadas de figuras pblicas), Tony Blair (no Guardian de 11.1.1999) 
se queixava de que "a poltica se reduziu a uma coluna de mexericos" e conclamava a audincia a enfrentar a alternativa: "Ou teremos a pauta de not 
84 Modernidade Lquida 
cias dominada pelo escndalo, pelo mexerico e pela trivialidade, ou pelas coisas que realmente importam"2 Tais palavras no podem seno surpreender, vindo, como 
vm, de um poltico que consulta diariamente "grupos focais" na esperana de ser regular- mente informado sobre os sentimentos da base e "as coisas que realmente 
importam" na opinio de seus eleitores, e cujo modo de manejar as coisas que realmente importam para as condies em que seus eleitores vivem  ela mesma um fator 
importante no tipo de vida responsvel pela "reduo da poltica a uma coluna de mexericos" que ele lamenta. 
As condies de vida em questo levam os homens e mulheres a buscar exemplos, e no lderes. Levam-nos a esperar que as pessoas sob os refletores - todas e qualquer 
uma delas - mostrem como "as coisas que importam" (agora confinadas a suas prprias quatro paredes e ai trancadas) so feitas. Afinal, eles ouvem diariamente que 
o que est errado em suas vidas provm de seus prprios erros, foi sua prpria culpa e deve ser consertado com suas prprias ferramentas e por seus prprios esforos. 
No , portanto, por acaso que supem que a maior utilidade (talvez a nica) das pessoas que alegam "estar por dentro"  mostrar-lhes como manejar as ferramentas 
e fazer o esforo. Ouviram repetida- mente dessas "pessoas por dentro" que ningum mais faria o que eles mesmos deveriam fazer, cada um por si. Por que, ento, algum 
ficaria intrigado se o que atrai a ateno e provoca o interesse de tantos homens e mulheres  o que os polticos (e outras celebridades) fazem em privado? Ningum 
entre os "grandes e poderosos' nem mesmo a "opinio pblica" ofendida, props o impeachment de Bill Clinton por ter abolido a previdncia enquanto "questo federal" 
- e, portanto, em termos prticos, anulado a promessa coletiva e o dever de proteger os indivduos contra os movimentos do destino, notrios por seu hbito desagradvel 
de administrar individualmente seus golpes. 
No espetculo colorido das celebridades da telinha e das 
chetes, os homens e mulheres de Estado no ocupam uma posio privilegiada. No importa muito qual a razo da "notoriedade" que, segundo Boorstin, faz com que uma 
celebridade seja uma celebridade. Um lugar sob os refletores  um modo de ser por si 
individualidade 85 
mesmo, que estrelas do cinema, jogadores de futebol e ministros de governo compartilham em igual medida. Um dos requisitos que se aplica a todos  que se espera 
- "eles tm o dever pblico" - que confessem "para consumo pblico" e ponham suas vidas privadas  disposio, e que no reclamem se outros o fizerem por eles. Uma 
vez expostas, essas vidas privadas podem se mostrar pouco esclarecedoras ou decididamente pouco atraentes: nem todos os segredos privados contm lies que outras 
pessoas poderiam considerar teis. Os desapontamentos, por mais numerosos que sejam, dificilmente mudaro os hbitos confessionais ou dissiparo o apetite pelas 
confisses; afinal - repito - o modo como as pessoas individuais definem individualmente seus problemas individuais e os enfrentam com habilidades e recursos individuais 
 a nica "questo pblica" remanescente e o nico objeto de "interesse pblico' E enquanto isso for assim, espectadores e ouvintes treinados para confiar em seu 
prprio julgamento e esforo na busca de esclarecimento e orientao continuaro a olhar para as vidas privadas de outros "como eles" com o mesmo zelo e esperana 
com que poderiam ter olhado para as lies, homilias e sermes de visionrios e pregadores quando acreditavam que as misrias privadas s poderiam ser aliviadas 
ou curadas "reunindo as cabeas' "cerrando fileiras" e "em ordem unida' 
A compulso transformada em vcio 
Procurar exemplos, conselho e orientao  um vcio: quanto mais se procura, mais se precisa e mais se sofre quando privado de novas doses da droga procurada. Como 
meio de aplacar a sede, todos os vcios so auto-destrutivos; destroem a possibilidade de se chegar  satisfao. 
Exemplos e receitas so atraentes enquanto no-testados. Mas dificilmente algum deles cumpre o que promete - virtualmente, cada um fica aqum da realizao que dizia 
trazer. Mesmo que algum deles mostrasse funcionar do modo esperado, a satisfao no duraria muito, pois no mundo dos consumidores as possibilidades so infinitas, 
e o volume de objetivos sedutores  disposio 
86 
Modernidade Lquida 
nunca poder ser exaurido. As receitas para a boa vida e os utenslios que a elas servem tm "data de validade' mas muitos cairo em desuso bem antes dessa data, 
apequenados, desvalorizados e destitudos de fascnio pela competio de ofertas "novas e aperfeioadas" Na corrida dos consumidores, a linha de chegada sempre se 
move mais veloz que o mais veloz dos corredores; mas a maioria dos corredores na pista tem msculos muito flcidos e pulmes muito pequenos para correr velozmente. 
E assim, como na Maratona de Londres, pode-se admirar e elogiar os vencedores, mas o que verdadeiramente conta  permanecer na corrida at o fim. Pelo menos a Maratona 
de Londres tem um fim, mas a outra corrida - para alcanar a promessa fugidia e sempre distante de uma vida sem problemas -' uma vez iniciada, nunca termina: comecei, 
mas posso no terminar. 
Ento  a continuao da corrida, a satisfatria conscincia de permanecer na corrida, que se torna o verdadeiro vcio - e no algum prmio  espera dos poucos que 
cruzam a linha de chegada. Nenhum dos prmios  suficientemente satisfatrio para destituir os outros prmios de seu poder de atrao, e h tantos outros prmios 
que acenam e fascinam porque (por enquanto, sempre por enquanto, desesperadamente por enquanto) ainda no foram tentados. O desejo se torna seu prprio propsito, 
e o nico propsito no-contestado e inquestionvel. O papel de todos os outros propsitos, seguidos apenas para serem abandonados na prxima rodada e esquecidos 
na seguinte,  o de manter os corredores correndo - como "marcadores de passo', corredores contratados pelos empresrios das corridas para correr poucas rodadas 
apenas, mas na mxima velocidade que puderem, e ento retirar- se tendo puxado os outros corredores para o nvel de quebra de recordes, ou como os foguetes auxiliares 
que, tendo levado a espaonave  velocidade necessria, so ejetados para o espao e se desintegram. Num mundo em que a gama de fins  ampla demais para o conforto 
e sempre mais ampla que a dos meios disponveis  ao volume e eficcia dos meios que se deve atender com mais cuidado. Permanecer na corrida  o mais importante 
dos meios, de fato o meta-meio: o meio de manter viva a confiana em outros meios e a demanda por outros meios. 
Individuafidade 
87 
O arqutipo dessa corrida particular em que cada membro de uma sociedade de consumo est correndo (tudo numa sociedade de consumo  uma questo de escolha, exceto 
a compulso da escolha - a compulso que evolui at se tornar um vcio e assim no  mais percebida como compulso)  a atividade de comprar. Estamos na corrida 
enquanto andamos pelas lojas, e no so s as lojas ou supermercados ou lojas de departamentos ou aos "templos do consumo" de George Ritzer que visitamos. Se "comprar" 
significa esquadrinhar as possibilidades, examinar, tocar, sentir, manusear os bens  mostra, comparando seus custos com o contedo da carteira ou com o crdito 
restante nos cartes de crdito, pondo alguns itens no carrinho e outros de volta s prateleiras - ento vamos s compras tanto nas lojas quanto fora delas; vamos 
s compras na rua e em casa, no trabalho e no lazer, acordados e em sonhos. O que quer que faamos e qualquer que seja o nome que atribuamos  nossa atividade,  
como ir s compras, uma atividade feita nos padres de ir s compras. O cdigo em que nossa "poltica de vida" est escrito deriva da pragmtica do comprar. 
No se compra apenas comida, sapatos, automveis ou itens de mobilirio. A busca vida e sem fim por novos exemplos aperfeioados e por receitas de vida  tambm 
uma variedade do comprar, e uma variedade da mxima importncia, seguramente,  luz das lies gmeas de que nossa felicidade depende apenas de nossa competncia 
pessoal mas que somos (como diz Michael Parenti'3) pessoalmente incompetentes, ou no to competentes como deveramos, e poderamos, ser se nos esforssemos mais. 
H muitas reas em que precisamos ser mais competentes, e cada uma delas requer uma "compra' "Vamos s compras" pelas habilidades necessrias a nosso sustento e 
pelos meios de convencer nossos possveis empregadores de que as temos; pelo tipo de imagem que gostaramos de vestir e por modos de fazer com que os outros acreditem 
que somos o que vestimos; por maneiras de fazer novos amigos que queremos e de nos desfazer dos que no mais queremos; pelos modos de atrair ateno e de nos escondermos 
do escrutnio; pelos meios de extrair mais satisfao do amor e pelos meios de evitar nossa "dependncia" do parceiro amado ou 
88 Modernidade Lquida 
Individualidade 89 
amante; pelos modos de obter o amor do amado e o modo menos custoso de acabar com uma unio quando o amor desapareceu e a relao deixou de agradar; pelo melhor 
meio de poupar dinheiro para um futuro incerto e o modo mais conveniente de gastar dinheiro antes de ganh-lo; pelos recursos para fazer mais rpido o que temos 
que fazer e por coisas para fazer a fim de encher o tempo ento disponvel; pelas comidas mais deliciosas e pela dieta mais eficaz para eliminar as conseqncias 
de com-las; pelos mais poderosos sistemas de som e as melhores plulas contra a dor de cabea. A lista de compras no tem fim. Porm por mais longa que seja a lista, 
a opo de no ir s compras no figura nela. E a competncia mais necessria em nosso mundo de fins ostensivamente infinitos  a de quem vai s compras hbil e 
infatigavelmente. 
O consumismo de hoje, porm, no diz mais respeito  satisfao das necessidades - nem mesmo as mais sublimes, distantes (alguns diriam, no muito corretamente, 
"artificiais' "inventadas' "derivativas") necessidades de identificao ou a auto-segurana quanto  "adequao' J foi dito que o spirztusmovensda atividade consurnista 
no  mais o conjunto mensurvel de necessidades articuladas, mas o desejo - entidade muito mais voltil e efmera, evasiva e caprichosa, e essencialmente no-referencial 
que as "necessidades", um motivo autogerado e autopropelido que no precisa de outra justificao ou "causa' A despeito de suas sucessivas e sempre pouco durveis 
reificaes, o desejo tem a si mesmo como objeto constante, e por essa razo est fadado a permanecer insacivel qualquer que seja a altura atingida pela pilha dos 
outros objetos (fisicos ou psquicos) que marcam seu passado. 
E no entanto, por bvias que sejam suas vantagens sobre as necessidades, muito menos maleveis e mais lentas, o desejo pe mais limites  prontido dos consumidores 
para ir s compras do que os fornecedores de bens de consumo consideram palatvel ou at suportvel. Afinal, toma tempo. esforo e considervel gasto despertar o 
desejo, lev-lo  temperatura requerida e canaliz-lo na direo certa. Os consumidores guiados pelo desejo devem ser "produzidos' sempre novos e a alto custo. De 
fato, a prpria produo de consumidores devora uma frao intoleravelmente gran d 
dos custos totais de produo - frao que a competio tende a ampliar ainda mais. 
Mas (felizmente para os produtores e comercializadores de bens de consumo) o consumismo em sua forma atual no est, como sugere Harvie Ferguson, "fundado sobre 
a regulao (estimulao) do desejo, mas sobre a liberao de fantasias desejosas' A noo de desejo, observa Ferguson, 
liga o consumo  auto-expresso, e a noes de gosto e discriminao. O indivduo expressa a si mesmo atravs de suas posses. Mas, para a sociedade capitalista avanada, 
comprometida com a expanso continuada da produo, esse  um quadro psicolgico muito limitado, que, em ltima anlise, d lugar a uma "economia" psquica muito 
diferente. O querer substitui o desejo como fora motivadora do consumo.14 
A histria do consumismo  a histria da quebra e descarte de sucessivos obstculos "slidos" que limitam o vo livre da fantasia e reduzem o "princpio do prazer" 
ao tamanho ditado pelo "princpio da realidade': A "necessidade' considerada pelos economistas do sculo XIX como a prpria eptome da "solidez" - inflexvel, permanentemente 
circunscrita e finita - foi descartada e substituida durante algum tempo pelo desejo, que era muito mais "fluido" e expansvel que a necessidade por causa de suas 
relaes ineii ilcitas com sonhos plsticos e volveis sobre a autenticidade de um "eu ntimo"  espera de expresso. Agora  a vez de descartar o desejo. Ele sobreviveu 
 sua utilidade: tendo trazido o vcio do consumidor a seu Estado presente, no pode mais ditar o ritmo. Um estimulante mais poderoso, e, acima de tudo, mais verstil 
 necessrio para manter a demanda do consumidor no nvel da oferta. O "querer"  o substituto to necessrio; ele completa a libertao do princpio do prazer, 
limpando e dispondo dos ltimos resduos dos impedimentos do "princpio de realidade": a substncia naturalmente gasosa foi finalmente liberada do continer. Citando 
Ferguson urna vez mais: 
Enquanto a facilitao do desejo se fundava na comparao, vaidade, 
inveja e a "necessidade" de auto-aprovao, nada est por baixo do 
90 
Modernidade Lquida 
imediatismo do querer. A compra  casual, inesperada e espontnea. Ela tem uma qualidade de sonho tanto ao expressar quanto ao realizar um querer, que, como todos 
os quereres,  insincero e infantil.15 
O corpo do consumidor 
Como afirmei em L,fe in Fragmenis (Polity Press, 1996), a sociedade ps-moderna envolve seus membros primariamente em sua condio de consumidores, e no de produtores. 
A diferena  fundamental. 
A vida organizada em torno do papel de produtor tende a ser normativamente regulada. H um mnimo de que se precisa a fim de manter-se vivo e ser capaz de fazer 
o que quer que o papel de produtor possa requerer, mas tambm um mximo com que se pode sonhar, desejar e perseguir, contando com a aprovao social das ambies, 
sem medo de ser desprezado, rejeitado e posto na linha. O que passar acima desse limite  luxo, e desejar o luxo  pecado. O principal cuidado, portanto,  com a 
conformidade manter-se seguramente entre a linha inferior e o limite superior - manter-se no mesmo nvel (to alto ou baixo, conforme o caso) do vizinho. 
A vida organizada em torno do consumo, por outro lado, deve se bastar sem normas: ela  orientada pela seduo, por desejos sempre crescentes e quereres volteis 
- no mais por regulao normativa. Nenhum vizinho em particular oferece um ponto de referncia para uma vida de sucesso; uma sociedade de consumidores se baseia 
na comparao universal - e o cu  o nico limite. A idia de "luxo" no faz muito sentido, pois a idia  fazer dos luxos de hoje as necessidades de amanh, e 
reduzir a distncia entre o "hoje" e o "amanh" ao mnimo - tirar a espera da vontade. Como no h normas para transformar certos desejos em necessidades e para 
deslegitimar outros desejos como "falsas necessidades' no h teste para que se possa medir o padro de "conformidade' O principal cuidado diz respeito, ento,  
adequao - a estar "sempre pronto"; a ter a capacidade de aproveitar a oportunidade quando ela se apresentar; a desenvolver novos desejos 
Individualidade 
91 
feitos sob medida para as novas, nunca vistas e inesperadas sedues; e a no permitir que as necessidades estabelecidas tornem as novas sensaes dispensveis ou 
restrinjam nossa capacidade de absorv-las e experiment-las. 
Se a sociedade dos produtores coloca a sade como o padro que seus membros devem atingir, a sociedade dos consumidores acena aos seus com o ideal da aptido (fltness). 
Os dois termos - sade e aptido - so freqentemente tomados como coextensivos e usados como sinnimos; afinal, ambos se referem a cuidados com o corpo, ao Estado 
que se quer que o corpo alcance e ao regime que se deve seguir para realizar essa vontade. Tratar esses termos como sinnimos , porm, um erro - e no meramente 
pelos fatos conhecidos de que nem todos os regimes de aptido "so bons para a sade" e de que o que ajuda a manter a sade no necessariamente leva  aptido. Sade 
e aptido pertencem a dois discursos muito diferentes e apelam a preocupaes muito diferentes. 
A sade, como todos os conceitos normativos da sociedade dos produtores, demarca e protege os limites entre "norma" e "anormalidade" "Sade"  o estado prprio e 
desejvel do corpo e do esprito humanos - um Estado que (pelo menos em princpio) pode ser mais ou menos exatamente descrito e tambm precisamente medido. Refere-se 
a uma condio corporal e psquica que permite a satisfao das demandas do papel socialmente designado e atribudo - e essas demandas tendem a ser constantes e 
firmes. "Ser saudvel" significa na maioria dos casos "ser empregvel": ser capaz de um bom desempenho na fbrica, de "carregar o fardo" com que o trabalho pode 
rotineiramente onerar a resistncia fisica e psquica do empregado. 
O estado de "aptido' ao contrrio,  tudo menos "slido"; no pode, por sua natureza, ser fixado e circunscrito com qualquer preciso. Ainda que muitas vezes tomado 
como resposta  pergunta "como voc est se sentindo?" (se estou "apto' provavelmente responderei "timo"), seu verdadeiro teste fica para sempre no futuro: "estar 
apto" significa ter um corpo flexvel, absorvente e ajustvel, pronto para viver sensaes ainda no testadas e impossveis de descrever de antemo. Se a sade  
uma condio "nem 
92 Modernidade Lquida 
mais nem menos' a aptido est sempre aberta do lado do "mais": 
no se refere a qualquer padro particular de capacidade corporal, mas a seu (preferivelmente ilimitado) potencial de expanso. "Aptido" significa estar pronto 
a enfrentar o no-usual, o no-rotineiro, o extraordinrio - e acima de tudo o novo e o surpreendente. Quase se poderia dizer que, se a sade diz respeito a "seguir 
as normas', a aptido diz respeito a quebrar todas as normas e superar todos os padres. 
Chegar a um padro interpessoal seria de qualquer forma demais, pois uma comparao objetiva de graus de aptido individuais no  possvel. A aptido, por contraste 
com a sade, diz respeito a uma experincia subjetiva (no sentido de experincia "vivida' "sentida" - e no a um Estado ou evento que possa ser observado de fora, 
e verbalizado e comunicado). Como todos os estados subjetivos, a experincia de "estar apto"  notoriamente dificil de articular de modo adequado  comunicao interpessoal, 
e menos ainda  comparao interpessoal. A satisfao e o prazer so sensaes que no podem ser postas em termos abstratos: 
precisam ser "subjetivamente experimentadas" - vividas. Nunca saberemos com certeza se nossas sensaes so to profundas e excitantes, to prazerosas em suma, como 
as do prximo. A busca da "aptido"  como garimpar em busca de uma pedra preciosa que no podemos descrever at encontrar; no temos, porm, meios de decidir que 
encontramos a pedra, mas temos todas as razes para suspeitar de que no a encontramos. A vida organizada em torno da busca da aptido promete uma srie de escaramuas 
vitoriosas, mas nunca o triunfo definitivo. 
Ao contrrio do cuidado com a sade, a busca da aptido no tem, portanto, um fim natural. Os objetivos podem ser estabelecidos apenas para a presente etapa do esforo 
sem fim - e a satisfao de alcanar um objetivo  apenas momentnea. Na longa busca pela aptido no h tempo para descanso, e toda celebrao de sucessos momentneos 
no passa de um intervalo antes de outra rodada de trabalho duro. Uma coisa que os que buscam a "aptido" sabem com certeza  que ainda no esto suficientemente 
aptos, e que devem continuar tentando. A busca da aptido  um 
Individualidade 93 
estado de auto-exame minucioso, auto-recriminao e auto-depreciao permanentes, e assim tambm de ansiedade contnua. 
A sade, circunscrita por seus padres (quantificvel e mensurvel, como a temperatura do corpo ou a presso sangunea) e armada de uma clara distino entre "norma" 
e "anormalidade' deveria estar, a princpio, livre dessa ansiedade insacivel. Tambm a princpio, deveria ser claro o que deve ser feito a fim de alcanar um estado 
saudvel e proteg-lo, em que condies podemos declarar que uma pessoa goza de "boa sade' ou em que ponto do tratamento podemos declarar que o estado de sade 
foi restaurado e nada mais precisa ser feito. A princpio sim... 
Na verdade, porm, o status de todas as normas, inclusive a norma da sade, foi severamente abalado e se tornou frgil, numa sociedade de infinitas e indefinidas 
possibilidades. O que ontem era considerado normal e, portanto, satisfatrio, pode hoje ser considerado preocupante, ou mesmo patolgico, requerendo um remdio. 
Primeiro, estados do corpo sempre renovados tomam-se razes legtimas para interveno mdica - e as terapias disponveis tambm no ficam estticas. Segundo, a 
idia de "doena' outrora claramente circunscrita, torna-se cada vez mais confusa e nebulosa. Em vez de ser percebida como um evento excepcional com um comeo e 
um fim, tende a ser vista como permanente companhia da sade, seu "outro lado" e ameaa sempre presente: 
clama por vigilncia incessante e precisa ser combatida e repelida dia e noite, sete dias por semana. O cuidado com a sade torna-se uma guerra permanente contra 
a doena. E, finalmente, o significado de um "regime saudvel de vida" no fica parado. Os conceitos de "dieta saudvel" mudam em menos tempo do que duram as dietas 
recomendadas simultnea ou sucessivamente. O alimento que se pensava benfico para a sade ou incuo  denunciado por seus efeitos prejudiciais a longo prazo antes 
que sua influncia benigna tenha sido devidamente saboreada. Terapias e regimes preventivos voltados para algum tipo de enfermidade aparecem como patognicos em 
outros aspectos; a interveno mdica  cada vez mais requerida pelas doenas "iatrognicas" - enfermidades causadas por terapias passadas. Quase qualquer cura apresenta 
grandes riscos, e mais curas so necessrias para enfrentar as conseqncias de riscos assumidos no passado. 
1 
94 Modernidade Lquida 
Por tudo isso, o cuidado com a sade, contrariamente  sua natureza, torna-se estranhamente semelhante  busca da aptido: 
contnuo, fadado  insatisfao permanente, incerto quanto  adequao de sua direo atual e gerando muita ansiedade. 
Enquanto o cuidado com a sade se torna cada vez mais semelhante  busca da aptido, esta tenta imitar, quase sempre em vo, o que era a base da autoconfiana em 
relao aos cuidados com a sade: a mensurabilidade do padro de sade, e conseqentemente tambm do progresso teraputico. Essa ambio explica, por exemplo, a 
notvel popularidade do controle do peso entre os muitos "regimes de aptido" disponveis: os centmetros e gramas que desaparecem so dois dos poucos ganhos visveis 
que podem realmente ser medidos com algum grau de preciso - como a temperatura do corpo no diagnstico da sade. A semelhana  uma iluso: seria preciso imaginar 
um termmetro sem base em sua escala ou uma temperatura que melhoraria quanto mais a marca baixasse. 
Na esteira dos ajustes recentes ao modelo da "aptido". o cuidado com a sade se expande a tal ponto que Ivan Tllich recentemente sugeriu que "a prpria busca da 
sade tornou-se o fator patognico mais importante' O diagnstico no tem mais como objeto o indivduo: seu verdadeiro objeto, em cada vez mais casos,  a distribuio 
das probabilidades, uma estimativa do que pode derivar da condio em que o paciente diagnosticado se encontra. 
A sade  cada vez mais identificada com a otimizao dos riscos. Isso , em todo caso, o que os habitantes da sociedade de consumo treinados a trabalhar por sua 
aptido fsica esperam e desejam que seus mdicos faam - e o que os irrita e os torna hostis aos mdicos que no cumprem com esse papel. Num caso que gerou jurisprudncia, 
um mdico de Ttibingen foi condenado por dizer  grvida que a probabilidade de a criana nascer com alguma m-formao no era "grande demais' em vez de citar a 
probabilidade exata.16 
Comprar como ritua' de exorcismo 
Pode-se conjecturar que os temores que assolam o "dono do corpo" obcecado com nveis inalcanveis de aptido e com uma 
Individualidade 95 
sade cada vez menos definida e cada vez mais  imagem da aptido provocariam cautela e circunspeco, moderao e austeridade - atitudes que destoam da lgica da 
sociedade de consumidores, para a qual podem ser desastrosas. Mas essa concluso seria errnea. Exercitar os demnios interiores requer uma atitude positiva e muita 
ao - e no a retirada e o silncio. Como quase toda ao numa sociedade de consumidores, esta custa caro; requer diversos mecanismos e ferramentas especiais que 
s o mercado de consumo pode fornecer. A atitude "meu corpo  uma fortaleza sitiada" no leva ao ascetismo,  abstinncia ou  renncia; significa consumir mais 
- porm consumir alimentos especiais, "saudveis' comprados no comrcio. Antes de ser retirada do mercado por seus efeitos prejudiciais, a droga mais popular entre 
as pessoas preocupadas com controle de peso era o Xenihn, anunciada pelo siogan "coma mais e pese menos' Segundo os clculos de Barry Glassner, em um ano - 1987 
- os norte-americanos preocupados com o corpo gastaram 74 bilhes de dlares em alimentos dietticos, cinco bilhes em academias, 2,7 bilhes em vitaminas e 738 
milhes em equipamentos de exerccios.'7 
H, em suma, razes mais que suficientes para "ir s compras' Qualquer explicao da obsesso de comprar que se reduza a uma causa nica est arriscada a ser um 
erro. As interpretaes comuns do comprar compulsivo como manifestao da revoluo ps-moderna dos valores, a tendncia a representar o vcio das compras como manifestao 
aberta de instintos materialistas e hedonistas adormecidos, ou como produto de uma "conspirao comercial" que  uma incitao artificial (e cheia de arte)  busca 
do prazer como propsito mximo da vida, capturam na melhor das hipteses apenas parte da verdade. Outra parte, e necessrio complemento de todas essas explicaes, 
 que a compulso-transformada-em-vcio de comprar  uma luta morro acima contra a incerteza aguda e enervante e contra um sentimento de insegurana incmodo e estupidificante. 
Como observou T.H. Marshall em outro contexto, quando muitas pessoas correm simultaneamente na mesma direo,  preciso perguntar duas coisas: atrr de qu e do 
qu esto correndo? Os consumidores podem estar correndo atrs de sensaes - t 1 
96 Modernidade Lquida 
Individualidade 97 
teis, visuais ou olfativas - agradveis, ou atrs de delicias do paladar prometidas pelos objetos coloridos e brilhantes expostos nas prateleiras dos supermercados, 
ou atrs das sensaes mais profundas e reconfortantes prometidas por um conselheiro especializado. Mas esto tambm tentando escapar da agonia chamada insegurana. 
Querem estar, pelo menos uma vez, livres do medo do erro, da negligncia ou da incompetncia. Querem estar, pelo menos uma vez, seguros, confiantes; e a admirvel 
virtude dos objetos que encontram quando vo s compras  que eles trazem consigo (ou parecem por algum tempo) a promessa de segurana. 
Ainda que possa ser algo mais, o comprar compulsivo  tambm um ritual feito  luz do dia para exorcizar as horrendas aparies da incerteza e da insegurana que 
assombram as noites. E, de fato, um ritual dicrio: os exorcismos precisam ser repetidos diariamente, porque quase nada  posto nas prateleiras dos supermercados 
sem um carimbo como "melhor consumir antes de' e porque o tipo de certeza  venda nas lojas pouco adianta para cortar as razes da insegurana, que foram o que levou 
o comprador a visitar as lojas, O que importa, porm, e permite que o jogo continue - no obstante a falta de perspectivas -,  a maravilhosa qualidade dos exorcismos: 
eles so eficazes e satisfatrios no tanto porque afugentam os fantasmas (o que raramente fazem), mas pelo prprio fato de serem realizados. Enquanto a arte de 
exorcizar estiver viva, os fantasmas no podem reivindicar a invencibilidade. E, na sociedade dos consumidores individualizados, tudo o que precisa ser feito precisa 
ser feito la "faa-voc-mesmo' O que mais, alm das compras, preenche to bem os pr-requisitos desse tipo de exorcismo? 
Livre para comprar - ou assim parece 
As pessoas de nosso tempo, observou Albert Camus, sofrem por no serem capazes de possuir o mundo de maneira suficientemente completa: 
Exceto por vividos momentos de realizao, toda a realidade para eles  incompleta. Suas aes lhes escapam na forma de outras aes, 
retomam sob aparncias inesperadas para julg-los e desaparecem, como a gua que 'Tntalo desejava beber, por algum orificio ainda no descoberto. 
Isso  o que cada um de ns sabe por um olhar introspectivo: 
isso  o que nossas prprias biografias, quando examinadas em retrospecto, nos ensinam sobre o mundo em que vivemos. Mas no quando olhamos ao redor: quanto aos 
outros que conhecemos, e especialmente pessoas de que sabemos - "vistas  distncia, [sua] existncia parece ter uma coerncia e uma unidade que na verdade no pode 
ter, mas que parece evidente ao espectador" Isso  uma iluso de tica. A distncia (quer dizer, a pobreza de nosso conhecimento) borra os detalhes e apaga tudo 
o que no se encaixa na Gestalt. Iluso ou no, tendemos a ver as vidas dos outros como obras de arte. E tendo-as visto assim, lutamos para fazer o mesmo: "Todo 
o mundo tenta fazer de sua vida uma obra de arte'18 
Essa obra de arte que queremos moldar a partir do estofo quebradio da vida chama-se "identidade" Quando falamos de identidade h, no fundo de nossas mentes, uma 
tnue imagem de harmonia, lgica, consistncia: todas as coisas que parecem - para nosso desespero eterno - faltar tanto e to abominavelmente ao fluxo de nossa 
experincia. A busca da identidade  a busca incessante de deter ou tornar mais lento o fluxo, de solidificar o fluido, de dar forma ao disforme. Lutamos para negar, 
ou pelo menos encobrir, a terrvel fluidez logo abaixo do fino envoltrio da forma; tentamos desviar os olhos de vistas que eles no podem penetrar ou absorver. 
Mas as identidades, que no tornam o fluxo mais lento e muito menos o detm, so mais parecidas com crostas que vez por outra endurecem sobre a lava vulcnica e 
que se fundem e dissolvem novamente antes de ter tempo de esfriar e fixar-se. Ento h necessidade de outra tentativa, e mais outra - e isso s  possvel se nos 
aferrarmos desesperadamente a coisas slidas e tangveis e, portanto, que prometam ser duradouras, faam ou no parte de um conjunto, e dem ou no razes para que 
esperemos que permaneam juntas depois que as juntamos. Nas palavras de Deleuze e Guattari, "o desejo constantemente une o 
98 Modernidade Lquida 
Individualidade 99 
fluxo contnuo e objetos parciais que so por natureza fragmentrios e fragmentados''9 
As identidades parecem fixas e slidas apenas quando vistas de relance, de fora. A eventual solidez que podem ter quando contempladas de dentro da prpria experincia 
biogrfica parece frgil, vulnervel e constantemente dilacerada por foras que expem sua fluidez e por conn'acorrentes que ameaam faz-la em pedaos e desmanchar 
qualquer forma que possa ter adquirido. 
A identidade experimentada, vivida, s pode se manter unida com o adesivo da fantasia, talvez o sonhar acordado. Mas, dada a teimosa evidncia da experincia biogrfica, 
qualquer adesivo mais forte - uma substncia com maior poder de fixao que a fantasia fcil de dissolver e limpar - pareceria uma perspectiva to repugnante quanto 
a ausncia do sonhar acordado. E precisamente por isso que a moda, como observou Efrat Tselon,  to adequada: exatamente a coisa certa, nem mais fraca nem mais 
forte que as fantasias. A moda oferece "meios de explorar os limites sem compromisso com a ao, e ... sem sofrer as conseqncias" "Nos contos de fadas' lembra 
Tselon, "as roupas de sonho so a chave da verdadeira identidade da princesa, como a fada-madrinha sabe perfeitamente ao vestir Cinderela para o baile'2 
Em vista da volatilidade e instabilidade intrnsecas de todas ou quase todas as identidades,  a capacidade de "ir s compras" no supermercado das identidades, o 
grau de liberdade genuna ou supostamente genuna de selecionar a prpria identidade e de mant-la enquanto desejado, que se torna o verdadeiro caminho para a realizao 
das fantasias de identidade. Com essa capacidade, somos livres para fazer e desfazer identidades  vontade. Ou assim parece. 
Numa sociedade de consumo, compartilhar a dependncia de consumidor - a dependncia universaldas compras -  a condio sine qua non de toda liberdade individual; 
acima de tudo da liberdade de ser diferente, de "ter identidade' Num arroubo de sinceridade (ao mesmo tempo em que acena para os clientes sofisticados que sabem 
como  o jogo), um comercial de TV mostra uma multido de mulheres com uma variedade de penteados e cores de cabelos, enquanto o narrador comenta: "Todas nicas; 
todas individuais; todas escolhem X" (x sendo a marca anunciada de condicionador). O utenslio produzido em massa  a ferramenta da variedade individual. A identidade 
- "nica" e "individual" 
- s pode ser gravada na substncia que todo o mundo compra e que s pode ser encontrada quaiido se compra. Ganha-se a independncia rendendo-se. Quando no filme 
Elizabeili a rainha da Inglaterra decide "mudar sua personalidade': tornar-se a "filha de seu pai" e forar os cortesos a obedecerem a suas ordens, ela o faz mudando 
o penteado, cobrindo o rosto com grossa camada de pinturas artesanais e usando uma tiara tambm feita por artesos. 
A medida em que essa liberdade fundada na escolha de consumidor, especialmente a liberdade de auto-identificao pelo uso de objetos produzidos e comercializados 
em massa,  genuna ou putativa  uma questo aberta. Essa liberdade no funciona sem dispositivos e substncias disponveis no mercado. Dado isso, quo ampla  
a gama de fantasias e experimentao dos felizes compradores? 
Sua dependncia no se limita ao ato da compra. Lembre-se, por exemplo, o formidvel poder que os meios de comunicao de massa exercem sobre a imaginao popular, 
coletiva e individual. Imagens poderosas, "mais reais que a realidade' em telas ubquas estabelecem os padres da realidade e de sua avaliao, e tambm a necessidade 
de tornar mais palatvel a realidade "vivida' A vida desejada tende a ser a vida "vista na TV' A vida na telinha diminui e tira o charme da vida vivida:  a vida 
vivida que parece irreal, e continuar a parecer irreal enquanto no for remodelada na forma de imagens que possam aparecer na tela. (Para completar a realidade 
de nossa prpria vida, precisamos pass-la para videotape - essa coisa confortavelmente apagvel, sempre pronta para a substituio das velhas gravaes pelas novas). 
Como diz Christopher Lasch: "A vida moderna  to completamente mediada por imagens eletrnicas que no podemos deixar de responder aos outros como se suas aes 
- e as nossas - estivessem sendo gravadas e transmitidas simultaneamente para uma audincia escondida, ou guardadas para serem assistidas mais tarde'21 
Em livro posterior,22 Lasch lembra a seus leitores que "o velho sentido da identidade se refere tanto a pessoas como a coisas. 
100 Modernidade Lquida 
Ambas perderam sua solidez na sociedade moderna, sua definio e continuidade": A implicao  que, nesse universal "desmanchar dos s6lidos' a iniciativa est com 
as coisas; e, como as coisas so os ornamentos simblicos das identidades e as ferramentas dos esforos de identificao, as pessoas logo as seguem. Referindo-se 
ao famoso estudo de Emma Rothschild sobre a indstria automobilstica, Lasch sugere que 
as inovaes de AJfred Sloan no marketing - a mudana anual de modelos, o constante aperfeioamento do produto, o esforo de associ-lo ao status social, a deliberada 
estimulao de um apetite ilimitado pela mudana - constituram uma contrapartida necessria  inovao de Henry Ford na produo ... Ambas tendiam a desencorajar 
a iniciativa e o pensamento independente e a fazer com que os indivduos desconfiassem de seu prprio julgamento, mesmo em questes de gosto. Parecia que suas prprias 
preferncias no-tuteladas poderiam se atrasar em relao  moda e tambm precisavam ser periodicamente aperfeioadas. 
Alfred Sloan era um pioneiro do que mais tarde se tornaria uma tendncia universal. A produo de mercadorias como um todo substitui hoje "o mundo dos objetos durveis" 
pelos "produtos perecveis projetados para a obsolescncia imediata" As 
seqncias dessa substituio foram sagazmente descritas por Jeremy Seabrook: 
O capitalismo no entregou os bens s pessoas; as pessoas foram crescentemente entregues aos bens; o que quer dizer que o prprio carter e sensibilidade das pessoas 
foi reelaborado, reformulado, de tal forma que elas se agrupam aproximadamente ... com as mercadorias, experincias e sensaes ... cuja venda  o que d forma e 
significado a suas vidas.23 
Num mundo em que coisas deliberadamente instveis so a matria-prima das identidades, que so necessariamente instveis,  preciso estar constantemente em alerta; 
mas acima de tudo  preciso manter a prpria flexibilidade e a velocidade de reajuste em relao aos padres cambiantes do mundo "l fora": Como observou recentemente 
Thomas Mathiesen, a poderosa metfora do Panptico de Bentham e de Foucault no d conta dos modos 
Individua idade 101 
em que o poder opera. Mudamo-nos agora, sugere Mathiesen, de uma sociedade do estilo Panptico para uma sociedade do estilo sino'ptico: as mesas foram viradas e 
agora so muitos que observam poucos.24 Os espetculos tomam o lugar da superviso sem perder o poder disciplinador do antecessor. A obedincia aos padres (uma 
malevel e estranhamente ajustvel obedincia a padres eminentemente flexveis, acrescento) tende a ser alcanada hoje em dia pela tentao e pela seduo e no 
mais pela coero - e aparece sob o disfarce do livre-arbtrio, em vez de revelar-se como fora externa. 
Essas verdades devem ser reafirmadas mais e mais, pois o cadver do "conceito romntico do eu' adivinhando uma profunda essncia ntima que se esconde por trs das 
aparncias externas e superficiais, hoje em dia tende a ser artificialmente reanimado pelos esforos conjuntos do que Paul Atkinson e David Silverman apropriadamente 
denominaram de "sociedade da entrevista" ("apoiada, em todos os seus aspectos, em entrevistas face a face para revelar o eu pessoal e privado do sujeito") e de grande 
parte da pesquisa social de hoje (que visa a "chegar  verdade subjetiva do eu" provocando e ento dissecando as narrativas pessoais na esperana de nelas encontrar 
uma revelao da verdade ntima). Atkinson e Silverman contestam essa prtica: 
Nas cincias sociais no revelamos eus coletando narrativas, mas 
criamos o eu pela narrativa do trabalho biogrfico 
O desejo de revelao e revelaes do desejo do a aparncia de autenticidade mesmo quando a prpria possibilidade de autenticidade est em questo.25 
A possibilidade em questo , de fato, bastante questionvel. Numerosos estudos mostram que as narrativas pessoais so meramente ensaios de retrica pblica montados 
pelos meios pblicos de comunicao para "representar verdades subjetivas": Mas a no-autenticidade do eu supostamente autntico est inteiramente disfarada pelos 
espetculos de sinceridade - os rituais pblicos de perguntas pessoais e confisses pblicas de que os programas de entrevistas so o exemplo mais preeminente, ainda 
que no 
1 
102 Moderrndcde Uquida 
o nico. Ostensivamente, os espetculos existem para dar vazo  agitao dos "eus ntimos" que lutam para se expor; de fato, so os veculos da verso da sociedade 
do consumo de uma "educao sentimental": expem e carimbam com a aceitao pblica o anseio por Estados emotivos e suas expresses com os quais sero tecidas as 
"identidades inteiramente pessoais' 
Como disse recentemente Harvie Ferguson, com sua maneira inimitvel, 
no mundo ps-moderno todas as distines se tornam fluidas, os limites se dissolvem, e tudo pode muito bem parecer seu contrrio; a ironia se torna a sensao perptua 
de que as coisas poderiam ser um tanto diferentes, ainda que nunca fundamental ou radicalmente diferentes. 
Em tal mundo, o cuidado com a identidade tende a adquirir um brilho inteiramente novo: 
A "idade da ironia" foi substituda pela "idade do glamouf', em que 
a aparncia  consagrada como nica realidade 
A modernidade, assim, muda de um perodo do eu "autntico" para um perodo do eu "irnico" e para uma cultura contempornea do que poderia ser chamado de eu "associativo" 
- um "afrouxamento" contnuo dos laos entre a alma "interior" e a forma "exterior" da relao social ... As identidades so assim oscilaes contnuas 26 
Isso  o que a condio presente parece quando posta sob o microscpio dos analistas culturais. O retrato da inautenticidade publicamente produzida pode ser verdadeiro; 
os argumentos que apiam sua verdade so irresistveis. Mas no  a verdade desse retrato que determina o impacto dos "espetculos de sinceridade" O que importa 
 como se sente a necessidade planejada da construo e reconstruo da identidade, como ela  percebida "de dentro", corno ela  "vivida' Seja genuno ou putativo 
aos olhos do analista, o status frouxo, "associativo", da identidade, a oportunidade de "ir s compras", de escolher e descartar o "verdadeiro eu", de "estar em 
movimento", veio a significar liberdade na sociedade do consumo atual. A escolha do consumidor  hoje um valor 
Individualidade 103 
em si mesma; a ao de escolher  mais importante que a coisa escolhida, e as situaes so elogiadas ou censuradas, aproveitadas ou ressentidas, dependendo da gama 
de escolhas que exibem. 
A vida de quem escolhe ser sempre uma bno mista, porm, mesmo se (ou talvez porque) a gama de escolhas for ampla e o volume das experincias possveis parecer 
infinito. Essa vida est assolada pelos riscos: a incerteza est destinada a ser para sempre a desagradvel mosca na sopa da livre escolha. Alm disso (e a adio 
 importante) o equilbrio entre a alegria e a tristeza do viciado depende de fatores outros que a mera gama de escolhas  disposio. Nem todas elas so realistas; 
e a proporo de escolhas realistas no  funo do nmero de itens  disposio, mas do volume de recursos  disposio de quem escolhe. 
Quando os recursos so abundantes pode-se sempre esperar, certo ou errado, estar "por cima" ou " frente" das coisas, ser capaz de alcanar os alvos que se movem 
com rapidez; pode-se mesmo estar inclinado a subestimar os riscos e a insegurana e supor que a profuso de escolhas compensa de sobra o desconforto de viver no 
escuro, de nunca estar seguro sobre quando e onde termina a luta, se  que termina.  a prpria corrida que entusiasma, e, por mais cansativa que seja, a pista  
um lugar mais agradvel que a linha de chegada. E a essa situao que se aplica o velho provrbio segundo o qual "viajar com esperana  melhor do que chegar' A 
chegada, o fim definitivo de toda escolha, parece muito mais tediosa e consideravelmente mais assustadora do que a perspectiva de que as escolhas de amanh anulem 
as de hoje. S o desejar  desejvel - quase nunca sua satisfao. 
Esperar-se-ia que o entusiasmo pela corrida diminusse com a fora dos msculos - que o amor pelo risco e a aventura se apagaria com a diminuio dos recursos e 
com a chance de escolher uma opo verdadeiramente desejvel cada vez mais nebulosa. Essa expectativa est fadada a ser refutada, porm, porque os corredores so 
muitos e diferentes, mas a pista  a mesma para todos. Como diz Jeremy Seabrook, 
os pobres no vivem numa cultura separada da dos ricos. Eles devem 
viver no mesmo inundo que foi planejado em proveito daqueles que 
11 
104 Modernidade Lquida 
Individualidade 105 
tm dinheiro. E sua pobreza  agravada pelo crescimento econmico, da mesma forma que  intensificada pela recesso e pelo no-crescimento. 27 
Numa sociedade sinptica de viciados em comprar/assistir, os pobres no podem desviar os olhos; no h mais para onde olhar. Quanto maior a liberdade na tela e quanto 
mais sedutoras as tentaes que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistvel se torna o desejo de experimentar, 
ainda que por um momento fugaz, o xtase da escolha. Quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportvel para todos. 
Separados, compramos 
Paradoxalmente, ainda que nada inesperadamente, o tipo de liberdade que a sociedade dos viciados em compras elevou ao posto mximo de valor - valor traduzido acima 
de tudo como a plenitude da escolha do consumidor e como a capacidade de tratar qualquer deciso na vida como uma escolha de consumidor - tem um efeito muito mais 
devastador nos espectadores relutantes do que naqueles a que ostensivamente se destina. O estilo de vida da elite com recursos, dos senhores da arte de escolher, 
sofre uma mudana fatal no curso de seu processamento eletrnico. Ela escorre pela hierarquia social, filtrada pelos canais do sinptico eletrnico e por reduzidos 
volumes de recursos, como a caricatura de um mutante monstruoso. O produto final desse "escorrimento" est despido da maioria dos prazeres que o original prometia 
- em vez disso expondo seu potencial destrutivo. 
A liberdade de tratar o conjunto da vida como uma festa de compras adiadas significa conceber o mundo como um depsito abarrotado de mercadorias. Dada a profuso 
de ofertas tentadoras, o potencial gerador de prazeres de qualquer mercadoria tende a se exaurir rapidamente. Felizmente para os consumidores com recursos, estes 
os garantem contra conseqncias desagradveis como a mercantiuizao. Podem descartar as posses que no mais 
querem com a mesma facilidade com que podem adquirir as que desejam. Esto protegidos contra o rpido envelhecimento e contra a obsolescncia planejada dos desejos 
e sua satisfao transitria. 
Ter recursos implica a liberdade de escolher, mas tambm - e talvez mais importante - a liberdade em relao s conseqncias da escolha errada, e portanto a liberdade 
dos atributos menos atraentes da vida de escolhas. Por exemplo, "o sexo de plstico' "amores mltiplos" e "relaes puras' os aspectos da mercantilizao das parcerias 
humanas, foram retratados por Anthony Giddens como veculos de emancipao e garantia de uma nova felicidade que vem em sua esteira - a nova escala sem precedentes 
da autonomia individual e da liberdade de escolha. Se isso  verdade, e nada mais que a verdade, para a elite mvel dos ricos e poderosos  uma questo aberta. Mesmo 
no caso deles, s  possvel aderir de corao  afirmativa de Ciddens pensando no mais forte dos membros da parceria, que necessariamente inclui o mais fraco, no 
to bem dotado dos recursos necessrios para seguir livremente seus desejos (para no mencionar as crianas - essas involuntrias mas durveis conseqncias das 
parcerias, que raramente vem o rompimento de um casamento como manifestao de sua prpria liberdade). Mudar de identidade pode ser uma questo privada, mas sempre 
inclui a ruptura de certos vnculos e o cancelamento de certas obrigaes; os que esto do lado que sofre quase nunca so consultados, e menos ainda tm chance de 
exercitar sua liberdade de escolha. 
E, no entanto, mesmo levando em considerao tais "efeitos secundrios" de "relaes puras' pode-se ainda dizer que no caso dos ricos e poderosos os arranjos costumeiros 
de divrcio e as penses para as crianas ajudam a aliviar a insegurana intrnseca s parcerias at-que-acabem, e que qualquer que seja a insegurana remanescente 
ela no  um preo excessivo a pagar pela "reduo dos prejuzos" e por evitar a necessidade do arrependimento eterno pelos pecados porventura cometidos. Mas no 
h dvida de que, "escorrida" para os pobres e destitudos, a parceria nesse novo estilo com a fragilidade do contrato matrimonial e a "purificao" da unio de 
todas as funes exceto a da "satisfao mtua' 
106 Modernidade Lquida 
espalha muita tristeza, agonia e sofrimento e um volume crescente 
de vidas partidas, sem amor e sem perspectivas. 
Em suma: a mobilidade e a flexibilidade da identificao que caracterizam a vida do "ir s compras" no so tanto veculos de emancipao quanto instrumentos de 
redistribuio das liberdades. So por isso bnos mistas - tanto tentadoras e desejadas quanto repulsivas e temidas, e despertam os sentimentos mais contraditrios. 
So valores altamente ambivalentes que tendem a gerar reaes incoerentes e quase neurticas. Como diz Yves Michaud, filsofo da Sorbonne, "com o excesso de oportunidades, 
crescem as ameaas de desestruturao, fragmentao e desarticulao'28 A tarefa da auto-identificao tem efeitos colaterais altamente destrutivos; torna-se foco 
de conflitos e dispara energias mutuamente incoinpatveis. Como a tarefa compartilhada por todos tem que ser realizada por cada um sob condies inteiramente diferentes, 
divide as situaes humanas e induz  competio mais rspida, em vez de unificar uma condio humana inclinada a gerar cooperao e solidariedade. 

3  TEMPO/ESPAO 
George Hazeldon, arquiteto ingls estabelecido na frica do Sul, tem um sonho: uma cidade diferente das cidades comuns, cheia de estrangeiros sinistros que se esgueiram 
de esquinas escuras, surgem de ruas esqulidas e brotam de distritos notoriamente perigosos. A cidade do sonho de Hazeldon  como uma verso atualizada, high tech, 
da aldeia medieval que abriga detrs de seus grossos muros, torres, fossos e pontes levadias uma aldeia protegida dos riscos e perigos do mundo. Uma cidade feita 
sob medida para indivduos que querem administrar e monitorar seu estar juntos. Alguma coisa, como ele mesmo disse, parecida com o Monte Saint-Michel, simultaneamente 
um claustro e uma fortaleza inacessvel e bem guardada. 
Quem olha os projetos de Hazeldon concorda que a parte do "claustro" foi imaginada pelo desenhista  semelhana da Thlme de Rabelais, a cidade da alegria e do 
divertimento compulsrios, onde a felicidade  o nico mandamento, e no se parece nada com o esconderijo dos ascetas voltados para os cus, que se auto- imolam, 
so piedosos, oram e jejuam. A parte da "fortaleza", por outro lado,  original. Heritage Park, a cidade que Hazeldon est para construir em 500 acres de terra no 
muito longe da Cidade do Cabo, deve diferenciar-se das outras cidades por seu autocercamento: cercas eltricas de alta voltagem, vigilncia eletrnica das vias de 
acesso, barreiras por todo o caminho e guardas fortemente armados. 
Se voc puder se dar ao luxo de comprar uma casa em Heritage Park, pode passar boa parte de sua vida afastado dos riscos e perigos da turbulenta, hostil e assustadora 
selva que comea logo que terminam os portes da cidade. Tudo o que uma vida agrad 107 
1 
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Modernidade Lquida 
vel requer est l: Hentage Park ter suas prprias lojas, igrejas, restaurantes, teatros, reas de lazer, florestas, um parque central, lagos com salmes, playgrounds, 
pistas de corrida, campos de es- portes e quadras de tnis - e rea livre suficiente para se acrescentar o que quer que a moda de uma vida decente possa demandar 
no futuro. Hazeldon  bastante explcito quando esclarece as vantagens de Heritage Park sobre os lugares onde a maioria das pessoas vive hoje em dia: 
Hoje a primeira questo  a segurana. Queiramos ou no,  o que faz a diferena ... Quando eu cresci, em Londres, tnhamos uma comunidade. Voc no fazia nada errado 
porque todos o conheciam e contariam para seu pai ou me ... Queremos recriar isso aqui, uma comunidade que no precisa se preocupar.' 
Ento  assim: ao preo de uma casa no Heritage Park voc ganha acesso a uma comunidade. "Comunidade" , hoje, a ltima relquia das utopias da boa sociedade de 
outrora;  o que sobra dos sonhos de uma vida melhor, compartilhada com vizinhos melhores, todos seguindo melhores regras de convvio. Pois a utopia da harmonia 
reduziu-se, realisticamente, ao tamanho da vizinhana mais prxima. Por isso, a "comunidade"  um bom argumento de venda. Por isso tambm, nos prospectos distribudos 
por George Hazeldon, o incorporador, a comunidade foi colocada como o complemento indispensvel, embora ausente em outros projetos, dos bons restaurantes e pitorescas 
pistas de treinamento que outras cidades tambm oferecem. 
Note-se, no entanto, qual  o sentido dessa reunio comunitria. A comunidade que Hazeldon lembra de seus anos de infncia em Londres e quer recriar nas terras virgens 
da Africa do Sul , antes e acima de tudo, seno apenas, um territrio vigiado de perto, onde aqueles que fazem algo que desagrada aos outros provocam seu ressentimento 
e so por isso prontamente punidos e postos na linha - enquanto os desocupados, vagabundos e outros intrusos que "no fazem parte" so impedidos de entrar ou, ento, 
cercados e expulsos. A diferena entre o passado afetuosamente lembrado e sua rplica atualizada  que o que a comunida Tempo/Espao 
109 
de das memrias da infancia de Hazeldon obtinha usando os olhos, lnguas e mos, casualmente e sem muito pensar, no Heritage Park  confiado a cmeras de TV ocultas 
e dzias de seguranas armados verificando senhas nos portes e discretamente (Ou ostensivamente, se necessrio) patrulhando as ruas. 
Um grupo de psiquiatras do Victorian Institute of Forensic Mental Health, na Austrlia, advertiu recentemente que "mais e mais pessoas esto denunciando falsamente 
terem sido vtimas de assaltantes, gastando credibilidade e dinheiro pblico" - dinheiro que, como dizem os autores do relato, "deveria ser canalizado para as verdadeiras 
vtimas"2 Alguns dos "falsos denunciantes" investigados foram diagnosticados como vtimas de "severas desordens mentais' e "acreditavam estar sendo assaltados em 
seus delrios de que todos conspiravam contra eles' 
Poderamos comentar as observaes dos psiquiatras dizendo que a crena na conspirao dos outros contra ns no  novidade; seguramente atormentou certos homens 
em todos os tempos e em todos os cantos do mundo. Nunca e em nenhum lugar faltaram pessoas prontas a encontrar uma lgica para sua infelicidade, frustraes e derrotas 
humilhantes atribuindo a culpa a intenes malvolas e mal-intencionados planos alheios. O que  novo  que so os asaltanies (juntamente com os vagabundos e outros 
desocupados, personagens estranhos ao lugar em que se movem) que levam agora a culpa, representando o diabo, os ncubos, maus espritos, duendes, mau-olhado, gnomos 
malvados, bruxas ou comunistas embaixo da cama. Se as "falsas vtimas" podem "gastar a credibilidade pblica"  porque "assaltante" j se tornou um nome comum e 
popular para o medo ambiente que assola nossos contemporneos; e assim a presena ubqua dos assaltantes tornou-se crvel e o temor de ser assaltado, amplamente 
compartilhado. E, se pessoasfalamente obcecadas pela ameaa de serem assaltadas podem "gastar o dinheiro pblico'  porque o dinheiro pblico j foi destinado de 
antemo, em quantidades que crescem a cada ano, para o propsito de identificar e caar os assaltantes, vagabundos e outras verses atualizadas daquele terror moderno, 
o mobile vulgus - os tipos inferiores de pessoas em movimento, surgindo e se espalhando em lugares onde s deveriam estar as pes 
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Tempo/Espao 111 
soas certas - e porque a defesa das ruas perigosas, como outrora o exorcismo das casas assombradas,  reconhecida como um objetivo digno de ser perseguido e como 
a maneira apropriada de proteger as pessoas que precisam de proteo contra os medos e perigos que as fazem sobressaltadas, nervosas, timidas e assustadas. 
Citando City of Quartz (1990), de Mike Davis, Sharon Zukin descreve a nova aparncia dos espaos pblicos de Los Angeles reformados pelas preocupaes com a segurana 
dos seus habitantes e de seus defensores eleitos ou nomeados: "Os helicpteros zunem nos cus sobre os guetos, a polcia hostiliza os jovens como possveis membros 
de gangues, os proprietrios compram a defesa armada que podem ... ou tm coragem de usar." Os anos 1960 e 1970 foram, diz Zukin, "um divisor de guas na institucionalizao 
dos medos urbanos." 
Os eleitores e as elites - uma ampla classe mdia nos Estados Unidos 
- poderiam ter enfrentado a escolha de apoiar a poltica governamental para eliminar a pobreza, administrar a competio tnica e integrar a todos em instituies 
pblicas comuns. Escolheram, em vez disso, comprar proteo, estimulando o crescimento da indm'istria da segurana privada. 
O perigo mais tangvel para o que chama de "cultura pblica" st, para Zukin, na "poltica do medo cotidiano': O espectro arrepiante e apavorante das "ruas inseguras" 
mantm as pessoas longe dos espaos pblicos e as afasta da busca da arte e das habilidades necessrias para compartilhar a vida pblica. 
"Endurecer" contra o crime construindo mais prises e impondo a pena de morte so as respostas mais corriqueiras  poltica do medo. "Prendam toda a populao' ouvi 
um homem dizer no nibus, reduzindo a soluo a seu ridculo extremo. Outra resposta  a privatizao e militarizao do espao pblico - fazendo das ruas, parques 
e mesmo lojas lugares mais seguros, mas menos livres...3 
A comunidade definida por suas fronteiras vigiadas de perto e no mais por seu contedo; a "defesa da comunidade" traduzida 
como o emprego de guardies armados para controlar a entrada; assaltante e vagabundo promovidos  posio de inimigo nmero um; compartimentao das reas pblicas 
em enclaves "defensveis" com acesso seletivo; separao no lugar da vida em comum 
- essas so as principais dimenses da evoluo corrente da vida urbana. 
Quando estranhos se encontram 
Na clssica definio de Richard Sennett, uma cidade  "um assentamento humano em que estranhos tm chance de se encontrar"4 Isso significa que estranhos tm chance 
de se encontrar em sua condio de estranhos, saindo como estranhos do encontro casual que termina de maneira to abrupta quanto comeou. Os estranhos se encontram 
numa maneira adequada a estranhos; um encontro de estranhos  diferente de encontros de parentes, amigos ou conhecidos - parece, por comparao, um "desencontro': 
No encontro de estranhos no h uma retomada a partir do ponto em que o ltimo encontro acabou, nem troca de informaes sobre as tentativas, atribulaes ou alegrias 
desse intervalo, nem lembranas compartilhadas: nada em que se apoiar ou que sirva de guia para o presente encontro. O encontro de estranhos  um evento sem passado. 
Freqentemente  tambm um evento sem frturo (o esperado  no tenha futuro), uma histria para "no ser continuada' uma oportunidade nica a ser consumada enquanto 
dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questes inacabadas para outra ocasio. Como a aranha cujo mundo inteiro est enfeixado na teia que ela tece a partir de 
seu prprio abdome, o nico apoio com que estranhos que se encontram podem contar dever ser tecido do fio fino e solto de sua aparncia, palavras e gestos. No momento 
do encontro no h espao para tentativa e erro, nem aprendizado a partir dos erros ou expectativa de outra oportunidade. 
O que se segue  que a vida urbana requer um tipo de atividade muito especial e sofisticada, de fato um grupo de habilidades que Senett listou sob a rubrica "civilidade' 
isto  
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Modernidade Lquida 
a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas. Usar uma mscara  a essncia da civilidade. As mscaras permitem 
a sociabilidade pura, distante das circunstncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger 
os outros de serem sobrecarregados com nosso peso.5 
Segue-se esse objetivo,  claro, esperando reciprocidade. Proteger os outros contra a indevida sobrecarga refreando-se de interagir com eles s faz sentido se se 
espera generosidade semelhante dos outros. A civilidade, como a linguagem, no pode ser "privada' Antes de se tornar a arte individualmente aprendida e privadamente 
praticada, a civilidade deve ser uma caracterstica da situao social.  o entorno urbano que deve ser "civil' a fim de que seiis habitantes possam aprender as 
difceis habilidades da civilidade. 
O que significa, ento, dizer que o meio urbano  "civil" e, assim, propcio  prtica individual da civilidade? Significa, antes e acima de tudo, a disponibilidade 
de espaos que as pessoas possam compartilhar como personae pblicas - sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a tirar as mscaras e "deixar-se ir' "expressar-se' 
confessar seus sentimentos ntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angstias. Mas tambm significa uma cidade que se apresenta a seus residentes como um bem 
comum que no pode ser reduzido ao agregado de propsitos individuais e como uma tarefa compartilhada que no pode ser exaurida por um grande nmero de iniciativas 
individuais, como uma forma de vida com um vocabulrio e lgica prprios e com sua prpria agenda, que  (e est fadada a continuar sendo) maior e mais rica que 
a mais completa lista de cuidados e desejos individuais - de tal forma que "vestir uma mscara pblica"  um ato de engajamento e participao, e no um ato de descompromisso 
e de retirada do "verdadeiro eu' deixando de lado o intercurso e o envolvimento pblico, manifestando o desejo de ser deixado s e continuar s. 
H muitos lugares nas cidades contemporneas a que cabe o nome de "espaos pblicos' So de muitos tipos e tamanhos, mas 
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a maioria deles faz parte de uma de duas grandes categorias. Cada categoria se afasta do modelo ideal do espao cirilem duas direes opostas mas complementares. 
A praa La D/en.e, em Paris, um enorme quadriltero na margem direita do Sena, concebida, comissionada e construda por Franois Mitterranci (como monumento duradouro 
de sua presidncia, em que o esplendor e grandeza do cargo foram cuidadosamente separados das fraquezas e falhas pessoais de seu ocupante), incorpora todos os traos 
da primeira das duas categorias do espao pblico urbano, que no , no entanto - enfaticamente no  -, "civil' O que chama a ateno do visitante de La Dfense 
 antes e acima de tudo falta de hospitalidade da praa: tudo o que se v inspira respeito e ao mesmo tempo desencoraja a permanncia. Os edifcios fantsticos que 
circundam a praa enorme e vazia so para serem admirados, e no visitados; cobertos de cima a baixo de vidro refletivo, parecem no ter janelas ou portas que se 
abram na direo da praa; engenhosamente do as costas  praa diante da qual se erguem. So imponentes e inacessveis aos olhos 
- imponentes porque inacessveis, estas duas qualidades que se complementam e reforam mutuamente. Essas fortalezas/conventos hermeticamente fechadas esto na praa, 
mas no fazem parte dela - e induzem quem quer que esteja perdido na vastido do espao a seguir seu exemplo e sentimento. Nada alivia ou interrompe o uniforme e 
montono vazio da praa. No h bancos para descansar, nem rvores sob cuja sombra esconder-se do sol escaldante. (H,  certo, um grupo de bancos geometricamente 
dispostos no lado mais afastado da praa; eles se situam numa plataforma um metro acima do cho da praa - uma plataforma como um palco, o que faria do ato de sentar-se 
e descansar um espetculo para todos os outros passantes que, diferentemente dos sentados, tm o quefazer ali). De tempos em tempos, com a regularidade dos horrios 
do metr, esses outros - filas de pedestres, como formigas apressadas - emergem de debaixo da terra, estiram-se sobre o pavimento de pedras que separa a sada do 
metr de um dos brilhantes monstros que cercam (sitiam) a praa e desaparecem rapidamente da vista. E a praa fica novamente vazia - at a chegada do prximo trem. 
114 Modernidade lquida 
A segunda categoria de espao pblico mas no civil se destina a servir aos consumidores, ou melhor, a transformar o habitante da cidade em consumidor. Nas palavras 
de Lusa Uusitalo, "os consumidores freqentemente compartilham espaos fsicos de consumo, como salas de concertos ou exibies, pontos tursticos, reas de esportes, 
shopping centers e cafs, sem ter qualquer interao social real':6 Esses lugares encorajam a ao e no a interao. Compartilhar o espao fsico com outros atores 
que realizam atividade similar d importncia  ao, carimba-a com a "aprovao do nmero" e assim corrobora seu sentido e a justifica sem necessidade de mais razes. 
Qualquer interao dos atores os afastaria das aes em que esto individualmente envolvidos e constituiria prejuzo, e no vantagem, para eles. No acrescentaria 
nada aos prazeres de comprar e desviaria corpo e mente da tarefa. 
A tarefa  o consumo, e o consumo  um passatempo absoluta e exclusivamente indiuiduae uma srie de sensaes que s podem ser experimentadas - vividas - subjetivamente. 
As multides que enchem os interiores dos "templos do consumo" de Ceorge Ritzer so ajuntamentos, no congregaes; conjuntos, no esquadres; agregados, no totalidades. 
Por mais cheios que possam estar, os lugares de consumo coletivo no tm nada de "coletivo': Para utilizar a memorvel expresso de Althusser, quem quer que entre 
em tais espaos  "interpelado" enquanto indivduo, chamado a suspender ou romper os laos e descartar as lealdades. 
Os encontros, inevitveis num espao lotado, interferem com o propsito. Precisam ser breves e superficiais: no mais longos nem mais profundos do que o ator os 
deseja. O lugar  protegido contra aqueles que costumam quebrar essa regra - todo tipo de intrometidos, chatos e outros que poderiam interferir com o maravilhoso 
isolamento do consumidor ou comprador. O templo do consumo bem supervisionado, apropriadamente vigiado e guardado  uma ilha de ordem, livre de mendigos, desocupados, 
assaltantes e traficantes - pelo menos  o que se espera e supe. As pessoas no vo para esses templos para conversar ou socializar. Levam com elas qualquer companhia 
de que queiram gozar (ou tolerem), como os caracis levam suas casas. 
Lugares micos, lugares fgicos, 
no-lugares, espaos vazios 
O que quer que possa acontecer dentro do templo do consumo tem pouca ou nenhuma relao com o ritmo e teor da vida diria que flui "fora dos portes': Estar num 
shopping center se parece com "estar noutro lugar'7 Idas aos lugares de consumo diferem dos carnavais de Bakhtin, que tambm envolvem a experincia de "ser transportado": 
idas s compras so principalmente viagens no espao, e apenas secundariamente viagens no tempo. 
O carnaval  a mesma cidade transformada, mais exatamente um intervalo de tempo durante o qual a cidade se transforma antes de cair de novo em sua rotina. Por um 
lapso de tempo estritamente definido, mas um tempo que retorna ciclicamente, o carnaval desvenda o "outro lado" da realidade diria, um lado constantemente ao alcance, 
mas normalmente oculto  vista e impossvel de tocar. A lembrana da descoberta e a esperana de outros relances por vir no permitem que a conscincia desse "outro 
lado" seja inteiramente suprimida. 
Uma ida ao templo do consumo  uma questo inteiramente diferente. Entrar nessa viagem, mais do que testemunhar a transubstanciao do mundo familiar,  como ser 
transportado a um outro mundo. O templo do consumo (claramente distinto da "loja da esquina" de outrora) pode estar na cidade (se no construdo, simbolicamente, 
fora dos limites da cidade,  beira de uma auto- estrada), mas no faz parte dela; no  o mundo comum temporariamente transformado, mas um mundo "completamente 
outro' O que o faz "outro" no  a reverso, negao ou suspenso das regras que governam o cotidiano, como no caso do carnaval, mas a exibio do modo de ser que 
o cotidiano impede ou tenta em vo alcanar - e que poucas pessoas imaginam experimentar nos lugares que habitam normalmente. 
A metfora do "templo" de Ritzer  adequada; os espaos de compra/consumo so de fato templos para os peregrinos - e definitivamente no se destinam  celebrao 
das missas negras anuais das festas carnavalescas nas parquias. O carnaval mostra que a realidade no  to dura quanto parece e que a cidade pode 
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ser transformada; os templos do consumo no revelam nada da natureza da realidade cotidiana. O templo do consumo, como o "barco" de Michel Foucault, " um pedao 
flutuante do espao, um lugar sem lugar, que existe por si mesmo, que est fechado em si mesmo e ao mesmo tempo se d ao infinito do mar"8 pode realizar esse "dar-se 
ao infinito" porque se afasta do porto domstico e se mantm a distncia. 
Esse "lugar sem lugar" auto-cercado, diferentemente de todos os lugares ocupados ou cruzados diariamente,  tambm um espao purficado. No que tenha sido limpo 
da variedade e da diferena, que constantemente ameaam outros lugares com poluio e confuso e deixam a limpeza e a transparncia fora do alcance dos que os usam; 
ao contrrio, os lugares de compra/consumo devem muito de sua atrao magntica  colorida e caleidoscpica variedade de sensaes em oferta. Mas as diferenas dentro, 
ao contrrio das diferenas fora, foram amansadas, higienizadas e garantidas contra ingredientes perigosos - e por isso no so ameaadoras. Podem ser aproveitadas 
sem medo: excludo o risco da aventura, o que sobra  divertimento puro, sem mistura ou contaminao. Os lugares de compra/consumo oferecem o que nenhuma "realidade 
real" externa pode dar: o equilbrio quase perfeito entre liberdade e segurana. 
Dentro de seus templos, os compradores/consumidores podem encontrar, alm disso, o que zelosamente e em vo procuram fora deles: o sentimento reconfortante de pertencer 
- a impresso de fazer parte de uma comunidade. Como sugere Sennett, a ausncia de diferena, o sentimento de que "somos todos semelhantes' o suposto de que "no 
 preciso negociar pois temos a mesma inteno'  o significado mais profundo da idia de "comunidade" e a causa ltima de sua atrao, que cresce proporcionalmente 
 pluralidade e multivocalidade da vida. Podemos dizer que "comunidade"  uma verso compacta de estar junto, e de um tipo de estar junto que quase nunca ocorre 
na "vida real": um estar junto de pura semelhana, do tipo "ns que somos todos o mesmo"; um estar junto que por essa razo  no-problemtico e no exige esforo 
ou vigilncia, e est na verdade pr-determinado; um estar 
junto que no  uma tarefa, mas "o dado" e dado muito antes que o esforo de faz-lo. Nas palavras de Sennett, 
imagens de solidariedade comunitria so forjadas para que os homens possam evitar lidar com outros homens ... Por um ato de vontade, uma mentira se quiserem, o 
mito da solidariedade comunitria deu a essas pessoas modernas a possibilidade de ser covardes e esconder-se dos outros ... A imagem da comunidade  purificada de 
tudo o que pode implicar um sentimento de diferena, ou conflito, a respeito de o que "ns" somos. Desse modo, o mito da solidariedade comunitria  um ritual de 
purificao.9 
O obstculo, porm,  que "o sentimento de uma identidade comum ...  uma fabricao da experincia" Se  assim, ento quem projetou e quem supervisiona e dirige 
os templos do consumo so mestres da falsificao e da vigarice. Em suas mos a impresso  tudo: no  necessrio fazer mais perguntas - que, de qualquer forma, 
no seriam respondidas. 
Dentro do templo, a imagem se torna realidade. As multides que enchem os corredores dos shopping centers se aproximam tanto quanto  concebvel do ideal imaginrio 
de "comunidade" que no conhece a diferena (mais exatamente, diferena que conte, diferena que requeira confronto diante da alteridade do outro, negociao, clarificao 
e acordo quanto ao modus uivend). Por essa razo, essa comunidade no envolve negociaes, nem esforo pela empatia, compreenso e concesses. Todo o mundo entre 
as paredes dos shopping centers pode supor com segurana que aqueles com que trombar ou pelos quais passar nos corredores vieram com o mesmo propsito, foram seduzidos 
pelas mesmas atraes (reconhecendo-as, portanto, como atraes) e so guiados e movidos pelos mesmos motivos. "Estar dentro" produz uma verdadeira comunidade de 
crentes, unificados tanto pelos fins quanto pelos meios, tanto pelos valores que estimam quanto pela lgica de conduta que seguem. Assim, uma viagem aos "espaos 
do consumo"  uma viagem  to almejada comunidade que, como a prpria experincia de ir s compras, est permanentemente "alhures' Pelos poucos minutos ou horas 
que dura nosso "pas 
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seio' podemos encostar nos ombros de "outros como ns", fiis do mesmo templo; outros cuja alteridade pode ser, pelo menos neste lugar, aqui e agora, deixada longe 
da vista, da mente e da considerao. Para todos os propsitos, o lugar  puro, to puro quanto os lugares do culto religioso e a comunidade imaginada (ou postulada). 
Claude Lvi-Strauss, o maior antroplogo cultural de nosso tempo, sugeriu em Tristes tro'picos que apenas duas estratgias foram utilizadas na histria humana quando 
a necessidade de enfrentar a alteridade dos outros surgiu: uma era a antropomica, a outra, a antropofrgica. 
A primeira estratgia consiste em "vomitar' cuspir os outros vistos como incuravelmente estranhos e alheios: impedir o contato fsico, o dilogo, a interao social 
e todas as variedades de commercium, comensalidade e connubiunz. As variantes extremas da estratgia "mica" so hoje, como sempre, o encarceramento, a deportao 
e o assassinato. As formas elevadas, "refinadas" (modernizadas) da estratgia "mica" so a separao espacial, os guetos urbanos, o acesso seletivo a espaos e 
o impedimento seletivo a seu uso. 
A segunda estratgia consiste numa soi-disant "desalienao" das substncias alheias: "ingerir' "devorar" corpos e espritos estranhos de modo a faz-los, pelo metabolismo, 
idnticos aos corpos que os ingerem, e portanto no distinguveis deles. Essa estratgia tambm assumiu ampla gama de formas: do canibalismo  assimilao forada 
- cruzadas culturais, guerras declaradas contra costumes locais, contra calendrios, cultos, dialetos e outros "preconceitos" e "supersties' Se a primeira estratgia 
visava ao exlio ou aniquilao dos "outros' a segunda visava  suspenso ou aniquilao de sua alteridade. 
A ressonncia entre a dicotomia das estratgias de LviStrauss e as duas categorias de espaos "pblicos-mas-no-civis"  impressionante, mas no surpreendente. 
A praa La Dqense em Paris (juntamente com muitos outros "espaos interditrios" que, segundo Steven Flusty, ocupam lugar de destaque entre inovaes urbanas correntes)' 
 um exemplo arquitetnico da estratgia "mica' enquanto os "espaos de consumo" representam a "fgi ca 
Ambas - cada uma  sua maneira - respondem ao mesmo desafio: a tarefa de enfrentar a chance de encontrar estranhos, caracterstica constitutiva da vida urbana. Enfrentar 
essa possibilidade  uma tarefa que requer medidas "assistidas pelo poder" se os hbitos de civilidade estiverem ausentes ou forem pouco desenvolvidos e no profundamente 
enraizados. Os dois tipos de espaos urbanos "pblicos-mas-no-civis" derivam da evidente falta de habilidades da civilidade; ambos lidam com as conseqncias potencialmente 
prejudiciais dessa falta no pela promoo do estudo e aquisio das habilidades que faltam, mas tornando sua posse irrelevante e desnecessria para a prtica da 
arte do viver urbano. 
E preciso acrescentar s duas respostas descritas uma terceira, cada vez mais comum. Ela  o que Georges Benko, seguindo Marc Aug, chama de "no-lugares" (ou, alternativamente, 
segundo Garreau, "cidades-de-lugar-nenhum").1' "No-lugares" partilham certas caractersticas com nossa primeira categoria de lugares ostensivamente pblicos mas 
enfaticamente no-civis: desencorajam a idia de "estabelecer-se' tornando a colonizao ou domesticao do espao quase impossvel. Ao contrrio de La Dqeme, porm, 
espao cujo nico destino  ser atravessado e deixado para trs o mais rapidamente possvel, ou dos espaos "interditrios" cuja principal funo consiste em impedir 
o acesso e que so desenhados para serem circundados, e no atravessados, os no-lugares aceitam a inevitabilidade de uma adiada passagem, s vezes muito longa, 
de estranhos, e fazem o que podem para que sua presena seja "meramente fsica" e socialmente pouco diferente, e preferivelmente indistinguvel da ausncia, para 
cancelar, nivelar ou zerar, esvaziar as idiossincrticas subjetividades de seus "passantes' Os residentes temporrios dos no-lugares so possivelmente diferentes, 
cada variedade com seus prprios hbitos e expectativas; e o truque  fazer com que isso seja irrelevante durante sua estadia. Quaisquer que sejam suas outras diferenas, 
devero seguir os mesmos padres de conduta: e as pistas que disparam o padro uniforme de conduta devem ser legveis por todos eles, independente das lnguas que 
prefiram ou que costumem utilizar em seus afazeres dirios. O que quer que acontea nesses "no-lu 
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gares", todos devem sentir-se como se estivessem em casa, mas ningum deve se comportar como se verdadeiramente em casa. Um no-lugar " um espao destitudo das 
expresses simblicas de identidade, relaes e histria: exemplos incluem aeroportos, auto-estradas, annimos quartos de hotel, transporte pblico 
Jamais na histria do mundo os no-lugares ocuparam tanto espao" 
Os no-lugares no requerem domnio da sofisticada e dificil arte da civilidade, uma vez que reduzem o comportamento em pblico a preceitos simples e fceis de aprender. 
Por causa dessa simplificao, tambm no so escolas de civilidade. E, como hoje "ocupam tanto espao", como colonizam fatias cada vez maiores do espao pblico 
e as reformulam  sua semelhana, as ocasies de aprendizado so cada vez mais escassas e ocorrem a intervalos cada vez maiores. 
As diferenas podem ser expelidas, engolidas, mantidas  parte, e h lugares que se especializam em cada caso. Mas as diferenas tambm podem ser tornadas invisveis, 
ou melhor, impedidas de serem percebidas. Esse  o caso dos "espaos vazios' Como propem Jerzy Kociatkiewicz e Monika Kostera, que cunharam o termo, os espaos 
vazios so 
lugares a que no se atribui significado. No precisam ser delimitados fsicamente por cercas ou barreiras. No so lugares proibidos, mas espaos vazios, inacessveis 
porque invisveis. 
Se ... o fazer sentido  um ato de padronizao, compreenso, superao da surpresa e criao de significado, nossa experincia dos espaos vazios no inclui o fazer 
sentido.12 
Os espaos vazios so antes de mais nada vazios de szgnficado. No que sejam sem significado porque so vazios:  porque no tm significado, nem se acredita que 
possam t-lo, que so vistos como vazios (melhor seria dizer no-vistos). Nesses lugares que resistem ao significado, a questo de negociar diferenas nunca surge: 
no h com quem negoci-la. O modo como os espaos vazios lidam com a diferena  radical numa medida que outros tipos de lugares projetados para repelir ou atenuar 
o impacto de estranhos no podem acompanhar. 
Tempo/Espao 
121 
Os espaos vazios que Kociatkiewicz e Kostera listam so lugares no-colonizados e lugares que nem os projetistas nem os gerentes dos usurios superficiais reservam 
para colonizao. Eles so, podemos dizer, lugares que "sobram" depois da reestruturao de espaos realmente importantes: devem sua presena fantasmagrica  falta 
de superposio entre a elegncia da estrutura e a confuso do mundo (qualquer mundo, inclusive o mundo desenhado propositalmente), notrio por fugir a classificaes 
cabais. Mas a famlia dos espaos vazios no se limita s sobras dos projetos arquitetnicos e s margens negligenciadas das vises do urbanista. Muitos espaos 
vazios so, de fato, no apenas resduos inevitveis, mas ingredientes necessrios de outro processo: o de mapear o espao partilhado por muitos usurios diferentes. 
Numa de minhas viagens de conferncias (a uma cidade populosa, graHde e viva do sul da Europa), fui recebido no aeroporto por uma jovem professora, filha de um casal 
de profissionais ricos e de alta escolaridade. Ela se desculpou porque a ida para o hotel no seria fcil, e tomaria muito tempo, pois no havia como evitar as movimentadas 
avenidas para o centro da cidade, constantemente engarrafadas pelo trfego pesado. De fato, levamos quase duas horas para chegar ao lugar. Minha guia ofereceu-se 
para conduzir- me ao aeroporto no dia da partida. Sabendo quo cansativo era dirigir na cidade, agradeci sua gentileza e boa vontade, mas disse que tomaria um txi. 
O que fiz. Desta vez, a ida ao aeroporto tomou menos de dez minutos. Mas o motorista foi por fileiras de barracos pobres, decadentes e esquecidos, cheios de pessoas 
rudes e evidentemente desocupadas e crianas sujas vestindo farrapos. A nfase de minha guia em que no havia como evitar o trfego do centro da cidade no era mentira. 
Era sincera e adequada a seu mapa mental da cidade em que tinha nascido e onde sempre vivera. Esse mapa no registrava as ruas dos feios "distritos perigosos" pelas 
quais o txi me levou. No mapa mental de minha guia, no lugar em que essas ruas deveriam ter sido projetadas havia, pura e simplesmente, um espao vazio. 
A cidade, como outras cidades, tem muitos habitantes, cada um com um mapa da cidade em sua cabea. Cada mapa tem seus espaos vazios, ainda que em mapas diferentes 
eles se localizem 
122 Modernidade Uquida 
em lugares diferentes. Os mapas que orientam os movimentos das vrias categorias de habitantes no se superpem, mas, para que qualquer mapa "faa sentido' algumas 
reas da cidade devem permanecer sem sentido. Excluir tais lugares permite que o resto brilhe e se encha de significado. 
O vazio do lugar est no olho de quem v e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios so os lugares em que no se entra e onde se sentiria perdido e vulnervel, surpreendido 
e um tanto atemorizado pela presena de humanos. 
No fole com estranhos 
A principal caracterstica da civilidade  a capacidade de interagir com estranhos sem utilizar essa estranheza contra eles e sem pression-los a abandon-la ou 
a renunciar a alguns dos traos que os fazem estranhos. A principal caracterstica dos lugares "pblicos mas no civis" - as quatro categorias listadas acima -  
a dispensabilidade dessa interao. Se a proximidade fisica no puder ser evitada, ela pode pelo menos ser despida da ameaa de "estar juntos" que contm, com seu 
conite ao encontro significativo, ao dilogo e  interao. Se no se puder evitar o encontro com estranhos, pode-se pelo menos tentar evitar maior contato. Que 
os estranhos, como as crianas da era vitoriana, possam ser vistos mas no ouvidos, ou, se no se puder evitar ouvi-los, que ao menos no se escute o que dizem. 
A questo  fazer o que quer que digam irrelevante e sem conseqncias para o que pode e deve ser feito. 
Todos esses expedientes no passam de meias-medidas: as solues menos ruins ou os menos detestveis e prejudiciais dos males. Lugares "pblicos mas no civis" permitem 
que lavemos nossas mos de qualquer intercmbio com os estranhos  nossa volta e que evitemos o comrcio arriscado, a comunicao dificil, a negociao enervante 
e as concesses irritantes. No impedem, porm, o encontro com estranhos; ao contrrio, supem-no - foram criados por causa dessa suposio. So, por assim dizer, 
curas para uma doena j contrada - e no uma medicina preventiva que tornaria desnecessrio o tratamento. E todos os tratamentos, 
Tempo/Espao 123 
como sabemos, podem ou no debelar a doena. H poucos - se houver - mtodos eficazes a toda prova. Como seria bom, portanto, tornar o tratamento desnecessrio imunizando 
o organismo contra a doena. Donde livrar-se da companhia de estranhos parece uma perspectiva mais atraente e segura que as estratgias mais sofisticadas para neutralizar 
sua presena. 
Essa pode parecer uma soluo melhor, mas no est livre de seus prprios perigos. Mexer com o sistema imunolgico  arriscado e pode mostrar-se patognico. Ademais, 
tornar o organismo resistente a certas ameaas provavelmente o torna vulnervel a outras. Dificilmente qualquer interferncia estar livre de horrveis efeitos colaterais: 
diversas intervenes mdicas so conhecidas pelas doenas iatrognicas que provocam - doenas que resultam da prpria interveno, que no so menos (se no mais) 
perigosas que a doena que se pretendia curar. 
Como indica Richard Sennett, 
invocam-se mais a lei e a ordem quando as comunidades esto mais 
isoladas das outras pessoas na cidade 
Durante as ltimas duas dcadas as cidades nos EUA cresceram de maneira que homogeneizou as reas tnicas; no  por acaso, ento, que o medo do estranho tambm 
cresceu  medida que essas comunidades tnicas foram isoladas.13 
A capacidade de conviver com a diferena, sem falar na capacidade de gostar dessa vida e beneficiar-se dela, no  fcil de adquirir e no se faz sozinha. Essa capacidade 
 uma arte que, como toda arte, requer estudo e exerccio. A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a ambivalncia de todas as decises classificatrias, 
ao contrrio, se autoperpetuam e reforam: quanto mais eficazes a tendncia  homogeneidade e o esforo para eliminar a diferena, tanto mais dificil sentir-se  
vontade em presena de estranhos, tanto mais ameaadora a diferena e tanto mais intensa a ansiedade que ela gera. O projeto de esconder-se do impacto enervante 
da multivocalidade urbana nos abrigos da conformidade, monotonia e repetitividade comunitrias  um projeto que se auto-alimenta, mas que est fadado  derrota. 
1 
124 Modernidade lquida 
Tempo/Espao 125 
Essa poderia ser uma verdade trivial, no fosse o fato de que o ressentimento em relao  diferena tambm se autocorrobora:  medida que o impulso  uniformidade 
se intensifica, o mesmo acontece com o horror ao perigo representado pelos "estranhos no porto" O perigo representado pela companhia de estranhos  uma clssica 
profecia autocumprida. Torna-se cada vez mais fcil misturar a viso dos estranhos com os medos difusos da insegurana; o que no comeo era uma mera suposio torna-se 
uma verdade comprovada, para acabar como algo evidente. 
A perplexidade se torna um crculo vicioso. Como a arte de negociar interesses comuns e um destino compartilhado vem caindo em desuso, raramente  praticada, est 
meio esquecida ou nunca foi propriamente aprendida; como a idia do "bem comum"  vista com suspeio, como ameaadora, nebulosa ou confusa - a busca da segurana 
numa identidade comum e no em funo de interesses compartilhados emerge como o modo mais sensato, eficaz e lucrativo de proceder; e as preocupaes com a identidade 
e a defesa contra manchas nela tornam a idia de interesses comuns, e mais ainda interesses comuns negociados, tanto mais incrvel e fantasiosa, tornando ao mesmo 
tempo improvvel o surgimento da capacidade e da vontade de sair em busca desses interesses comuns. Como resume Sharon Zukin: "Ningum mais sabe falar com ningum" 
Zukin sugere que "a exausto do ideal de um destino comum reforou o apelo da cultura"; mas "no uso norte-americano comum, a cultura , antes de tudo, a etnicidade' 
que, por sua vez  "um modo legtimo de escavar um nicho na sociedade"4 Escavar um nicho, no h dvida, implica acima de tudo separao territoriai o direito a 
um "espao defensvel" separado, espao que precisa de defesa e  digno de defesa precisamente por ser separado 
- isto , porque foi cercado de postos de fronteira que permitem a entrada apenas de pessoas "da mesma" identidade e impedem o acesso a quaisquer outros. Como o 
propsito da separao territorial  a homogeneidade do bairro, a "etnicidade"  mais adequada que qualquer outra "identidade" imaginada. 
Ao contrrio de outras identidades postuladas, a idia de etnicidade  semanticamente carregada. Ela supe axiomaticamente um casamento divino que nenhum esforo 
na terra pode desman char 
uma espcie de lao predeterminado de unidade que precede toda negociao e eventuais acordos sobre direitos e obrigaes. Em outras palavras, a homogeneidade que 
presumivelmente marca as entidades tnicas  heter'noma: no um artefato humano, e certamente no o produto da gerao atual de humanos. No surpreende, pois, que 
a etnicidade, mais que qualquer outra espcie de identidade postulada, seja a primeira escolha quando se trata de fugir do assustador espao polifnico onde "ningum 
sabe falar com ningum" para o "nicho seguro" onde "todos so parecidos com todos" - e onde, assim, h pouco sobre o que falar e a fala  fcil. Tampouco surpreende 
que, sem muita considerao pela lgica, outras comunidades postuladas, enquanto reivindicam seus prprios "nichos na sociedade' queiram tirar sua lasquinha da etnicidade 
e inventem cuidadosamente suas prprias razes, tradies, histria compartilhada e futuro comum - mas, antes e acima de tudo, sua cultura separada e singular, que 
por causa de sua genuna ou putativa singularidade merece ser considerada "um valor em si mesma' 
Seria equivocado explicar o renascido comunitarismo de nossos tempos como um soluo de instintos ou inclinaes ainda no inteiramente erradicados que o progresso 
da modernizao mais cedo ou mais tarde vai neutralizar ou diluir; seria igualmente equivocado descart-lo como uma falha da razo momentnea - um lamentvel mas 
inevitvel caso de irracionalidade, em flagrante contradio com as implicaes de uma "escolha pblica" racionalmente fundada. Cada formao social promove seu 
prprio tipo de racionalidade, investe seu prprio significado na idia de uma estratgia racional de vida - e pode-se argumentar em defesa da hiptese de que a 
corrente metamorfose do comunitarismo  uma resposta racional  crise genuna do "espao pblico" - e portanto da poltica, essa atividade humana para a qual o espao 
pblico  o terreno natural. 
Com o domnio da poltica se estreitando aos limites das confisses pblicas, exibies pblicas da intimidade e exame e censura pblicas de virtudes e vcios privados; 
com a questo da credibilidade das pessoas expostas  vista pblica substituindo a considerao sobre qual  e deve ser o objeto da poltica; com a viso de uma 
sociedade boa e justa praticamente ausente do dis 
1 
126 
Modernidade Lquida 
curso poltico - no  de surpreender que (como j observava Sennett h 20 anos)15 as pessoas "se tornem espectadores passivos de uma personagem poltica que lhes 
oferece para consumo suas intenes e sentimentos em lugar de seus atos' A questo , porm, que os espectadores no esperam, dos polticos e de todos os outros 
na ribalta, mais que um bom espetculo. E assim o espetculo da poltica, como outros espetculos publicamente encenados, se torna a mensagem montona e incessantemente 
martelada da prioridade da identidade sobre os interesses, ou a lio pblica contnua de que a identidade, e no os interesses,  o que verdadeiramente importa, 
assim como o que verdadeiramente importa  quem se  e no o que se est fazendo. De cima a baixo,  a revelao do verdadeiro eu que se torna a essncia das relaes 
em pblico e da vida pblica como tal; e  a identidade que se torna o estilhao a que os nufragos em busca de socorro se agarram quando afundam os navios do interesse. 
E ento, como sugere Sennett, "manter a comunidade torna-se um fim em si mesmo; o expurgo dos que no fazem parte torna-se assunto da comunidade' No mais se precisa 
uma "justificao para a recusa  negociao, para o expurgo contnuo dos de fora' 
Esforos para manter  distncia o "outro' o diferente, o estranho e o estrangeiro, e a deciso de evitar a necessidade de comunicao, negociao e compromisso 
mtuo, no so a nica resposta concebvel  incerteza existencial enraizada na nova fragilidade ou fluidez dos laos sociais. Essa deciso certamente se adapta 
 nossa preocupao contempornea obsessiva com poluio e purificao,  nossa tendncia de identificar o perigo para a segurana corporal com a invaso de "corpos 
estranhos" e de identificar a segurana no-ameaada com a pureza. A ateno aguda- mente apreensiva s substncias que entram no corpo pela boca e pelas narinas, 
e aos estranhos que se esgueiram sub-repticiamente pelas vizinhanas do corpo, acomodam-se lado a lado no mesmo quadro cognitivo. Ambas ativam um desejo de "expeli-los 
do sistema': 
Esses desejos convergem, aliam-se e condensam-se na poltica da separao tnica, e particularmente na defesa contra a vinda dos "estrangeiros': Como diz Georges 
Benko,'6 
Tempo/Espao 
127 
h Outros que so mais Outros que os Outros, os estrangeiros. Excluir pessoas como estrangeiras porque no somos mais capazes de conceber o Outro indica uma patologia 
social. 
Pode ser patologia, mas no urna patologia da mente que tenta em vo forar um sentido para um mundo destitudo de significado estvel e confivel;  uma patologia 
do espao pblico que resulta numa patologia da poltica: o esvaziamento e a decadncia da arte do dilogo e da negociao, e a substituio do engajamento e mtuo 
comprometimento pelas tcnicas do desvio e da evaso. 
"No fale com estranhos" - outrora uma advertncia de pais zelosos a seus pobres filhos - tornou-se o preceito estratgico da normalidade adulta. Esse preceito reafirma 
como regra de prudncia a realidade de utna vida em que os estranhos so pessoas com quem nos recusamos a falar. Os governos impotentes para atacar as razes da 
insegurana e ansiedade de seus sditos esto bem- dispostos e felizes com a situao. Uma frente de "imigrantes' essa mais completa e tangvel encarnao do "outro' 
pode muito bem levar a unir o difuso amontoado de indivduos atemorizados e desorientados em alguma coisa vagamente assemelhada a uma "comunidade nacional"; e essa 
 uma das poucas tarefas que os governos de nosso tempo so capazes de fazer e tm feito. 
O Heritage Park de George Hazeldon seria um lugar onde, afinal, todos os passantes poderiam falar livremente uns com os outros. Eles seriam livres para falar porque 
haveria muito pouco sobre o que falar -  exceo da troca de frases rotineiras e familiares que no geram controvrsia, mas tampouco implicam comprometimento. A 
sonhada pureza da comunidade de Heritage Park s pode ser conquistada ao preo do desengajamento e da ruptura dos laos. 
A modernidade como histria do tempo 
Quando eu era criana (e isso aconteceu em outro tempo e em outro espao) no era incomum ouvir a pergunta "Quo longe  
128 Modernidade Lquida 
Tempo/Espao 129 
daqui at l?" respondida por um "Mais ou menos uma hora, ou um pouco menos se voc caminhar rpido" Num tempo ainda anterior  minha infancia, suponho que a resposta 
mais comum teria sido "Se voc sair agora, estar l por volta do meio-dia" ou "Melhor sair agora, se voc quiser chegar antes que escurea' Hoje em dia, pode-se 
ouvir ocasionalmente essas respostas. Mas sero normalmente precedidas por uma solicitao para ser mais especfico: "Voc vai de carro ou a p?" 
"Longe" e "tarde' assim como "perto" e "cedo' significavam quase a mesma coisa: exatamente quanto esforo seria necessrio para que um ser humano percorresse uma 
certa distncia - fosse caminhando, semeando ou arando. Se as pessoas fossem instadas a explicar o que entendiam por "espao" e "tempo" poderiam ter dito que "espao" 
 o que se pode percorrer em certo tempo, e que "tempo"  o que se precisa para percorr-lo. Se no fossem muito pressionados, porm, no entrariam no jogo da definio. 
E por que deveriam? A maioria das coisas que fazem parte da vida cotidiana so compreendidas razoavelmente at que se precise definilas; e, a menos que solicitados, 
no precisaramos defini-las. O modo como compreendamos essas coisas que hoje tendemos a chamar de "espao" e "tempo" era no apenas satisfatrio, mas to preciso 
quanto necessrio, pois era o wetware - os humanos, os bois e os cavalos que fazia o esforo e punha os limites. Um par de pernas humanas pode ser diferente de outros, 
mas a substituio de um par por outro no faria uma diferena suficientemente grande para requerer outras medidas alm da capacidade dos msculos humanos. 
No tempo das Olimpadas gregas ningum pensava em registrar os recordes olmpicos, e menos ainda em quebr-los. A inveno e disponibilidade de algo alm da fora 
dos msculos humanos ou animais foi necessria para que essas idias fossem concebidas e para a deciso de atribuir importncia s diferenas entre as capacidades 
de movimento dos individuos humanos - e, assim, para que apr-hzstria do tempo, essa longa era da prtica limitada pelo wetware terminasse, e a histria do tempo 
comeasse. A histria do tempo comeou com a modernidade. De fato, a moderni dad 
, talvez mais que qualquer outra coisa, a histria do tempo: a modernidade  o tempo em que o tempo tem uma histria. 
Se pesquisarmos em livros de histria a razo por que espao e tempo, outrora mesclados nos afazeres da vida humana, se separaram e se afastaram no pensamento e 
prtica dos homens, encontraremos com freqncia histrias edificantes de descobertas realizadas pelos valentes cavaleiros da razo - filsofos intrpidos e cientistas 
corajosos. Aprendemos sobre astrnomos que mediam distncias e a velocidade dos corpos celestes, sobre Newton calculando as relaes exatas entre a acelerao e 
a distncia percorrida pelo "corpo fsico" e seus enormes esforos para expressar tudo isso em nmeros - as mais abstratas e objetivas de todas as medidas imagiriveis; 
ou sobre Kant, impressionado por suas realizaes a ponto de conceber espao e tempo como duas categorias transcendentalmente separadas e mutuamente independentes 
do conhecimento humano. E no entanto, por mais justificvel que seja a vocao dos filsofos de pensar sub specie aeternitatis,  sempre um pedao do infinito e 
da eternidade, sua parte finita corrente- mente ao alcance da prtica humana, que fornece o "campo epistemolgico" para a reflexo filosfica e cientfica e o material 
emprico que pode ser trabalhado para construir verdades eternas; essa limitao, na verdade, separa os grandes pensadores dos outros que desapareceram na histria 
como fantasistas, fabricantes de mitos, poetas e outros sonhadores. E assim algo deve ter acontecido  amplitude e  capacidade de carga da prtica humana para que 
os soberanos espao e tempo repentinamente se ponham a encarar, olhos nos olhos, os filsofos. 
Esse "algo" foi, podemos adivinhar, a construo de veculos que podiam se mover mais rpido que as pernas dos humanos ou dos animais; e veculos que, em clara oposio 
aos humanos e aos cavalos, podem ser tornados mais e mais velozes, de tal modo que atravessar distncias cada vez maiores tomar cada vez menos tempo. Quando tais 
meios de transporte no-humanos e no-animais apareceram, o tempo necessrio para viajar deixou de ser caracterstica da distncia e do inflexvel "wetware"; tornou-se, 
em vez disso, atributo da tcnica de viajar. O tempo se tornou o problema do "hardware" que os humanos podem inventar, construir, 
130 Modernidade Lquida 
131 
Tempo/Espao 
apropriar, usar e controlar, no do "wetware" impossvel de esticar, nem dos poderes caprichosos e extravagantes do vento e da gua, indiferentes  manipulao humana; 
por isso mesmo, o tempo se tornou um fator independente das dimenses inertes e imutveis das massas de terra e dos mares. O tempo  diferente do espao porque, 
ao contrrio deste, pode ser mudado e manipulado; tornou-se um fator de disrupo: o parceiro dinmico no casamento tempo-espao. 
Numa declarao famosa, Benjamin Franklin disse que tempo  dinheiro; pde diz-lo porque antes j havia definido o homem como o "animal que faz ferramentas" Resumindo 
a experincia de mais dois sculos, John Fitzgerald Kennedy advertia seus concidados norte-americanos a usarem o "tempo como uma ferramenta, e no como um sof' 
O tempo se tornou dinheiro depois de se ter tornado uma ferramenta (ou arma?) voltada principalmente a vencer a resistncia do espao: encurtar as distncias, tornar 
exeqvel a superao de obstculos e limites  ambio humana. Com essa arma, foi possvel estabelecer a meta da conquista do espao e, com toda seriedade, iniciar 
sua implementao. 
Os reis talvez pudessem viajar mais confortavelmente que seus prepostos, e os bares mais convenientemente que seus servos; mas, em princpio, nenhum deles poderia 
viajar muito mais depressa que qualquer dos outros. O wetware tornava os humanos semelhantes; o hardware os tornava diferentes. Essas diferenas (ao contrrio das 
que derivavam da dissimilitude dos msculos humanos) eram resultados de aes humanas antes de se transformarem em condies de sua eficcia, e antes que pudessem 
ser utilizadas para criar ainda mais diferenas, e diferenas mais profundas e menos contestveis do que antes. Com o advento do vapor e do motor a exploso, a igualdade 
fundada no wetware chegou ao fim. Algumas pessoas podiam agora chegar onde queriam muito antes que as outras; podiam tambm fugir e evitar serem alcanadas ou detidas. 
Quem viajasse mais depressa podia reivindicar mais territrio - e control-lo, mape-lo e supervision-lo -, mantendo distncia em relao aos competidores e deixando 
os intrusos de fora. 
Pode-se associar o comeo da era moderna a vrias facetas das prticas humanas em mudana, mas a emancipao do tempo em relao ao espao, sua subordinao  inventividade 
e  capacidade tcnica humanas e, portanto, a colocao do tempo contra o espao como ferramenta da conquista do espao e da apropriao de terras no so um momento 
pior para comear uma avaliao que qualquer outro ponto de partida. A modernidade nasceu sob as estrelas da acelerao e da conquista de terras, e essas estrelas 
formam uma constelao que contm toda a informao sobre seu carter, conduta e destino. Para l-la, basta um socilogo treinado; no  preciso um astrlogo imaginativo. 
A relao entre tempo e espao deveria ser de agora em diante processual, mutvel e dinmica, no predeterminada e estagnada. A "conquista do espao" veio a significar 
mquinas mais velozes. O movimento acelerado significava maior espao, e acelerar o movimento era o nico meio de ampliar o espao. Nessa corrida, a expanso espacial 
era o nome do jogo e o espao, seu objetivo; o espao era o valor, o tempo, a ferramenta. Para maximizar o valor, era necessrio afiar os instrumentos; muito da 
"racionalidade instrumental" que, como Max Weber sugeriu, era o princpio operativo da civilizao moderna, se centrava no desenho de modos de realizar mais rapidamente 
as tarefas, eliminando assim o tempo "improdutivo' ocioso, vazio e, portanto, desperdiado; ou, para contar a mesma histria em termos dos efeitos e no dos meios 
da ao, centrava-se em preencher o espao mais densamente de objetos e em ampliar o espao que poderia ser assim preenchido num tempo determinado. No limiar da 
moderna conquista do espao, Descartes, olhando  frente, identificava existncia e espacialidade, definindo tudo o que existe materialmente como res extensa. (Como 
Rob Shields espirituosamente diz, poder-se-ia reformular o famoso cogito cartesiano, sem distorcer seu sentido, como "ocupo espao, logo existo").'7 Num momento 
em que essa conquista perde gs e se encerra, Michel de Certeau - olhando para trs - declara que o poder diz respeito a territrio e fronteiras. (Como Tim Cresswell 
resumiu a posio de Certeau recentemente, "as armas dos fortes so ... classificao, delineamento, diviso. Os fortes dependem da 'correo do mapeamento"8 note-se 
que 
132 Modernidade Lquida 
Tempo/Espao 133 
todas as armas arroladas so operaes realizadas sobre o espao.) Poder-se-ia dizer que a diferena entre os fortes e os fracos  a diferena entre um territrio 
formado como no do mapa - vigiado de perto e estritamente controlado - e um territrio aberto  invaso, ao redesenho das fronteiras e  projeo de novos mapas. 
Pelo menos foi isso que se tornou assim e assim permaneceu por boa parte da histna moderna. 
Da modernidade pesada  modernidade leve 
Essa parte da histria, que agora chega ao fim, poderia ser chamada, na falta de nome melhor, de era do hardware, ou modernidade pesada - a modernidade obcecada 
pelo volume, uma modernidade do tipo "quanto maior, melhor' "tamanho  poder, volume  sucesso' Essa foi a era do hardware, a poca das mquinas pesadas e cada vez 
mais desajeitadas, dos muros de fbricas cada vez mais longos guardando fbricas cada vez maiores que ingerem equipes cada vez maiores, das poderosas locomotivas 
e dos gigantescos transatlnticos. A conquista do espao era o objetivo supremo - agarrar tudo o que se pudesse manter, e manter-se nele, marcando-o com todos os 
sinais tangveis da posse e tabuletas de "proibida a entrada" O territrio estava entre as mais agudas obsesses modernas e sua aquisio, entre suas urgncias mais 
prementes - enquanto a manuteno das fronteiras se tornava um de seus vcios mais ubquos, resistentes e inexorveis. 
A modernidade pesada foi a era da conquista territorial. A riqueza e o poder estavam firmemente enraizadas ou depositadas dentro da terra - volumosos, fortes e inamovveis 
como os leitos de minrio de ferro e de carvo. Os imprios se espalhavam, preenchendo todas as fissuras do globo: apenas outros imprios de fora igual ou superior 
punham limites  sua expanso. O que quer que ficasse entre os postos avanados dos domnios imperiais em competio era visto como terra de ningum, sem dono e, 
portanto, como um espao vazio - e o espao vazio era um desafio  ao e uma censura  preguia. (A cincia popular da poca captou seu clima com perfeio ao informar 
aos leigos que "a 
natureza no tolera o vazio') Ainda menos suportvel era a idia dos "espaos em branco" do globo: ilhas e arquiplagos desconhecidos, massas de terra  espera de 
descoberta e colonizao, os interiores intocados dos continentes, os "coraes das trevas" clamando por luz. Intrpidos exploradores eram os heris das novas verses 
modernas das "histrias de marinheiros" de Walter Benjamm, dos sonhos da infncia e da nostalgia adulta; entusiasticamente aplaudidos na partida e aclamados com 
honrarias na chegada, eles andaram, de expedio em expedio, por selvas, savanas e o gelo eterno em busca da cordilheira, lago ou planalto ainda no-cartografado. 
Tambm o paraso moderno, como o ShangriLa de James Hilton, estava "l fora", num lugar ainda "no descoberto' escondido e inacessvel, um pouco alm de no-passadas 
e no-passveis massas de montanhas ou desertos mortais, ao fim de uma trilha ainda no marcada. A aventura e a felicidade, a riqueza e o poder eram conceitos geogrficos 
ou "propriedades territoriais" - atados a seus lugares, inamovveis e intransferveis. Isso exigia muros impenetrveis e postos avanados rigorosos, guardas de fronteiras 
em permanente viglia e localizao secreta. (Um dos segredos mais bem guardados da Segunda Grande Guerra, a base area norte-americana a partir da qual seria desferido 
o mortal ataque sobre Tquio em 1942, era apelidada "Shangri-la") 
Riqueza e poder que dependem do tamanho e qualidade do hardware tendem a ser lentas, resistentes e complicadas de mover. Elas so "encorpadas" e fixas, feitas de 
ao e concreto e medidas por seu volume e peso. Crescem expandindo o lugar que ocupam e protegem-se protegendo esse lugar: o lugar  simultaneamente seu viveiro, 
sua fortaleza e sua priso. Daniel Bell descreveu uma das mais poderosas, invejadas e emuladas dessas prises/fortalezas/viveiros: a planta "Willow Run" da General 
Motors em Michigan.' 9 O lugar ocupado pelas instalaes era de um quilmetro por 400 metros. Todo o material necessrio para a produo de carros era reunido sob 
um nico e gigantesco teto, numa nica e monstruosa jaula. A lgica do poder e a lgica do controle estavam fundadas na estrita separao entre o "dentro" e o "fora" 
e numa vigilante defesa da fronteira entre eles. As duas lgicas, reunidas 
134 
Modernidade Lquida 
em uma, estavam incorporadas na lgica do tamanho, organizada em torno de um preceito: maior significa mais eficiente. Na verso pesada da modernidade, o progresso 
significava tamanho crescente e expanso espacial. 
Era a rotinizao do tempo que mantinha o lugar como um todo compacto e sujeito a uma lgica homognea. (Bell invocava a principal ferramenta de rotinizao ao chamar 
esse tempo de "mtrico') 
Na conquista do espao, o tempo tinha que ser flexvel e malevel, e acima de tudo tinha que poder encolher pela crescente capacidade de "devorar espao" de cada 
unidade: dar a volta ao mundo em 80 dias era um sonho atraente, mas ser capaz de faz-lo em oito dias era infinitamente mais atraente. Voar sobre o Canal da Mancha 
e depois sobre o Atlntico eram os marcos pelos quais se media o progresso. Quando, porm, chegava o momento da fortificao do espao conquistado, de sua colonizao 
e domesticao, fazia-se necessrio um tempo rgido, uniforme e inflexvel: 
o tipo de tempo que pudesse ser cortado em fatias de espessura semelhante e passvel de ser arranjado em seqncias montonas e inalterveis. O espao s era "possudo" 
quando controlado - e controle significava antes e acima de tudo "amansar o tempo' neutralizando seu dinamismo interno: simplificando, a uniformidade e coordenao 
do tempo. Era maravilhoso e excitante alcanar as nascentes do Nilo antes que outros exploradores as alcanassem, mas um trem adiantado ou peas de automveis que 
chegassem  linha de montagem antes das outras eram os pesadelos mais assustadores da modernidade pesada. 
O tempo rotinizado se juntava aos altos muros de tijolos arrematados por arame farpado ou cacos de vidro e portes bem-guardados para proteger o lugar contra intrusos; 
tambm impedia que os de dentro sassem  vontade. A "fbrica fordista' o modelo mais cobiado e avidamente seguido da racionalidade planejada no tempo da modernidade 
pesada, era o lugar do encontro face a face, mas tambm do voto de "at que a morte nos separe" entre o capital e o trabalho. Esse casamento era de convenincia 
e necessidade - raramente de amor -, mas era para durar "para sempre" (o que quer que isso significasse em termos da vida indivi Tempo/Espao 
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dual), e com freqncia durava. Era essencialmente monogmico 
- e para ambas as partes. O divrcio estava fora de questo. Para 
o bem ou para o mal, as partes unidas no casamento deveriam 
permanecer unidas; uma no poderia sobreviver sem a outra. 
O tempo rotinizado prendia o trabalho ao solo, enquanto a massa dos prdios da fbrica, o peso do maquinrio e o trabalho permanentemente atado acorrentavam o capital. 
Nem o capital nem o trabalho estavam ansiosos para mudar, e nem seriam capazes disso. Como qualquer outro casamento que no contasse com a vlvula de escape do divrcio 
sem dor, a histria dessa convivncia era cheia de som e fria, varrida por irrupes de inimizade e marcada por uma guerra de trincheiras ligeiramente menos dramtica, 
mas mais constante e persistente, dia sim, dia no. Em nenhum momento, porm, os plebeus pensaram em abandonar a cidade; os patrcios tampouco eram livres para faz-lo. 
E nem era necessria a oratria de Menenius Agrippa para manter a ambos em seus lugares. A prpria intensidade e perpetuidade do conflito era viva evidncia do destino 
comum. O tempo congelado da rotina de fbrica, junto com os tijolos e argamassa das paredes, imobilizava o capital to eficientemente quanto o trabalho que este 
empregava. Tudo isso mudou, no entanto, com o advento do capitalismo de software e da modernidade "leve' O economista da Sorbonne Daniel Cohen resume: "Quem comea 
uma carreira na Microsoft no tem a mnima idia de onde ela terminar. Quem comeava na Ford ou na Renault podia estar quase certo de terminar no mesmo lugar'2 
No estou certo de que seja legtimo utilizar o termo "carreira" para os dois casos, como Cohen faz. "Carreira" evoca uma trajetria estabelecida, no muito diferente 
do processo da "tenure" (estabilidade) das universidades norte-americanas, com uma seqncia de estgios estabelecida de antemo e marcada por condies de entrada 
e regras de admisso razoavelmente claras. As "carreiras" tendem a ser feitas por presses coordenadas de espao e tempo. O que quer que acontea aos empregados 
da Microsoft ou seus incontveis admiradores e imitadores - onde tudo o que ocupa os gerentes so "formas organizacionais mais soltas e por isso mais adequadas ao 
fluxo" e onde a organizao de negcios 
1 
136 Modernidade Lquida 
 cada vez mais vista como uma tentativa permanente, no-conclusiva, "de formar uma ilha de adaptabilidade superior"; num mundo percebido como "mltiplo, complexo 
e rpido e, portanto, como 'ambguo 'vago' ou 'plstico"2' - milita contra estruturas durveis, e notadamente contra estruturas que envolvem uma expectativa proporcional 
 durao costumeira da vida til. Em tais condies a idia de uma "carreira" parece nebulosa e inteiramente fora de lugar. 
Essa , contudo, uma mera questo terminolgica. Seja como for, a questo principal  que a comparao de Cohen capta sem erro o divisor de guas na histria moderna 
do tempo e alude ao impacto que essa mudana comea a ter na condio da existncia humana. A mudana em questo  a nova irrelevncia do espao, disfarada de aniquilao 
do tempo. No universo de software da viagem  velocidade da luz, o espao pode ser atravessado, literalmente, em "tempo nenhum"; cancela-se a diferena entre "longe" 
e "aqui' O espao no impe mais limites  ao e seus efeitos, e conta pouco, ou nem conta. Perdeu seu "valor estratgico' diriam os especialistas militares. 
Todos os valores, observou Simmel, so "valiosos" na medida em que devem ser conquistados "pela superao de outros valores";  o "desvio da busca por certas coisas" 
que nos faz "v-las como valiosas' Sem usar essas palavras, Simmel conta a histria do "fetichismo do valor": as coisas, escreveu, "valem exatamente o que custam"; 
e essa circunstncia parece perversamente "significar que elas custam o que valem" So os obstculos que precisam ser superados no caminho que leva  sua apropriao, 
"a tenso da luta por elas'; que as fazem valiosas.22 Se tempo nenhum precisa ser perdido ou superado - "sacrificado" - para chegar mesmo aos lugares mais remotos, 
os lugares so destitudos de valor, no sentido posto por Simmel. Quando as distncias podem ser percorridas (e assim as partes do espao atingidas e afetadas)  
velocidade dos sinais eletrnicos, todas as referncias ao tempo parecem, como diria Jacques Derrida, "sous ratur A "instantaneidade" aparentemente se refere a um 
movimento muito rpido e a um tempo muito curto, mas de fato denota a ausncia do tempo como fator do evento e, por isso mesmo, como elemento no clculo do valor. 
Tempo/Espao 137 
O tempo no  mais o "desvio na busca'; e assim no mais confere valor ao espao. A quase-instantaneidade do tempo do software anuncia a desvalorizao do espao. 
Na era do hardware, da modernidade pesada, que nos termos de Max Weber era tambm a era da racionalidade instrumental, o tempo era o meio que precisava ser administrado 
prudentemente para que o retorno de valor, que era o espao, pudesse ser maximizado; na era do software, da modernidade leve, a eficcia do tempo como meio de alcanar 
valor tende a aproximar-se do infinito, com o efeito paradoxal de nivelar por cima (ou, antes, por baixo) o valor de todas as unidades no campo dos objetivos potenciais. 
O ponto de interrogao moveu-se do lado dos meios para o lado dos fins. Se aplicado  relao tempo-espao, isso significa que, como todas as partes do espao podem 
ser atingidas no mesmo perodo de tempo (isto , em "tempo nenhum"), nenhuma parte do espao  privilegiada, nenhuma tem um "valor especial" Se todas as partes do 
espao podem ser alcanadas a qualquer momento, no h razo para alcanar qualquer uma delas num dado momento e nem tampouco razo para se preocupar em garantir 
o direito de acesso a qualquer uma delas. Se soubermos que podemos visitar um lugar em qualquer momento que quisermos, no h urgncia em visit-lo nem em gastar 
dinheiro em uma passagem vlida para sempre. H ainda menos razo para suportar o gasto da superviso e administrao permanentes, do laborioso e arriscado cultivo 
de terras que podem ser facilmente ocupadas e abandonadas conforme interesses de momento e "relevncias tpicas' 
A sedutora leveza do ser 
O tempo instantneo e sem substncia do mundo do software  tambm um tempo sem conseqncias. "Instantaneidade" significa realizao imediata, "no ato" - mas tambm 
exausto e desaparecimento do interesse. A distncia em tempo que separa o comeo do fim est diminuindo ou mesmo desaparecendo; as duas noes, que outrora eram 
usadas para marcar a passagem do tem- 
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138 Modernidade Lquida 
Tempo/Espao 139 
p0, e portanto para calcular seu "valor perdido' perderam muito de seu significado - que, como todos os significados, derivava de sua rgida oposio. H apenas 
"momentos" - pontos sem dimenses. Mas, ser ainda um tal tempo - tempo com a morfologia de um agregado de momentos - o tempo "como o conhecemos"? A expresso "momento 
de tempo" parece, pelo menos em certos aspectos vitais, um oxmoro. Teria o tempo, depois de matar o espao enquanto valor, cometido suicdio? No teria sido o espao 
apenas a primeira baixa na corrida do tempo para a auto-aniquilao? 
O que foi aqui descrito , claro, uma condio liminar na histria do tempo - o que parece ser, em seu estgio presente, a tendncia ltima dessa histria. Por mais 
prximo de zero que seja o tempo necessrio para alcanar um destino espacial, ele ainda no chegou l. Mesmo a tecnologia mais avanada, armada de processadores 
cada vez mais poderosos ainda tem muito caminho pela frente at atingir a genuna "instantaneidade' E em verdade a conseqncia lgica da irrelevncia do espao 
ainda no se realizou plenamente, como tambm no se realizou a leveza e a infiriita volatilidade e flexibilidade da agncia humana. Mas a condio descrita , de 
fato, o horizonte do desenvolvimento da modernidade leve. E, o que  ainda mais importante  o ideal do buscar sempre, ainda que (ou ser porque?) para nunca alcanar 
plenamente, de seus principais operadores, o ideal que, no surgimento de uma nova norma, penetra e satura cada rgo, tecido e clula do corpo social. Milan Kundera 
retratou "a insustentvel leveza do ser" como o centro da tragdia do mundo moderno. A leveza e a velocidade (juntas!) foram oferecidas por Italo Calvino, inventor 
de personagens totalmente livres (completamente livres porque so inalcanveis, escorregadios e impossveis de prender) - o baro que saltava sobre as rvores e 
o cavaleiro sem corpo - como as ltimas e mais plenas encarnaes da eterna funo emancipatria da arte literria. 
H mais de 30 anos (em seu clssico Fenmeno burocra'tico), Michel Crozier identificava a dominao (em todas suas variantes) com a proximidade das fontes da incerteza. 
Seu veredicto ainda vale: quem manda so as pessoas que conseguem manter suas 
aes livres, sem normas e portanto imprevisveis, ao mesmo tempo em que regulam normativamente (rotinizando e portanto tornando montonas, repetitivas e previsveis) 
as aes dos protagonistas. Pessoas com as mos livres mandam em pessoas com as mos atadas; a liberdade das primeiras  a causa principal da falta de liberdade 
das ltimas - ao mesmo tempo em que a falta de liberdade das ltimas  o significado ltimo da liberdade das primeiras. 
Nesse aspecto, nada mudou com a passagem da modernidade pesada  leve. Mas a moldura foi preenchida com um novo contedo; mais precisamente, a busca da "proximidade 
das fontes da incerteza" reduziu-se a um s objetivo - a instantaneidade. As pessoas que se movem e agem com maior rapidez, que mais se aproximam do momentneo do 
movimento, so as pessoas que agora mandam. E so as pessoas que no podem se mover to rpido - e, de modo ainda mais claro, a categoria das pessoas que no podem 
deixar seu lugar quando quiserem - as que obedecem. A dominao consiste em nossa prpria capacidade de escapar, de nos desengajarmos, de estar "em outro lugar", 
e no direito de decidir sobre a velocidade com que isso ser feito - e ao mesmo tempo de destituir os que esto do lado dominado de sua capacidade de parar, ou de 
limitar seus movimentos ou ainda torn-los mais lentos. A batalha contempornea da dominao  travada entre foras que empunham, respectivamente, as armas da acelerao 
e da procrastinao. 
O acesso diferencial  instantaneidade  crucial entre as verses correntes do fundamento duradouro e indestrutvel da diviso social em todas as suas formas historicamente 
cambiantes: o acesso diferencial  imprevisibilidade e, portanto,  liberdade. Num mundo povoado por servos que semeavam a terra, saltar sobre as rvores era a receita 
perfeita dos bares para a liberdade. E a facilidade com que os bares de hoje se comportam de modo semelhante ao saltar sobre as rvores que mantm os sucessores 
dos servos em seus lugares, e  a imobilidade forada desses sucessores, sua ligao  terra, que permite que os bares continuem a saltar. Por mais profunda e deprimente 
que seja a misria dos servos, no h ningum contra quem se rebelar, e se tivessem se 
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Modernidade Lquida 
rebelado no teriam alcanado os rpidos alvos de sua rebelio. A modernidade pesada mantinha capital e trabalho numa gaiola de ferro de que no podiam escapar. 
A modernidade leve permitiu que um dos parceiros sasse da gaiola. A modernidade "slida" era uma era de engajamento mtuo. A modernidade "fluida"  a poca do desengajamento, 
da fuga fcil e da perseguio intil. Na modernidade "lquida" mandam os mais escapadios, os que so livres para se mover de modo imperceptvel. 
Karl Polanyi (em A grande transformao: a origem poltica e econ'mica de nosso tempo, publicado em 1944) proclamou a fico do tratamento do trabalho como "mercadoria" 
e desenvolveu as conseqncias do arranjo social fundado nessa fico. O trabalho, observou Polanyi, no pode ser uma mercadoria (pelo menos no uma mercadoria como 
as outras), dado que no pode ser vendido ou comprado separado de seus portadores. O trabalho sobre o qual Polanyi escrevia era de fato trabalho incorporado: trabalho 
que no podia ser movido sem mover os corpos dos trabalhadores. S se podia alugar e empregar trabalho humano junto com o resto dos corpos dos trabalhadores, e a 
inrcia dos corpos alugados punha limites  liberdade dos empregadores. Para supervisionar o trabalho e canaliz-lo conforme o projeto era preciso administrar e 
vigiar os trabalhadores; para controlar o processo de trabalho era preciso controlar os trabalhadores. Esse requisito colocou o capital e o trabalho face a face 
e, para o bem ou para o mal, os manteve juntos. O resultado foi muito conflito, mas tambm muita acomodao mtua: cidas acusaes, lutas amargas e pouco amor perdido, 
mas tambm um tremendo engenho na formulao de regras de convvio razoavelmente satisfatrias ou apenas suportveis. Revolues e o Estado de bem-estar foram o 
resultado no previsto mas inevitvel da condio que impedia a separao como opo factvel e vivel. 
Vivemos agora uma outra "grande transformao': e um de seus aspectos mais visveis  um fenmeno que  o exato oposto da condio que Polanyi supunha: a "descorporificao" 
daquele tipo de trabalho humano que serve como principal fonte de nutrio, ou campo de pastagem, para o capital contemporneo. Insta- 
Tempo/Espao 
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laes de vigilncia e treinamento la Panptico, volumosas, confusas e desajeitadas, no so mais necessrias, O trabalho foi libertado do Panptico, mas, o que 
 mais importante, o capital se livrou do peso e dos custos exorbitantes de mant-lo; o capital ficou livre da tarefa que o prendia e o forava ao enfrentamento 
direto com os agentes explorados em nome de sua reproduo e engrandecimento. 
O trabalho sem corpo da era do software no mais amarra o capital: permite ao capital ser extraterritorial, voltil e inconstante. A descorporificao do trabalho 
anuncia a ausncia de peso do capital. Sua dependncia mtua foi unilateralmente rompida: enquanto a capacidade do trabalho , como antes, incompleta e irrealizvel 
isoladamente, o inverso no mais se aplica. O capital viaja esperanoso, contando com breves e lucrativas aventuras e confiante em que no haver escassez delas 
ou de parceiros com quem compartilh-las. O capital pode viajar rpido e leve, e sua leveza e mobilidade se tornam as fontes mais importantes de incerteza para todo 
o resto. Essa  hoje a principal base da dominao e o principal fator das divises sociais. 
Volume e tamanho deixam de ser recursos para se tornar riscos. Para os capitalistas que preferem trocar macios prdios de escritrios por cabines em bales, flutuar 
 o mais lucrativo e desejado dos recursos; e a melhor maneira de garantir a flutuao  jogar pela amurada todo peso no-vital, deixando os membros no-indispensveis 
da tripulao em terra. Um dos itens mais embaraosos do lastro de que  preciso livrar-se  a onerosa tarefa da administrao e superviso de uma equipe grande 
- tarefa que tem a tendncia irritante de crescer incessantemente e aumentar de peso com a adio de camadas sempre novas de compromissos e obrigaes. Se a "cincia 
da administrao" do capitalismo pesado se centrava em conservar a "mo-de-obra" e for-la ou suborn-la a permanecer de prontido e trabalhar segundo os prazos, 
a arte da administrao na era do capitalismo leve consiste em manter afastada a "mo-de-obra humana" ou, melhor ainda, for-la a sair. Encontros breves substituem 
engajamentos duradouros. No se faz uma plantao de limoeiros para espremer um limo. 
142 Modernidade Lquida 
Tempo/Espao 143 
O equivalente gerencial da lipoaspirao se tornou o principal estratagema da arte de administrar: emagrecer, reduzir de tamanho (a'ownsizing), superar, fechar ou 
vender algumas unidades porque no so suficientemente eficazes, e outras porque  mais barato deixar que lutem por sua conta pela sobrevivncia do que assumir a 
tarefa cansativa e demorada da superviso gerencial, so as principais aplicaes dessa nova arte. 
Alguns observadores se apressaram a concluir que "maior" no  mais considerado "mais eficiente" Nessa apresentao muito geral, porm, a concluso no  correta. 
A obsesso pela reduo de tamanho  um complemento inseparvel da mania das fuses. Os melhores jogadores nesse campo so conhecidos por negociar ou forar fuses 
para adquirir mais espao para operaes de reduo de tamanho, ao mesmo tempo em que a reduo "at o osso" dos ativos  amplamente aceita como precondio fundamental 
para o sucesso dos planos de fuso. Fuses e reduo de tamanho no se contrapem; ao contrrio, se condicionam e reforam mutuamente.  um paradoxo apenas aparente: 
a contradio aparente se dissolve se considerarmos uma "nova e melhorada" apresentao do princpio de Michel Crozier. E a mistura de estratgias de fuso e reduo 
de tamanho que oferece ao capital e ao poder financeiro o espao para se mover rapidamente, tornando a amplitude de sua viagem cada vez mais global, ao mesmo tempo 
em que priva o trabalho de seu poder de barganha e de rudo, imobilizando-o e atando suas mos ainda mais firmemente. 
A fuso prenuncia uma corda mais longa para o capital esguio, flutuante, ao estilo Houdini, que transformou a evaso e a fuga nos maiores veculos de sua dominao, 
substituiu compromissos duradouros por negcios de curto-prazo e encontros fugazes, mantendo sempre aberta a possibilidade do "ato de desaparecimento' O capital 
ganha mais campo de manobra - mais abrigos para esconder-se, maior matriz de permutaes possveis, mais amplo sortimento de transformaes disponveis, e portanto 
mais fora para manter o trabalho que emprega sob controle, juntamente com a capacidade de lavar as mos das conseqncias devastadoras de sucessivas rodadas de 
reduo de tamanho; essa  a cara contempornea da dominao - sobre aqueles que j foram atin gido 
e sobre os que temem estar na fila para golpes futuros. Como a Associao Norte-Americana de Administrao aprendeu com um estudo que comissionou, "o moral e a motivao 
dos trabalhadores caiu acentuadamente depois de vrios arrochos de reduo de tamanho. Os trabalhadores sobreviventes esperavam pelo novo golpe de foice em vez de 
exultarem com a vitria sobre os demitidos' 23 
A competio pela sobrevivncia certamente no  apenas o destino dos trabalhadores - ou, de maneira mais geral, de todos os que esto do lado que sofre a mudana 
da relao entre tempo e espao. Ela domina de alto a baixo a empresa obcecada com a "dieta de emagrecimento" Os gerentes devem reduzir o tamanho de setores que 
empregam trabalhadores para continuar vivos; a alta gerncia deve reduzir o tamanho de seus escritrios para merecer o reconhecimento das bolsas, ganhar os votos 
dos acionistas e garantir o direito aos cumprimentos quando completar a rodada de cortes. Depois de comeada, a tendncia "ao emagrecimento" ganha fora prpria. 
A tendncia se torna autopropelida e auto- acelerada, e (como os empresrios perfeccionistas de Max Weber, que no mais precisavam das exortaes de Calvino ao arrependimento) 
o motivo original - maior eficincia - torna-se cada vez mais irrelevante; o medo de perder o jogo da competio, de ser ultrapassado, deixado para trs ou excludo 
dos negcios  suficiente para manter o jogo da fuso/reduo de tamanho. Esse jogo se torna cada vez mais seu prprio propsito e sua prpria recompensa; melhor 
ainda, o jogo j no precisa de um propsito, se continuar nele for sua nica recompensa. 
Vida instantnea 
Richard Sennett foi durante muitos anos uru observador regular do encontro mundial dos poderosos, realizado anualmente em Davos. O tempo e o dinheiro gastos nas 
viagens a Davos deram belo retorno; Sennett trouxe de suas escapadas uma srie de percepes sobre os motivos e traos de carter que movimentam os principais atores 
no jogo global de hoje. A julgar por seu relato, 
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Modernidade Lquida 
Sennett ficou particularmente impressionado pela personalidade, desempenho e pelo credo publicamente articulado de Bill Cates. Cates, diz Sennett, "parece livre 
da obsesso de agarrar-se s coisas. Seus produtos surgem furiosamente para desaparecer to rpido como apareceram enquanto Rockefeller queria possuir oleodutos, 
prdios, mquinas ou estradas-de-ferro por longo tempo' Cates repetidamente declarou preferir "colocar-se numa rede de possibilidades a paralizar-se num trabalho 
particular" O que mais chamou a ateno de Sennett parece ter sido o desejo explcito de Cates de "destruir o que fizera diante das demandas do momento imediato" 
Cates parecia um jogador que "floresce em meio ao deslocamento" Tinha cuidado em no desenvolver apego (e especialmente apego sentimental) ou compromisso duradouro 
com nada, inclusive suas prprias criaes. No tinha medo de tomar o caminho errado, pois nenhum caminho o manteria na mesma direo por muito tempo e porque voltar 
atrs ou para o outro lado eram opes constante e instantaneamente disponveis. Pode-se dizer que, com exceo da crescente gama de oportunidades acessveis, nada 
mais se acumulava ou aumentava na trilha da vida de Cates; os trilhos continuavam a ser desmontados  medida que a locomotiva avanava alguns metros; as pegadas 
eram apagadas, as coisas eram descartadas to rapidamente como tinham sido colhidas - e logo esquecidas. 
Anthony Flew cita um dos personagens de Woody Allen: "Eu no quero a imortalidade por minha obra, eu quero alcanar a imortalidade no morrendo'25 Mas o sentido 
da imortalidade deriva do sentido atribudo  vida sabidamente mortal; a preferncia por "no morrer" no  tanto uma escolha de outra forma de imortalidade (uma 
alternativa  "imortalidade pela obra"), mas uma declarao de despreocupao com a eterna durao em favor do carpe diem. A indiferena em relao  durao transforma 
a imortalidade de uma idia numa experincia e faz dela um objeto de consumo imediato:  o modo como se vive o momento que faz desse momento uma "experincia imortal' 
Se a "infinitude" sobrevive  transmutao,  apenas como medida da profundidade ou intensidade da Erlebnis. O ilimitado das sensaes possveis ocupa o lugar que 
era ocupado nos sonhos pela durao infinita. 
Tempo/Espao 
145 
A instantaneidade (anulao da resistncia do espao e liquefao da materialidade dos objetos) faz com que cada momento parea ter capacidade infinita; e a capacidade 
infinita significa que no h limites ao que pode ser extrado de qualquer momento - por mais breve e "fugaz" que seja. 
O "longo prazo'; ainda que continue a ser mencionado, por hbito,  uma concha vazia sem significado; se o infinito, como o tempo,  instantneo, para ser usado 
no ato e descartado imediatamente, ento "mais tempo" adiciona pouco ao que o momento j ofereceu. No se ganha muito com consideraes de "longo prazo' Se a modernidade 
slida punha a durao eterna como principal motivo e princpio da ao, a modernidade "fluida" no tem funo para a durao eterna, O "curto prazo" substituiu 
o "longo prazo" e fez da instantaneidade seu ideal ltimo. Ao mesmo tempo em que promove o tempo ao posto de continer de capacidade infinita, a modernidade fluida 
dissolve - obscurece e desvaloriza - sua durao. 
H 20 anos Michael Thompson publicou um estudo pioneiro do tortuoso destino histrico da distino durvel/transitrio.26 Objetos "durveis" se destinam a ser preservados 
por muito e muito tempo; eles chegam a incorporar tanto quanto possvel a noo abstrata e etrea de eternidade; de fato, a imagem de eternidade  extrapolada da 
postulada ou projetada antigidade dos "durveis' Atribui-se aos objetos durveis um valor especial, e eles so cobiados e estimados por sua associao com a imortalidade 
- valor ltimo, "naturalmente" desejado e que no requer argumentos para ser abraado. O oposto dos objetos "durveis" so os "transitrios' destinados a serem usados 
- consumidos - e a desaparecer no processo de seu consumo. Thompson observa que "aquelas pessoas prximas do topo ... podem garantir que seus prprios objetos sejam 
sempre durveis e os dos outros sejam sempre transitrios ... Elas no podem perder" Thompson supe que o desejo de "tornar durveis seus prprios objetos"  uma 
constante das "pessoas prximas do topo"; talvez o que as coloque l seja mesmo essa capacidade de tornar os objetos durveis, de acumul-los, mant-los e assegur-los 
contra roubo e deteriorao; mais ainda: de monopoliz-los. 
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Esses pensamentos tinham uma aura de verdade (ou pelo menos de credibilidade) entre as realidades da modernidade slida. Sugiro, entretanto, que o advento da modernidade 
fluida subverteu radicalmente essa credibilidade. E a capacidade, como a de Bili Gates, de encurtar o espao de tempo da durabilidade, de esquecer o "longo prazo': 
de enfocar a manipulao da transitoriedade em vez da durabilidade, de dispor levemente das coisas para abrir espao para outras igualmente transitrias e que devero 
ser utilizadas instantaneamente, que  o privilgio dos de cima e que faz com que estejam por cima. Manter as coisas por longo tempo, alm de seu prazo de "descarte" 
e alm do momento em que seus "substitutos novos e aperfeioados" estiverem em oferta , ao contrrio, sintoma de privao. Uma vez que a infinidade de possibilidades 
esvaziou a infinitude do tempo de seu poder sedutor, a durabilidade perde sua atrao e passa de um recurso a um risco. Talvez seja mais adequado observar que a 
prpria linha de demarcao entre o "durvel" e o "transitrio': outrora foco de disputa e engenharia, foi substituda pela polcia de fronteiras e por batalhes 
de construtores. 
A desvalorizao da imortalidade no pode seno anunciar uma rebelio cultural, defensavelmente o marco mais decisivo na histria cultural humana. A passagem do 
capitalismo pesado ao leve, da modernidade slida  fluida, pode vir a ser um ponto de inflexo mais radical e rico que o advento mesmo do capitalismo e da modernidade, 
vistos anteriormente como os marcos cruciais da histria humana, pelo menos desde a revoluo neoltica. De fato, em toda a histria humana o trabalho da cultura 
consistiu em peneirar e sedimentar duras sentes de perpetuidade a partir de transitrias vidas humanas e de aes humanas fugazes, em invocar a durao a partir 
da transitoriedade, a continuidade a partir da descontinuidade, e em assim transcender os limites impostos pela mortalidade humana, utilizando homens e mulheres 
mortais a servio da espcie humana imortal. A demanda por esse tipo de trabalho est diminuindo hoje em dia. As conseqncias dessa demanda em queda esto para 
ser vistas e so difceis de visualizar de antemo, pois no h precedentes a lembrar ou em que se apoiar. 
A nova instantaneidade do tempo muda radicahnente a modalidade do convvio humano - e mais conspicuamente o modo como os humanos cuidam (ou no cuidam, se for o 
caso) de seus afazeres coletivos, ou antes o modo como transformam (ou no transformam, se for o caso) certas questes em questes coletivas. 
A "teoria da escolha pblica': que hoje faz avanos impressionantes na cincia poltica, captou corretamente a nova inflexo (ainda que - como freqentemente acontece 
quando novas prticas humanas montam um novo cenrio para a imaginao humana 
- tenha se apressado em generalizar desenvolvimentos relativamente recentes como a verdade eterna da condio humana, supostamente desapercebida ou negligenciada 
pela "pesquisa anterior"). Segundo Gordon Tullock, um dos mais importantes promotores da nova moda terica, "a nova abordagem comea supondo que os eleitores so 
muito parecidos com consumidores e que os polticos so muito parecidos com homens de negcios" Ctico em relao ao valor da teoria da "escolha pblica' Leif Lewin 
comentou, custico, que os pensadores da escola da "escolha pblica" "retratam o homem poltico como ... um homem das cavernas mope" Lewin pensa que isso est inteiramente 
errado. Pode ter sido verdade na poca dos trogloditas, "antes que o homem 'descobrisse o amanh' e aprendesse a fazer clculos de longo prazo': mas no agora, em 
nossos tempos modernos, quando todos sabemos, ou pelo menos a maioria, tanto eleitores como polticos, que "amanh nos encontraremos novamente" e, portanto, a credibilidade 
 "o recurso mais valioso do poltico"27 (enquanto a atribuio da confiana, podemos acrescentar,  a arma mais zelosamente utilizada pelo eleitor). Para apoiar 
sua crtica da teoria da "escolha pblica' Lewin cita numerosos estudos empricos que mostram que poucos eleitores votam pensando em seus bolsos, e a maioria deles 
declara que o que guia seu comportamento eleitoral  o estado do pas como um todo. Isso , diz Lewin, o que se poderia esperar; isso , sugiro eu, o que os eleitores 
entrevistados acharam que se esperava que eles dissessem e o que seria adequado. Se considerarmos a notria disparidade entre o que fazemos e como narramos nossas 
aes, no rejeitaramos de uma vez as afirmaes dos tericos da "escolha pblica" (o que  diferente de 
9" 
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Modernidade Lquida 
aceitar sua validade universal e atemporal). Nesse caso, sua teoria pode ter ganhado percepo ao se livrar do que foi tomado, acnticarnente, como "dado emprico" 
E verdade que "uma vez" os homens das cavernas "descobriram o amanh" Mas a histria  tanto um processo de esquecer como de aprender, e a memria  famosa por sua 
seletividade. Talvez nos "encontremos novamente amanh" Mas talvez no, ou ento o "ns" que nos encontraremos amanh no seja o mesmo "ns" de h pouco. Se for 
esse o caso, a credibilidade e a atribuio de confiana sero recursos ou riscos? 
Lewin lembra a parbola dos caadores de veados de Rousseau. Antes que os homens "descobrissem o amanh" - corre a histria - poderia acontecer que um caador, em 
vez de esperar pacientemente que o veado surgisse da floresta, se distrasse, por causa da fome, com um coelho que passava, a despeito de que sua cota de carne do 
veado caado em conjunto fosse ser muito maior que o coelho. E verdade. Mas tambm acontece que hoje poucas equipes de caa se mantm unidas pelo tempo que o veado 
leva para aparecer, de modo que quem coloca sua f nos benefcios do empreendimento conjunto pode sofrer amarga decepo. E tambm acontece que, diferentemente dos 
veados que, para serem alcanados e capturados, requerem caadores que cerrem fileiras, mantenham-se ombro a ombro e ajam solidariamente, os coelhos, adequados ao 
consumo individual, so muitos e diferentes, e demandam pouco tempo para serem caados, escalpelados e cozidos. Essas so tambm descobertas - novas descobertas, 
talvez to frteis em conseqncias como uma vez o foi a "descoberta do amanh' 
A "escolha racional" na era da instantaneidade significa buscar agrat/icao evitando asconsequencias, e particularmente as responsabilidades que essas conseqncias 
podem implicar. Traos durveis da gratificao de hoje hipotecam as chances das gratificaes de amanh. A durao deixa de ser um recurso para tornar-se um risco; 
o mesmo pode ser dito de tudo o que  volumoso, slido e pesado - tudo o que impede ou restringe o movimento. Gigantescas plantas industriais e corpos volumosos 
tiveram seu dia: outrora testemunhavam o poder e a fora de seus donos; hoje anunciam 
Tempo/Espao 
149 
a derrota na prxima rodada de acelerao e assim sinalizam a impotncia. Corpo esguio e adequao ao movimento, roupa leve e tnis, telefones celulares (inventados 
para o uso dos nmades que tm que estar "constantemente em contato"), pertences portteis ou descartveis - so os principais objetos culturais da era da instantaneidade. 
Peso e tamanho, e acima de tudo a gordura (literal ou metafrica) acusada da expanso de ambos, compartilham o destino da durabilidade. So os perigos que devemos 
temer e contra os quais devemos lutar; melhor ainda, manter distncia. 
E difcil conceber uma cultura indiferente  eternidade e que evita a durabilidade. Tambm  difcil conceber a moralidade indiferente s conseqncias das aes 
humanas e que evita a responsabilidade pelos efeitos que essas aes podem ter sobre outros, O advento da instantaneidade conduz a cultura e a tica humanas a um 
territrio no-mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hbitos aprendidos para lidar com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido. Na famosa frase de 
Guy Debord, "os homens se parecem mais com seus tempos que com seus pais' E os homens e mulheres do presente se distinguem de seus pais vivendo num presente "que 
quer esquecer o passado e no parece mais acreditar no futuro"28. Mas a memria do passado e a confiana no futuro foram at aqui os dois pilares em que se apoiavam 
as pontes culturais e morais entre a transitoriedade e a durabilidade, a mortalidade humana e a imortalidade das realizaes humanas, e tambm entre assumir a responsabilidade 
e viver o momento. 
1 

4  TRABALHO 
A Prefeitura de Leeds, cidade em que passei os ltimos 30 anos,  um monumento majestoso s enormes ambies e autoconfiana dos capites da Revoluo Industrial. 
Construda em meados do sculo XIX, grandiosa e rica, pesada e em pedra, foi feita para durar para sempre, como o Partenon e os templos egpcios cuja arquitetura 
imita. Contm, como pea central, uma enorme sala de assemblias onde os cidados deviam se encontrar regularmente para debater e decidir os prximos passos na direo 
da maior glria da cidade e do Imprio Britnico. Sob o teto desse salo esto detalhadas em letras douradas e prpura as regras que devem guiar quem quer que se 
junte a essa caminhada. Entre os princ. pios sacrossantos da tica burguesa segura e assertiva, como 
nestidade  a melhor polftica' "auspicium melioris aevz" ou "lei ordem': um preceito chama ateno por sua firme e segura brevi dade: "Para frente" Ao contrrio 
do visitante contemporneo d: 
Prefeitura, os antigos cidados que compuseram o cdigo no te ro tido dvidas sobre seu significado. Seguramente no sentirar necessidade de perguntar o sentido 
da idia de "andar para frer te': chamada "progresso' Eles sabiam a diferena entre "para frentt e "para trs' E podiam dizer que sabiam porque praticavam a a 
que fazia a diferena: ao lado do "para frente" outro preceito f pintado em dourado e prpura - "labor omnia vincif "Para frent era o destino, o trabalho era o veculo 
que os conduziria, e antigos cidados que se encarregaram da Prefeitura tinham sen mentos suficientemente fortes para persistir na trilha o tempo n cessrio para 
alcanar seu destino. 
Em 25 de maio de 1916, Henry Ford dizia ao corresponder 
da Chicago Tribune 
150 
Trabalho 151 
A histria  mais ou menos uma bobagem. Ns no queremos tradio. Queremos viver no presente, e a nica histria digna de interesse  a histria que fazemos hoje. 
Ford era famoso por dizer em alto e bom som o que outros pensariam duas vezes antes de admitir. Progresso? No se pense nele como "obra da histria' E obra nossa, 
de n6s, que vivemos no presente. A nica histria que conta  a que ainda no est feita, mas est sendo feita neste momento e se destina a ser feita:  o Jlituro, 
do qual outro americano pragmtico e objetivo, Ambrose Bierce, escrevera dez anos antes em seu Devil's Dictionary que  "o tempo quando nossos negcios prosperam, 
nossos amigos so verdadeiros e nossa felicidade est assegurada' 
A autoconfiana moderna deu um brilho inteiramente novo  eterna curiosidade humana sobre o futuro. As utopias modernas nunca foram meras profecias, e menos ainda 
sonhos inteis: abertamente ou de modo encoberto, eram tanto declaraes de intenes quanto expresses de f em que o que se desejava podia e devia ser realizado. 
O futuro era visto como os demais produtos nessa sociedade de produtores: alguma coisa a ser pensada, projetada e acompanhada em seu processo de produo. O futuro 
era a criao do trabalho, e o trabalho era a fonte de toda criao. Ainda em 1967, Daniel Beli escreveu que 
toda sociedade hoje est conscientemente comprometida com o crescimento econmico, com a elevao do padro de vida de seu povo, e portanto [o grifo  meu] com o 
planejamento, direo e controle da mudana social. O que faz os estudos atuais to completamente diferentes dos anteriores  que eles se orientam para propsitos 
especficos de poltica social; e junto com essa nova dimenso so formulados, autoconscientemente, por uma nova metodologia que promete oferecer fundamentos mais 
confiveis para alternativas e escolhas realistas ... 1 
Ford teria proclamado triunfante o que Pierre Bourdeu notou recentemente com tristeza: para dominar o futuro  preciso estar com os ps firmemente plantados no 
presente.2 Os que mantm o presente nas mos tm confiana de que sero capazes de forar 
152 
Modernidade Lquida 
o futuro a fazer com que seus negcios prosperem, e por essa mesma razo podem ignorar o passado; eles, e somente eles, podem tratar a histria passada como "bobagem' 
que se traduz, em termos mais elegantes, como "sem sentido" ou "mistificao' Ou, pelo menos, dar ao passado tanta ateno quanto as coisas desse tipo merecem. O 
progresso no eleva ou enobrece a histria. O "progresso"  uma declarao da crena de que a histria no conta e da resoluo de deix-la fora das contas. 
Progresso e f na histria 
Esta  a questo: o "progresso" no representa qualquer qualidade da histria, mas a auto confiana do presente. O sentido mais profundo, talvez nico, do progresso 
 feito de duas crenas interrelacionadas - de que "o tempo est do nosso lado' e de que "somos ns que fazemos acontecer' As duas crenas vivem juntas e morrem 
juntas - e continuaro a viver enquanto o poder de fazer com que as coisas aconteam encontrar sua corroborao diria nos feitos das pessoas que as professam. Como 
diz Alain Peyrefitte, "o nico recurso capaz de transformar um deserto na terra de Cana  a confiana mtua das pessoas, e a crena de todos no futuro que compartilharo'3 
Tudo o mais que possamos querer dizer ou ouvir sobre a "essncia" da idia de progresso  um esforo compreensvel, ainda que ftil e equivocado, de "ontologizar" 
aquele sentimento de f e autoconfiana. 
A histria  uma marcha em direo a uma vida melhor e de mais felicidade? Se isso fosse verdade, como o saberamos? Ns, que o dizemos, no vivemos no passado; 
os que viveram no passado no vivem hoje. Quem, ento, far a comparao? Quer fujamos para o futuro (como o Anjo da Histria de Benjamin/KJee), repelidos e empurrados 
pelos horrores do passado, quer nos apressemos em direo a ele (como a mais sangunea que dramtica verso whzg da histria gostaria que acreditssemos), atrados 
e puxados pela esperana de que "nossos negcios prosperaro' a nica "evidncia" que temos  o jogo da memria e da imaginao, e o que as liga ou as separa  nossa 
autoconfiana ou sua 
Trabalho 
ausncia. Para as pessoas que confiam em seu poder de mudar as coisas, o "progresso"  um axioma. Para as que sentem que as coisas lhes escapam das mos, a idia 
de progresso no ocorre, e seria risvel se ouvida. Entre as duas condies polares, h pouco espao para um debate sine ira etstudio, para no falar de consenso. 
Henry Ford talvez aplicasse ao progresso uma opinio semelhante  que expressou sobre o exerccio: "Exerccio  bobagem. Se voc for saudvel, no precisa dele; 
se for doente, no o far" 
Mas se a autoconfiana - o sentimento tranqilizador de que se est "firme no presente" -  o nico fundamento em que a f no progresso se apia, ento no surpreende 
que em nossos tempos a f seja oscilante e fraca. E as razes por que isso se d no so dificeis de encontrar. 
Primeiro, a notvel ausncia de uma agncia capaz de "mover o mundo para frente' A mais pungente e menos respondvel das questes dos nossos tempos de modernidade 
lquida no  "o que fazer?" (para tornar o mundo melhor ou mais feliz), mas "quem vai faz-lo?" Kenneth Jowitt4 anunciou o colapso do "discurso de Joshua' que at 
recentemente costumava dar forma a nosso pensamento sobre o mundo e suas perspectivas, e que considerava o mundo como "centralmente organizado, rigidamente cercado 
e histericamente preocupado com fronteiras impenetrveis" Num tal mundo, as dvidas sobre a agncia dificilmente surgiriam: afinaL o mundo do "discurso de Josliua" 
era pouco mais que unia conjuno entre uma agncia poderosa e os resduos/efeitos de suas aes. Essa imagem tinha um fundamento epistemolgico slido que compreendia 
entidades to slidas, inabalveis e irredutveis como a fbrica fordista e os Estados soberanos (soberanos se no na realidade, pelo menos em sua ambio e determinao) 
capazes de projetar e de administrar a ordem. 
Esse fundamento da f no progresso  hoje visvel principalmente por suas rachaduras e fissuras. Os mais slidos e menos questionveis de seus elementos esto perdendo 
seu carter compacto junto com sua soberania, credibilidade e confiabilidade. A fadiga do Estado moderno  talvez sentida de modo mais agudo, pois significa que 
o poder de estimular as pessoas ao trabalho - o poder de fazer coisas -  tirado da poltica, que costumava 
153 
154 Moderndade Lquida 
Trabalho 155 
decidir que tipos de coisas deveriam ser feitas e quem as deveria fazer. Embora todas as agncias da vida poltica permaneam onde a "modernidade lquida" as encontrou, 
presas como antes a suas respectivas localidades, o poder flui bem alm de seu alcance. A nossa experincia  semelhante  dos passageiros que descobrem, bem alto 
no cu, que a cabine do piloto est vazia. Para citar Guy Debord, "o centro de controle tornou-se oculto: nunca mais ser ocupado por um lder conhecido ou por uma 
ideologia clara'5 
Segundo, fica cada vez menos claro o que a agncia - qualquer agncia - deveria fazer para aperfeioar o mundo, no improvvel caso de que tenha fora para tanto. 
As imagens de uma sociedade feliz pintadas em muitas cores e por muitos pincis no curso dos dois ltimos sculos provaram-se sonhos inatingveis ou (naqueles casos 
em que sua chegada foi anunciada) impossveis de viver. Cada forma de projeto social mostrou-se capaz de produzir tanto tristeza quanto felicidade, seno mais. Isso 
se aplica em igual medida aos dois principais antagonistas - o hoje falido marxismo e o hoje esperanoso liberalismo econmico. (Como Peter Drucker, reconhecidamente 
defensor do Estado liberal, observou em 1989, "tambm o laissez/aire prometia a 'salvao pela sociedade': remover todos os obstculos  busca do ganho individual 
produziria ao final uma sociedade perfeita, ou pelo menos a melhor possvel" - e por essa razo sua bravata no pode ser levada a srio.) Quanto aos Outros competidores, 
a questo colocada por Franois Lyotard, "que tipo de pensamento seria capaz de superar Auschwitz num processo geral em direo  emancipao universal' continua 
sem resposta, e assim permanecer. J passou o auge do discurso de Joshua: todas as vises j pintadas de um mundo feito sob medida parecem no-palatveis, e as 
que ainda no foram pintadas so suspeitas apriorl Viajamos agora sem uma idia de destino que nos guie, no procuramos uma boa sociedade nem estamos muito certos 
sobre o que, na sociedade em que vivemos, nos faz inquietos e prontos para correr. O veredicto de Peter Drucker - "no mais salvao pela sociedade ... Quem quer 
que hoje proclame a 'Grande Sociedade', como Lyndon Baines Johnson fez apenas 20 anos atrs, deveria ser posto para fora da sala sob gargalhadas" 6 - captou sem 
erro o esprito do tempo. 
O encantamento moderno com o progresso - com a vida que pode ser "trabalhada" para ser mais satisfatria do que , e destinada a ser assim aperfeioada - ainda no 
terminou, e no  provvel que termine to cedo. A modernidade no conhece outra vida seno a vida "feita": a vida dos homens e mulheres modernos  uma tarefa, no 
algo determinado, e uma tarefa ainda incompleta, que clama incessantemente por cuidados e novos esforos. Quando nada, a condio humana no estgio da modernidade 
"fluida" ou do capitalismo "leve" tornou essa modalidade de vida ainda mais visvel: o progresso no  mais uma medida temporria, uma questo transitria, que leva 
eventualmente (e logo) a um estado de perfeio (isto , um estado em que o que quer que devesse ser feito ter sido feito e no ser necessria qualquer mudana 
adicional), mas um desafio e uma necessidade perptua e talvez sem fim, o verdadeiro significado de "permanecer vivo e bem' 
Se, no entanto, a idia de progresso em sua encarnao presente parece to pouco familiar que chegamos a nos perguntar se ainda a mantemos,  porque o progresso, 
como tantos outros parmetros da vida moderna, est agora "individualizado"; mais precisamente - desregulado e privatizado. Est agora desregulado - porque as ofertas 
de "elevar de nvel" as realidades presentes so muitas e diversas e porque a questo "uma novidade particular significa de fato um aperfeioamento?" foi deixada 
 livre competio antes e depois de sua introduo, e permanecer em disputa mesmo depois de feita a escolha. E est privatizada porque a questo do aperfeioamento 
no  mais um empreendimento coletivo, mas individual; so os homens e mulheres individuais que a suas prprias custas devero usar, individualmente, seu prprio 
juzo, recursos e indstria para elevar-se a uma condio mais satisfatria e deixar para trs qualquer aspecto de sua condio presente de que se ressintam. Como 
disse Ulrich Beck em sua advertncia sobre a Risikogesellschafr, 
a tendncia  o surgimento de formas e condies de existncia individualizadas, que compelem as pessoas - para sua prpria sobrevivncia material - a se tornarem 
o centro de seu prprio planeja- 
156 
Modernidade Lquida 
Trabaho 
157 
1 
mento e conduo da vida ... De fato,  preciso escolher e mudar a prpria identidade social, e assumir os riscos de faz-lo ... Opro'prio indivduo se torna a unidade 
de reproduo do social no mundo da vida.7 
A questo da exeqibilidade do progresso, seja ela vista como destino da espcie ou tarefa do indivduo, permanece como estava antes que se instalassem a desregulao 
e a privatizao - e exatamente como articulada por Pierre Bourdieu: para projetar o futuro,  preciso estar firmemente plantado no presente. A nica novidade aqui 
 que o que importa  a ancoragem do indivduo em seu prprio presente. E para muitos dos contemporneos. talvez a maioria, sua ancoragem no presente , na melhor 
das hipteses, instvel, e muitas vezes prima pela ausncia. Vivemos num mundo de flexibilidade universal, sob condies de Un.richerheit aguda e sem perspectivas, 
que penetra todos os aspectos da vida individual - tanto as fontes da sobrevivncia quanto as parcerias do amor e do interesse comum, os parmetros da identidade 
profissional e da cultural, os modos de apresentao do eu em pblico e os padres de sade e aptido, valores a serem perseguidos e o modo de persegui-los. So 
poucos os portos seguros da f, que se situam a grandes intervalos, e a maior parte do tempo a f flutua sem ncora, buscando em vo enseadas protegidas das tempestades. 
Todos aprendemos s nossas prprias custas que mesmo os planos mais cuidadosos e elaborados tm a desagradvel tendncia de frustrar-se e produzir resultados muito 
distantes do esperado; que nossos ingentes esforos de "pr ordem nas coisas" freqentemente resultam em mais caos, desordem e confuso; e que nosso trabalho para 
eliminar o acidente e a contingncia  pouco mais que um jogo de azar. 
Fiel a seus hbitos, a cincia prontamente seguiu a sugesto da nova experincia histrica e refletiu o esprito emergente na proliferao de teorias cientficas 
do caos e da catstrofe. Outrora movida pela crena de que "Deus no joga dados' de que o universo  essencialmente determinstico e de que a tarefa humana  fazer 
um inventrio completo de suas leis, de modo que se pare de tatear no escuro e que a ao humana seja acertada e precisa, a cincia contempornea voltou-se para 
o reconhecimento da na- 
tureza endemicamente indeterminstica do mundo, do enorme papel desempenhado pelo azar, e para a excepcionalidade, no a normalidade, da ordem e do equilbrio. Tambm 
fiis a seus hbitos, os cientistas trazem as notcias cientificamente processadas de volta ao domnio onde pela primeira vez as inturam: para o mundo das questes 
humanas e da ao humana. E assim lemos, por exemplo, na popular e influente apresentao que David Ruelle faz da filosofia inspirada pela cincia contempornea, 
que "a ordem determinstica cria uma desordem do azar": 
Tratados de economia ... do a impresso de que o papel dos legisladores e membros responsveis do governo  encontrar e implementar um equilbrio particularmente 
favorvel para a comunidade. Exemplos do caos na fisica nos ensinam, contudo, que, em vez de levarem a um equilbrio, certas situaes dinmicas ativam desenvolvimentos 
temporariamente caticos e imprevisveis. Os legisladores e governantes responsveis devem, portanto, considerar a possibilidade de que suas decises, que buscam 
produzir um equilbrio melhor, podero produzir em vez disso oscilaes violentas e imprevistas, com efeitos possivelmente desastrosos.8 
Quaisquer que tenham sido as virtudes que fizeram o trabalho ser elevado ao posto de principal valor dos tempos modernos, sua maravilhosa, quase mgica, capacidade 
de dar forma ao informe e durao ao transitrio certamente est entre elas. Graas a essa capacidade, foi atribudo ao trabalho um papel principal, mesmo decisivo, 
na moderna ambio de submeter, encilhar e colonizar o futuro, a fim de substituir o caos pela ordem e a contingncia pela previsvel (e portanto controlvel) seqncia 
dos eventos. Ao trabalho foram atribudas muitas virtudes e efeitos benficos, como, por exemplo, o aumento da riqueza e a eliminao da misria; mas subjacente 
a todos os mritos atribudos estava sua suposta contribuio para o estabelecimento da ordem, para o ato histrico de colocar a espcie humana no comando de seu 
prprio destino. 
O "trabalho" assim compreendido era a atividade em que se supunha que a humanidade como um todo estava envolvida por 
158 
Modernidade Lquida 
Trabalho 
159 
seu destino e natureza, e no por escolha, ao fazer histria. E o "trabalho" assim definido era um esforo coletivo de que cada membro da espcie humana tinha que 
participar. O resto no passava de conseqncia: colocar o trabalho como "condio natural" dos seres humanos, e estar sem trabalho como anormalidade; denunciar 
o afastamento dessa condio natural como causa da pobreza e da misria, da privao e da depravao; ordenar homens e mulheres de acordo com o suposto valor da 
contribuio de seu trabalho ao empreendimento da espcie como um todo; e atribuir ao trabalho o primeiro lugar entre as atividades humanas, por levar ao aperfeioamento 
moral e  elevao geral dos padres ticos da sociedade. 
Quando a Unsiclzerheit se torna permanente e  vista como tal, o estar-no-mundo  sentido menos como uma cadeia de aes legal, obediente, lgica, consistente e 
cumulativa, e mais como um jogo, em que o "mundo l fora"  um dos jogadores e se comporta como todos os jogadores, mantendo as cartas fechadas junto ao peito. Como 
em qualquer outro jogo, os planos para o futuro tendem a se tornar transitrios e inconstantes, no passando de uns poucos movimentos  frente. 
Como um estado de perfeio ltima no est para aparecer no horizonte dos esforos humanos, e como a f na eficcia a toda prova de qualquer esforo no existe, 
no faz muito sentido a idia de uma ordem "total" a ser erigida andar por andar num esforo controlado, consistente e proposital. Quanto menor  a firmeza no presente, 
tanto menos o "futuro" pode ser integrado no projeto. Lapsos de tempo rotulados de "futuro" encurtam, e a durao da vida como um todo  fatiada em episdios considerados 
"um de cada vez' A continuidade no  mais marca de aperfeioamento. A natureza outrora cumulativa e de longo prazo do progresso est cedendo lugar a demandas dirigidas 
a cada episdio em separado: 
o mrito de cada episdio deve ser revelado e consumido inteiramente antes mesmo que ele termine e que o prximo comece. Numa vida guiada pelo preceito da flexibilidade, 
as estratgias e planos de vida s podem ser de curto prazo. 
Jacques Attali sugeriu recentemente que  a imagem do labirinto que hoje domina, ainda que sub-repticiamente, nossas idias 
sobre o futuro e nossa prpria participao nele; essa imagem se torna o principal espelho em que nossa civilizao se contempla, no presente estgio. O labirinto 
como alegoria da condio humana foi a mensagem transmitida pelos nmades aos sedentrios. Os milnios passaram, e os sedentrios ganharam a autoconfiana e a coragem 
para enfrentar o desafio do destino labirntico. "Em todas as lnguas europias'' observa Attali, "a palavra labirinto passa a ser sinnimo de complexidade artificial, 
escurido intil, sistema tortuoso, selva impenetrvel. Clareza se torna sinnimo de lgica" 
Os sedentrios se dedicaram a tornar transparentes as paredes, endireitar e sinalizar as passagens tortuosas, iluminar os corredores. Tambm produziram guias e instrues 
claras e no-ambguas para uso dos futuros passantes, indicando que rumo tomar e evitar nas encruzilhadas. Fizeram tudo isso para descobrir no final que o labirinto 
est firme em seu lugar; talvez tenha se tornado ainda mais traioeiro e confuso devido ao ilegvel emaranhado de pegadas que se cruzam,  cacofonia de comandos 
e  contnua adio de novas passagens tortuosas, novas vias sem sada, s que foram deixadas para trs. Os sedentrios se tornaram "nmades involuntrios' lembrando 
com atraso a mensagem recebida no comeo de suas viagens histricas e tentando desesperada- mente recuperar seus contedos esquecidos que - como suspeitam - podem 
ser portadores da "sabedoria necessria a seu futuro' Uma vez mais, o labirinto se torna a imagem-mestra da condio humana - e significa "o lugar opaco onde o desenho 
dos caminhos no obedece a qualquer lei. O azar e a surpresa mandam no labirinto, o que sinaliza a derrota da Razo Pura'9 
No mundo humano labirntico, os trabalhos humanos se dividem em episdios isolados como o resto da vida humana. E, como no caso de todas as outras aes que os humanos 
podem empreender, o objetivo de manter um curso prximo aos projetos dos atores  evasivo, talvez inatingvel. O trabalho escorregou do universo da construo da 
ordem e controle do futuro em direo do reino do jogo; atos de trabalho se parecem mais com as estratgias de um jogador que se pe modestos objetivos de curto 
prazo, no antecipando mais que um ou dois movimentos. O que conta so os efeitos imediatos de cada movimento; os efeitos devem ser 
1 
160 Modernidade Lquida 
Trabalho 161 
passveis de ser consumidos no ato. Suspeita-se que o mundo esteja repleto de pontes demasiado longnquas, o tipo de pontes que  melhor no pensar em atravessar 
at encontr-las, o que no acontecer to cedo. Cada obstculo deve ser negociado quando chegar sua vez; a vida  uma seqncia de episdios - cada um a ser calculado 
em separado, pois cada um tem seu prprio balano de perdas e ganhos. Os caminhos da vida no se tornam mais retos por serem trilhados, e virar uma esquina no  
garantia de que os rumos corretos sero seguidos no futuro. 
E assim o trabalho mudou de carter. Muitas vezes  um ato nico: armao de um bricoleur, um trapaceiro, que mira o que est  mo e  inspirado e limitado pelo 
que est  mo, mais formado que formador, mais o resultado de agarrar a oportunidade que o produto de planejamento e projeto. Tem uma sinistra semelhana com a 
famosa toupeira ciberntica que sabia como se mover em busca de uma tomada eltrica a que se ligar para repor a energia gasta no movimento em busca de uma tomada 
eltrica a que se ligar para repor a energia gasta... 
Talvez o termo "remendar" capte melhor a nova natureza do trabalho separado do grande projeto de misso universalmente partilhada da humanidade e do no menos grandioso 
projeto de uma vocao para toda a vida. Despido de seus adereos escatolgicos e arrancado de suas razes metafisicas, o trabalho perdeu a centralidade que se lhe 
atribua na galxia dos valores dominantes na era da modernidade slida e do capitalismo pesado. O trabalho no pode mais oferecer o eixo seguro em torno do qual 
envolver e fixar autodefinies, identidades e projetos de vida. Nem pode ser concebido com facilidade como fundamento tico da sociedade, ou como eixo tico da 
vida individual. 
Em vez disso, o trabalho adquiriu - ao lado de outras atividades da vida - uma significao principalmente esttica. Espera-se que seja satisfatrio por si mesmo 
e em si mesmo, e no mais medido pelos efeitos genunos ou possveis que traz a nossos semelhantes na humanidade ou ao poder da nao e do pas, e menos ainda  
bem-aventurana das futuras geraes. Poucas pessoas apenas - e mesmo assim raramente - podem reivindicar privilgio, prestgio ou honra pela importncia e beneficio 
comum 
gerados pelo trabalho que realizam. Raramente se espera que o trabalho "enobrea" os que o fazem, fazendo deles "seres humanos melhores' e raramente algum  admirado 
e elogiado por isso. A pessoa  medida e avaliada por sua capacidade de entreter e alegrar, satisfazendo no tanto a vocao tica do produtor e criador quanto as 
necessidades e desejos estticos do consumidor, que procura sensaes e coleciona experincias. 
Ascenso e queda do trabalho 
De acordo com o Diciona'rio Oxford de ingls o primeiro uso da palavra "trabalho" (labour) no sentido de "esforo fsico dirigido a atender s necessidades materiais 
da comunidade" foi registrado em 776. Um sculo depois, veio a significar, alm disso, "o corpo geral dos trabalhadores e operrios" que tomam parte na produo, 
e pouco mais tarde tambm os sindicatos e outros corpos que ligavam os dois significados, mantinham essa ligao e a reformulavam como questo poltica e instrumento 
de poder poltico. O uso ingls  notvel por tornar clara a estrutura da "trindade do trabalho": a proximidade (de fato, a convergncia semntica ligada  identidade 
de destino) entre a significao atribuda ao trabalho (essa labuta "fsica e mental"), a autoconstituio dos que trabalham numa classe e a poltica fundada nessa 
autoconstituio - em outras palavras, a ligao entre definir a labuta fsica como principal fonte da riqueza e bem-estar da sociedade, e a auto- afirmao do movimento 
trabalhista. Ascenderam juntos e juntos caram. 
A maioria dos historiadores econmicos concorda (ver, por exemplo, o resumo recente de suas descobertas por Paul Bairoch 1) que, em termos dos nveis de riqueza 
e renda, h pouco que distinga as civilizaes no auge de seus poderes: as riquezas de Roma no sculo i, da China no XI, da India no XVII, no eram muito diferentes 
das da Europa no limiar da Revoluo Industrial. Por algumas estimativas, a renda per capita na Europa Ocidental no sculo xviii no era mais que 30% mais alta que 
a da India, Africa ou China daquelas pocas. Porm pouco mais de um sculo 
162 Modernidade Lquida 
Trabalho 163 
foi suficiente para transformar drasticamente a proporo. Por volta de 1870 a renda per capita na Europa industrializada era li vezes maior que nos pases mais 
pobres do mundo. No curso do sculo seguinte esse fator quintuplicou, chegando a 50 em 1995. Como indica o economista da Sorbonne Daniel Cohen, "arrisco afirmar 
que o fenmeno da desigualdade entre as naes  de origem recente;  produto dos ltimos dois sculos'" E assim tambm a idia do trabalho como fonte da riqueza, 
e a poltica surgida dessa suposio e guiada por ela. 
A nova desigualdade global e a nova autoconfiana e sentimento de superioridade que se seguiram foram espetaculares e sem precedentes: novas noes, novos quadros 
cognitivos eram necessrios para capt-las e assimil-las intelectualmente. Essas noes e quadros foram fornecidos pela recm-nascida cincia da economia politica, 
que veio a substituir as idias fisiocratas e mercantilistas que acompanharam a Europa em seu caminho para a fase moderna de sua histria, at o limiar da Revoluo 
Industrial. 
No "por acaso" essas noes foram cunhadas na Esccia, pas ao mesmo tempo envolvido e separado do curso principal da convulso industrial, fisica e psicologicamente 
prximo do pas que se tornaria o epicentro da emergente ordem industrial, mas que permaneceria por certo tempo relativamente imune a seu impacto econmico e cultural. 
As tendncias em pleno movimento no "centro" so, em regra, mais prontamente detectadas e mais claramente articuladas em lugares temporariamente relegados s "margens' 
Viver na periferia do centro civilizacional significa estar suficientemente prximo para ver as coisas com clareza, mas suficientemente longe para "objetiv-las" 
e assim moldar e condensar as percepes em conceitos. No foi, portanto, "mera coincidncia" que o evangelho tenha vindo da Esccia: a riqueza vem do trabalho, 
sua fonte principal, talvez nica. 
Como Karl Polanyi viria a sugerir muitos anos depois, atualizando Karl Marx, que o ponto de partida da "grande transformao" que trouxe  vida a nova ordem industrial 
foi a separao dos trabalhadores de suas fontes de existncia. Esse evento momentoso era parte de um processo mais amplo: a produo e a troca deixaram de se inscrever 
num modo de vida indivisvel, mais geral 
e inclusivo, e assim se criaram as condies para que o trabalho (junto com a terra e o dinheiro) fosse considerado como mera mercadoria e tratado como tal.'2 Podemos 
dizer que foi a mesma nova desconexo que liberou os movimentos da fora de trabalho e de seus portadores que os tornou passveis de serem movidos, e assim serem 
sujeitos a outros usos ("melhores" - mais teis ou lucrativos), recombinados e tornados parte de outros arranjos ("melhores" - mais teis ou lucrativos). A separao 
das atividades produtivas do resto dos objetivos da vida permitiu que o "esforo fsico e mental" se condensasse num fenmeno em si mesmo - uma "coisa" a ser tratada 
como todas as coisas, isto , a ser "manipulada' movida, reunida a outras "coisas" ou feita em pedaos. 
Se essa desconexo no acontecesse, haveria poucas possibilidades para a idia de separar mentalmente o trabalho da "totalidade" a que ele pertencia "naturalmente" 
e condens-lo num objeto autocontido. Na viso pr-industrial da riqueza, "a terra" era uma totalidade desse tipo - por inteiro, junto com os que a cultivavam e 
aravam. A nova ordem industrial e a rede conceitual que permitiu a proclamao do advento de uma sociedade diferente - industrial - nasceram na Gr-Bretanha; e esta 
se destacava entre seus vizinhos europeus por ter destrudo seu campesinato, e com ele a ligao "natural" entre terra, trabalho humano e riqueza, Os cultivadores 
da terra tinham primeiro que ficar ociosos, vagando e "sem senhores' para que pudessem ser vistos como portadores de "fora de trabalho" pronta para ser usada; e 
para que essa fora pudesse ser considerada como potencial "fonte de riqueza" por si mesma. 
Essa nova ociosidade e o desenraizamento dos trabalhadores parecia s testemunhas contemporneas mais inclinadas  reflexo como emancipao do trabalho - parte 
da alegre sensao da libertao das capacidades humanas em geral das vexatrias e estultificantes limitaes paroquiais, e da inrcia da fora do hbito e da hereditariedade. 
Mas a emancipao do trabalho de suas "limitaes naturais" no manteve o trabalho flutuando, desvinculado e "sem senhores" por muito tempo; nem o tornou autnomo, 
autodeterminado e livre para fixar e seguir seus prprios desg 
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nios. O desmantelado "modo tradicional de vida" de que o trabalho era parte antes de sua emancipao estava para ser substitudo por uma nova ordem; desta vez, porm, 
uma ordem pr-projetada. uma ordem "construda' no mais o sedimento do vagar sem objetivo do destino e dos azares da histria, mas produto de pensamento e ao 
racionais. Ao descobrir que o trabalho era a fonte da riqueza, a razo tinha que buscar, utilizar e explorar essa fonte de modo mais eficiente que nunca. 
Alguns comentadores imbuidos do esprito impetuoso da era moderna (Karl Marx o mais importante entre eles) viram o passamento da velha ordem principalmente como 
resultado de um ataque deliberado: uma exploso causada por uma bomba plantada pelo capital dedicado a "derreter os slidos e profanar o sagrado' Outros, como de 
Tocqueville, mais ctico e consideravelmente menos entusistico, viram aquele desaparecimento como um caso de imploso, e no de exploso: olhando para trs, perceberam 
as sementes da destruio no corao do Ancien Rgime (sempre mais fceis de revelar ou adivinhar retrospectivamente) e viram a agitao e arrogncia dos novos senhores 
como, basicamente, os ltimos estremecimentos de um moribundo ou no muito mais que a busca vigorosa e resoluta das mesmas curas milagrosas que a velha ordem testara 
muito antes em esforos desesperados e vos para impedir ou pelo menos adiar seu prprio desaparecimento. Havia, porm, pouco debate sobre as perspectivas do novo 
regime e as intenes dos novos senhores: a velha e j defunta ordem deveria ser substituida por uma nova ordem, menos vulnervel e mais vivel que sua antecessora. 
Novos slidos deveriam ser concebidos e construdos para encher o vazio deixado pelos derretidos. As coisas postas para flutuar deveriam ser novamente ancoradas, 
de modo mais seguro que antes. Para expressar a mesma inteno no idioma hoje em moda: o que tinha sido "desacomodado" precisaria ser, mais cedo ou mais tarde, "reacomodado" 
Romper os velhos vnculos local/comuna!, declarar guerra aos modos habituais e s leis costumeiras, quebrar e pulverizar les pouuoirs intermdiaires - o resultado 
disso tudo foi o delrio intoxicante do "novo comeo" "Derreter os slidos" era sentido como derreter minrio de ferro para moldar barras de ao. Realidades 
derretidas e agora fluidas pareciam prontas para serem recanalizadas e derramadas em novos moldes, onde ganhariam uma forma que nunca teriam adquirido se tivessem 
sido deixadas correndo nos prprios cursos que tinham cavado. Nenhum propsito, por mais ambicioso que fosse, parecia exceder a capacidade humana de pensar, descobrir, 
inventar, planejar e agir. Se a sociedade feliz 
- a sociedade de pessoas felizes - ainda no estava na prxima esquina, sua chegada iminente j estava prevista nas pranchetas dos homens de pensamento, e seus contornos 
esboados pelos homens de pensamento eram encarnados nos escritrios e postos de comando dos homens de ao. O propsito em que tanto os homens de pensamento quanto 
os de ao empregavam seu trabalho era a construo da nova ordem. A liberdade recm-descoberta deveria ser utilizada no esforo de gerar a ordenada rotina futura. 
Nada deveria ser deixado em seu curso caprichoso e imprevisvel, ao acidente e  contingncia; nada deveria ser mantido em sua forma presente, se essa forma pudesse 
ser aperfeioada e tornada mais til e eficaz. 
Essa nova ordem em que todos os fins presentemente soltos sero novamente amarrados, enquanto as cargas e destroos de fatalidades passadas, nufragos abandonados 
ou  deriva, sero recolocados e fixados em seus lugares corretos, deveria ser massiva, slida, feita de pedra ou armada em ao: destinada a durar. Grande era belo, 
grande era racional; "grande" queria dizer poder, ambio e coragem. O local de construo da nova ordem industrial era repleto de monumentos ao poder e  ambio, 
monumentos que, fossem ou no indestrutveis, deveriam parec-lo: fbricas gigantescas lotadas de maquinaria volumosa e multides de operadores de mquinas, ou densas 
redes de canais, pontes e trilhos, pontuados de majestosas estaes dedicadas a emular os antigos templos erigidos para a adorao da eternidade e para a eterna 
glria dos adoradores. 
O mesmo Henry Ford que declarara que "a histria  bobagem' que "no queremos tradio" e que "queremos viver no presente e a nica histria que importa  a histria 
que fazemos hoje' um dia dobrou os salrios de seus trabalhadores, explicando que queria que eles comprassem os carros que produzia. Essa 
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explicao era falsa: os carros comprados pelos trabalhadores da Ford eram uma frao mnima das vendas totais, enquanto o aumento dos salrios pesava muito nos 
custos de produo da empresa. A verdadeira razo para o passo heterodoxo era o desejo de Ford de deter a mobilidade irritantemente alta do trabalho. Ele queria 
atar seus empregados s empresas Ford de uma vez por todas, fazendo com que o dinheiro gasto em sua preparao e treinarnento se pagasse muitas vezes, por toda a 
durao da vida til dos trabalhadores. E para alcanar tal efeito tinha que imobilizar sua equipe, para mant-los onde estavam, de preferncia at que sua fora 
de trabalho fosse inteiramente utilizada. Tinha que torn-los to dependentes do emprego em sua fbrica e vendendo seu trabalho a seu dono como ele mesmo dependia 
de empreg-los e usar seu trabalho para sua prpria riqueza e poder. 
Ford expressava em voz alta os pensamentos que outros acalentavam mas s se permitiam murmurar; ou, melhor, pensou o que outros na mesma situao sentiam, mas eram 
incapazes de expressar em palavras. O emprstimo do nome de Ford para o modelo universal das intenes e prticas tpicas da modernidade slida ou do capitalismo 
pesado  apropriado. O modelo de Henry Ford de uma ordem nova e racional criou o padro para a tendncia universal de seu tempo: e era um ideal que todos ou pelo 
menos a maioria dos outros empresrios lutavam, com graus variados de sucesso, para alcanar. O ideal era o de atar capital e trabalho numa unio que - como um casamento 
divino - nenhum poder humano poderia, ou tentaria, desatar. 
A modernidade slida era, de fato, tambm o tempo do capitalismo pesado - do engajamento entre capital e trabalho fortificado pela mutualidade de sua dependncia. 
Os trabalhadores dependiam do emprego para sua sobrevivncia; o capital dependia de empreg-los para sua reproduo e crescimento. Seu lugar de encontro tinha endereo 
fixo; nenhum dos dois poderia mudar-se com facilidade para outra parte - os muros da grande fbrica abrigavam e mantinham os parceiros numa priso compartilhada. 
Capital e trabalhadores estavam unidos, pode-se dizer, na riqueza e na pobreza, na sade e na doena, at que a morte os separasse. A fbrica era seu habitat comum 
- simultaneamente o campo de 
batalha para a guerra de trincheiras e lar natural para esperanas e sonhos. 
O que ps capital e trabalho face a face e os atou foi a transao de compra e venda; e assim, a fim de permanecerem vivos, cada um tinha que se manter em forma 
para essa transao: os donos do capital tinham que ser capazes de continuar comprando trabalho, e os donos do trabalho tinham que permanecer alertas, saudveis, 
fortes e suficientemente atraentes para no afastar os compradores e no sobrecarreg-los com os custos totais de sua condio. Cada lado tinha "interesses investidos" 
em manter o outro lado em forma. No surpreende que a "remercantilizao" do capital e do trabalho tenha se convertido na principal funo e ocupao da poltica 
e da suprema agncia poltica, o Estado. O Estado era o encarregado de que os capitalistas se mantivessem aptos a comprar trabalho e a poder arcar com seus preos 
correntes. Os desempregados eram inteira e verdadeiramente o "exrcito reserva de trabalho", e tinham que ser mantidos em Estado de prontido, caso fossem chamados 
de volta  ativa. O Estado de bem-estar, um Estado dedicado a fazer justamente isso, estava, por essa razo, genuinamente "alm da esquerda e da direita", esteio 
sem o qual nem capital nem trabalho poderiam manter-se vivos e saudveis, quanto mais crescer. 
Algumas pessoas viam o Estado de bem-estar como uma medida temporria, que sairia de cena quando a segurana coletiva contra o infortnio tivesse dado aos segurados 
audcia e recursos suficientes para desenvolver plenamente seu potencial e reunir a coragem para assumir riscos - e assim permitir-lhes "firmar-se sobre seus prprios 
ps" Observadores mais cticos viam o Estado de bem-estar como um dispositivo sanitrio coletivamente financiado e administrado - uma operao de limpeza e sade 
que teria que funcionar enquanto a empresa capitalista continuasse a gerar detritos sociais que no tinha nem inteno nem recursos de recidar (isto , por muito 
tempo ainda). Havia um consenso geral, contudo, de que o Estado de bem-estar era um dispositivo destinado a atacar as anomalias, impedir afastamentos da norma e 
diluir as conseqncias das rupturas desta, se estas ainda assim acontecessem. A prpria norma, quase nunca posta em questo, 
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Traba'ho 
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era o mtuo engajamento direto, face a face, de capital e trabalho, e a resoluo de todas as questes sociais importantes e constrangedoras no marco desse engajamento. 
Quem, como jovem aprendiz, tivesse seu primeiro emprego na Ford, poderia ter certeza de terminar sua vida profissional no mesmo lugar. Os horizontes temporais do 
capitalismo pesado eram de longo prazo. Para os trabalhadores, os horizontes eram desenhados pela perspectiva de emprego por toda a vida dentro de uma empresa que 
poderia ou no ser imortal, mas cuja vida seria, de qualquer maneira, muito mais longa que a deles mesmos. Para os capitalistas, a "fortuna familiar' destinada a 
durar alm da vida de qualquer dos membros da famlia, era sinnimo das fbricas que herdaram, construram ou pretendiam acrescentar ao patrimnio familiar. 
Para resumir: a mentalidade de "longo prazo" constitua uma expectativa nascida da experincia, e da repetida corroborao dessa experincia, de que os destinos 
das pessoas que compram trabalho e das pessoas que o vendem esto inseparavelmente entrelaados por muito tempo ainda - em termos prticos, para sempre - e que, 
portanto, a construo de um modo de convivncia suportvel corresponde tanto aos "interesses de todos" quanto  negociao das regras de convvio de vizinhana 
entre os proprietrios de casas num mesmo loteamento. Essa experincia levou muitas dcadas, talvez mais de um sculo, para se firmar. Surgiu ao final do longo e 
tortuoso processo de "solidificao' Como sugeriu Richard Sennett em seu estudo recente, foi s depois da Segunda Guerra que a desordem original da era capitalista 
veio a ser substituda, pelo menos nas economias mais avanadas, por "sindicatos fortes, garantidores do Estado de bem-estar, e corpo- raes de larga escala' que 
se combinaram para produzir uma era de "estabilidade relativa':'3 
A "estabilidade relativa" em questo recobre com certeza o conflito perptuo. De fato, tornou esse conflito possvel e, num sentido paradoxal, bem observado em seu 
tempo por Lewis Coser, "funcional": para o bem ou para o mal, os antagonistas estavam unidos por dependncia mtua. O confronto, testes de fora e a barganha que 
se seguiam reforavam a unidade das partes em 
conflito precisamente porque nenhuma delas podia continuar sozinha e ambos os lados sabiam que sua sobrevivncia dependia de encontrar solues que todos considerassem 
aceitveis. Enquanto se sups que a companhia mtua duraria, as regras dessa unio foram objeto de intensas negociaes, s vezes com acrimnia e confrontaes, 
outras com trguas e concesses. Os sindicatos recriaram a impotncia dos trabalhadores individuais na forma do poder de barganha coletivo e lutaram com sucesso 
intermitente para transformar os regulamentos incapacitadores em direitos dos trabalhadores e reformul-los como limitaes impostas  liberdade de manobra dos empregadores. 
Enquanto se manteve a mtua dependncia, mesmo as jornadas impessoais odiadas com todas as foras pelos artesos reunidos nas antigas fbricas capitalistas (e que 
causavam resistncia, o que E.P. Thompson documentou vividamente), e ainda mais suas ltimas verses "novas e aperfeioadas" na forma das infames medies de tempo 
de Frederic Taylor, esses atos, nas palavras de Sennett, "de represso e dominao praticados pela gerncia em beneficio do crescimento da gigantesca organizao 
industrial" "tinham se tornado uma arena em que os trabalhadores podiam afirmar suas prprias demandas, uma arena que dava poder" Sennett conclui: "A rotina pode 
diminuir, mas pode tambm proteger; a rotina pode decompor o trabalho, mas pode tambm compor uma vida"14 
Essa situao mudou, e o ingrediente crucial da mudana mltipla  a nova ineutalidade de "curto prazo' que substituiu a de "longo prazo' Casamentos "at que a morte 
nos separe" esto decididamente fora de moda e se tornaram uma raridade: os parceiros no esperam mais viver muito tempo juntos. De acordo com o ltimo clculo, 
um jovem americano com nvel mdio de educao espera mudar de emprego 11 vezes durante sua vida de trabalho - e o ritmo e frequncia da mudana devero continuar 
crescendo antes que a vida de trabalho dessa gerao acabe. "Flexibilidade"  o siogan do dia, e quando aplicado ao mercado de trabalho augura um fim do "emprego 
como o conhecemos' anunciando em seu lugar o advento do trabalho por contratos de curto prazo, ou sem contratos, posies sem cobertura previdenciria, mas com clusulas 
"at nova ordem" A vida de trabalho est saturada de incertezas. 
1 
170 Modernidade Lquida 
Do casamento  coabitao 
Pode-se sempre responder que no h nada particularmente novo nessa situao: a vida de trabalho sempre foi cheia de incertezas, desde tempos imemoriais. A incerteza 
de hoje, porm,  de um tipo inteiramente novo. Os temveis desastres que podem devastar nossa sobrevivncia e suas perspectivas no so do tipo que possa ser repelido 
ou contra que se possa lutar unindo foras, permanecendo unidos e com medidas debatidas, acordadas e postas em prtica em conjunto. Os desastres mais terrveis acontecem 
hoje aleatoriarnente, escolhendo suas vtimas com a lgica mais bizarra ou sem qualquer lgica, distribuindo seus golpes caprichosamente, de tal forma que no h 
como prever quem ser condenado e quem ser salvo. A incerteza do presente  urna poderosa fora individualizadora. Ela divide em vez de unir, e como no h maneira 
de dizer quem acordar no prximo dia em qual diviso, a idia de "interesse comum" fica cada vez mais nebulosa e perde todo valor prtico. 
Os medos, ansiedades e angstias contemporneos so feitos para serem sofridos em solido. No se somam, no se acumulam numa "causa comum' no tm endereo especfico, 
e muito menos bvio. Isso priva as posies de solidariedade de seu status antigo de tticas racionais e sugere urna estratgia de vida muito diferente da que levou 
ao estabelecimento das organizaes militantes em defesa da classe trabalhadora. Ao falar com pessoas j atingidas ou que temiam vir a ser atingidas pelas mudanas 
correntes nas condies de emprego, Pierre Bourdieu ouviu vezes sem conta que "em face das novas formas de explorao, notavelmente favorecidas pela desregulao 
do trabalho e pelo desenvolvimento do emprego temporrio, as formas tradicionais de ao sindical so consideradas inadequadas' Bourdieu conclui que fatos recentes 
"quebraram os fundamentos das solidariedades passadas" e que o resultante "desencantamento vai de mos dadas com o desaparecimento do esprito de militncia e participao 
poltica''5 
Quando a utilizao do trabalho se torna de curto prazo e precria, tendo sido ele despido de perspectivas firmes (e muito 
Trabalho 171 
menos garantidas) e portanto tornado episdico, quando virtualmente todas as regras relativas ao jogo das promoes e demisses foram esgotadas ou tendem a ser alteradas 
antes que o jogo termine, h pouca chance de que a lealdade e o compromisso mtuos brotem e se enrazem. Ao contrrio dos tempos de dependncia mtua de longo prazo, 
no h quase estmulo para um interesse agudo, srio e crtico por conhecer os empreendimentos comuns e os arranjos a eles relacionados, que de qualquer forma seriam 
transitrios. O emprego parece um acampamento que se visita por alguns dias e que se pode abandonar a qualquer momento se as vantagens oferecidas no se verificarem 
ou se forem consideradas insatisfatrias - e no com um domiclio compartilhado onde nos inclinamos a ter trabalho e construir pacientemente regras aceitveis de 
convivncia. Mark Granovetter sugeriu que o nosso  um tempo de "laos fracos' enquanto Sennett prope que "formas fugazes de associao so mais teis para as pessoas 
que conexes de longo prazo"'6 
A presente verso "liquefeita' "fluida' dispersa, espalhada e desregulada da modernidade pode no implicar o divrcio e ruptura final da comunicao, mas anuncia 
o advento do capitalismo leve e flutuante, marcado pelo desengajamento e enfraquecimento dos laos que prendem o capital ao trabalho. Pode-se dizer que esse movimento 
ecoa a passagem do casamento para o "viver junto' com todas as atitudes disso decorrentes e conseqncias estratgicas, incluindo a suposio da transitoriedade 
da coabitao e da possibilidade de que a associao seja rompida a qualquer momento e por qualquer razo, uma vez desaparecida a necessidade ou o desejo. Se manter-se 
juntos era uma questo de acordo reczproco e de mitua dependncia, o desengajamento  unilateral; um dos lados da configurao adquiriu uma autonomia que talvez 
sempre tenha desejado secretamente mas que nunca havia manifestado seriamente antes. Numa medida nunca alcanada na realidade pelos "senhores ausentes" de outrora, 
o capital rompeu sua dependncia em relao ao trabalho com uma nova liberdade de movimentos, impensvel no passado. A reproduo e o crescimento do capital, dos 
lucros e dos dividendos e a satisfao dos acionistas se tornaram independentes da durao de qualquer comprometimento local com o trabalho. 
1 
172 Modernidade Lquida 
Trabalho 173 
 claro que a independncia no  completa, e o capital no  ainda to voltil como gostaria de e tenta ser. Fatores territoriais 
- locais - ainda devem ser considerados na maioria dos clculos, e o "poder de confuso" dos governos locais ainda pode colocar limites constrangedores  sua liberdade 
de movimento. Mas o capital se tornou exterritorial, leve, desembaraado e solto numa medida sem precedentes, e seu nvel de mobilidade espacial  na maioria dos 
casos suficiente para chantagear as agncias polticas dependentes de territrio e faz-las se submeterem a suas demandas. A ameaa (mesmo quando no expressa e 
meramente adivinhada) de cortar os laos locais e mudar-se para outro lugar  uma coisa que qualquer governo responsvel, em beneficio prprio e no de seus concidados, 
deve tratar com a maior seriedade, tentando subordinar suas polticas ao propsito supremo de evitar a ameaa do desinvestimento. 
A poltica hoje se tornou um cabo-de-guerra entre a velocidade com que o capital pode se mover e as capacidades cada vez mais lentas dos poderes locais, e so as 
instituies locais que com mais freqncia se lanam numa batalha que no podem vencer. Um governo dedicado ao bem-estar de seus cidados tem pouca escolha alm 
de implorar e adular, e no pode forar o capital a vir e, uma vez dentro, a construir arranha-cus para seus escritrios em vez de ficar em quartos de hotel alugados 
por dia. E isso pode ser feito ou tentado (para usar o jargo comum  poltica da era do livre comrcio) "criando n3elhores condies para a Livre empresa' o que 
significa ajustar o jogo poltico s regras da "livre en3presa" 
- isto , usando todo o poder regulador  disposio do governo a servio da desregulao, do desmantelamento e destruio das leis e estatutos "restritivos s empresas' 
de modo a dar credibilidade e poder de persuaso  promessa do governo de que seus poderes reguladores no sero utilizados para restringir as liberdades do capital; 
evitando qualquer movimento que possa dar a impresso de que o territrio politicamente administrado pelo governo  pouco hospitaleiro com os usos, expectativas 
e todas as realizaes futuras do capital que pensa e age globalmente, ou menos hospitaleiro que as terras administradas pelos vizinhos mais prximos. Na prtica, 
isso significa baixos impostos, menos 
regras e, acima de tudo, um "mercado de trabalho flexvel" Em termos mais gerais, significa uma populao dcil, incapaz ou no- desejosa de oferecer resistncia 
organizada a qualquer deciso que o capital venha a tomar. Paradoxalmente, os governos podem ter a esperana de manter o capital em seu lugar apenas se o convencerem 
de que ele est livre para ir embora - com ou sem aviso prvio. 
Tendo se livrado do entulho do maquinrio volumoso e das enormes equipes de fbrica, o capital viaja leve, apenas com a bagagem de mo - pasta, computador porttil 
e telefone celular. O novo atributo da volatilidade fez de todo compromisso, especialmente do compromisso estvel, algo ao mesmo tempo redundante e pouco inteligente: 
seu estabelecimento paralisaria o movimento e fugiria da desejada competitividade, reduzindo apriori as opes que poderiam levar ao aumento da produtividade. As 
bolsas de valores e diretorias administrativas em todo o mundo esto prontas para premiar todos os passos dados na "direo certa' como "emagrecer" e "reduzir o 
tamanho' e a punir com a mesma presteza quaisquer notcias de expanso de equipe, aumento do emprego e envolvimento da empresa em projetos custosos de longo prazo. 
A habilidade de desaparecer como Houdini, "artista da fuga' a estratgia do desvio e da evitao e a prontido e capacidade de fugir se necessrio, esse ncleo da 
nova poltica de desengajamento e descomprometimeiito, so hoje sinais de saber e sucesso gerenciais. Como Michel Crozier indicou h muito tempo, estar livre de 
laos complicados, compromissos embaraosos e dependncias limitadoras da liberdade de manobra foram sempre as armas preferidas e eficazes da dominao; mas a oferta 
dessas armas e a capacidade de us-las parecem hoje distribudas de maneira mais desigual do que nunca antes na histria moderna. A velocidade de movimento se tornou 
um fator importante, talvez o principal, da estratificao social e da hierarquia da dominao. 
As principais fontes de lucro - dos grandes lucros em especial, e portanto do capital de amanh - tendem a ser, numa escala sempre em expanso, ide'ias e no objetos 
materiais. As idias so produzidas uma vez apenas, e ficam trazendo riqueza dependendo do nmero de pessoas atraidas como compradores/clien 
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tes/consumidores - e no do nmero de pessoas empregadas e envolvidas na replicao do prottipo. Quando se trata de tornar as idias lucrativas, os objetos da competio 
so os consumidores e no os produtores. No surpreende, pois, que hoje o principal compromisso do capital seja com os consumidores. S nessa esfera se pode falar 
de "dependncia mtua' O capital depende, para sua competitividade, eficcia e lucratividade, dos consumidores - e seus itinerrios so guiados pela presena ou 
ausncia de consumidores ou pela chance da produo de consumidores, de gerar e depois fortalecer a demanda pelas idias em oferta. No planejamento das viagens e 
na preparao de deslocamentos do capital, a presena de fora de trabalho  apenas uma considerao secundria. Conseqentemente, o "poder de presso" de uma fora 
de trabalho local sobre o capital (sobre as condies de emprego e disponibilidade de postos de trabalho) encolheu consideravelmente. 
Robert Reich'7 sugere que as pessoas presentemente envolvidas em atividades econmicas podem ser divididas em quatro grandes categorias. "Manipuladores de smbolos" 
pessoas que inventam as idias e maneiras de torn-las desejveis e vendveis, formam a primeira categoria. Os envolvidos na reproduo do trabalho (educadores ou 
diversos funcionrios do Estado de bem- estar) pertencem  segunda. A terceira categoria compreende pessoas empregadas em "servios pessoais" (o tipo de ocupaes 
que John O'Neill classificava como "mercadores de peles"), que requerem encontros face a face com os que recebem o servio; os vendedores de produtos e os produtores 
do desejo pelos produtos formam o grosso desta categoria. 
Finalmente, a quarta categoria inclui as pessoas que pelo ltimo sculo e meio formaram o "substrato social" do movimento operrio. So, nos termos de Reich, "trabalhadores 
de rotina' presos  linha de montagem ou (em fbricas mais atualizadas) s redes de computadores e equipamentos eletrnicos automatizados como pontos de controle. 
Hoje em dia tendem a ser as partes mais dispensveis, disponveis e trocveis do sistema econmico. Em seus requisitos de emprego no constam nem habilidades particulares, 
nem a arte da interao social com clientes - 
e assim so os mais fceis de substituir; tm poucas qualidades especiais que poderiam inspirar seus empregadores a desejar mant-los a todo custo; controlam, se 
tanto, apenas parte residual e negligencivel do poder de barganha. Sabem que so dispensveis, e por isso no vem razes para aderir ou se comprometer com seu 
trabalho ou entrar numa associao mais durvel com seus companheiros de trabalho. Para evitar frustrao iminente, tendem a desconfiar de qualquer lealdade em relao 
ao local de trabalho e relutam em inscrever seus prprios planos de vida em um futuro projetado para a empresa. E uma reao natural  "flexibilidade" do mercado 
de trabalho, que, quando traduzida na experincia individual de vida, significa que a segurana de longo prazo  a ltima coisa que se aprende a associar ao trabalho 
que se realiza. 
Como Sennett descobriu ao visitar uma confeitaria de Nova York duas dcadas depois de sua visita anterior, "o moral e a motivao dos trabalhadores diminuiu marcadamente 
depois de sucessivas rodadas de reduo de tamanho. Os trabalhadores sobreviventes esperavam pelo novo golpe da foice em vez de exultar com a vitria competitiva 
sobre os demitidos' Mas ele acrescenta outra razo para a diminuio do interesse dos trabalhadores por seu trabalho e pelo local de trabalho e para o desaparecimento 
de seu desejo de investir raciocnio e energia moral no futuro de ambos: 
Em todas as formas de trabalho, da escultura a servir refeies, as pessoas se identificam com tarefas que as desafiam, tarefas difceis. Mas nesse lugar de trabalho 
flexvel, com seus trabalhadores poliglotas que entram e saem irregularmente, com ordens radicalmente diferentes a cada dia, o maquinrio  o nico padro de ordem, 
e portanto tem que ser fcil de operar por qualquer um. A dificuldade  contraproducente num regime flexvel. Por um terrvel paradoxo, quando diminumos a dificuldade 
e a resistncia, criamos as prprias condies para a atividade acrtica e indiferente dos usurios.le 
Em torno do outro pio da diviso social, no topo da pirmide de poder do capitalismo leve, circulam aqueles para os quais o espao tem pouca ou nenhuma importncia 
- os que esto fora de 
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Modernidade Lquida 
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lugar em qualquer lugar em que possam estar fisicamente presentes. So to leves e volteis quanto a nova economia capitalista que os gerou e dotou de poder. Na 
descrio de Jacques Attali: "No possuem fbricas, terras, nem ocupam posies administrativas. Sua riqueza vem de um recurso porttil: seu conhecimento das leis 
do labirinto" Eles "adoram criar, jogar e estar em movimento' Vivem numa sociedade "de valores volteis, despreocupada com o futuro, egosta e hedonista' "Tomam 
a novidade como boas novas, a precariedade como valor, a instabilidade como imperativo, e a hibridez como riqueza'19 Ainda que em graus variados, todos dominam a 
arte de "viver no labirinto": aceitao da desorientao, disposio a viver fora do espao e do tempo, com vertigens e tonturas, sem indicao da direo ou durao 
da viagem em que embarcaram. 
H alguns meses, sentei com minha mulher num bar de aeroporto esperando por um vo de conexo. Dois homens por volta dos 30 anos sentaram-se  mesa ao lado, cada 
um armado de um telefone celular. Em aproximadamente uma hora e meia de espera, no trocaram uma s palavra, embora ambos tenham falado sem interrupo - com interlocutores 
invisveis do outro lado da ligao. O que no quer dizer que se ignorassem mutuamente. De fato, era a percepo dessa presena que parecia motivar suas aes. Os 
dois homens estavam envolvidos numa competio - intensa, frentica e furiosa. Aquele que terminasse a conversa enquanto o outro ainda falava buscava febrilmente 
outro nmero para ligar; claramente, o nmero de conexes, o grau de "conectividade' a densidade das respectivas redes, que faziam deles interseces, a quantidade 
de outras interseces a que podiam se ligar  vontade, eram questes de grande importncia, talvez importncia mxima, para ambos: eram ndices de nvel social, 
de posio, poder e prestgio. Ambos gastaram uma hora e meia no que era, em relao ao bar do aeroporto, um espao exterior. Quando o vo que ambos deveriam tomar 
foi anunciado, trancaram simultaneamente as pastas com idnticos gestos sincronizados e saram, mantendo os telefones prximos aos ouvidos. Estou certo de que dificilmente 
tero notado a minha mulher e a mim, sentados a dois metros e observando cada movimento que faziam. No que diz 
respeito  sua Lebmswel4 estavam (num padro de antroplogos ortodoxos censurado por Claude Lvi-Strauss) fisicamente prximos de ns, mas, espiritualmente, infinitamente 
distantes. 
Em seu brilhante ensaio sobre o que escolheu chamar de capitalismo "mole' Nigel Thrift2 observa a notvel mudana de vocabulrio e do quadro cognitivo que marcam 
a nova elite global e exterritorial. Para referir-se a suas prprias aes, usam metforas como "danar" e "surfar"; no falam mais de "engenharia' mas de culturas 
e redes, equipes e coalizes, nem de controle, liderana e gerncia, mas de influncias. Ocupam-se com formas mais soltas de organizao que possam ser formadas, 
desmanteladas e repostas a curto prazo ou mesmo sem aviso prvio;  essa forma fluida de montagem que se adapta  sua viso do mundo circundante como "mltiplo, 
complexo e rpido, e portanto 'ambguo 'difuso e 'plstico incerto, paradoxal, catico mesmo' A organizao de negcios de hoje tem um elemento de desorganizao 
deliberadamente embutido: quanto menos slida e mais fluida, melhor. Como tudo o mais no mundo, o conhecimento no pode deixar de envelhecer rapidamente e assim 
 a "recusa a aceitar o conhecimento estabelecido' a seguir os precedentes e a reconhecer a sabedoria das lies da experincia acumulada que  agora vista como 
preceito bsico da eficcia e da produtividade. 
Os dois jovens com telefones celulares que observei no bar do aeroporto podem ter sido espcimes (reais ou aspirantes) dessa nova e numericamente reduzida elite 
dos residentes do ciberespao que prosperam na incerteza e na instabilidade de todas as coisas mundanas, mas o estilo dos dominantes tende a se tornar o estilo dominante 
- se no pela oferta de uma escolha atraente, pelo menos pela imposio de urna vida cuja imitao se torna simultaneamente desejvel e imperativa, chegando a ser 
uma questo de auto-satisfao e sobrevivncia. Poucas pessoas gastam seu tempo em sagues de aeroportos, e menos ainda so as que a se sentem  vontade, ou so 
pelo menos suficientemente exterritoriais para no se sentir oprimidas ou embaraadas pelo tdio do lugar e pela multido desconhecida e barulhenta que o ocupa. 
Mas muitos, talvez a maioria, so nmades sem abandonar suas cavernas. Podem ainda buscar refgio em seus lares, mas dificilmente 
1 
178 Modernidade Lquida 
Trabalho 179 
acharo l o isolamento, e por mais que tentem nunca estaro verdadeiramente em casa: os refgios tm paredes porosas, onde se espalham fios sem conta e que so 
facilmente penetradas por ondas areas. 
Essas pessoas so, como a maioria antes delas, dominadas e "remotamente controladas"; mas so dominadas e controladas de uma maneira nova. A liderana foi substituda 
pelo espetculo: ai daqueles que ousem lhes negar entrada. Acesso  "informao" (em sua maioria eletrnica) se tornou o direito humano mais zelosamente defendido 
e o aumento do bem-estar da populao como um todo  hoje medido, entre outras coisas, pelo nmero de domiclios equipados com (invadidos por?) aparelhos de televiso. 
E aquilo sobre o que a informao mais informa  a fluidez do mundo habitado e a flexibilidade dos habitantes. "O noticirio" - essa parte da informao eletrnica 
que tem maior chance de ser confundida com a verdadeira representao do "mundo l fora' e a mais forte pretenso ao papel de "espelho da realidade" (e a que comumente 
se d o crdito de refletir essa realidade fielmente e sem distoro) - est na estimativa de Pierre Bourdieu entre os mais perecveis dos bens em oferta; de fato, 
a vida til dos noticirios  risivelmente curta se os compararmos s novelas, programas de entrevistas e programas cmicos. Mas a perecibilidade dos noticirios 
enquanto informao sobre o "mundo real"  em si mesma uma importante informao: a transmisso das notcias  a celebrao constante e diariamente repetida da enorme 
velocidade da mudana, do acelerado envelhecimento e da perpetuidade dos novos comeos.2' 
Digresso: breve histria da procrastinao 
Cras, em latim, quer dizer "amanh' A palavra tambm costumava ser semanticamente elstica, no muito diferente do famosamente vago maicina, para incluir o "mais 
tarde" - o futuro como tal. Crastinus  o que pertence ao amanh. Pro-crastinar  pr alguma coisa entre as coisas que pertencem ao amanh. P'r algo l implica 
imediatamente que o amanh no  o lugar natural dessa coisa, 
que a coisa em questo no faz parte por direito do amanh. Por implicao, ela faz parte de outro lugar. Qual? Obviamente o presente. Para ser destinada ao amanh, 
essa coisa primeiro teve que ser tirada do presente ou teve barrado seu acesso a ele. "Procrastinar" significa no tomar as coisas como elas vm, no agir segundo 
uma sucesso natural de coisas. Contra uma impresso que se tornou comum na era moderna, a procrastinao no  uma questo de displicncia, indolncia ou lassido; 
 uma posio ativa, uma tentativa de assumir o controle da seqncia de eventos e faz-la diferente do que seria caso se ficasse dcil e no se resistisse. Procrastinar 
 manipular as possibilidades da presena de uma coisa, deixando, atrasando e adiando seu estar presente, mantendo-a  distncia e transferindo sua imediatez. 
A procrastinao como prtica cultural surgiu com a modernidade. Seu novo sentido e seu significado tico derivam do novo significado do tempo, do tempo que tem 
histria, do tempo que  histria. Esse sentido deriva do tempo concebido como uma passagem entre "momentos presentes" de qualidade djferente e de valor variado; 
do tempo considerado como viajando em direo a outro presente distinto (e mais desejvel) do presente vivido agora. 
Resumindo: a procrastinao deriva seu sentido moderno do tempo vivido como uma peregrinao, como um movimento que se aproxima de um objetivo. Em tal tempo, cada 
presente  avaliado por alguma coisa que vem depois. Qualquer valor que este presente aqui e agora possa ter no passar de um sinal premonitrio de um valor maior 
por vir. O uso - a tarefa - do presente  levar-nos mais para perto desse valor mais alto. Em si mesmo, o tempo presente carece de sentido e de valor. E, por isso, 
falho, deficiente e incompleto. O sentido do presente est adiante; o que est  mo ganha sentido e  avaliado pelo noch-nic/lt-geworden pelo que ainda no existe. 
Viver a vida como uma peregrinao , portanto, intrinsecamente aportico. E obriga cada presente a servir a alguma coisa que ainda-no-, e a sei-vi-la diminuindo 
a distncia, trabalhando para a proximidade e a imediatez. Mas se a distncia desaparecesse e o objetivo fosse alcanado, o presente perderia tudo o que o 
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Modernidade Lquido 
Trabalho 
181 
fazia significativo e valioso. A racionalidade instrumental favorecida e privilegiada pela vida do peregrino leva  busca dos meios que podem realizar o estranho 
feito de manter o fim dos esforos sempre  vista sem nunca chegar l, de trazer o fim cada vez mais para perto, mas impedindo ao mesmo tempo que a distncia caia 
para zero. A vida do peregrino  uma viagem em direo  realizao, mas "realizao" nesta vida  equivalente  perda de sentido. Viajar em direo  realizao 
d sentido  vida do peregrino, mas o sentido que d tem algo de um impulso suicida; esse sentido no pode sobreviver  chegada ao destino. 
A procrastinao reflete essa ambivalncia. O peregrino procrastina para estar mais bem preparado para captar as coisas que verdadeiramente importam. Mas capt-las 
sinalizar o fim da peregrinao, e assim tambm o fim de uma vida que dela deriva seu nico sentido. Por essa razo, a procrastinao tem uma tendncia a romper 
qualquer limite de tempo colocado de antemo e a estender-se indefinidamente - ad calenda. graecas. A procrastinao tende a tornar-se seu prprio objetivo. A coisa 
mais importante deixada de lado no ato da procrastinao tende a ser o fim da prpria procrastinao. 
O preceito comportamental e de atitude que fundou a sociedade moderna e tornou possvel e inescapvel o modo moderno de estar no mundo foi o princpio do adiamento 
da satisfao (da satisfao de uma necessidade ouum desejo, do momento de uma experincia agradvel, do gozo). E nessa transformao que a procrastinao entra 
na cena moderna (ou, mais exatamente, torna moderna a cena). Como explicou Max Weber, foi esse adiamento particular, e no a pressa e a impacincia, que resultou 
em modernas inovaes espetaculares e frutferas - como, de um lado, a acumulao do capital e, de outro, a propagao e o enraizamento da tica do trabalho. O desejo 
de melhorar deu ao esforo seu estmulo e momento; mas o "no ainda' o "no j' conduziu esse esforo a sua conseqncia no-prevista, que veio a ser conhecida como 
crescimento, desenvolvimento, acelerao e, portanto, sociedade moderna. 
Na forma do "adiamento da satisfao", a procrastinao retm toda sua ambivalncia interior. Libido e Inatos competem entre 
si em cada ato de adiamento, e cada adiamento  o triunfo da Libido sobre seu inimigo mortal. O desejo estimula o esforo pela esperana de satisfao, mas o estmulo 
retm sua fora enquanto a satisfao desejada permanecer uma esperana. Todo o poder motivador do desejo  investido em sua realizao. No fim, para permanecer 
vivo o desejo tem que desejar apenas sua prpria sobrevivncia. 
Na forma do "adiamento da satisfao' a procrastinao pe arar e semear acima de colher e ingerir o produto, o investimento acima do lucro, a poupana acima do 
gasto, a autoconteno acima da auto-indulgncia, o trabalho acima do consumo. Mas nunca diminuiu o valor das coisas a que negava prioridade nem subestimou seu mrito 
e significao. Essas coisas eram os prmios da abstinncia auto-infligida as recompensas do adiamento voluntrio. Quanto mais severa a auto-restrio, maior seria 
eventualmente a oportunidade de auto-indulgncia. Poupe, pois quanto mais voc poupar mais voc poder gastar. 'frabalhe, pois quanto mais voc trabalhar mais voc 
consumir. Paradoxalmente, a negao da imediatez, a aparente degradao dos objetivos, redunda em sua elevao e enobrecimento. A necessidade de esperar magnifica 
os poderes sedutores do prmio. Longe de rebaixar a satisfao dos desejos como motivo para os esforos da vida, o preceito de adi-la torna-a o propsito supremo 
da vida. O adiamento da satisfao mantm o produtor a servio do consumidor - mantendo o consumidor que vive no produtor plenamente acordado e de olhos bem abertos. 
Devido a sua ambivalncia, a procrastinao alimenta duas tendncias apostas. Uma leva  tica do trabalho, que estimula a troca de lugares entre meios e fins e 
proclama a virtude do trabalho pelo trabalho, o adiamento do gozo como um valor em si mesmo, e, valor mais refinado do que os valores que se destinava a servir, 
a tica do trabalho insiste em que o adiamento se estenda indefinidamente. Outra tendncia leva  esttica do consumo, rebaixando o trabalho ao papel puramente subordinado 
e instrumental de revolver a terra, uma atividade que deriva todo seu valor daquilo para que prepara o terreno, e tambm leva  consi 
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Trabalho 183 
Modernidade Lquida 
derao da abstinncia e da renncia como sacrificios talvez necessrios, mas embaraosos e corretamente mal-vistos, a serem reduzidos ao mnimo. 
Como uma faca de dois gumes, a procrastinao pode servir  sociedade moderna tanto em seu estgio "slido" como no "lquido'; tanto em seu estgio de produtor como 
no de consumidor, ainda que sobrecarregue cada estgio com tenses e conflitos de atitude e axiolgicos no-resolvidos. A passagem para a sociedade de consumidores 
do presente significou portanto uma mudana de nfase mais que uma mudana de valores. E, no entanto, levou o princpio da procrastinao ao ponto de ruptura. Esse 
princpio est hoje vulnervel, e perdeu o escudo protetor da proibio tica. O adiamento da satisfao no  mais um sinal de virtude moral. uma provao pura 
e simples, uma problemtica sobrecarga que sinaliza imperfeies nos arranjos sociais ou inadequao pessoal, ou nas duas ao mesmo tempo. No uma exortao, mas 
uma admisso resignada e triste de um estado de coisas desagradvel (mas remedivel). 
Se a tica do trabalho pressiona por uma extenso indefinida do adiamento, a esttica do consumo pressiona por sua abolio. Vivemos, como disse George Steiner, 
numa "cultura de cassino'; e rio cassino a chamada nunca muito distante de "rien ne vaplus" coloca o limite  procrastinao; se um ato merece recompensa, a recompensa 
 instantnea. Na cultura do cassino, a espera  tirada do querer, mas a satisfao do querer tambm deve ser breve; deve durar apenas at que a bolinha da roleta 
corra de novo, ter to pouca durao quanto a espera, para no sufocar o desejo, que deveria preencher e reinventar - desejo que  a recompensa mais ambicionada 
no mundo dominado pela esttica do consumo. 
E assim se encontram o comeo e o fim da procrastinao, a distncia entre o desejo e sua satisfao se reduz a um momento de xtase - xtase que, como observou 
John Tusa (no Guardian de 19.7.1997) deve haver em quantidade: "Imediato, constante, divertido, agradvel, em quantidade cada vez maior, em formas cada vez mais 
diversificadas, em ocasies cada vez mais freqentes ' O que conta, entre as qualidades das coisas e dos atos  s a 
"auto-satisfao instantnea, constante e irrefletida" Obviamente, a demanda de que a satisfao seja instantdnea vai contra o princpio da procrastiriao. Mas, 
sendo instantnea, a satisfao no pode ser constante, a menos que tambm seja de curta durao, impedida de se estender alm da durao de seu poder de diverso 
e entretenimento. Na cultura do cassino, o princpio da procrastinao sofre ataque em duas frentes ao mesmo tempo. Esto sob presso o adiamento tanto da chegada 
da satisfao quanto o de sua partida. 
Esse , porm, um dos lados da histria. Na sociedade dos produtores, o princpio tico do adiamento da satisfao costumava assegurar a durabilidade do esforo 
do trabalho. Na sociedade dos consumidores, por outro lado, o mesmo princpio pode ainda ser necessrio na prtica para assegurar a durabilidade do desejo. Muito 
mais efmero e frgil que o trabalho, e, ao contrrio do trabalho, no reforado por rotinas institucionalizadas, o desejo no tem chance de sobreviver se a satisfao 
for deixada para as calendas gregas. Para se manter vivo e fresco, o desejo deve ser, algumas vezes, e freqentemente, satisfeito ainda que a satisfao signifique 
o fim do desejo. A sociedade dominada pela esttica do consumo precisa portanto de um tipo muito especial de satisfao - semelhante ao pharmakon de Derrida, essa 
droga curativa que  ao mesmo tempo um veneno, ou melhor, uma droga que deve ser dosada cuidadosamente, nunca na dosagem completa - que mata. Uma satisfao que 
no  realmente satisfatria, nunca bebida at o fim, sempre abandonada pela metade... 
A procrastinao serve  cultura do consumidor pela sua auto- negao. A fonte do esforo criativo io  mais o desejo induzido de adiar a satisfao do desejo, 
mas o desejo induzido de encurtar o adiamento ou aboli-lo de todo, acompanhado do desejo induzido de encurtar a durao da satisfao quando ela chega. A cultura 
em guerra com a procrastinao  uma novidade na histria moderna. Ela no tem lugar para tomar distncia, nem para reflexo, continuidade, tradio - essa Wiederholung 
(recapitulao) que, de acordo com Heidegger, era a modalidade do Ser como o conhecemos. 
184 Modernidade Lquida 
Trabalho 185 
Os laos humanos no mundo fluido 
Os dois tipos de espao, ocupados pelas duas categorias de pessoas, so marcadamente diferentes, mas inter-relacionados; no conversam entre si, mas esto em constante 
comunicao; tm muito pouco em comum, mas simulam semelhana. Os dois espaos so regidos por lgicas drasticamente diferentes, moldam diferentes experincias de 
vida, geram itinerrios divergentes e narrativas que usam definies distintas, muitas vezes opostas, de cdigos comportamentais semelhantes. E no entanto os dois 
espaos se acomodam dentro do mesmo mundo - e o mundo de que ambos fazem parte  o mundo da vulnerabilidade e da precariedade. 
O ttulo de um artigo apresentado em dezembro de 1997 por um dos analistas mais incisivos de nosso tempo, Pierre Bourdieu,  "Le prcarit est aujourd'hui partout"22. 
O ttulo diz tudo: precariedade, instabilidade, vulnerabilidade,  a caracterstica mais difundida das condies de vida contemporneas (e tambm a que se sente 
mais dolorosamente). Os tericos franceses falam de prcarit os alemes, de Unsicher/zeit e Risikogesellschaf4 os italianos, de incerlezza e os ingleses, de insecurity 
- mas todos tm em mente o mesmo aspecto da condio humana, experimentada de vrias formas e sob nomes diferentes por todo o globo, mas sentida como especialmente 
enervante e deprimente na parte altamente desenvolvida e prspera do planeta - por ser um fato novo e sem precedentes. O fenmeno que todos esses conceitos tentam 
captar e articular  a experincia combinada da falta de garantias (de posio, ttulos e sobrevivncia), da incerteza (em relao  sua continuao e estabilidade 
futura) e de insegurana (do corpo, do eu e de suas extenses: posses, vizinhana, comunidade). 
A precariedade  a marca da condio preliminar de todo o resto: a sobrevivncia, e particularmente o tipo mais comum de sobrevivncia, a que  reivindicada em termos 
de trabalho e emprego. Essa sobrevivncia j se tornou excessivamente frgil, mas se torna mais e mais frgil e menos confivel a cada ano que passa. Muitas pessoas, 
quando ouvem as opinies contraditrias dos especialistas, mas em geral apenas olhando em volta e pensando 
sobre o destino de seus entes prximos e queridos, suspeitam com boas razes que, por mais admirveis que sejam as caras e as promessas que os polticos fazem, o 
desemprego nos pases prsperos tornou-se "estrutural": para cada nova vaga h alguns empregos que desapareceram, e simplesmente no h empregos suficientes para 
todos. E o progresso tecnolgico - de fato, o prprio esforo de racionalizao - tende a anunciar cada vez menos, e no mais, empregos. 
Quo frgeis e incertas se tornaram as vidas daqueles j dispensveis como resultado de sua dispensabilidade no  muito dificil de imaginar. A questo , porm, 
que - pelo menos psicologicamente - todos os outros tambm so afetados, ainda que por enquanto apenas obliquamente. No mundo do desemprego estrutural ningum pode 
se sentir verdadeiramente seguro. Empregos seguros em empresas seguras parecem parte da nostalgia dos avs; nem h muitas habilidades e experincias que, uma vez 
adquiridas, garantam que o emprego ser oferecido e, uma vez oferecido, ser durvel. Ningum pode razoavelmente supor que est garantido contra a nova rodada de 
"reduo de tamanho' "agilizao" e "racionalizao' contra mudanas errticas da demanda do mercado e presses caprichosas mas irresistveis de "competitividade' 
"produtividade" e "eficcia' "Flexibilidade"  a palavra do dia. Ela anuncia empregos sem segurana, compromissos ou direitos, que oferecem apenas contratos a prazo 
fixo ou renovveis, demisso sem aviso prvio e nenhum direito  compensao. Ningum pode, portanto, sentir-se insubstituvel - nem os j demitidos nem os que ambicionam 
o emprego de demitir os outros. Mesmo a posio mais privilegiada pode acabar sendo apenas temporria e "at disposio em contrrio" 
Na falta de segurana de longo prazo, a "satisfao instantnea" parece uma estratgia razovel. O que quer que a vida oferea, que o faa hic ei nunc - no ato. 
Quem sabe o que o amanh vai trazer? O adiamento da satisfao perdeu seu fascnio. E, afinal, altamente incerto que o trabalho e o esforo investidos hoje venham 
a contar como recursos quando chegar a hora da recompensa. Est longe de ser certo, alm disso, que os prmios que hoje parecem atraentes sero to desejveis quando 
finalmente forem 
186 Modernidade Lquida 
conquistados. Todos aprendemos com amargas experincias que os prmios podem se tornar riscos de uma hora para outra e prmios respiandecentes podem se tornar marcas 
de vergonha. As modas vm e vo com velocidade estonteante, todos os objetos de desejo se tornam obsoletos, repugnantes e de mau-gosto antes que tenhamos tempo de 
aproveit-los. Estilos de vida que so "chiques" hoje sero amanh alvos do ridculo. Citando Bourdieu uma vez mais: "Os que deploram o cinismo que marca os homens 
e mulheres de nosso tempo no deveriam deixar de relacion-lo s condies sociais e econmicas que o favorecem.." Quando Roma pega fogo e h muito pouco ou nada 
que se possa fazer para controlar o incndio, tocar violino no parece mais bobo nem menos adequado do que fazer qualquer outra coisa. 
Condies econmicas e sociais precrias treinam homens e mulheres (ou os fazem aprender pelo caminho mais difcil) a perceber o mundo como um continer cheio de 
objetos descarteis, objetos para uma .r6utilizao; o mundo inteiro - inclusive outros seres humanos. Alm disso, o mundo parece ser constitudo de "caixas pretas", 
hermeticamente fechadas, e que jamais devero ser abertas pelos usurios, nem consertadas quando quebram. Os mecnicos de automveis de hoje no so treinados para 
consertar motores quebrados ou danificados, mas apenas para retirar e jogar fora as peas usadas ou defeituosas e substitu-Ias por outras novas e seladas, diretamente 
da prateleira. Eles no tm a menor idia da estrutura interna das "peas sobressalentes" (uma expresso que diz tudo), do modo misterioso como funcionam; no consideram 
esse entendimento e a habilidade que o acompanha como sua responsabilidade ou como parte de seu campo de competncia. Como na oficina mecnica, assim tambm na vida 
em geral: 
cada "pea"  "sobressalente" e substituvel, e assim deve ser. Por que gastar tempo com consertos que consomem trabalho, se no  preciso mais que alguns momentos 
para jogar fora a pea danificada e colocar outra em seu lugar? 
Num mundo em que o futuro , na melhor das hipteses, sombrio e nebuloso, porm mais provavelmente cheio de riscos e perigos, colocar-se objetivos distantes, abandonar 
o interesse privado para aumentar o poder do grupo e sacrificar o presente em 
nome de uma felicidade futura no parecem uma proposio atraente, ou mesmo razovel. Qualquer oportunidade que no for aproveitada aqui e agora  uma oportunidade 
perdida; no a aproveitar  assim imperdovel e no h desculpa fcil para isso, e nem justificativa. Como os compromissos de hoje so obstculos para as oportunidades 
de amanh, quanto mais forem leves e superficiais, menor o risco de prejuzos. "Agora"  a palavra-chave da estratgia de vida, ao que quer que essa estratgia se 
aplique e independente do que mais possa sugerir. Num mundo inseguro e imprevisvel, o viajante esperto far o possvel para imitar os felizes globais que viajam 
leves; e no derramaro muitas lgrimas ao se livrar de qualquer coisa que atrapalhe os movimentos. Raramente param por tempo suficiente para imaginar que os laos 
humanos no so como peas de automvel - que raramente vm prontos, que tendem a se deteriorar e desintegrar facilmente se ficarem hermeticamente fechados e que 
no so fceis de substituir quando perdem a utilidade. 
E assim a poltica de "precarizao" conduzida pelos operadores dos mercados de trabalho acaba sendo apoiada e reforada pelas polticas de vida, sejam elas adotadas 
deliberadamente ou apenas por falta de alternativas. Ambas convergem para o mesmo resultado: o enfraquecimento e decomposio dos laos humanos, das comunidades 
e das parcerias. Compromissos do tipo "at que a morte nos separe" se transformam em contratos do tipo "enquanto durar a satisfao", temporais e transitrios por 
definio, por projeto e por impacto pragmtico - e assim passveis de ruptura unilateral, sempre que um dos parceiros perceba melhores oportunidades e maior valor 
fora da parceria do que em tentar salv-la a qualquer - incalculvel - custo. 
Em outras palavras, laos e parcerias tendem a ser vistos e tratados como coisas destinadas a serem consurnidas, e no produzidas; esto sujeitas aos mesmos critrios 
de avaliao de todos os outros objetos de consumo. No mercado de consumo, os produtos durveis so em geral oferecidos por um "perodo de teste"; a devoluo do 
dinheiro  prometida se o comprador estiver menos que totalmente satisfeito. Se o participante numa parceria  "concebido" em tais termos, ento no  mais tarefa 
para ambos os 
Traba'ho 
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Modernidade Lquido 
Trabalho 
189 
parceiros "fazer com que a relao furicione' "na riqueza e na pobreza' na sade e na doena, trabalhar a favor nos bons e maus momentos, repensar, se necessrio, 
as prprias preferncias, conceder e fazer sacrifcios em favor da uma unio duradoura. E, em vez disso, uma questo de obter satisfao de um produto pronto para 
o consumo; se o prazer obtido no corresponder ao padro prometido e esperado, ou se a novidade se acabar junto com o gozo, pode-se entrar com a ao de divrcio, 
com base nos direitos do consumidor. No h qualquer razo para ficar com um produto inferior ou envelhecido em vez de procurar outro "novo e aperfeioado" nas lojas. 
O que se segue  que a suposta transitoriedade das parcerias tende a se tornar uma profecia autocumprida. Se o lao humano, como todos os outros objetos de consumo, 
no  alguma coisa a ser trabalhada com grande esforo e sacrifcio ocasional, mas algo de que se espera satisfao imediata, instantnea, no momento da compra - 
e algo que se rejeita se no satisfizer, a ser usada apenas enquanto continuar a satisfazer (e nem um minuto alm disso) -, ento no faz sentido "jogar dinheiro 
bom em cima de dinheiro ruim' tentar cada vez mais, e menos ainda sofrer com o desconforto e o embarao para salvar a parceria. Mesmo um pequeno problema pode causar 
a ruptura da parceria; desacordos triviais se tornam conflitos amargos, pequenos atritos so tomados como sinais de incompatibilidade essencial e irreparvel. Como 
o socilogo norte-americano W.l. Thomas teria dito, se tivesse testemunhado essa situao: se as pessoas supem que seus compromissos so temporrios e at segunda 
ordem, esses compromissos tendem a se tornar temporrios em consequncia das prprias aes dessas pessoas. 
A precariedade da existncia social inspira uma percepo do mundo em volta como um agregado de produtos para consumo imediato. Mas a percepo do mundo, com seus 
habitantes, como um conjunto de itens de consumo, faz da negociao de laos humanos duradouros algo excessivamente difcil. Pessoas inseguras tendem a ser irritveis; 
so tambm intolerantes com qualquer coisa que funcione como obstculo a seus desejos; e como muitos desses desejos sero de qualquer forma frustrados, no h escas 
se 
de coisas e pessoas que sirvam de objeto a essa intolerncia. Se a satisfao instantnea  a nica maneira de sufocar o sentimento de insegurana (sem jamais saciar 
a sede de segurana e certeza), no h razo evidente para ser tolerante em relao a alguma coisa ou pessoa que no tenha bvia relevncia para a busca da satisfao, 
e menos ainda em relao a alguma coisa ou pessoa complicada ou relutante em trazer a satisfao que se busca. 
H ainda outra ligao entre a "consumizao" de um mundo precrio e a desintegrao dos laos humanos. Ao contrrio da produo, o consumo  uma atividade solitria, 
irremediavelmente solitria, mesmo nos momentos em que se realiza na companhia de outros. Esforos produtivos (em geral de longo prazo) requerem cooperao mesmo 
quando apenas demandam a adio de fora muscular bruta: se carregar um pesado tronco de um lugar para outro requer uma hora a oito homens, no se segue que um homem 
o possa fazer em oito (ou qualquer nmero de) horas. No caso de tarefas mais complexas que envolvem a diviso do trabalho e demandam diversas habilidades especializadas 
que no se encontram em uma s pessoa, a necessidade de cooperao  ainda mais bvia; sem ela, o produto no teria chance de surgir.  a cooperao que transforma 
os esforos diversos e dispersos em esforos produtivos. No caso do consumo, porm, a cooperao no s  desnecessria como  inteiramente suprflua. O que  consumido 
o  ind jvidualmente, mesmo que num saguo repleto. Num toque de seu gnio verstil, Luis Bufluel (em Ofanta.ma da liberdade) mostra o ato de comer, esse ato prototpico 
de gregariedade e sociabilidade, como a mais solitria e secreta de todas as atividades, zelosamente protegida da curiosidade dos outros. 
A autoperpetuao da falta de confiana 
Em seu estudo retrospectivo da sociedade capitalista/moderna do "desenvolvimento compulsivo e obsessivo' AJam Peyrefitte23 chega  concluso de que a caracterstica 
mais importante, e mesmo constitutiva dessa sociedade era a confiana: confiana em si mes 1 
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Modernidade Lquida 
Trabalho 
191 
mo, nos outros e nas instituies. Os trs constituintes da confiana costumavam ser indispensveis. Condicionavam-se e se apoiavam entre si: sem um deles, os outros 
dois implodinam e entrariam em colapso. Poderamos descrever a moderna construo da ordem como um esforo contnuo de implantar as fundaes institucionais da confiana: 
oferecendo uma estrutura estvel para o investimento da confiana e tornando aceitvel a crena de que os valores presentemente estimados continuariam a ser estimados 
e desejados, e de que as regras para a busca e obteno desses valores continuariam a ser observadas, no seriam infringidas e seriam imunes  passagem do tempo. 
Peyrefitte indica a empresa que gera empregos como o lugar por excelncia para a disseminao e cultivo da confiana. O fato de que a empresa capitalista fosse tambm 
o foco de conflitos e confrontaes no deve nos enganar: no h enfrentamento sem coifiana. Se os empregados lutavam por seus direitos,  porque confiavam no "poder" 
do quadro em que, como esperavam e queriam, seus direitos se inseriam; confiavam na empresa como lugar adequado a quem entregavam seus direitos para guarda. 
Esse no  mais o caso, ou pelo menos deixa rapidamente de s-lo. Nenhuma pessoa racional esperaria passar toda sua vida, ou pelo menos boa parte dela, em uma mesma 
empresa. A maioria das pessoas racionais preferiria confiar as economias de toda a vida aos notoriamente arriscados fundos de investimento e companhias de seguros, 
que jogam nas bolsas, e no contar com as penses que as empresas em que atualmente trabalham podem pagar. Como bem resumiu Nigel Thrift recentemente, " muito dificil 
construir a confiana em organizaes que esto sendo ao mesmo tempo 'desmontadas 'reduzidas' e 'reengenheirizadas'" 
Pierre Bourdieu24 mostra a ligao entre o colapso da confiana e o enfraquecimento da vontade de engajamento politico e ao coletiva: a capacidade de fazer projees 
para o futuro, sugere,  a conditio sine qua non de todo pensamento "transformador" e de todo esforo de reexaminar e reformar o estado presente das coisas - mas 
projees sobre o futuro raramente ocorrero a pessoas que no tm o p firme no presente. A quarta categoria de Reich claramente carece dessa firmeza. Presos como 
esto a seus lugares. 
impedidos de se mover e detidos no primeiro posto de fronteira se o fizerem, esto numa posio apriori inferior  do capital que se move livremente. O capital  
cada vez mais global; eles, porm, permanecem locais. Por essa razo esto expostos, desarmados, aos inescrutveis caprichos de misteriosos "investidores" e "acionistas' 
e das ainda mais desconcertantes "foras do mercado' "termos de troca" e "demandas da competio' O que quer que ganhem hoje lhes pode ser tirado amanh sem aviso 
prvio. No podem vencer. Nem - sendo as pessoas racionais que so ou lutam por ser - esto dispostos a arriscar a luta.  improvvel que reformulem suas queixas 
como uma questo poltica e se voltem para o poder poltico estabelecido em busca de reparao. Como previu Jacques Attali h alguns anos, "o poder residir amanh 
na capacidade de bloquear ou facilitar o movimento por certas vias. O Estado no exercer seus poderes para controlar a rede. E assim a impossibilidade de exercer 
o controle sobre a rede enfraquecer irreversivelmente as instituies polticas'25 
A passagem do capitalismo pesado ao leve e da modernidade slida  fluida ou liquefeita  o quadro em que a histria do movimento dos trabalhadores foi inscrita. 
Ela tambm vai longe para dar sentido s notrias reviravoltas dessa histria. No seria nem razovel nem particularmente esclarecedor dar conta dos lgubres dilemas 
em que o movimento dos trabalhadores caiu na parte "avanada" (no sentido "modernizante") do mundo, em relao  mudana na disposio do pblico - tenha sido ela 
produzida pelo impacto debilitante dos meios de comunicao de massa, por uma conspirao dos anunciantes, pela sedutora atrao da sociedade do consumo ou pelos 
efeitos soporferos da sociedade do espetculo e do entretenimento. Culpar os atabalhoados ou ambguos "polticos trabalhistas" tambm no ajuda. Os fenmenos invocados 
nessas explicaes no so imaginrios, mas no funcionariam como explicaes se no fosse pelo fato de que o contexto da vida, o ambiente social em que as pessoas 
(raramente por sua prpria escolha) conduzem os afazeres da vida, mudou radicalmente desde o tempo em que os trabalhadores que se amontoavam nas fbricas de produo 
em larga escala se uniam para lutar por termos mais humanos e compensadores de 
1 
-A 
192 Modernidade Lquida 
venda de seu trabalho, e os tericos e prticos do movimento dos trabalhadores sentiam na solidariedade destes o desejo, informe e ainda no articulado (mas inato 
e a longo prazo avassalador), de uma "boa sociedade" que efetivaria os princpios universais da justia. 

5  COMUNIDADE 
As diferenas nascem quando a razo no est inteiramente desperta ou voltou a adormecer. Esse era o credo implcito que emprestava credll)ilidade  clara confiana 
que os liberais ps-ilumiJustas depositavam na capacidade dos indivduos humanos para a iniaculada concepo. Ns, humanos, somos dotados de tudo de que todos precisam 
para tomar o caminho certo que, urna vez escolhido, ser o mesmo pam'a todos. O sujeito de Descartes e o homem de Kant, armados da razo, no errariam em seus caminhos 
humanos a menos que empurrados ou atraidos para fira da reta trilha iluminada pela razo. Escolhas diferentes so o secli- mento de tropeos da histria - o resultado 
de uma leso cerebral chamada pelos vrios nomes de preconceito, superstio ou falsa conscincia. Ao contrrio dos veredictos eindeut,rda razo que sao propriedade 
de cada ser humano, as diferenas de juzo tm on- gem coletiva: os "dolos" de Francis Bacon esto onde os homens circulam e se encontram - no teatro, num mercado, 
em festas tribais. Libertar o poder da razo humana significava libertar o ndi duo de tudo isso. 
Esse credo foi trazido  tona pelos crticos do liberalismo. No eram poucos os crticos, que denunciavam a interpretao lihem'al do legado do hlurninismo por entender 
errado as coisas ou por errar ao faz-las. Poetas romnticos, historiadores e socilogos se uniram aos polticos nacionalistas ao observar que -. antes mesmo que 
os homens comeassem a exercitar seus crebros para criar o melhor cdigo de convvio que sua razo podia sugerir - eles j tinham urna histria (coletiva) e costumes 
(coletivarnente segui- dos). Nossos contemporneos comunitrios dizem quase o mnesino, apenas utilizando termos diferentes: quem se "auto-afirma" e 
193 
194 
Modernidade Lquida 
Comunidade 
195 
se "autoconstri" no  o indivduo "desacomodado" e "desimpedido' mas uma pessoa que usa a linguagem e  escolarizada/socializada. Nem sempre  claro o que os crticos 
tm em mente: a viso do indivduo autocontido  falsa ou prejudicial? Devem os liberais ser censurados por pregar a "opinio falsa" ou por fazer, inspirar ou absolver 
a falsa poltica? 
Parece, contudo, que a recente querela entre liberais e coinunitrios diz respeito  poltica e no  "natureza humana' A questo no  tanto saber se a libertao 
do indivduo das opinies herdadas e da garantia coletiva contra as inconvenincias da responsabilidade individual acontece ou no - mas se isso  bom ou ruim. Raymond 
Williams percebe h muito que o que  notvel sobre a "comunidade"  que ela sempre existiu. H comoo em torno da necessidade de comunidade principahnente porque 
 cada vez menos claro se as realidades que os retratos da "comunidade" afirmam representar so evidentes, e, se, caso possam ser encontradas, merecero ser tratadas, 
em ista da expectativa de sua durao, com o respeito que exigem. A valente defesa da coinunidade e a tentativa de restaurar sua posio negada pelos liberais dificilmente 
teriam acontecido se no fosse pelo fato de que os arreios com os quais as coletividades atam seus membros a uma histria conjunta, ao costume, linguagem e escola, 
ficam mais esgarados a cada ano que passa. No estgio lquido da modernidade, s so fornecidos arreios com zper, e o argumento para sua venda  a facilidade com 
que podem ser usados pela manh e despidos  noite (ou vice-versa). As comunidades vm em vrias cores e tamanhos, mas, se colocadas num eixo weheriano que vai de 
"leve manto" a "gaiola de ferro' aparecero todas notavelmente prximas do primeiro plo. 
Na medida em que precisam ser defendidas para sobreviver e apelar para seus prprios membros para que assegurem essa 
brevivncia com suas escolhas individuais e assumam responsabilidade individual por essa sobrevivncia - todas as comunidades so posiuiada.r mais projetos que realidades, 
alguma coisa que vem depois e no antes da escolha individual. A comunidade "tal como aparece nas pinturas comunitrias" poderia ser suficientemente 
tangvel para ficar invisvel e permitir o silncio; mas os comunitrios no pintam suas semelhanas, e muito menos as exibem. 
Esse  o paradoxo interno do comunitarismo. Dizer " bom ser parte de uma comunidade"  um testemunho oblquo de no fazer parte, ou no fazer parte por muito tempo, 
a menos que os msculos e mentes dos indivduos sejam exercitados e expandidos. Para realizar o projeto comunitrio,  preciso apelar s mesmssimas (e desimpedidas) 
escolhas individuais cuja possibilidade havia sido negada. No se pode ser um comunitrio bonafide sem acender uma vela para o diabo: sem admitir numa ocasio a 
liberdade da escolha individual que se nega em outra. 
Aos olhos dos lgicos, essa contradio poderia por si s desacreditar o esforo de disfarar o projeto poltico comunitrio como uma teoria descritiva da realidade 
social. Para o socilogo, no entanto, o que constitui um importante fato social que merece ser explicado/compreendido  a prpria popularidade (talvez crescente) 
das idias comunitrias (enquanto o fato de que o disfarce tenha sido to bom a ponto de no obstruir o sucesso comunitrio no melindraria muito, sociologicamente 
falando -  corriqueiro demais). 
Em termos sociolgicos, o comunitarismo  uma reao espervel  acelerada "liquefao" da vida moderna, uma reao antes e acima de tudo ao aspecto da vida sentido 
como a mais aborrecida e incmoda entre suas numerosas consequncias penosas - o crescente desequilbrio entre a liberdade e as garantias individuais. O suprimento 
de provises se esvai rapidamente, enquanto o volume de responsabilidades individuais (atribudas, quando no exercidas na prtica) cresce numa escala sem precedentes 
para as geraes do ps-guerra. Um aspecto muito visvel do desaparecimento das velhas garantias  a nova fragilidade dos laos humanos. A fragilidade e transitoriedade 
dos laos pode ser um preo inevitvel do direito de os indivduos perseguirem seus objetivos individuais, mas no pode deixar de ser, simultaneamente, um obstculo 
dos mais formidveis para perseguir eficazmente esses objetivos - e para a coragem necessria para persegui-los. Isso tambm  um paradoxo - e profundamente enraizado 
na natureza da vida na modernidade lquida. E nem  a primeira vez que 
196 Modernidade Lquida 
Comunidade 197 
situaes paradoxais provocam e evocam respostas paradoxais.  luz da natureza paradoxal da "individualizao" moderna-lquida, a natureza contraditria da resposta 
comunitria ao paradoxo no deve espantar: a primeira  uma explicao adequada da segunda, enquanto esta  um efeito adequado da primeira. 
O comunitarismo renascido responde  questo genuna e pungente de que o pndulo oscila radicalmente - e talvez para longe demais - afastando-se do plo da segurana 
na dade dos valores humanos fundamentais. Por essa razo, o evangelho comunitrio tem uma grande audincia. Ele fala em nome de milhes: 
precarite como insiste Bourdieu, estaujourd'huipartout- ela penetra cada canto da existncia humana. Em seu recente livro Protegvr ou dLparatre,1 um irado manifesto 
contra a indolncia e a hipocrisia das elites do poder de hoje em face de "la mont'e des insecuriis' Philippe Cohen lista o desemprego (nove de cada dez novas 
vagas so estritamente temporrias e de curto prazo), as perspectivas incertas na velhice e os infortnios da vida urbana como as principais fontes da difusa ansiedade 
em relao ao presente, ao dia de amanh e ao futuro mais distante: a falta de segurana  o que une as trs, e o principal apelo do comunitarismo  a promessa de 
um porto seguro, o destino dos sonhos dos marinheiros perdidos no mar turbulento da mudana constante, confusa e imprevisvel. 
Como observou amargamente Eric Hobsbawm, "a palavra 'comunidade' nunca foi utilizada to indiscriminadamente quanto nas dcadas em que as comunidades no sentido 
sociolgico se tornaram difceis de encontrar na vida real'2 "Homens e mulheres procuram grupos de que possam fazer parte, com certeza e para sempre, num mundo em 
que tudo o mais se desloca e muda, em que nada mais  certo':'3 Jock Young faz um sumrio sucinto da observao de Hobsbawm: "Exatamente quando a comunidade entra 
em colapso, inventa-se a identidade':'4 Pode-se dizer que a "comunidade" do evangelho comunitrio [community ofthe comn?untarian gospell no  a Gemeinschaft pr-estabelecida 
e seguramente fundada da teoria social (e formulada como "lei da histria" por Ferdinand Tnnies), mas um criptnimo para a "identidade" zelosamente buscada mas 
nunca encontrada. E como observou 
Orlando Patterson (citado por Eric Hobsbawm), embora as pessoas tenham que escolher entre diferentes grupos de referncia de identidade, sua escolha implica a forte 
crena de que quem escolhe no tem opo a no ser o grupo especfico a que "pertence": 
A comunidade do evangelho comunitrio  um lar evidente (o lar familiar, no um lar achado ou feito, mas um lar em que se nasceu, de tal forma que no se pode encontrar 
a origem, a "razo de existir' em qualquer outro lugar): e um tipo de lar, por certo, que para a maioria das pessoas  mais como um belo conto de fadas que uma questo 
de experincia pessoal. (A casa familiar, outrora envolta seguramente por uma densa rede de hbitos rotinizados e expectativas costumeiras, teve as protees desmanteladas 
e est inteiramente  merc das mars que aoitam o resto da vida.) Que o lar esteja fora do domnio da experincia ajuda: seu aconchego no pode ser posto a prova, 
e seus atrativos, como so imaginados, ficam imunes aos aspectos menos atraentes do pertencimento obrigatrio e das obrigaes no-negociveis - as cores mais fortes 
esto ausentes da palheta da imaginao. 
Ser um lar evidente tambm ajuda. Os que estavam presos dentro de uma casa comum de alvenaria podiam, vez ou outra, ser assaltados pela estranha impresso de estar 
numa priso e no num porto seguro; a liberdade da rua acenava de fora, to inacessvel quanto a sonhada segurana do lar tende a ser hoje. Se a sedutora segurana 
do lar , porm, projetada numa tela suficientemente grande, no sobra "de fora" nada para estragar a festa. A comunidade ideal  um compleat mappa mundi: um mundo 
total, que oferece tudo de que se pode precisar para levar uma vida significativa e compensadora. Focando o que mais causa dor aos sem teto, o remdio comunitrio 
da passagem (disfarada de retorno) para um mundo total e totalmente consistente aparece como uma soluo verdadeiramente radical de todos os problemas, presentes 
e futuros; outros cuidados parecem pequenos e insignificantes, se comparados. 
O mundo comunitrio est completo porque todo o resto  irrelevante; mais exatamente, hostil - um ermo repleto de emboscadas e conspiraes e fervilhante de inimigos 
que brandem o caos como sua arma principal. A harmonia interior do mundo 
198 Modernidade Lquida 
Comunidade 199 
comunitrio brilha e cintila contra a escura e impenetrvel selva que comea do outro lado da estrada. E l, para esse ermo, que as pessoas que se juntam no calor 
da identidade partilhada jogam (ou esperam banir) os medos que as levaram a procurar o abrigo comunitrio. Nas palavras de Jock Young, "o desejo de demonizar os 
outros se baseia nas incertezas ontolgicas" dos de dentro.5 Uma "comunidade includente" seria uma contradio em termos. A fraternidade comunitria seria incompleta, 
talvez impensvel, ainda que invejvel, sem essa inclinao fratricida inata. 
Nacionalismo, marco 2 
A comunidade do evangelho comunitrio  tnica, ou uma comunidade imaginada no padro de uma comunidade tnica. Essa escolha de arqutipo tem boas razes. 
Primeiro, a "etnicidade' ao contrrio de qualquer outro fundamento da unidade humana, tem a vantagem de "naturalizar a histria' de apresentar o cultural como um 
"fato da natureza' a liberdade como "necessidade compreendida (e aceita)' Fazer parte de uma etnia estimula  ao: devemos escolher a lealdade  nossa natureza 
- devemos tentar, com o maior esforo e sem descanso, viver  altura do modelo e assim contribuir para sua preservao, O prprio modelo, contudo, no  uma questo 
de escolha, que no se d entre diferentes referenciais de pertencimento, mas entre pertencimento e falta de razes, entre um lar e a falta de um lar, o ser e o 
nada. Esse  precisamente o dilema que o evangelho comunitrio quer (e precisa) tornar claro. 
Segundo, ao promover o princpio de que a unidade tnica supera todas as outras lealdades, o Estado-nao foi o nico "caso de sucesso" da comunidade nos tempos 
modernos, ou, melhor, a nica entidade que apostou no estatuto de comunidade com algum grau de convico e efeito. A idia da etnicidade (e da homogeneidade tnica) 
como base legtima da unidade e da auto-afirmao ganhou com isso uma fundamentao histrica. O comunitatismo contemporneo naturalmente espera capitalizar essa 
tradio; dada a oscilao atual da soberania do Estado e a necessi dad 
evidente de que algum carregue a bandeira que parece cair das mos desse Estado, a esperana no est de todo perdida. Mas  fcil observar que h limites para 
se traar paralelos entre as realizaes do Estado-nao e as ambies comunitrias. Afinal, o Estado-nao deveu seu sucesso  supresso de comunidades que se auto-afirmavam; 
lutou com unhas e dentes contra o "paroquialismo' os costumes ou "dialetos" locais, promovendo uma lngua unificada e uma memria histrica s expensas das tradies 
comunitrias; quanto mais determinada a KulturkmpJ' iniciada e supervisionada pelo Estado, maior o sucesso do Estado-nao na produo de uma "comunidade natural' 
Alm disso, os Estados- nao (diferentemente das comunidades hoje projetadas) no se lanaram  tarefa no escuro e nem pensariam em depender apenas da fora da 
doutrinao. Seu esforo tinha o poderoso apoio da imposio legal da lngua oficial, de currculos escolares e de um sistema legal unificado, que as comunidades 
projetadas no tm e nem esto perto de adquirir. 
Bem antes do recente crescimento do comunitarismo, havia argumentos de que existia uma pedra preciosa sob a carapaa feia e espinhenta da moderna construo da nao. 
lsaiah Berlin sugeriu que h aspectos humanos e elogiveis na moderna "terra natal' separados de seu lado cruel e potencialmente sangrento. A distino entre patriotismo 
e nacionalismo  bastante popular. Em geral, o patriotismo  o membro "positivo" da dupla, deixando o nacionalismo, com suas realidades desagradveis, como membro 
"negativo": o patriotismo, mais postulado que empiricamente verificado,  o que o nacionalismo (se amansado, civilizado e eticamente enobrecido) poderia ser mas 
no . O patriotismo  descrito pela negao dos traos mais rejeitados e vergonhosos do nacionalismo. Leszek Ko1akowski6 sugere que, enquanto o nacionalista quer 
afirmar a existncia tribal pela agresso e dio aos outros, acredita que todos os infortnios de sua prpria nao so resultado de conspiraes estrangeiras e 
se ressente contra todas as outras naes por no admirarem apropriadamente nem darem o merecido crdito  sua prpria tribo, o patriota destaca-se pela "benevolente 
tolerncia em relao  variedade cultural e especialmente s minorias tnicas e religiosas' assim como por sua disposio de dizer 
200 Modernidade Lquida 
Comunidade 201 
 sua prpria nao coisas que a desagradam e que ela no gostaria de ouvir. Ainda que a distino seja boa, e moral e intelectualmente louvvel, seu valor  um 
tanto enfraquecido pelo fato de que ela no ope duas opes passveis de adeso, mas sim uma idia nobre e uma realidade ignbil. A maioria das pessoas que gostariam 
que seus entes queridos fossem patriotas com toda probabilidade denunciariam as caractersticas atribudas  posio patritica como evidncia de hipocrisia, traio 
 ptria ou pior. Tais caractersticas - tolerncia da diferena, hospitalidade para com as minorias e coragem de dizer a verdade, ainda que desagradvel 
- so mais encontrveis em terras onde o "patriotismo" no  um "problema"; em sociedades suficientemente seguras de sua cidadania republicana para no se preocuparem 
com o patriotismo enquanto problema, e menos ainda em v-lo como tarefa urgente. 
Bernard Yack, organizador de Liberalism wiilzoutlllusions(University of Chicago Press, 1996), no estava errado quando, em sua polmica contra Maurizio Virou, autor 
de Love of Country: An Lssay on Patriotism and Nationalism (Oxford University Press, 1995), parafraseou Hobbes, cunhando um aforismo, "o nacionalismo  o patriotismo 
indesejado e o patriotismo, o nacionalismo desejado'' 7 De fato, h razes para concluir que h pouco que distinga nacionalismo de patriotismo, alm de nosso entusiasmo 
por suas manifestaes ou a ausncia delas ou o grau de vergonha ou conscincia de culpa com que os admitamos ou neguemos. E nomelos que faz a diferena, e a diferena 
 principalmente retrica, e distingue no a substncia dos fenmenos mencionados, mas o modo como falamos sobre sentimentos ou paixes que so essencialmente similares. 
Contudo so a natureza dos sentimentos e paixes e suas conseqncias comportamentais e polticas que contam e afetam a qualidade do convvio humano, e no as palavras 
que usamos para descrev-las. Olhando para os feitos narrados nas histrias patriticas, Yack conclui que, sempre que sentimentos patriticos sublimes "se elevaram 
ao nvel da paixo compartilhada' "os patriotas mostraram uma paixo feroz, nunca gentil' e que os patriotas podem ter demonstrado ao longo dos sculos "muitas virtudes 
teis e memorveis, mas a gentileza e a simpatia para com estranhos nunca foram preeminentes entre elas' 
No h como negar, contudo, que a diferena na retrica  significante, nem suas ocasionais e pungentes reverberaes pragmticas. Uma retrica  feita  imagem 
do discurso do "ser' a outra, do "tornar-se': O "patriotismo" como um todo  tributrio do credo moderno do "inacabado' da maleabilidade (mais precisamente, da "reformabilidade") 
dos homens: pode, portanto, declarar em s conscincia (mantendo ou no a promessa na prtica) que o chamado a "cerrar fileiras"  um convite feito e aberto: que 
"cerrar fileiras"  uma escolha e que tudo o que se pede  que seja feita a escoLha certa e que se permanea fiel a ela, para o bem ou para o mal, por todo o sempre. 
O "nacionalisrno' por outro lado,  mais corno a verso calvinista da salvao ou a idia de Santo Agostinho do livre arbtrio: deposita pouca f na escolha - voc 
 "um de ns" ou no , e em qualquer caso h pouco, talvez nada, que voc possa fazer para mud-lo. Na narrativa nacionalista, "pertencer"  um destino, no o produto 
de uma escolha ou de um projeto de vida. Pode ser uma questo de hereditariedade biolgica, corno a hoje fora de moda e abandonada verso racista do nacionalismo, 
ou de hereditariedade cultural, corno na variante "culturalista' hoje em voga - mas em qualquer dos casos a questo foi decidida bem antes que essa ou outra pessoa 
comeasse a andar e falar, de modo que a nica escolha disponvel ao indivduo  entre abraar o veredicto do destino com as duas mos e de boa f, ou rebelar-se 
contra ele e assim tornar-se um traidor da sua vocao. 
Essa diferena entre patriotismo e nacionalismo tende a ultrapassar a mera retrica e entrar no domnio da prtica poltica. Seguindo a terminologia de Claude Lvi-Strauss, 
podemos dizer que a primeira frmula  mais capaz de inspirar estratgias "antropofgicas" ("devorar" os estrangeiros, de modo que sejam assimilados pelo corpo de 
quem devora e se tornem idnticos s outras clulas deste, perdendo sua prpria distintividade), enquanto que a segunda se associa mais  estratgia "antropomica' 
de "vomitar" e "cuspir" aqueles que no so "aptos a ser n.?' seja isolandoos por encarceramento dentro dos muros visveis dos guetos ou nos invisveis (ainda que 
no menos tangveis por essa razo) muros das proibies culturais, seja cercando-os, deportando-os 
202 Modernidade Lquida 
Comunidade 203 
ou forando-os a fugir, como na prtica que recebe o nome de limpeza tnica. Seria prudente, no entanto, lembrar que a lgica do pensamento raramente se impe  
lgica dos atos, e no h uma relao biunvoca entre a retrica e a prtica, e assim cada uma das estratgias pode estar envolvida em qualquer dessas retricas. 
Unidade - pela semelhana ou pela diferena? 
O "ns" do credo patritico/nacionalista significa pessoas como ns-, "eles" significa pessoas que so d3ferentes de ns. No que "ns" sejamos idnticos em tudo; 
h diferenas entre "ns' ao lado das caractersticas comuns, mas as semelhanas diminuem, tornam difuso e neutralizam seu impacto. O aspecto em que somos semelhantes 
 decididamente mais significativo que o que nos separa; significativo bastante para superar o impacto das diferenas quando se trata de tomar posio. E no que 
"eles" sejam diferentes de ns em tudo; mas eles diferem em um aspecto que  mais importante que todos os outros, importante o bastante para impedir uma posio 
comum e tornar improvvel a solidariedade genuna, independente das semelhanas que existam. E uma situao tipicamente ou/ou: as fronteiras que "nos" separam "deles" 
esto claramente traadas e so fceis de vei urna vez que o certificado de "pertencer" s tem uma rubrica, e o formulrio que aqueles que requerem uma carteira 
de identidade devem preencher contm uma s pergunta, que deve ser respondida "sim ou no' 
Note-se que a questo de qual das diferenas  "crucial" - isto , qual delas  o tipo de diferena que importa mais que qualquer semelhana e faz todas as caractersticas 
comuns parecerem pequenas e insignificantes (a diferena que torna a diviso que gera hostilidade um caso encerrado antes mesmo do comeo da reunio em que a eventualidade 
da unidade poderia ser discutida) -  menor e acima de tudo derivativa, e no constitui o ponto de partida do argumento. Corno explicou Frederick Barth, as fronteiras 
no reconhecem e registram um estranhamento j existente; elas so traadas, como regra, antes que o estranhamento seja 
produzido. Primeiro h um conflito, uma tentativa desesperada de separar "ns" e "eles"; ento os traos cuidadosamente espiados "neles" so tomados como prova e 
fonte de uma estranheza que no admite conciliao. Sendo os seres humanos como so, criaturas multifacetadas com muitos atributos, no  difcil encontrar tais 
traos quando a busca  feita a srio. 
O nacionalismo tranca as portas, arranca as aldravas e desliga as campainhas, declarando que apenas os que esto dentro tm direito de a estar e acomodar-se de 
vez. O patriotismo , pelo menos aparentemente, mais tolerante, hospitaleiro e acessvel - deixa a questo para os que pedem admisso. E no entanto o resultado ltimo 
, quase sempre, notavelmente semelhante. Nem o credo patritico nem o nacionalista admitem a possibilidade de que as pessoas possam se unir mantendo-se ligadas 
s suas diferenas, estimando-as e cultivando-as, ou que sua unidade, longe de requerer a semelhana ou promov-la como um valor a ser ambicionado e buscado, de 
fato se beneficia da variedade de estilos de vida, ideais e conhecimento, ao mesmo tempo em que acrescenta fora e substncia ao que as faz o que so - e isso significa 
ao que as faz diferentes. 
Bernard Crick cita da Poltica de Aristteles sua idia de uma "boa poliI articulada contra o sonho de Plato de uma verdade, um padro unificado de justia, que 
subjuga a todos: 
H um ponto em que uma polis. ao avanar na unidade, deixa de ser uma polis; mas de qualquer forma chega quase a perder sua essncia, e assim ser uma polis pior. 
E como se se transformasse a harmonia em mero unssono, ou se reduzisse um tema a uma nica batida. A verdade  que a polis  um agregado de muitos membros. 
Em seu comentrio, Crick avana na idia de um tipo de unidade que nem o patriotismo nem o nacionalismo esto dispostos a admitir e com freqncia rejeitaro ativamente: 
um tipo de unidade que supe que a sociedade civilizada  inerentemente pluralista, que viver em conjunto em tal sociedade significa negociao e conciliao de 
interesses "naturalmente diferentes" e que " normalmente melhor conciliar interesses diferentes que coagir e opri 
'1 
204 
Modernidade Lquida 
Comunidade 
205 
mir perpetuamente"8: em outras palavras, que o pluralismo da moderna sociedade civilizada no  simplesmente um "fato bruto" que pode no ser desejado ou mesmo detestado 
mas que nem por isso desaparece, mas uma coisa boa e uma circunstncia afortunada, pois oferece beneficios muito maiores que os desconfortos e inconvenincias que 
produz, amplia os horizontes da humanidade e multiplica as oportunidades de uma vida melhor que a que qualquer das alternativas pode oferecer. Podemos dizer que 
em rigorosa oposio tanto  f patritica quanto  nacionalista, o tipo mais promissor de unidade  a que  alcanada, e realcanada a cada dia, pelo confronto, 
debate, negociao e compromisso entre valores, preferncias e caminhos escolhidos para a vida e a auto- identificao de muitos e diferentes membros dapolii mas 
sempre autodeterminados. 
Esse , essencialmente, o modelo republicano de unidade, de uma unidade emergente que  uma realizao conjunta de agentes engajados na busca de auto-identificao; 
uma unidade que  um resultado, e no uma condio dada apriori, da vida compartilhada; uma unidade erguida pela negociao e reconciliao, e no pela negao, 
sufocao ou supresso das diferenas. 
Essa, quero propor,  a nica variante da unidade (a nica forma de estar juntos) compatvel com as condies da modernidade lquida, variante plausvel e realista. 
Uma vez que as crenas, valores e estilos foram "privatizados" - descontextualizados ou "desacomodados' com lugares de reacomodao que mais lembram quartos de motel 
que um lar prprio e permanente -, as identidades no podem deixar de parecer frgeis e temporrias, e despidas de todas as defesas exceto a habilidade e determinao 
dos agentes que se aferram a elas e as protegem da eroso. A volatilidade das identidades, por assim dizer, encara os habitantes da modernidade lquida. E assim 
tambm faz a escolha que se segue logicamente: aprender a dificil arte de viver com a diferena ou produzir condies tais que faam desnecessrio esse aprendizado. 
Como disse recentemente Ajam Touraine, o presente estado da sociedade assinala "o fim da definio do ser humano como um ser social, definido por seu lugar na sociedade, 
que determina seu comportamento ou ao': e assim a defesa, pelos atores sociais, de 
sua "especificidade cultural e psicolgica" s pode ser conduzida com "conscincia de que o princpio de sua combinao pode ser encontrado dentro do indivduo, 
e no mais em instituies sociais ou princpios universais'9 
As notcias da condio sobre as quais os tericos teorizam e os filsofos filosofam so diariamente marteladas pelas foras conjuntas das artes populares, quer 
apaream com seu nome de fico, quer disfaradas de "histrias verdadeiras" Como os que assistiram ao filme Elizabeth foram informados, mesmo ser a rainha da Inglaterra 
 uma questo de auto-afirmao e de autocriao; ser uma filha de Henrique VIII demanda muita iniciativa individual, apoiada em astcia e determinao. Para forar 
os briguentos e recalcitrantes cortesos a se ajoelharem e fazer reverncia e, mais que isso, a ouvir e obedecer, ela precisou comprar muita maquilagem para o rosto 
e mudar seu estilo de cabelo, enfeites e o restante da aparncia. No h afirmao que no seja auto-afirmao, nem identidade que no seja construda. 
Tudo se resume, com certeza,  fora do agente em questo. As armas de defesa no esto disponveis de maneira uniforme para todos, e  razovel que indivduos mais 
fracos e mal armados procurem a fora do nmero para compensar sua impotncia individual. Dada a variada amplitude do hiato universalmente experimentado entre a 
condio do "indivduo de jure" e a possibilidade de obter o status de "indivduo de facto': o mesmo ambiente moderno fluido pode favorecer uma diversidade de estratgias 
de sobrevivncia. O "ns' como insiste Richard Sennett, " hoje um ato de autoproteo. O desejo de comunidade  defensivo ... Certamente  quase urna lei universal 
que o "ns" pode ser usado como defesa contra a confuso e o deslocamento" Mas - e este  um "mas" crucial - quando o desejo de comunidade "se expressa como rejeio 
dos imigrantes e outros estranhos",  porque 
a poltica atual baseada no desejo de refgio tem por alvo os fracos, que viajam nos circuitos do mercado global de trabalho, e no os fortes, as instituies que 
mobilizam os trabalhadores pobres ou fazem uso de sua privao relativa. Os programadores da IBM ... Num modo importante, conseguiram transcender esse sentido defensivo 
1 
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Modernidade lquida 
Comunidade 
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da comunidade quando deixaram de culpar seus colegas indianos e 
seu presidente judeu.1 
"Num modo importante' talvez - mas s em um, no necessariamente o mais significativo. O impulso de retirar-se da complexidade eivada de riscos para o abrigo da 
uniformidade  universal; o que difere so os modos de agir a partir desse impulso, e esses modos tendem a diferir em proporo direta aos meios e recursos de que 
os atores dispem. Os mais bem aquinhoados, como os programadores da IBM, confortveis em seu enclave ciberespacial mas muito menos imunes aos azares do destino 
no setor fisico do mundo social, mais dificil de "virtualizar' podem arcar com os custos de fossos e pontes levadias hi'h-tech para manter o perigo  distncia. 
Guy Nafilyah, dirigente de uma companhia imobiliria lder na Frana, observou que "os franceses esto inquietos, tm medo dos vizinhos, com exceo dos que se parecem 
com eles' Jacques Patigny, presidente da Associao Nacional dos Locadores de Imveis, concorda, e v o futuro no "fechamento perifrico e filtro seletivo" das reas 
residenciais com o uso de cartes magnticos e guardas. O futuro pertence a "arquiplagos de ilhas situadas ao longo dos eixos de comunicao' As reas residenciais 
verdadeiramente extraterritoriais, isoladas e cercadas, equipadas com intricados sistemas de intercomunicao, ubquas cmeras de vdeo para vigilncia e guardas 
fortemente armados em rondas 24 horas por dia se espalham ao redor de Toulouse, como fizeram h algum tempo nos EUA e como fazem em ni'imeros crescentes em toda 
a parte prspera do mundo que se globaliza rapidamente.11 Os enclaves fortemente guardados tm uma 
lhana notvel com os guetos tnicos dos pobres. Diferem, entretanto, num aspecto importante: foram livremente escolhidos como um privilgio pelo qual deve-se pagar 
um alto preo. E os segurarias que guardam o acesso foram empregados e portam suas armas legalmente. 
Richard Sennett faz uma interpretao sociopsicolgica da tendncia: 
A imagem da comunidade  purificada de tudo o que pode trazer 
uma sensao de diferena, que dir conflito, a quem somos "ns' 
Desse modo, o mito da solidariedade comunitria  um ritual de purificao ... O que distingue esse compartilhamento mtico nas comunidades  que as pessoas sentem 
que pertencem umas s outras, e ficam juntas, porque so a.i mesmas ... O sentimento de "ns' que expressa o desejo de semelhana,  um modo de evitar olhar mais 
profundamente nos olhos dos outros.12 
Como muitas outras iniciativas dos poderes pblicos, o sonho de pureza foi, na era da modernidade lquida, desregulamentado e privatizado; agir sobre esse sonho 
foi deixado para a iniciativa privada - local, de grupos. A proteo da segurana pessoal  agora uma questo de cada um, e as autoridades e a polcia local esto 
 mo para ajudar com conselhos, enquanto as imobilirias assumem de bom grado o problema daqueles que so capazes de pagar por seus servios. Medidas tomadas pessoalmente 
- isoladamente ou em conjunto - precisam estar ao nvel da urgncia que levou  sua busca. De acordo com as regras comuns do raciocnio mtico, o metonmico  reformulado 
em metafrico: o desejo de repelir e empurrar os perigos ostensivos prximos ao corpo ameaado se transforma na necessidade de tornar o "fora" semelhante, "parecido" 
ou idntico ao "dentro' refazer o "l fora"  semelhana do 'aqui dentro"; o sonho da "comunidade de seme lhana" , essencialmente, uma projeo de l'arnour de 
soi. 
E tambm uma tentativa frentica de evitar a confrontao com questes constrangedoras sem resposta: se o eu, amedrontado e carente de autoconfiana, merece amor 
em primeiro lugar, e se merece portanto servir como modelo para a renovao do hbitat e como padro para avaliar e medir a identidade aceitvel. Numa "comunidade 
de semelhana" tais questes, esperamos, no sero colocadas, e assim a credibilidade da segurana obtida pela purificao nunca ser posta  prova. 
Em outro lugar (Em busca da poltica, Jorge Zahar, 2000), discuti a "no-santssima trindade" de incerteza, insegurana e falta de garantias, cada uma gerando ansiedade 
ainda mais aguda e penosa pela dvida quanto  sua provenincia; qualquer que seja sua origem, a presso acumulada busca desesperadamente uma sada, e com o acesso 
s fontes da incerteza e da insegurana 
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bloqueado ou fora de alcance, toda a presso se desloca, para cair afinal sobre a finssima e instvel vlvula de segurana corporal, domstica e ambiental. Como 
resultado, o "problema da segurana" tende a ser cronicamente sobrecarregado de cuidados e anseios que no pode levar nem descarregar. Essa aliana resulta na sede 
perptua por mais segurana, uma sede que nenhuma medida prtica pode saciar, pois seu destino  deixar intactas as fontes primrias e proluficas da incerteza e 
da falta de garantias, as principais provedoras da ansiedade. 
Segurana a um certo preo 
Lendo os escritos dos renascidos apstolos do culto comunitrio, Phil Coben conclui que as comunidades que eles elogiam e recomendam como cura para os problemas 
da vida de seus contempor neos se assemelham mais a orfanatos, prises ou manicmios que a lugares de liberao potencial. Coben est certo; mas o potencial de liberao 
nunca foi a questo dos comunitrios; os problemas que se esperava que as futuras comunidades sanassem eram sedimentos dos excessos de liberao, de um potencial 
de liberao grande demais para ser confortvel. Na longa e inconclusiva busca de equilbrio entre liberdade e segurana, o comunitarismo ficou firme ao lado da 
ltima. Tambm aceitou que os dois valores humanos ambicionados esto em oposio, e que no se pode querer mais de um sem renunciar a um tanto, talvez grande parte, 
do outro. Uma possibilidade que os comunitrios no admitem  que a ampliao e o enraizamento da liberdade humana podem aumentar a segurana, que a liberdade e 
a segurana podem crescer juntas, e menos ainda que cada uma s pode crescer em conjunto com a outra. 
A imagem da comunidade  a de uma ilha de tranqilidade caseira e agradvel num mar de turbulncia e hostilidade. Ela tenta e seduz, levando os admiradores a impedir-se 
de examin-la muito de perto, pois a eventualidade de comandar as ondas e domar os mares j foi retirada da agenda como uma proposio tanto suspeita quanto irrealista. 
Ser o nico abrigo d a essa viso 
da comunidade um valor adicional, e esse valor continua a crescer  medida que a bolsa onde se negociam outros valores da vida se torna cada vez mais caprichosa 
e imprevisvel. 
Como investimento seguro (ou melhor, investimento menos notoriamente arriscado que outros), o valor do abrigo comunitrio no tem competidores srios,  exceo, 
talvez, do corpo do investidor - agora, em contraste com o passado, o elemento da Lebenswelt com uma expectativa de vida ostensivamente mais longa (de fato incomparavelmente 
mais longa) que o de qualquer de seus adereos ou embalagens. Como antes, o corpo continua mortal e portanto transitrio, mas sua brevidade parece uma eternidade 
quando comparada  volatilidade e efemeridade de todos os quadros de referncia, pontos de orientao, classificao e avaliao que a modernidade lquida pe e 
tira das vitrines e prateleiras. A famlia, os colegas de trabalho, a classe e os vizinhos so fluidos demais para que imaginemos sua permanncia e os creditemos 
com a capacidade de quadros de referncia confiveis. A esperana de que "nos encontraremos outra vez amanh' crena que costumava oferecer todas as razes necessrias 
para pensar  frente, agir a longo prazo e tecer os passos, um a um, numa trajetria cuidadosamente desenhada da vida transitria e incuravelmente mortal, perdeu 
muito de sua credibilidade; a probabilidade de que o que encontraremos amanh ser nosso prprio corpo imerso em famlia, classe, vizinhana e companhia de outros 
colegas de trabalho inteiramente diferentes ou radicalmente mudados  muito mais criveI e, portanto, uma aposta mais segura. 
Num ensaio que se l hoje como urna carta  posteridade enviada da terra da modernidade slida, Emile Durkheim sugeria que apenas "aes que tm uma qualidade duradoura 
so dignas de nossa volio, apenas prazeres duradouros so dignos de nossos desejos' Essa era, de fato, a lio que a modernidade slida incutia na mente de seus 
habitantes, com bons resultados, mas ela soa estranha e vazia aos ouvidos contemporneos - ainda que talvez menos bizarra que o conselho prtico que Durkheim derivava 
dessa lio. Tendo formulado o que lhe parecia uma questo meramente retrica, "qual o valor de nossos prazeres individuais, to curtos e vazios?' apressa-se a acalmar 
seus leitores, indicando 
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que, afortunadamente, no estamos condenados  caa de tais prazeres - "porque as sociedades tm vida infinitamente mais longa que os indivduos': "elas nos permitem 
saborear satisfaes que no so simplesmente efineras' A sociedade, na viso de Durkheim (perfeitamente aceitvel em seu tempo)  aquele corpo "em cuja proteo 
abrigar-se do horror de nossa prpria transitoriedade' '3 
O corpo e suas satisfaes no se tornaram menos efmeros desde o tempo em que Durkheim louvou as instituies sociais duradouras. O empecilho, no entanto,  que 
tudo o mais - e principalmente aquelas instituies sociais - se tornou ainda mais efmero que o "corpo e suas satisfaes' A durao da vida  uma noo comparativa, 
e o corpo mortal  agora talvez a mais longeva entidade  vista (de fato, a nica entidade cuja expectativa de vida tende a crescer ao longo do tempo). O corpo, 
pode-se dizer, se tornou o nico abrigo e santurio da continuidade e da durao; o que quer que possa significar o "longo prazo': dificilmente exceder os limites 
impostos pela mortalidade corporal. Esta se torna a ltima linha de trincheiras da segurana, expostas ao bombardeio constante do inimigo, ou o ltimo osis entre 
as areias assoladas pelo vento. Donde a preocupao furiosa, obsessiva, febril e excessiva com a defesa do corpo. A demarcao entre o corpo e o mundo exterior est 
entre as fronteiras contemporneas mais vigilautemente policiadas. Os orificios do corpo (os pontos de entrada) e as superficies do corpo (os lugares de contato) 
so agora os principais focos do terror e da ansiedade gerados pela conscincia da mortalidade. Eles no dividem mais a carga com outros focos (exceto, talvez, a 
"comunidade"). 
A nova primazia do corpo se reflete na tendncia a formar a imagem da comunidade (a comunidade dos sonhos de certeza com segurana, a comunidade corno viveiro da 
segurana) no padro do corpo idealm ente protegido: a visualiz-la como uma entidade internamente homognea e harmoniosa, inteiramente limpa de toda substncia 
estranha, com todos os pontos de entrada cuidadosamente vigiados, controlados e protegidos, mas fortemente armada e envolta por armadura impenetrvel. As fronteiras 
da comunidade postulada, como os limites exteriores do corpo, 
so para separar o domnio da confiana e do cuidado amoroso da selva do risco, da suspeio e da perptua vigilncia. O corpo e tambm a comunidade postulada so 
aveludados por dentro e speros e espinhosos por fora. 
Corpo e comunidade so os ltimos postos de defesa no campo de batalha cada vez mais deserto em que a guerra pela certeza, pela segurana e pelas garantias  travada, 
diariamente e sem trguas. Corpo e comunidade devem de agora em diante realizar as tarefas no passado divididas entre muitos basties e barricadas. O que depende 
deles agora  mais do que podem suportar, de tal forma que provavelmente aprofundaro, em vez de aliviar, os te- mores que levaram aqueles que andavam  procura 
de segurana a voltar-se para eles em busca de proteo. 
A nova solido de corpo e comunidade  o resultado de um amplo conjunto de mudanas importantes subsumidas na rubrica modernidade liquida. Uma mudana no conjunto 
, contudo, de particular importncia: a renncia, adiamento ou abandono, pelo Estado, de todas as suas principais responsabilidades em seu papel como maior provedor 
(talvez mesmo monopolstico) de certeza, segurana e garantias, seguido de sua recusa em endossar as aspiraes de certeza, segurana e garantia de seus cidados. 
Depois do Estado-nao 
Nos tempos modernos, a nao era a "outra face" do Estado e a arma principal em sua luta pela soberania sobre o territrio e sua populao. Boa parte da credibilidade 
da nao e de seu atrativo como garantia de segurana e de durabilidade deriva de sua associao ntima com o Estado e - atravs dele - com as aes que buscam construir 
a certeza e a segurana dos cidados sobre um fundamento durvel e confivel, porque coletivamente assegurado. Sob as novas condies, a nao tem pouco a ganhar 
com sua proximidade do Estado. O Estado pode no esperar muito do potencial mobilizador da nao de que ele precisa cada vez menos,  medida que os n-iassivos exrcitos 
de conscritos, reunidos pelo frenesi patritico febrilmente estimulado, so substitudos pelas 
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unidades hzg/z-tec/z elitistas, secas e profissionais, enquanto a riqueza do pas  medida, no tanto pela qualidade, quantidade e moral de sua fora de trabalho, 
quanto pela atrao que o pas exerce sobre as foras friamente mercenrias do capital global. 
Em um Estado que no  mais a ponte segura alm do confinamento da mortalidade individual, um chamado ao sacrifcio do bem-estar individual, para no falar da vida 
individual, em nome da preservao ou da glria imorredoura do Estado soa vazio e cada vez mais bizarro, se no engraado. O romance secular da nao com o Estado 
est chegando ao fim; no exatamente um divrcio, mas um arranjo de "viver juntos" est substituindo a consagrada unio conjugal fundada na lealdade incondicional. 
Os parceiros esto agora livres para procurar e entrar em outras alianas; sua parceria no  mais o padro obrigatrio de uma conduta prpria e aceitvel. Podemos 
dizer que a nao, que costumava ser o substituto da comunidade ausente na era da Gesellschaf4 se volta em direo da Gemeinschaft deixada para trs em busca de 
um padro a emular e que lhe sirva de modelo. O andaime institucional capaz de manter a nao unida  pensvel cada vez mais como um trabalho do tipo faa-voc-mesmo. 
So os sonhos de certeza e segurana, e no suas disposies factuais e rotinizadas, que devem levar os indivduos rfos a abrigar-se sob as asas da nao, enquanto 
buscam a segurana teimosamente fugidia. 
Parece haver pouca esperana de resgatar os servios de certeza, segurana e garantias do Estado. A liberdade da poltica do Estado  incansavelmente erodida pelos 
novos poderes globais providos das terrveis armas da extraterritorialidade, velocidade de movimento e capacidade de evaso e fuga; a retribuio pela violao do 
novo estatuto global  rpida e impiedosa. De fato, a recusa a participar do jogo nas novas regras globais  o crime a ser mais impiedosamente punido, crime que 
o poder do Estado, preso ao solo por sua prpria soberania territorialmente definida, deve impedir-se de cometer e evitar a qualquer custo. 
Muitas vezes a punio  econmica. Governos insubordinados, culpados de polticas protecionistas ou provises pblicas generosas para os setores "economicamente 
dispensveis" de suas populaes e de no deixar o pas  merc dos "mercados finan ceiro 
globais" e do "livre comrcio global' tm seus emprstimos recusados e negada a reduo de suas dvidas; as moedas locais so transformadas em leprosas globais, 
pressionadas  desvalorizao e sofrem ataques especulativos; as aes locais caem nas bolsas globais; o pas  isolado por sanes econmicas e passa a ser tratado 
por parceiros comerciais passados e futuros como um pria global; os investidores globais cortam suas perdas antecipadas, embalam seus pertences e retiram seus ativos, 
deixando que as autoridades locais limpem os resduos e resgatem as vtimas. 
Ocasionalmente, no entanto, a punio no se confina a "medidas econmicas" Governos particularmente obstinados (mas no fortes o bastante para resistir por muito 
tempo) recebem uma lio exemplar que tem por objetivo advertir e atemorizar seus imitadores potenciais. Se a demonstrao diria e rotineira da superioridade das 
foras globais no for suficiente para forar o Estado a ver a razo e cooperar com a nova "ordem mundial' a fora militar  exercida: a superioridade da velocidade 
sobre a lentido, da capacidade de escapar sobre a necessidade de engajar-se no combate, da extraterritorialidade sobre a localidade, tudo isso se manifesta espetacularmente 
com a ajuda, desta vez, de foras armadas especializadas em tticas de atacar e correr e a estrita separao entre "vidas a serem salvas" e vidas que no merecem 
socorro. 
Uma questo a ser discutida  se o modo como se conduziu a guerra contra a Iugoslvia foi, em termos ticos, correto e apropriado. Essa guerra fez sentido, porm, 
como "promoo da ordem econmica global por outros meios que no os polticos" A estratgia escolhida pelos atacantes funcionou bem como exibio espetacular da 
nova hierarquia global e das novas regras do jogo que a sustentam. Se no fosse por suas milhares de "baixas" muito reais e por um pas arruinado e privado da sobrevivncia 
e da capacidade de auto-regenerao por muitos anos ainda, seramos tentados a descrev-la como uma "guerra simblica" suigeneris; a guerra em si, suas estratgias 
e tticas, foi um smbolo (consciente ou subconscientemente) da emergente relao de poder. O meio foi de fato a mensagem. 
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Comunidade 215 
Como professor de sociologia, repeti a meus alunos, ano aps ano, a verso padronizada da "histria da civilizao" com a marca da ascenso gradual mas incessante 
da sedentariedade e da vitria, por fim, dos sedentrios sobre os nmades; no havia dvida de que os derrotados nmades eram, essencialmente, a fora regressiva 
e anticivilizacional. Jim MacLoughlin recentemente desvendou o significado dessa vitria, esboando uma breve histria do tratamento dispensado aos "nmades" pelas 
populaes sedentrias dentro da rbita da civilizao moderna.'4 O nomadismo, observa, era visto e tratado como "caracterstica de sociedades 'brbaras' e subdesenvolvidas' 
Os nmades eram definidos como primitivos, e, de Hugo Grotius em diante, traava-se um paralelo entre "primitivo" e "natural" (isto , inculto, cru, pr-cultural 
e incivilizado): "O desenvolvimento das leis, o progresso cultural e o avano da civilizao estavam intimamente ligados  evoluo e ao aperfeioamento das relaes 
homem-terra ao longo do tempo e do espao:" Para resumir: o progresso era identificado com o abandono do nomadismo em favor de um modo de vida sedentrio. Tudo isso 
aconteceu no tempo da modernidade pesada, quando a dominao implicava envolvimento direto e estreito e significava conquista, anexao e colonizao territorial. 
O fundador e principal terico do "difusionismo" (viso da histria outrora muito popular nas capitais dos imprios), Friedrich Ratzel, pregador dos "direitos do 
mais forte' que ele concebia como eticamente superior e inescapvel em vista da raridade do gnio civilizador e da existncia da imitao passiva, captou precisamente 
o esprito da poca quando escreveu, no limiar do sculo colonialista, que 
a luta pela existncia significa uma luta pelo espao ... Um povo superior, invadindo o territrio de seus vizinhos selvagens mais fracos, rouba-lhes a terra, encurrala-os 
em cantos pequenos demais para seu sustento e continua a usurpar mesmo suas minguadas posses, at que os mais fracos finalmente perdem os ltimos resduos de seu 
domnio, e so expulsos da terra ... A superioridade dessa expanso consiste principalmente em sua maior capacidade de apropriar, utilizar plenamente e povoar o 
territrio. 
Claramente, no mais. O jogo da dominao na era da modernidade lquida no  mais jogado entre o "maior" e o "menor' mas 
entre o mais rpido e o mais lento. Dominam os que so capazes de acelerar alm da velocidade de seus opositores. Quando a velocidade significa dominao, a "apropriao, 
utilizao e povoamento" do territrio se torna uma desvantagem - um risco e no um recurso. Assumir algo sob nossa prpria jurisdio e anexar a terra alheia implicam 
as tarefas caras, embaraosas e no-lucrativas de administrao e policiamento, responsabilidades e compromissos - e acima de tudo limitaes considerveis  nossa 
futura liberdade de movimento. 
Est longe de ser claro se outras guerras no estilo atacar e fugir sero empreendidas, em vista do fato de que a primeira tentativa terminou por imobilizar os vencedores 
- sobrecarregando-os com a atividade de ocupao da terra, envolvimentos locais e responsabilidades administrativas e gerenciais inadequadas s tcnicas de poder 
da modernidade lquida. O poderio da elite global reside em sua capacidade de escapar aos compromissos locais, e a globalizao se destina a evitar tais necessidades, 
a dividir tarefas e funes de modo a ocupar as autoridades locais, e somente elas, com o papel de guardies da lei e da ordem (local). 
Em verdade, disseminam-se sinais de um certo "arrependimento" no campo dos vencedores: a estratgia da "fora policial global" est uma vez mais submetida a intenso 
escrutnio crtico. Entre as funes que a elite global deixaria para os Estados-nao transformados em delegacias de polcia, crescente nmero de vozes incluiria 
os esforos para resolver conflitos sangrentos entre vizinhos; a soluo de tais conflitos, ouvimos, deveria ser "descongestionada" e "descentralizada' rebaixadas 
na hierarquia global, com ou sem ateno aos direitos humanos, e entregue "a quem de direito' aos senhores da guerra locais e s armas que possuem graas  generosidade 
ou "bem compreendido interesse econmico" das empresas globais e dos governos que querem promover a globalizao. Por exemplo, Edward N. Luttwak, seniorJiow do 
Centro Norte-Americano de Estudos Estratgicos e Internacionais e durante muitos anos termmetro confivel das mutveis disposies do Pentgono, apelou no nmero 
de julho-agosto de 1999 da revista Foreign 4/fairs (descrita pelo Guardian como "a mais influente em circulao") para que se "d uma chance  guerra' 
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As guerras, segundo Luttwak, no so de todo ms, pois levam  paz. A paz, porm, s vir "quando todos os beligerantes estiverem exaustos ou quando um vencer de 
maneira decisiva' A pior coisa (e a OTAN fez justamente isso)  det-las a meio caminho, antes que o tiroteio termine na exausto mtua ou na incapacitao de uma 
das partes em guerra. Nesses casos, os conflitos no so resolvidos, mas apenas temporariamente congelados, e os adversrios usam o tempo da trgua para rearmamento, 
reposicionamento e para repensar as tticas. Portanto, em seu prprio beneficio e no deles, nunca interfira "em guerras alheias' 
O apelo de Luttwak pode bem cair em ouvidos favorveis e gratos. Afinal, do modo como avana a "promoo da globalizao por outros meios' abster-se de intervir 
e permitir que a guerra atinja seu "fim natural" teria trazido os mesmos beneficios sem o incmodo do envolvimento direto em "guerras alheias' e especialmente em 
suas complicadas e pesadas conseqncias. Para aplacar a conscincia despertada pela imprudente deciso de fazer a guerra sob uma bandeira humanitria, Luttwak indica 
a bvia inadequao do envolvimento militar como meio para um fim: "Mesmo uma desinteressada interveno de larga escala pode deixar de alcanar seu objetivo humanitrio 
ostensivo. E preciso perguntar- se se os kosovares no estariam em melhor situao se a OTAN no tivesse intervindo" Teria sido provavelmente melhor para as foras 
da OTAN ter continuado com seus treinamentos dirios e deixado aos locais o que os locais tinham que fazer. 
O que causou o arrependimento e levou os vencedores a lamentarem a interferncia (oficialmente proclamada um sucesso) foi que eles no conseguiram escapar  mesmssima 
eventualidade que a campanha "atingir e fugir" pretendia evitar: a necessidade da invaso e da ocupao e administrao do territrio conquistado. Quando os pra-quedistas 
aterrissaram e se estabeleceram em Kosovo, os beligerantes foram impedidos de se matar entre si, mas a tarefa de mant-los  distncia segura trouxe as foras da 
OTAN "do cu para a terra" e as envolveu com a responsabilidade das sujas realidades em campo. Henry Kissinger, um sbrio e atento analista e o mestre da poltica 
entendida (de um modo meio antiquado) como a arte do possvel, advertiu contra outro tropeo que 
seria arcar com a responsabilidade pela recuperao das terras devastadas pelos ataques dos bombardeiros.'5 Esse plano, diz Kissinger, "arrisca tornar-se um compromisso 
aberto em direo a um envolvimento cada vez maior, colocando-nos no papel de gendarmes de uma regio de dios apaixonados e onde temos poucos interesses estratgicos' 
E o "envolvimento"  justamente o que as guerras destinadas a "promover a globalizao por outros meios" devem evitar! A administrao civil, acrescenta Kissinger, 
envolveria inevitavelmente conflitos, e caberia aos administradores, como tarefa custosa e eticamente dbia, resolv-los pela fora. 
At agora h poucos (se houver) sinais de que as foras de ocupao possam sair da tarefa de resolver o conflito em condies melhores que aqueles a quem bombardearam 
e substituram em nome de seu fracasso. Em claro contraste com o destino dos refugiados em cujo nome a campanha de bombardeios foi iniciada, as vidas cotidianas 
dos que retornaram raramente chegam s manchetes, mas as notcias que ocasionalmente chegam aos leitores e ouvintes so sinistras. "Uma onda de violncia e represlias 
continuadas contra srvios e a minoria roma em Kosovo ameaa solapar a precria estabilidade da provncia, deixando-a etnicamente limpa de srvios apenas um ms 
depois da tomada de controle pelas tropas da OTAN' relata Chris Bird de Pristina.16 As foras da OTAN em campo parecem perdidas e desvalidas diante dos furiosos 
dios tnicos, que pareciam to fceis de atribuir  malcia de apenas um celerado, e portanto to fceis de resolver, quando vistos das cmeras de TV instaladas 
a bordo dos bombardeiros supersnicoS. 
Jean Clair, e com ele outros observadores, espera que o resultado imediato da guerra nos Blcs seja uma profunda e duradoura desestabilizao de toda a rea, e 
a imploso, no a maturao, das jovens e vulnerveis (ou ainda nem nascidas) democracias como a macednia, albanesa, croata ou blgara.'7 (Daniel Vernet apresenta 
seu levantamento das opinies sobre a questo por cientistas polticos e sociais de classe alta da regio sob o ttulo "Os Blcs diante do risco de agonia sem fim''8) 
Mas Clair tambm se pergunta como ser preenchido o vazio aberto depois que as razes da viabilidade dos Estados-nao foram cortadas. As foras 
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globais de mercado, jubilosas com a perspectiva de no mais serem detidas ou obstrudas, provavelmente se instalaro no local, mas no vo querer (nem conseguir, 
se quiserem) representar as autoridades polticas ausentes ou enfraquecidas. Nem estaro necessariamente interessadas na ressurreio de um Estado-nao forte e 
confiante em pleno controle de seu territrio. 
"Outro Plano Marshal"  a resposta mais comum  perplexidade atual. No so s os generais que so conhecidos por estar sempre envolvidos na ltima guerra vitoriosa. 
Mas no  possvel pagar para sair de cada apuro, por maior que seja a soma posta de lado para isso. O problema dos Blcs  inteiramente diferente do da reconstruo 
da soberania e do sustento dos cidados dos Estados-nao depois da Segunda Guerra. O que enfrentamos nos Blcs depois da guerra do Kosovo no  apenas a tarefa 
da reconstruo material quase a partir do zero (o sustento dos iugoslavos est praticamente destrudo), mas tambm os agitados e inflamados chauviriismos intertnicos 
que saram da guerra reforados. A incluso dos Blcs na rede dos mercados globais no ser de muita serventia para amainar a intolerncia e o dio, dado que aumentar 
a insegurana que era (e continua sendo) a fonte principal dos sentimentos tribais em ebulio. H, por exemplo, um perigo real de que o enfraquecimento da capacidade 
de resistncia srvia possa servir como convite para que seus vizinhos se envolvam em nova rodada de hostilidades e limpezas tnicas. 
Dada a lamentvel folha-corrida dos polticos da OTAN em sua grosseira administrao das delicadas e complexas questes tpicas do "cinturo de populaes mistas" 
(como Hannah Arendt adequadamente chamou a regio) dos Blcs, pode-se temer nova srie de custosos desastres. No erraramos em muito tampouco em suspeitar da iminncia 
do momento em que os lderes europeus, tendo se assegurado de que nenhuma nova onda de refugiados em busca de asilo ameaa seu prspero eleitorado, percam o interesse 
intrnseco nas terras inadministrveis, como j fizeram tantas vezes antes - na Somlia, Sudo, Ruanda, Timor Leste e Afeganisto. Estaremos ento de volta ao comeo, 
depois de um desvio semeado de cadveres. Antonina Jelyazkova, diretora do Instituto Internacional de Estudos de Minorias, expressou bem a 
questo (citada por Vernet): "No se pode resolver o problema das minorias com bombas. As exploses deixam o diabo  solta dos dois lados"9 Tomando o lado das posies 
nacionalistas, as aes da OTAN fortaleceram os j frenticos nacionalismos da rea e prepararam o terreno para futuras repeties de atentados genocidas. Uma das 
mais terrveis conseqncias  que a mtua acomodao e a amigvel coexistncia de lnguas, culturas e religies da rea nunca foi to improvvel como agora. Quaisquer 
que sejam as intenes, os resultados contrariam o que um empreendimento verdadeiramente tico nos levaria a esperar. 
A concluso, ainda que preliminar, no  auspiciosa. As tentativas de mitigar a agresso tribal pelas novas "aes policiais globais" foram at aqui inconclusivas, 
e mais provavelmente contra- producentes. Os efeitos totais da incessante globalizao tm sido marcadamente desequilibrados: a ferida do reincio da guerra civil 
chegou antes do remdio necessrio para cur-la, que est, na melhor das hipteses, na fase de testes (mais provavelmente na de tentativa e erro). A globalizao 
parece ter mais sucesso em aumentar o vigor da inimizade e da luta intercomunal do que em promover a coexistncia pacfica das comunidades. 
Preencher o vazio 
Para as multinacionais (isto , empresas globais com interesses e compromissos locais dispersos e cambiantes), "o mundo ideal" " um mundo sem Estados, ou pelo menos 
com pequenos e no grandes Estados' observou Eric Hobsbawm. "A menos que tenha petrleo, quanto menor o Estado, mais fraco ele , e menos dinheiro  necessrio para 
se comprar um governo" 
O que temos hoje , com efeito, um sistema dual, o sistema oficial das "economias nacionais" dos Estados, e o real, mas no oficial, das unidades e instituies 
transnacionais ... Ao contrrio do Estado com seu territrio e poder, outros elementos da "nao" podem ser e so facilmente ultrapassados pela globalizao da economia. 
Etnicidade e lngua so dois exemplos bvios. Sem o poder e a fora coercitiva do Estado, sua relativa insignificncia  clara.20 
r 
1 
220 
Modernidade Lquida 
Comunidade 
221 
Como a globalizao da economia procede aos saltos, "comprar governos" , certamente, cada vez menos necessrio. A clara incapacidade dos governos de equilibrar 
as contas com os recursos que controlam (isto , os recursos que eles podem estar certos de que continuaro no domnio de sua jurisdio independente do modo que 
escolham para equilibrar as contas) seria suficiente para faz-los no s se renderem ao inevitvel, mas colaborarem ativamente e de bom grado com os "globais' 
Anthony Giddens utilizou a metfora apcrifa do 'iuggernaui' para captar o mecanismo da "modernizao" do mundo. A mesma metfora se adapta bem  globalizao da 
economia de hoje:  cada vez mais dificil separar os atores e seus objetos passivos, pois a maioria dos governos competem entre si para implorar, adular ou seduzir 
ojuggeiaut global a mudar de rumo e vir primeiro s terras que administram. Os poucos entre eles que so lentos, mopes ou orgulhosos demais para entrar na competio 
enfrentaro srios problemas por no terem o que dizer a seus eleitores que "votam com suas carteiras' ou ento sero prontamente condenados e relegados ao ostracismo 
pelo afinado coro da "opinio mundial' para serem depois varridos (ou ameaados de ser varridos) por bombas capazes de restaurar seu bom senso, trazendo-os (de volta) 
ao redil. 
Se o princpio da soberania dos Estados-nao est finalmente desacreditado e removido dos estatutos do direito internacional, se a capacidade de resistncia dos 
Estados est efetivamente quebrada a ponto de no precisar ser levada seriamente em conta nos clculos dos poderes globais, a substituio do "mundo das naes" 
pela ordem supranacional (um sistema poltico global de freios e contrapesos para limitar e regular as foras econmicas globais)  apenas um dos possveis cenrios 
- e, da perspectiva de hoje, no o mais provvel. A disseminao mundial do que Pierre Bourdieu chamou de "poltica da precarizao"  igualmente provvel, se no 
mais. Se o golpe na soberania do Estado se demonstrar fatal ou terminal, se o Estado perder seu monoplio da coero (que tanto Max Weber como Norbert Elias consideravam 
como sua caracterstica distintiva e, simultaneamente, o atributo sine qua non da racionalidade moderna ou ordem civilizada), no 
se segue necessariamente que o volume total de violncia, inclusive violncia com conseqncias potencialmente genocidas, dimifluir; ela pode ser apenas "desregulada' 
descendo do nvel do Estado para o da "comunidade" (neotribal). 
Na falta do quadro institucional de estruturas "arbreas" (para utilizar a metfora de Deleuze/Guattari), a socialidade pode perfeitamente retornar a suas manifestaes 
"explosivas' ramificando-se e fazendo brotar formaes de grau variado de durabilidade, mas invariavelmente instveis, calorosamente contestadas e destitudas de 
base em que se apoiar -  exceo das aes apaixonadas e frenticas de seus partidrios. A instabilidade endmica dos fundamentos precisar ser compensada. Uma 
cumplicidade ativa (voluntria ou forada) nos crimes, que s a existncia continuada de uma "comunidade explosiva" pode isentar efetivamente de punio,  a candidata 
mais provvel a ocupar a vaga. Comunidades explosivas precisam de violncia para nascer e para continuar vivendo. Precisam de inimigos que ameacem sua existncia 
e inimigos a serem coletivamente perseguidos, torturados e mutilados, a fim de fazer de cada membro da comunidade um cmplice do que, em caso de derrota, seria certamente 
declarado crime contra a humanidade e, portanto, objeto de punio. 
Numa srie de estudos provocativos (Des choses cache'es depuis lafondation riu monde, Le bouc missaire, La violence et le sacre), Ren Girard desenvolveu uma teoria 
ampla do papel da violncia no nascimento e persistncia da comunidade. Um impulso violento est sempre em ebulio sob a calma superficie da cooperao pacfica 
e amigvel; esse impulso precisa ser canalizado para fora dos limites da comunidade, onde a violncia  proibida. A violncia, que caso contrrio desmascararia o 
blefe da unidade comunal,  ento reciclada como arma de defesa comunal. Dessa forma reciclada ela  indispensvel; precisa ser reencenada sempre sob a forma de 
um sacrificio ritual, cuja vtima substituta  escolhida de acordo com regras que raramente so explicitadas, e so no entanto estritas. "H um denominador comum 
que determina a eficcia de todos os sacrificios" Esse denominador comum  
a violncia interna - todas as dissenses, rivalidades, cime e querelas dentro da comunidade, que os sacrifcios contribuem para su 
222 Modernidade Lquida 
Comunidade 223 
primir. O propsito do sacrifcio  restaurar a harmonia da comunidade, reforar o tecido social. 
O que une as diversas formas de sacrifcio ritual  seu propsito de manter viva a memria da unidade comuna! e de sua precariedade. Mas, para que desempenhe essa 
funo, a "vtima substituta", objeto sacrificado no altar da unidade comuna!, deve ser escolhida adequadamente - e as regras de seleo so exigentes e precisas. 
Para ser adequado ao sacrifcio, o objeto potencial "deve ter grande semelhana com as categorias humanas excludas das fileiras dos 'sacrificveis' (isto , os 
humanos considerados 'membros da comunidade'), ainda que mantenham um grau de diferena que impea qualquer possvel confuso' Os candidatos devem ser de fora, mas 
no distantes demais; semelhantes "a ns, membros cabais da comunidade", mas inequivocamente diferentes. O ato de sacrificar esses objetos se destina, afinal, a 
traar estritas e impassveis fronteiras entre o "dentro" e o "fora" da comunidade. No  preciso dizer que as categorias das quais as vtimas so regularmente selecionadas 
so 
seres que esto fora ou nas fronteiras da sociedade; prisioneiros de guerra, escravos ... indivduos de fora ou marginais, incapazes de estabelecer ou compartilhar 
os laos sociais que unem o resto dos habitantes. Seu status como estrangeiros ou inimigos, sua condio servil, ou simplesmente sua idade, impede essas futuras 
vtimas de se integrarem  comunidade. 
A falta de laos sociais com os membros "legtimos" da comunidade (ou a proibio de estabelecer tais laos) tem uma vantagem adicional: as vtimas "podem ser expostas 
 violncia sem risco de vingana";21 pode-se puni-los com impunidade - ou pelo menos pode-se esperar por isso, manifestando, porm, a expectativa oposta, pintando 
a capacidade assassina das vtimas nas cores mais vivas e lembrando que a comunidade deve cerrar fileiras e manter seu vigor e vigilncia no mximo. 
A teoria de Girard parece fazer sentido da violncia que  profusa e exaltada nas esgaradas fronteiras das comunidades, especialmente comunidades cujas identidades 
so incertas ou 
contestadas, ou, mais precisamente, do uso comum da violncia como instrumento para desenhar fronteiras quando estas esto ausentes, ou so porosas ou apagadas. 
Trs comentrios parecem, porm, necessrios. 
Primeiro: se o sacrifcio regular de "vtimas substitutas"  uma cerimnia de renovao do "contrato social" no-escrito, ele pode desempenhar esse papel graas 
a seu outro aspecto - o da lembrana coletiva de um "ato de criao" histrico ou mtico, do pacto original a partir de um campo de batalha mergulhado em sangue 
inimigo. Se no houve tal evento, ele precisa ser retrospectivamente construdo pela assdua repetio do ritual de sacrifcio. Genuno ou inventado, porm, ele 
cria um padro para todas as candidatas ao status de comunidade - as futuras comunidades que ainda no esto em posio de substituir a "coisa real" pelo ritual 
benigno e o assassinato de vtimas reais pela morte de vtimas substitutas. Por mais sublimada que seja a forma do sacrifcio ritual que transforma a vida comuna! 
numa reencenao contnua do milagre do "dia da independncia", as lies pragmticas tiradas por todas as que aspiram ao status de comunidade induzem a faanhas 
de pouca sutileza ou elegncia litrgica. 
Segundo: a idia de uma comunidade cometendo o "assassinato original" a fim de tornar sua existncia segura e garantida e cerrar fileiras  incongruente nos prprios 
termos de Girard; antes que o assassnio original fosse cometido dificilmente haveria fileiras a serem cerradas e uma existncia comuna! para ser assegurada. (O 
prprio Girard deixa isso implcito, quando explica em seu captulo 10 o simbolismo ubquo do corte na liturgia do sacrifcio: 
"O nascimento da comunidade  antes e acima de tudo um ato de separao') A viso da exportao calculada da violncia interna para alm das fronteiras da comunidade 
(a comunidade assassinando estranhos a fim de manter a paz entre seus membros)  mais um caso do expediente tentador mas equivocado de tomar a funo (genuna ou 
imputada) por explicao causal. E antes o prprio assassinato original que traz a comunidade  vida, colocando a demanda de solidariedade e a necessidade de cerrar 
fileiras. E a legitimidade das vtimas originais que clama pela solida 
224 Modernidade Lquida 
Comunidade 225 
riedade comunal e que tende a ser confirmada ano aps ano nos rituais de sacrifcio. 
Terceiro: a afirmao de Girard de que o "sacrifcio  principalmente um ato de violncia sem risco de vingana" (p.l3) precisa ser complementada pela observao 
de que, para tornar o sacrifcio eficaz, a ausncia de risco deve ser cuidadosamente ocultada ou, melhor ainda, enfaticamente negada. Do assassnio original o inimigo 
deve ter emergido no inteiramente morto, mas morto-vivo, um zumbi pronto a levantar-se da tumba a qualquer momento. Um inimigo realmente morto, ou um inimigo morto 
incapaz de ressuscitar, no inspirar temor suficiente para justificar a necessidade de unidade - e os rituais de sacrifcio so regular- mente realizados para lembrar 
a todos que os rumores do desaparecimento final do inimigo so propaganda do prprio inimigo e, portanto, a prova oblqua, mas vvida, de que o inimigo est vivo. 
Numa formidvel srie de estudos sobre o genocdio na Bsnia, Ame Johan Vetlesen diz que, na falta de fundamentos institucionais confiveis (esperaramos que durveis 
e seguros), um espectador no-envolvido, morno ou indiferente se torna o mais odiado e o melhor dos inimigos: "Do ponto de vista de um agente do genocdio, esses 
estranhos so pessoas que tm um potencial 
para deter o genocdio em curso:"22 Independente de que os espectadores efetivem ou no esse potencial, sua presena enquanto "espectadores" (pessoas que no fazem 
nada para destruir o inimigo)  um desafio  nica proposio de que a comunidade deriva sua raison d'tre de que  uma situao "ou ns, ou eles'; que a destruio 
"deles"  indispensvel para "nossa" sobrevivncia e mat-"los"  a conditio sine qua non da "nossa" sobrevivncia. Como a participao na comunidade no est predeterminada 
ou institucionalmente assegurada, o "batismo do sangue (derramado)" - uma participao pessoal no crime coletivo -  a nica maneira de aderir e a nica legitimao 
da participao contnua. Por oposio ao genocdio praticado pelo Estado (e, principalmente, por oposio ao Holocausto), o tipo de genocdio que  o ritual de 
nascimento das comunidades explosivas no pode ser confiado aos especialistas ou delegado a departamentos ou unidades espe ciais 
No  tanto uma questo de quantos "inimigos" so mortos;  mais importante quantos so os assassinos. 
Tambm  importante que os assassinatos sejam cometidos abertamente,  luz do dia e  vista de todos, que existam testemunhas do crime que conheam os assassinos 
pelo nome - de modo que a evaso e a impunidade deixem de ser uma opo vivel e a comunidade nascida do crime inicitico permanea como nico refgio para os assassinos. 
A limpeza tnica, como Ame Johan Vetlesen descobriu em seu estudo da Bsnia, 
fixa e mantm as condies de proximidade entre criminoso e vtima e at cria essas condies se elas no existirem, e as estende, como questo de princpio, se 
correm o risco de desaparecer. Nessa violncia superpersonalizada. famlias inteiras foram foradas a ser testemunhas de tortura, estupro e assassinato 2.3 
Outra vez por contraste com o genocdio ao estilo antigo, e acima de tudo ao Holocausto como "tipo ideal'; as testemunhas so ingredientes indispensveis na mistura 
de fatores que do vida a uma comunidade explosiva. Uma comunidade explosiva pode contar razoavelmente (ainda que s vezes enganosamente) com longa vida apenas enquanto 
o crime original for lembrado e, assim, seus membros, cientes de que as provas do crime que cometeram so abundantes, permanecem unidos e solidrios - cimentados 
pelo interesse conjunto de cerrar fileiras para contestar a natureza criminosa e punvel de seus atos. A melhor maneira de gerar essas condies  reavivar peridica 
ou continuamente a memria do crime e o medo da punio pela adio de novos crimes aos velhos. Como as comunidades explosivas nascem em pares (no haveria o "ns" 
se no fosse por "eles") e como a violncia genocida  um crime a que qualquer dos membros do par recorre com facilidade quando se sente mais forte, no faltam oportunidades 
para encontrar um pretexto adequado a uma nova "limpeza tnica" ou atentado genocida. A violncia que acompanha a sociabilidade explosiva e  o modo de vida das 
comunidades que sedimenta, portanto, se autopropaga, autoperpetua e autorefora. Ela gera o que Gregory Bateson chamou de "cadeias es- 
1 
226 
Modernidade Lquida 
Comunidade 
227 
quizogenticas' que resistem bravamente a serem interrompidas, que dir revertidas. 
Uma caracterstica que torna as comunidades do tipo analisado por Girard e Vetiesen particularmente ferozes, violentas e sangrentas, dotando-as de considervel potencial 
genocida,  sua "conexo territorial" Esse potencial tem origem em outro paradoxo da era da modernidade lquida. A territorialidade est intimamente ligada s obsesses 
espaciais da modernidade slida; alimenta- se delas e contribui, por sua vez, para sua preservao. As comunidades explosivas, ao contrrio, esto em casa na era 
da moderriidade liquefeita. A mescla de sociabilidade explosiva com aspiraes territoriais est fadada, portanto, a resultar em mutaes monstruosas. A alternncia 
de estratgias "fgicas" e "micas" na conquista e defesa do espao (que em geral era a principal questo nos conflitos da modernidade slida) aparece inteiramente 
fora de lugar (e o que  ainda mais importante, "fora do tempo") num mundo dominado pela variedade leve/fluida/de software da modernidade; nesse mundo, ela quebra 
a norma em vez de segui-la. 
As populaes sedentrias sitiadas se recusam a aceitar as regras e riscos do novo jogo de poder "nmade", atitude que a nova elite global nmade acha extremamente 
dificil (bem como repulsiva e indesejvel) de entender e no pode perceber seno como um sinal de retardamento e atraso. Quando se trata de confrontos, e particularmente 
confrontos militares, as elites nmades do moderno mundo lquido percebem a estratgia territorialmente orientada das populaes sedentrias como "brbara" por comparao 
 sua prpria estratgia militar "civilizada" Agora  a elite nmade que d o tom e dita os critrios pelos quais as obsesses territoriais so classificadas e julgadas. 
A mesa foi virada - e a velha e testada arma da "cronopoltica", outrora utilizada pelas triunfantes populaes sedentrias para expulsar os nmades para a pr-histria 
brbara e selvagem,  agora utilizada pelas vitoriosas elites nmades em sua luta com o que restou da soberania territorial e contra aqueles que ainda se dedicam 
 sua defesa. 
Em sua reprovao das prticas territoriais, as elites nmades podem contar com o apoio popular. O ultraje experimentado  vista das massivas expulses chamadas 
de "limpeza tnica" ganha 
vigor adicional pelo fato de que elas parecem estranhamente uma verso ampliada das tendncias manifestadas diariamente, ainda que em menor escala, perto de casa 
- em todos os espaos urbanos das terras que fazem a cruzada civilizadora. Lutando contra os "faxineiros tnicos' exorcizamos nossos "demnios' que nos estimulam 
a pr em guetos os indesejveis "estrangeiros' a aplaudir o estreitamento do direito de asilo, a demandar a remoo dos constrangedores estrangeiros das ruas da 
cidade e a pagar qualquer preo pelos abrigos cercados de cmeras de vigilncia e guardas armados. Na guerra iugoslava o que estava em jogo para os dois lados era 
notavelmente semelhante, embora o que era o objetivo declarado de um dos lados fosse um segredo ansiosamente guardado pelo outro. Os srvios queriam expulsar de 
seu territrio uma minoria albanesa recalcitrante e embaraosa, enquanto os pases da OTAN, por assim dizer. "respondiam  altura": sua campanha militar foi deslanchada 
pelo desejo dos outros europeus de manterem os albaneses na Srvia, matando assim no ninho a ameaa de sua reencarnao como migrantes constrangedores e indesejados. 
Cloakroom communities 
A ligao entre a comunidade explosiva em sua encarnao moderna especificamente lquida e a territorialidade no  porm necessria, nem, certamente, universal. 
A maioria das comunidades explosivas contemporneas so feitas sob medida para os tempos lquidos modernos mesmo que sua disseminao possa ser projetada territorialmente; 
elas so extraterritoriais (e tendem a obter sucesso mais espetacular quanto mais livres forem das limitaes territoriais) - precisamente como as identidades que 
invocam e mantm precariamente vivas no breve intervalo entre a 
Literalmente, "comunidades de guarda-casacos em aluso aos locais onde, em museus e teatros. deixam-se capas e casacos, que so retirados  sada. (N.T) 
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Modernidade Lquida 
Comunidade 
229 
1 
exploso e a extino. Sua natureza "explosiva" combina bem com as identidades da era moderna lquida: de modo semelhante a tais identidades, as comunidades em questo 
tendem a ser volteis, transitrias e voltadas ao "aspecto nico" ou "propsito nico': 
Sua durao  curta, embora cheia de som e fria. Extraern poder no de sua possvel durao mas, paradoxalmente, de sua precariedade e de seu futuro incerto, da 
vigilncia e investimento emocional que sua frgil existncia demanda a gritos. 
O termo "cloa/room cornrnunity" capta bem alguns de seus traos caractersticos. Os freqentadores de um espetculo se vestem para a ocasido, obedecendo a um cdigo 
distinto do que seguem diariamente - o ato que simultanearnente separa a visita como uma "ocasio especial" e faz com que os freqentadores paream, enquanto durar 
o evento, mais uniformes do que na vida fora do teatro. E a apresentao noturna que leva todos ao lugar - por diferentes que sejam seus mteresses e passatempos 
durante o dia. Antes de entrar no auditrio, deixam os sobretudos ou capas que vestiram nas ruas no cloakroorn da casa de espetculos (contando o nmero de cabides 
usados pode-se julgar quo cheia est a casa e quo garantido est o futuro imediato da produo). Durante a apresentao, todos os olhos esto no palco; e tambm 
a ateno de todos. Alegria e tristeza. risos e silncios, ondas de aplauso, gritos de aprovao e exclamaes de surpresa so sincronizados 
- corno se cuidadosamente planejados e dirigidos. Depois que as cortinas se fecham, porm, os espectadores recolhem seus pertences do cloakrooni e, ao vestirem suas 
roupas de rua outra vez, retornam a seus papis mundanos, ordinrios e diferentes, dissolvendo-se poucos momentos depois na variada multido que enche as ruas da 
cidade e da qual haviam emergido algumas horas antes. 
Cloakroom communhties precisam de um espetculo que apele a Interesses semelhantes em indivduos diferentes e que os rena durante um certo tempo em que outros interesses 
- que os separam em vez de uni-los - so temporariamente postos de lado, deixados em fogo brando ou inteiramente silenciados. Os espetculos enquanto ocasies para 
a breve existncia de cioakroom communities no fundem e misturam cuidados individuais em "interesses de grupo"; adicionadas, as preocupaes em questo no 
adquirem uma nova qualidade, e a iluso de compartilhar que o espetculo pode gerar no dura muito mais que a excitao da performance. 
Os espetculos passaram a substituir a "causa comum" da era da modernidade slida, do hardware - o que faz diferena para a natureza das identidades ao novo estilo 
e leva a dar sentido s tenses emocionais e traumas geradores de agressividade que de tempos em tempos as acompanham. 
"Comunidades de carnaval" parece ser outro nome adequado para as comunidades em discusso. Tais comunidades, afinal, do um alvio temporrio s agonias de solitrias 
lutas cotidianas,  cansativa condio de indivduos de jure persuadidos ou forados a puxar a si mesmos pelos prprios cabelos. Comunidades explosivas so eventos 
que quebram a monotonia da solido cotidiana, e como todos os eventos de carnaval liberam a presso e permitem que os folies suportem melhor a rotina a que devem 
retornar no momento em que a brincadeira terminar. E, como a filosofia, nas melanclicas meditaes de Wittgenstein, "deixam tudo como estava" (sem contar os feridos 
e as cicatrizes morais dos que escaparam ao destino de "baixas marginais"). 
"Cloakroonz" ou "de carnaval' as comunidades explosivas so uma caracterstica to indispensvel da paisagem da modernidade lquida quanto o pleito essencialmente 
solitrio dos indivduos de jure em seus ardentes (embora vos) esforos de elevar-se a indivduos de facto. Os espetculos e cabides no cloakroom e as folias carnavalescas 
que atraem multides so muitos e variados, para todos os tipos de gostos. O admirvel mundo novo de Huxley tomou emprestado ao 1984 de Orwell o estratagema dos 
"cinco minutos de dio (coletivizado)" complementando-o esperta e engenhosamente com o expediente dos "cinco minutos de adorao (coletivizada)': A cada dia, as 
manchetes de primeira pgina da imprensa e dos cinco primeiros minutos da TV acenam com novas bandeiras sob as quais reunir-se e marchar ombro (virtual) a ombro 
(virtual). Oferecem um "objetivo comum" (virtual) em torno do qual comunidades virtuais podem se entrelaar, alternadamente atradas e repelidas pelas sensaes 
sincronizadas de pnico (s vezes moral, mas geralmente imoral ou amoral) e xtase. 
230 Modernidade Lquida 
Um efeito das cloakroorn communities/ comunidades de carnaval  que elas eficazmente impedem a condensao de comunidades "genunas" (isto , compreensivas e duradouras), 
que imitam e prometem replicar ou fazer surgir do nada. Espalham em vez de condensar a energia dos impulsos de sociabilidade, e assim contribuem para a perpetuao 
da solido que busca desesperadamente redeno nas raras e intermitentes realizaes coletivas orquestradas e harmoniosas. 
Longe de ser uma cura para o sofrimento nascido do abismo no-transposto e aparentemente intransponvel entre o destino do indivduo de jure e o do indivduo de 
facto, so os sintomas e s vezes fatores causais da desordem social especfica da condio de modernidade lquida. 

POSFCIO 
ESCREVER; ESCREVER SOCIOLOGIA1 
A necessidade de pensar  o que nos faz pensar. 
Tizeodor WAdorno 
Citando a opinio do poeta tcheco Jan Skcel sobre a condio do poeta (que, nas palavras de Skcel, apenas descobre os versos que "estiveram sempre, profundamente, 
14"), Milan Kundera comenta (em L4rt dii roman, 1986): "Escrever significa para o poeta romper a muralha atrs da qual se esconde alguma coisa que 'sempre esteve 
I" Sob esse aspecto, a tarefa do poeta no  diferente da obra da histria, que tambm descobre, e no iiwenta: a histria, como os poetas, descobre, em sempre 
novas situaes, possibilidades humanas antes ocultas. 
O que a histria faz corriqueiramente  um desafio, uma tarefa e urna misso para o poeta. Para elevar-se a essa misso, o poeta deve recusar servir verdades conhecidas 
de antemo e bem usadas, verdades j "bvias" porque trazidas  superficie e a deixadas a f'utuar. No importa que essas verdades "supostas de antemo" sejam classificadas 
como revolucionrias ou dissidentes, crists ou atias - ou quo corretas e apropriadas, nobres e justas sejam ou tenham sido proclamadas. Qualquer que seja sua 
denominao, essas "verdades" no so as "coisas ocultas" que o poeta  chamado a desvelar; so antes partes da muralha que  misso do poeta destruir. Os porta-vozes 
do bvio, do auto-evidente e "daquilo em que todos acreditamos" so falsos poetas, diz Kundera. 
Mas o que tem que ver a vocao do poeta com a do socilogo? Ns socilogos raramente escrevemos poemas. (Alguns de ns 
que o fazemos tomamos uma licena, para a atividade de escrever, 
231 
232 Modernidade Lquida 
Posfcio 233 
de nossos afazeres profissionais.) E no entanto, se no quisermos partilhar do destino dos "falsos poetas" e no quisermos ser "falsos socilogos' devemos nos aproximar 
tanto quanto os verdadeiros poetas das possibilidades humanas ainda ocultas; e por essa razo devemos perfurar as muralhas do bvio e do evidente, da moda ideolgica 
do dia cuja trivialidade  tomada como prova de seu sentido. Demolir tais muralhas  vocao tanto do socilogo quanto do poeta, e pela mesma razo: o emparedamento 
das possibilidades desvirtua o potencial humano ao mesmo tempo em que obstrui a revelao de seu blefe. 
Talvez o verso que o poeta procura tenha Estado "sempre l" No se pode estar to certo, porm, sobre o potencial humano descoberto pela histria. Ser que os humanos 
- os que fazem e os que foram feitos, os heris e as vtimas da histria - sempre carregaro consigo o mesmo volume de possibilidades  espera do momento certo para 
serem reveladas? Ou a oposio entre descoberta e criao  nula e vazia e no faz sentido? Como a histria  o processo infindvel da criao humana, no seria 
ela pela mesma razo o processo infindvel do autodescobrimento humano? A propenso para revelar/criar sempre novas possibilidades, para expandir o inventrio das 
possibilidades j descobertas e tornadas reais, no  o nico potencial humano que sempre "esteve l' e sempre estar? Saber se a nova possibilidade foi criada ou 
"meramente" revelada pela histria  sem dvida um estmulo bem-vindo para mentes escolsticas; quanto  prpria histria, ela no espera pela resposta e pode seguir 
sem ela. 
O legado mais precioso de Niklas Luhmann a seus colegas socilogos  a noo de autopoiesis - autocriao (do grego totr fazer, criar, dar forma, o oposto de ctEu1, 
sofrer, ser um objeto e no a fonte do ato) -, que pretende captar e encapsular a essncia da condio humana. A escolha do termo foi em si mesma uma criao ou 
descoberta da ligao (parentesco herdado mais que afinidade escolhida) entre a histria e a poesia. A poesia e a histria so duas correntes paralelas ("paralelas" 
no sentido do universo no-euclidiano regulado pela geometria de Bolyai e Lobachevski) dessa autopoiesis das potencialidades humanas, em que a cria- 
o  a nica forma que pode tomar a descoberta e a autodescoberta  o principal ato de criao. 
A sociologia, sou tentado a dizer,  uma terceira corrente, paralela a essas duas. Ou pelo menos isso  o que ela deveria ser para ficar dentro dessa condio humana 
que tenta entender e tornar inteligvel; e  o que ela vem tentando ser desde o incio, embora tenha sido repetidas vezes desviada por ter tomado equivocadamente 
as aparentemente impenetrveis e ainda no decompostas muralhas como os limites ltimos do potencial humano, e por ter se apressado a garantir aos cmandantes e s 
tropas sob seu comando que as linhas que traaram para marcar os limites jamais seriam ultrapassadas. 
Alfred de Musset sugeriu h quase dois sculos que os "grandes artistas no tm ptria' H dois sculos essas palavras eram militantes, uma espcie de grito de guerra. 
Foram escritas em meio s ensurdecedoras fanfarras do patriotismo juvenil e crdulo, e por isso mesmo belicoso e arrogante. Muitos polticos estavam descobrindo 
sua vocao para a construo de Estados-nao com urna s lei, urna s lngua, uma s viso de mundo, uma s histria e um s futuro. Muitos poetas e pintores estavam 
descobrindo sua misso de nutrir os tenros brotos do esprito nacional, ressuscitando tradies nacionais h muito tidas como mortas ou concebendo outras novas e 
oferecendo  nao as histrias, canes, semelhanas e nomes de ancestrais hericos - algo a compartilhar, amar e guardar em comum, e assim elevar o mero viver 
juntos ao nvel do pertencer  mesma coisa, abrindo os olhos dos vivos para a beleza e doura do pertencimento ao lev-los a lembrar e venerar seus mortos e a alegrar-se 
por cultivar seu legado. Contra esse clima, o rude veredicto de Musset tinha todas as marcas de urna rebelio e um chamado s armas: concitava seus colegas escritores 
a recusar cooperao ao empreendimento dos polticos, profetas e pregadores das fronteiras vigiadas e das trincheiras armadas. No sei se de Musset intuiu a capacidade 
fratricida dos tipos de fraternidades que os polticos nacionalistas e idelogos laureados estavam determinados a erguer, ou se suas palavras no passavam de 
1 
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Posfcio 
235 
expresses de seu desagrado intelectual com os estreitos horizontes e com a mentalidade paroquial. Qualquer que fosse o caso ento, quando lidas agora, com a vantagem 
do tempo, pela lente de aumento manchada com as marcas escuras das limpezas tnicas, genocdios e tmulos coletivos, as palavras de Musset parecem no ter perdido 
nada de sua urgncia e desafio, e tampouco de sua capacidade de gerar controvrsia. Agora como ento, elas miram o corao da misso do escritor e desafiam sua conscincia 
com a questo decisiva para a raison d'tre de qualquer escritor. 
Um sculo e meio depois, Juan Goytisolo, provavelmente o maior entre os escritores espanhis vivos, assume uma vez mais a questo. Em entrevista recente ("Les batailles 
de Juan Goytisolo' no Monde, de 12.2.1999) ele diz que quando a Espanha aceitou, em nome da piedade catlica e sob influncia da Inquisio, uma noo altamente 
restritiva da identidade nacional, o pas se tornou, por volta do final do sculo XVII, um "deserto cultural' Note- se que Coytisolo escreve em espanhol, mas viveu 
muitos anos em Paris e nos EUA, antes de fixar-se finalmente no Marrocos. E note- se tambm que nenhum outro escritor espanhol tem tantas obras traduzidas para o 
rabe. Por qu? Coytisolo no duvida da razo. E explica: "A intimidade e a distncia criam uma situao privilegiada. Ambas so necessrias' Ainda que por razes 
diferentes, ambas essas qualidades se fazem presentes nas relaes de Goytisolo com seu espanhol nativo e com o rabe, o francs e o ingls adquiridos - as lnguas 
dos pases que sucessivamente se tornaram suas ptrias substitutas escolhidas. 
Como Goytisolo passou grande parte de sua vida longe da Espanha, a lngua espanhola deixou de ser para ele a ferramenta familiar da comunicao diria, mundana e 
ordinria, sempre  mo e dispensando a reflexo. Sua intimidade com a lngua da infncia no foi - nem poderia ter sido - afetada, mas agora est complementada 
pela distncia. A lngua espanhola se tornou o "lar autntico em seu exlio' um territrio conhecido e sentido e vivido de dentro e no entanto - como tambm se tornou 
remoto - cheio de surpresas e descobertas. Esse territrio ntimo/distante se presta ao escrutnio tranqilo e distante sine ira etstudio, pondo a nu as armadilhas 
e as possibilidades no-testadas, invisveis no 
uso vernacular, mostrando uma plasticidade insuspeitada, admitindo e convidando  interveno criativa. Foi a combinao de intimidade e distncia que permitiu a 
Goytisolo perceber que a imerso no-refletida na lngua - exatamente a espcie de imerso que o exlio torna quase impossvel -  cheia de perigos: "Se vivemos 
apenas no presente, amscamo-nos a desaparecer juntamente com o presente' Foi o olhar "de fora" e distante de sua lngua nativa que permitiu a Goytisolo dar um passo 
alm do presente que constantemente se esvai e enriquecer seu espanhol de um modo de outra maneira improvvel, talvez de todo inconcebvel. Trouxe de volta  sua 
prosa e poesia termos antigos, h muito cados em desuso, e ao faz-lo soprou a poeira que os cobria, limpou a ptina do tempo e ofereceu s palavras uma vitalidade 
nova e insuspeitada (ou h muito esquecida). 
Em Contre-alle livro recentemente publicado em colaborao com Catherine Malabou, Jacques Derrida convida seus leitores a pensar em viagem- ou, mais precisamente, 
a "pensar viajar" O que quer dizer pensar a atividade nica de partir, ir embora de cliez so ir para longe, para o desconhecido, arriscando todos os riscos, prazeres 
e perigos que o "desconhecido" oculta (at mesmo o risco de no voltar). 
"Estar longe"  uma obsesso de Derrida. H alguma razo para supor que a ela nasceu quando, em 1942, aos 12 anos, Jacques foi expulso da escola, que recebera do 
governo de Vichy a ordem de purificar-se dos alunos judeus. Assim comeou o "exlio perptuo" de Derrida. Desde ento, ele divide sua vida entre a Frana e os EUA. 
Nos EUA, era um francs; na Frana, por mais que tentasse, vez por outra o sotaque argelino de sua infncia irrompia atravs de sua refinada paro/e francesa, traindo 
o pied noir escondido sob a fina pele do professor da Sorbonne. (Alguns pensam que foi por isso que Derrida passou a exaltar a superioridade da escrita e comps 
o mito etiolgico da prioridade para sustentar a afirmao axiolgica.) Culturalmente, Derrida continuaria "sem Estado' isso no significava no ter uma terra natal 
cultural. Ao contrrio: ser "culturalmente sem Estado" significava ter mais de uma terra natal, construir um lar prprio na encruzilhada das cul 
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turas. Derrida se tornou e permaneceu um mtque, um hbrido cultural. Seu "lar na encruzilhada" foi feito da lngua. 
Construir um lar na encruzilhada cultural foi a melhor das oportunidades para submeter a lngua a provas com que ela poucas vezes se depara, para ver suas qualidades 
no-percebidas, descobrir do que ela  capaz e quais as promessas que no pode realizar. Desse lar na encruzilhada, para abrir-nos os olhos, veio a notcia da inerente 
pluralidade e da indecidibilidade do sentido em L'Ecriture et la d/frence), da impureza das origens (em De la grammatologie) e da perptua no-realizao da comunicao 
(em La Carte posta/e) - como notou Christian Delacampagne no Monde de 12 de maro de 1999. 
As mensagens de Goytisolo e de Derrida so diferentes da de Musset: no  verdade, sugerem o romancista e o filsofo em unssono, que a grande arte no tem ptria 
- ao contrrio, a arte e os artistas podem ter muitas ptrias, e a maioria deles certamente tem mais de uma. Em vez de ser sem ptria, o segredo  estar  vontade 
em muitas ptrias, mas estar em cada uma ao mesmo tempo dentro e fora, combinar a intimidade com a viso crtica de um estranho, envolvimento com distanciamento 
- o que as pessoas sedentrias dificilmente aprendem. Pegar o jeito  a oportunidade do exlio: tecnicamente um exlio - que  no lugar, mas no do lugar. A liberdade 
que resulta dessa condio (que e'essa condio) revela que as verdades caseiras so feitas e desfeitas pelo homem e que a lngua materna  um fluxo infindvel de 
comunicao entre as geraes e um tesouro de mensagens sempre mais ricas que quaisquer de suas leituras e sempre  espera de serem novamente reveladas. 
George Steiner considerava Samuel Beckett, Jorge Luis Borges e Vladimir Nabokov os maiores escritores contemporneos. O que os une, disse, e o que os fez grandes, 
 que os trs se moviam com a mesma facilidade - estavam igualmente " vontade" - em vrios universos lingsticos, e no em apenas um. (Cabe um lembrete: "universo 
lingstico"  um pleonasmo: o universo em que cada um de ns vive  lingstico, e no pode ser seno lingstico 
-  feito de palavras. As palavras iluminam as ilhas das formas visveis no oceano escuro do invisvel e marcam os dispersos pon to 
de relevncia na massa informe da insignificncia. So as palavras que dividem o mundo em classes de objetos nomeveis e fazem surgir seu parentesco ou oposio, 
proximidade ou distncia, afinidade ou estranhamento - e enquanto estiverem sozinhas no campo elevam todos esses artefatos ao nvel da realidade, a nica realidade 
que existe.) E preciso viver, visitar, conhecer intimamente mais de um desses universos para descobrir a inveno humana por trs da estrutura impositiva e aparentemente 
irredutvel de qualquer desses universos, e para descobrir quanto esforo cultural humano  necessrio para adivinhar a idia da natureza com suas leis e necessidades; 
tudo isso  preciso para se reunir, ao final, a audcia e a determinao para juntar-se, con.scientemente, a esse esforo cultural, ciente de seus riscos e armadilhas, 
mas tambm do ilimitado de seus horizontes. 
Criar (e tambm descobrir) significa sempre quebrar uma regra; seguir a regra  mera rotina, mais do mesmo - no um ato de criao. Para o exilado, romper regras 
no  uma questo de livre escolha, mas uma eventualidade que no pode ser evitada. Os exilados no sabem o bastante sobre as regras que reinam em seu pas de chegada, 
nem as tratam com suficiente fervor para que seus esforos para observ-las e conformar-se a elas sejam percebidos como srios e aprovados. Em relao a seu pas 
de origem, a partida para o exlio foi l registrada como o pecado original dos exilados,  luz do qual tudo o que eles venham a fazer mais tarde poder ser usado 
contra eles como evidncia de sua quebra das regras. Por ao ou omisso, quebrar as regras se torna a marca registrada dos exilados. Dificilmente isso os far queridos 
pelos nativos dos pases pelos quais fazem seus itinerrios. Mas, paradoxalmente, tambm lhes permite trazer para todos os pases envolvidos dons de que eles muito 
precisam e que no poderiam receber de outras fontes. 
Esclareo. O "exlio" em discusso no  necessariamente um caso de mobilidade fisica, corporal. Pode envolver trocar um pas por outro, mas no obrigatoriamente. 
Como disse Christine BrookeRose (em seu ensaio "Exsul"), a marca distintiva de todo exlio, e particularmente do exlio do escritor (isto , o exlio articulado 
em palavras e assim transformado em uma experincia comunicvel)  
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a recusa a ser integrado - a determinao de situar-se fora do espao, de construir um lugar prprio, diferente do lugar em que os outros  volta se inserem, um 
lugar diferente dos lugares abandonados e diferente do lugar em que se est. O exlio  definido no em relao a qualquer espao fisico particular ou s oposies 
entre vrios espaos fisicos, mas por uma posio autnoma assumida em relao ao espao como tal. "Em ltima anlise" pergunta Brooke-Rose, 
cada poeta ou romancista "potico" (explorador, rigoroso) no  uma espcie de exilado, que olha de fora para dentro, com os olhos da mente, urna imagem brilhante 
e desejvel do pequeno mundo criado, para o espao do esforo de escreer e do espao mais curto do ler? Esse tipo de escrita, muitas vezes contra editor e pblico, 
 a ltima arte criativa solitria, no-socializada. 
A resoluta determinao de permanecer "no-socializado"; o consentimento a integrar-se apenas sob a condio de no-integrao; a resistncia - muitas vezes penosa 
e agoniante, mas em ltima anlise vitoriosa -  grande presso do lugar, tanto o antigo quanto o novo; a spera defesa do direito de julgar e de escolher; a adeso 
 ambivalncia ou a invocao dela - essas so, podemos dizer, as caractersticas constitutivas do "exilado' Todas elas - note-se - referem-se a atitudes e estratgias 
de vida,  mobilidade espiritual mais que  fisica. 
Michel Maffesoli (em Dii nomadisme: 1/agabondages initiatiques, 1997) escreve sobre o mundo que todos habitamos nos dias de hoje como um "territrio flutuante" em 
que "indivduos frgeis" encontram uma "realidade porosa' A esse territrio s se adaptam coisas ou pessoas fluidas, ambguas, num estado de permanente transformar-se, 
num estado constante de autotransgresso. O "enraizamento' se existir, s pode ser dinmico: ele deve ser reafirmado e reconstitudo diariamente - precisamente pelo 
ato repetido de "autodistanciamento' esse ato fundador, inicitico, de "estar de viagem' na estrada. Depois de comparar a todos ns - os habitantes do mundo de hoje 
- aos nmades, Jacques Attali (em Chemins de sagesse, 1996) sugere que, alm de viajar leves e ser 
gentis, amigveis e hospitaleiros em relao aos estranhos que encontram em seu caminho, os nmades devem estar constantemente alertas, lembrando que seus acampamentos 
so vulnerveis e no tm muros ou fossos que impeam a entrada de intrusos. Acima de tudo, lutando para sobreviver no mundo dos nmades, precisam acostumar-se ao 
estado de desorientao perptua, a viajar por estradas de rumo e tamanho desconhecidos, raramente olhando alm da prxima curva ou cruzamento; eles precisam concentrar 
toda sua ateno no pequeno trecho de estrada que tm que vencer antes do escurecer. 
"Indivduos frgeis' destinados a conduzir suas vidas numa "realidade porosa': sentem-se como que patinando sobre gelo fino; e "ao patinar sobre gelo fino': observou 
Ralph Waldo Emerson em seu ensaio "Frudence' "nossa segurana est em nossa velocidade" Indivduos, frgeis ou no, precisam de segurana, anseiam por segurana, 
buscam a segurana e assim tentam, ao mximo, fazer o que fazem com a mxima velocidade. Estando entre corredores rpidos, diminuir a velocidade significa ser deixado 
para trs; ao patinar em gelo fino, diminuir a velocidade tambm significa a ameaa real de afogar-se. Portanto, a velocidade sobe para o topo da lista dos valores 
de sobrevivncia. 
A velocidade, no entanto, no  propcia ao pensamento, pelo menos ao pensamento de longo prazo. O pensamento demanda pausa e descanso, "tomar seu tempo': recapitular 
os passos j dados, examinar de perto o ponto alcanado e a sabedoria (ou imprudncia, se for o caso) de o ter alcanado. Pensar tira nossa mente da tarefa em curso, 
que requer sempre a corrida e a manuteno da velocidade. E na falta do pensamento, o patinar sobre o gelo fino que  uma fatalidade para todos os indivduos frgeis 
na realidade porosa pode ser equivocadamente tomado como seu destino. 
Tomar a fatalidade por destino, como insistia Max Scheler em sua Ordo arnoris,  um erro grave: "O destino do homem no  uma fatalidade ... A suposio de que fatalidade 
e destino so a mesma coisa merece ser chamada de fatalismo' O fatalismo  um erro do juzo, pois de fato a fatalidade "tem uma origem natural e basica 
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mente compreensvel" Alm disso, embora no seja uma questo de livre escolha, e particularmente de livre escolha individual, a fatalidade "tem origem na vida de 
um homem ou de um povo' Para ver tudo isso, para notar a diferena e a distncia entre fatalidade e destino, e escapar  armadilha do fatalismo, so necessrios 
recursos dificeis de obter quando se patina sobre gelo fino: 
tempo para pensar, e distanciamento para uma viso de conjunto. "A imagem de nosso destino" adverte Scheler, "s nos abandona quando lhe damos as costas' Mas o fatalismo 
 uma atitude que se auto-referenda: faz com que o "voltar as costas' essa conditio sine qua non do pensamento, parea intil e indigno de ser tentado. 
Tomar distncia, tomar tempo - a fim de separar destino e fatalidade, de emancipar o destino da fatalidade, de torn-lo livre para confrontar a fatalidade e desafi-la: 
essa  a vocao da sociologia. E  o que os socilogos podem fazer caso se esforcem consciente, deliberada e honestamente para refundir a vocao a que atendem 
- sua fatalidade - em seu destino. 
"A sociologia  a resposta. Mas qual era a pergunta?' diz e pergunta Ulrich Beck em Politik in der Risi/ogesellsc/zaft. Algumas pginas antes, Beck parecera articular 
a pergunta que procura: a possibilidade de uma democracia que v alm da "especialistocracia' uma espcie de democracia que "comea onde se abre o debate e a formao 
de decises sobre se queremos uma vida nas condies que nos so apresentadas ...' 
Essa possibilidade  marcada por um ponto de interrogao no porque algum deliberada e maldosamente tenha fechado a porta do debate e proibido a tomada de decises 
bem embasada; a liberdade de falar e reunir-se para discutir questes de interesse comum jamais foi to completa e incondicional como agora. A questo  que  preciso 
mais que a simples liberdade formal de falar e aprovar decises para comear seriamente o tipo de democracia que na opinio de Beck  nosso imperativo. Tambm precisamos 
saber sobre o que devemos falar e do que devem se ocupar as decises que devemos tomar. E isso precisa ser feito na sociedade em que vivemos, onde a autoridade de 
falar e decidir  
reservada aos especialistas que detm o direito exclusivo de definir a diferena entre realidade e fantasia e de separar o possvel do impossvel. (Especialistas, 
podemos dizer, so quase por definio pessoas que "sabem das coisas': que as tomam como so e pensam sobre a maneira menos arriscada de viver com elas.) 
Por que isso no  fcil e provavelmente no vai ficar mais fcil a menos que se faa alguma coisa  o que Beck explica em seu Risikogesellschaft: aufdem Weg in 
eine andere Moderne. Escreve: "O que o alimento  para a fome, a eliminao dos riscos, ou a interpretao que os exclui,  para a conscincia do risco' Numa sociedade 
pressionada principalmente pela necessidade material no havia opo entre "eliminar" a misria e "interpret-la como inexistente': Em nossa sociedade, mais assombrada 
pelo risco que pela necessidade material, a opo existe - e  feita diariamente. A fome no pode ser aliviada pela negao; na fome, o sofrimento subjetivo e suas 
causas objetivas esto indissoluvelmente ligados, e a ligao  evidente e no pode ser desmentida. Mas os riscos, ao contrrio da necessidade material, no so 
experimentados subjetivamente; pelo menos no so "vividos" diretamente a no ser que sejam mediados pelo conhecimento. Podem nunca chegar ao domnio da experincia 
subjetiva - podem ser trivializados ou expressamente negados antes de chegar l, e a possibilidade de que sejam impedidos de chegar cresce junto com a extenso dos 
riscos. 
Segue-se que a sociologia ' mais necess'ria que nunca. O trabalho em que os socilogos so especialistas, o trabalho de trazer novamente  vista o elo perdido 
entre a aflio objetiva e a experincia subjetiva, se tornou mais vital e indispensvel que nunca; e isso precisar da ajuda profissional dos socilogos, porque 
 cada vez menos provvel que possa ser feito pelos praticantes de outros campos de especializao. Todos os especialistas lidam com problemas prticos e todo conhecimento 
especializado se dedica  sua soluo, e a sociologia  um ramo do conhecimento especializado cujo problema prtico a resolver  o esclarecimento que tem por objetiuo 
a compreenso humana. A sociologia  talvez o nico campo de especializao em que (como observou Pierre Bourdieu 
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em La misre du monde) a famosa distino de Dilthey entre explicao e compreenso foi superada e cancelada. 
Compreender aquilo a que estamos fadados significa estarmos conscientes de que isso  diferente de nosso destino. E compreender aquilo a que estamos fadados  conhecer 
a rede complexa de causas que provocaram essa fatalidade e sua diferena daquele destino. Para operar no mundo (por contraste a ser "operado" por ele)  preciso 
entender como o mundo opera. 
O tipo de esclarecimento que a sociologia  capaz de dar se enderea a indivduos que escolhem livremente e tm por objetivo aperfeioar e reforar sua liberdade 
de escolha. Seu objetivo imediato  reabrir o caso supostamente fechado da explicao e promover a compreenso. A autoformao e a auto-afirmao dos homens e mulheres 
individuais, condio preliminar de sua capacidade de decidir se querem o tipo de vida que lhes foi apresentada como uma fatalidade,  que pode ganhar em vigor, 
eficcia e racionalidade como resultado do esclarecimento sociolgico. A causa da sociedade autnoma pode ganhar junto com a causa do indivduo autnomo; elas s 
podem vencer ou perder juntas. 
Citando de Le diabrement de l'Occident, de Cornelius Castoria dis, 
uma sociedade autnoma, uma sociedade verdadeiramente democrtica,  uma sociedade que questiona tudo o que  pr-determinado e assim libera a criao de novos sign/icados. 
Em tal sociedade, todos os indivduos so livres para escolher criar para suas vidas os significados que quiserem (e puderem). 
A sociedade  verdadeiramente autnoma quando "sabe, tem que saber, que no h significados 'assegurados que vive na superfcie do caos, que ela prpria  um caos 
em busca de forma, mas urna forma que nunca  fixada de urna vez por todas": A falta de significados garantidos - de verdades absolutas, de normas de conduta pr-ordenadas, 
de fronteiras pr-traadas entre o certo e o errado, de regras de ao garantidas -  a conditio sine qua non 
de, ao mesmo tempo, urna sociedade verdadeiramente autnoma e indivduos verdadeiramente livres; a sociedade autnoma e a liberdade de seus membros se condicionam 
mutuamente. A segurana que a democracia e a individualidade podem alcanar depende no de lutar contra a contingncia e a incerteza da condio humana, mas de reconhecer 
e encarar de frente suas conseqncias. 
Se a sociologia ortodoxa, nascida e desenvolvida sob a gide da modernidade slida, se preocupava com as condies da obedincia e conformidade humanas, a primeira 
ocupao da sociologia feita sob medida para a modernidade lquida deve ser a promoo da autonomia e da liberdade; tal sociologia deve enfocar a autoconscincia, 
a compreenso e a responsabilidade individuais. Para os habitantes da sociedade moderna em sua fase slida e administrada, a oposio principal se dava entre conformidade 
e desvio; a oposio principal da sociedade moderna em sua fase liquefeita e descentrada, a oposio que precisa ser enfrentada para pavimentar o caminho para uma 
sociedade verdadeiramente autnoma, se d entre assumir a responsabilidade e buscar um abrigo onde a responsabilidade pelas prprias aes no precisa ser assumida 
pelos atores. 
Este outro lado da oposio, buscar abrigo,  uma opo sedutora e urna perspectiva realista. Alexis de Tocqueville (no segundo volume de sua De la dmocratie en 
Ame'rique) observou que se o egosmo, fantasma que atormentou a espcie humana em todos os perodos de sua histria, "seca as sementes de todas as virtudes' o individualismo, 
aflio nova e tipicamente moderna, seca apenas "a fonte das virtudes pblicas"; os indivduos afetados esto ocupados "criando pequenos grupos para seu prprio 
desfrute" e deixando a "sociedade maior" de lado. Essa tentao cresceu consideravelmente desde que Tocqueville fez sua observao. 
Viver entre uma multido de valores, normas e estilos de vida em competio, sem uma garantia firme e confivel de estarmos certos,  perigoso e cobra um alto preo 
psicolgico. No surpreende que a atrao da segunda resposta, de fugir da escolha responsvel, ganhe fora. Como diz Julia Kristeva (em Naes sem nacionalismo), 
" rara a pessoa que no invoca uma proteo pri 
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mal para compensar a desordem pessoal" E todos ns, em medida maior ou menor, s vezes mais e s vezes menos, nos encontramos em Estado de "desordem pessoal' Vez 
por outra, sonhamos com uma "grande simplificao"; sem aviso, nos envolvemos em fantasias regressivas cuja principal inspirao so o tero materno e o lar protegido 
por muros. A busca de um abrigo primal  o "outro" da responsabilidade, exatamente como o desvio e a rebelio eram o "outro" da conformidade. O anseio por um abrigo 
primal veio hoje a substituir a rebelio, que deixou de ser uma opo razovel; como diz Pierre Rosanvalion (em novo prefcio a seu clssico Le capitalisme utopique), 
no h mais "uma autoridade no poder para depor e substituir. Parece no haver mais espao para a revolta, como atesta o fatalismo diante do fenmeno do desemprego' 
Sinais da doena so abundantes e visveis, mas, como repetida- mente observa Pierre Bourdieu, procuram em vo uma expresso legtima no inundo da poltica. Sem 
expresso articulada, precisam ser udos, obliquamente, nas exploses da fria xenfoba e racista 
- manifestaes mais comuns da nostalgia do abrigo primal. A alternativa disponvel e no menos popular da busca de bodes-expiatrios e da intolerncia militante 
neotribais - a retirada da arena poltica e a fuga para trs dos muros fortificados do privado 
- no  mais a estratgia dominante e, acima de tudo, no  mais uma resposta adequada  fonte verdadeira da aflio. E  neste ponto que a sociologia, com seu potencial 
de explicao que promove a compreenso, atinge seu lugar mais que em qualquer outro momento em sua histria. 
Segundo a antiga e ainda vlida tradio hipocrtica, como Pierre Bourdieu lembra aos leitores de La misre clii monde, a verdadeira medicina comea com o reconhecimento 
da doena invisvel - "fatos de que o doente no fala ou esquece de relatar" O que  preciso no caso da sociologia  a "revelao das causas estruturais que os sinais 
e falas aparentes s evidenciam por distoro [ne dvoilent qu 'en les rol/antI ' E preciso enxergar - explicar e compreender - os sofrimentos caractersticos de 
uma ordem social que "sem dvida fez recuar a grande misria (ainda que 
talvez menos do que se diz freqentemente), ao mesmo tempo em que multiplicava os espaos sociais ... que ofereciam condies favorveis para o crescimento sem precedentes 
de todos os tipos de pequenas misrias' 
Diagnosticar uma doena no  o mesmo que cur-la - essa regra geral vale tanto para os diagnsticos sociolgicos como para os mdicos. Mas note-se que a doena 
da sociedade difere das doenas do corpo num aspecto tremendamente importante: no caso de uma ordem social doente, a falta de um diagnstico adequado (silenciado 
pela tendncia de "interpretar como inexistentes" os riscos observada por Ulrich Beck)  parte crucial e talvez decisiva da doena. Como bem disse Cornelius Castoriadis, 
est doente a sociedade que deixa de se questionar; e nem poderia ser diferente, considerando que - quer o saiba ou no - a sociedade  autnoma (suas instituies 
so feitas por humanos e, portanto, podem ser desfeitas por humanos), e que a suspenso do autoquestionamento impede a conscincia da autonomia ao mesmo tempo em 
que promove a iluso de heteronomia com suas conseqncias fatalistas inevitveis. Recomear o questionamento significa dar um grande passo para a cura. Do mesmo 
modo como na histria da condio humana a descoberta equivale  criao e no pensamento sobre a condio humana explicao e compreenso so uma s coisa, assim 
tambm, nos esforos de melhorar a condio humana, diagnstico e terapia se misturam. 
Pierre Bourdieu expressou isso perfeitamente na concluso a La misre du monde "Tornar-se consciente dos mecanismos que fazem a vida penosa, mesmo impossvel de 
ser vivida, no significa neutraliz-los; trazer  luz as contradies no significa resolvlas:" E, no entanto, por mais cticos que possamos ser quanto  eficcia 
social da mensagem sociolgica, no podemos negar os efeitos de permitir que aqueles que sofrem descubram a possibilidade de relacionar seus sofrimentos a causas 
sociais; nem podemos descartar os efeitos de tornarem-se conscientes da origem social da infelicidade "em todas as suas formas, inclusive as mais ntimas e secretas' 
Nada  menos inocente, lembra Bourdieu, que o laissez-faire. Observar a misria humana com equanimidade, aplacando a dor 
Modernidade Lquido 
da conscincia com o encantamento ritual do credo "no h alternativa' , implica cumplicidade. Quem quer que, por ao ou omisso, participe do acobertamento ou, 
pior ainda, da negao da natureza altervel e contingente, humana e no-inevitvel da ordem social, notadamente do tipo de ordem responsvel pela infelicidade, 
 culpado de imoralidade - de recusar ajuda a uma pessoa em perigo. 
Fazer sociologia e escrever sociologia tm por objetivo revelar a possibilidade de viver em conjunto de modo diferente, com menos misria ou sem misria: essa possibilidade 
diariamente subtraida, subestimada ou no-percebida. No enxergar, no procurar e assim suprimir essa possibilidade  parte da misria humana e fator importante 
em sua perpetuao. Sua revelao no predetermina sua utilizao; quando conhecidas, as possibilidades tambm podem no ser submctidas ao teste da realidade, porque 
talvez no confiemos nelas o bastante. A revelao  o comeo e no o fim da guerra contra a misria humana. Mas essa guerra no pode ser empreendida seriamente, 
e menos ainda com uma possibilidade pelo menos parcial de sucesso, a menos que a escala da liberdade humana seja revelada e reconhecida, de tal modo que a liberdade 
possa ser plenamente utilizada na luta contra as fontes sociais de toda infelicidade, inclusive a mais individual e privada. 
No h escolha entre maneiras "engajadas" e "neutras" de fazer sociologia, lima sociologia descomprometida  uma impossibilidade. Buscar uma posio moralmente neutra 
entre as muitas marcas de sociologia hoje praticadas, marcas que vo da declaradamente libertria  francamente comunitria,  um esforo vo. Os socilogos s podem 
negar ou esquecer os efeitos de seu trabalho sobre a "viso de mundo' e o impacto dessa viso sobre as aes humanas singulares ou em conjunto, ao custo de fugir 
 responsabilidade de escolha que todo ser humano enfrenta diariamente. A tarefa da sociologia  assegurar que essas escolhas sejam verdadeiramente livres e que 
assim continuem, cada vez mais, enquanto durar a humanidade. 
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